30.5.07

FÉRIAS GRANDES - CURTIR

Domingo nunca se vai à praia. Não é fino para quem está de férias grandes.
Fico sozinho em casa, abandonado ao vento quente da serra que rodopia nas alfarrobeiras, enquanto cigarras gritam de calor, hipnotizando os restos da minha vontade.
Aproveito para escrever ao som de Chet Baker, entremeando com banhos de piscina.
Entre dois mergulhos tenho uma iluminação que me salva as férias. Afinal o que me agrada nesta casa é não fazer nada. Não ter a mínima responsabilidade. Só prazer!
Não seria assim se a casa fosse minha: caiar todos os anos; duas telhas partidas para substituir; infiltrações na sala; a cisterna outra vez rachada; ratos no forro; a piscina para tratar... Safa!
Assim, é só curtir. Os proprietários que fiquem com a chatice. Uma casa de férias nunca deve ser nossa. Só assim estamos totalmente descontraídos. Se houver problemas não temos de resolver... Só refilar!
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29.5.07

FÉRIAS GRANDES - CALDEIRÃO

Sem pré-aviso o vento mudou e o Caldeirão virou forno. Apeteceu-me desesperadamente a Sibéria. As férias são uma constante contradição. Se está vento, é porque está vento... Se está humidade, é porque está humidade... Se está calor, é porque está calor. Tudo isto sempre cheio de melgas, moscas e imensas cigarras zunindo o dia inteiro... Uma estucha!
O Paulo tenta ingloriamente meter o barco na água. As baterias recusam-se a arrancar. Os mecânicos estão permanentemente a almoçar. As marés, sempre a mudar... Sinistro!
À noite é obrigatório, pelo menos uma vez, passar pela "Casa das Artes", ali em Tavira, na margem esquerda do Gilão. Bebe-se um copo suado enquanto se admira um quadro em alemão à beira do carcínoma. No largo do jardim há uma feira do livro onde a malta insiste em comprar coisas que não precisa para nada, mas sempre é pretexto para vestir uma T-Shirt lavada e mostrar o bronzeado intelectual de esquerda.
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28.5.07

ENCONTROS MAPA

MAPA é uma Associação Cultural sem fins lucrativos aqui de Oeiras e de que eu faço parte. Na próxima 6ªFeira, 1 de Junho, às 21,30h, vai realizar um convívio no bar "Os Raposos". Morada: Av. Salvador Allende, 85 C, Paço D' Arcos (é a estrada por cima da linha do comboio, entre Caxias e Paço D'Arcos, ao pé da Quinta da Terrugem). Vista deslumbrante para o Tejo!
Programa
- Mostra de obras de Emanuel V. Afonso e de Tiago Serpa
- Trio Margens: viola, vibrafone e contrabaixo
- Música à la carte: escolha uma música do repertório disponível no local e cante com acompanhamento ao vivo
- Sorteio de uma peça da autoria de Emanuel V. Afonso entre os números das senhas de entrada.
Entradas
Sócios - 3 euros
Não Sócios - 5 euros

27.5.07

FÉRIAS GRANDES - CABANAS DE TAVIRA

Onde está o mar? Dantes Cabanas era uma pacata aldeia de pescadores. Havia um único restaurante, o "Zé Afonso", povoado por "hippies" que aqui chegavam fugindo ao bulício turístico de Albufeira e Portimão e comprava-se peixe no velho armazém do "primo" Vivaldo. Trinta anos depois, fiquei esmagado com a construção construída e a construir. Isto em plena Ria Formosa?! E a galinha sultana, símbolo do parque natural, já lhe perguntaram o que pensa disto? Que será feito de todos esses ecologistas que há bem pouco tempo lambiam cinzeiros?

De facto não há como os portugueses para vender terrenos. No Algarve vendem-se os "restos de Portugal"... E já há poucos "restos", muito poucos. Vai-se avançando na serra acima. Por todo o lado alemães, suecos... ingleses. Sobra, ainda, um pouco no meio do "deserto algarvio" entre Cachopo e Martim Longo, mas será por muito pouco tempo.
De repente lembrei-me dos Cónios. Os Cónios, descendentes dos Lígures, eram rapaziada simpática que, desde 1000 a.C., ocupavam a região entre o "ingum Cyneticum" (Cabo de S. Vicente) e o Anas (Guadiana) e já então tinham imenso jeito para imobiliário. Com tantas invasões foram o povo que menos se mexeu em toda a península. Quase não sairam dali. Com uma breve excursão às margens do Tejo, onde levaram na corneta dos intratáveis Lusitanos, podemos considerar os Cónios verdadeiros imóveis.
Quando era caso disso, vendiam as terras e ficavam de jardineiro ou tratadores de piscina. Na invasão seguinte compravam ao desbarato, para revender na próxima, com mais valias. Quando os invasores vinham menos abonados faziam parcerias ou arrendavam. Finalmente inventaram o "time-sharing", dada a profusão de bárbaros que queriam invadir estes areais permitindo, assim, uma desejável rotação.
Só assim se explica que resistissem a tírios, fenícios, cartagineses, celtas, romanos, vândalos, alanos e godos, entre outos turistas acidentais. Só fraquejaram um pouco com os berberes... Mas também se percebe: quatro mulheres para cada homem!
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24.5.07

FÉRIAS GRANDES - MIÚDAS

Passar férias com um bando de teen-agers feminino é para mim coisa estranha, habituado aos meus filhos machos, ausentes por compromissos musicais.
Elas ouvem canções extraordinárias, tipo "chuva de estrelas". Vestem-se e revestem-se, nem que seja só para ir ao supermercado sempre com grande preocupação com a dimensão dos rabos. Observam indumentárias alheias com grande sentido crítico e adoram ir a Espanha comprar gomas e caramelos pelo simples prazer de ir ao estrangeiro. A utilização do telemóvel é constante, lançando "toques" misteriosos para o espaço sideral. Nos intervalos afagam-nos com carinhos de "Tamagoshi".
À tarde, na praia, têm conversas sussurradas, deitadas de costas na areia sensual, conversas que se adivinham sobre namorados ausentes. Amadurecem ao Sol. A pele dia a dia mais morena. Textura de pêssego... É por elas que, há uns anos, nos apaixonaríamos inapelavelmente. Hoje somos vagamente tios a quem é concedido o direito de pagar almoços e emprestar o telemóvel para conversas mais prolongadas.
Estes dias de convívio feminino são a minha oportunidade anual de ver o outro lado do mundo, esse mundo misterioso das juvenis fêmeas.
Em breve voltarei para os meus rapazes, mais sóbrios e intelectuais... Mais artísticos e sombrios.
São as duas faces da mesma moeda. O yin e o yang universais. Depressa dominarão o mundo, principalmente elas... Só espero que me paguem a reforma!
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FÉRIAS GRANDES - 1º DIA

O primeiro dia de férias é sempre o pior. Fico na reciclagem da paranóia, a esmoer o stress do ano e a pensar no que vou fazer de todos aqueles imensos quinze dias.
Na verdade o meu objectivo é fazer ponta de um corno. Normalmente consigo, graças a um grande treino desenvolvido ao longo de anos e à conjugação de três princípios fundamentais:
- ir sempre para o mesmo sítio e o sítio estar sempre no mesmo lugar;
- fazer exactamente a mesma coisa todos os dias e às mesmas horas;
- conseguir convencer os que me acompanham que estou à beira de esgotamento profissional.
Nada disto é fácil. E, com o passar dos anos, vira missão quase impossível!
Os "bifes" vão-nos gamando o património e o sítio cada vez muda mais de lugar. As horas já não são o que eram e passam rápidas nos fusos da globalização. E desde que rapei o cabelo e comecei a aparecer na praia com "Lacoste" esburacada, a malta já não acredita no meu excesso de trabalho...
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23.5.07

FÉRIAS GRANDES - MEMÓRIAS DE TAVIRA

Entre a Fuzeta e Cacela a vida corre ao sabor da maré. A amêijoa é cultivada por diligentes pastores do sapal em talhões demarcados. A conquilha, devastada por amadores que se afadigam em moer a areia molhada, enquanto elas recorrem ao nanismo. A ostra é ceifada para dentro de camiões frigorificos, na rota fatal para Lisboa. O búzio, violentado na sua casca que julgara impenetrável. O lingueirão, enganado com pitadas de sal que o fazem sair do refúgio borbulhante. O choco, traiçoeiramente armadilhado para dentro de gaiolas em funil. O polvo encontra protecção sombria dentro de alcatruzes de barro aleivosamente lançados por homens da faina... Todos enganados. Vítimas do turismo. Animais da "125"!
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21.5.07

FÉRIAS GRANDES - MEMÓRIAS DE BRAGANÇA

Cento e oitenta e cinco moscas... todas apanhadas à mão. Record absoluto!
Três da tarde. Quarenta graus à sombra. Fechado na frescura do feldespato. Cheiro ácido a porco vindo lá dos"fundos". As primas já cá deviam estar para brincar aos médicos entre presuntos na obscuridade ominosa da cave brigantina.
Na casa ao lado, o meu tio Abílio mantinha uma mercearia com loja para estacionamento de burros em trânsito com pessoal de Gimonde, Carrazeda e Sacóias. Belo negócio... Para mim, apenas mais moscas!
Logo à frente o quartel dos bombeiros. A sirene não parava de apitar. Fogos devastavam as serras e Montesinho, Bornes e Nogueira... Para mim, apenas barulheira.
Ás 17h tinha lição de acordeão nas freirinhas. O método era 1-2-3-4-5-6-7. Cada número sua nota. Não cheguei a perceber quem era mi... muito menos onde era lá.
A rua era a "De Trás" por contraposição à rua "Direita", exercício regional de duvidosa democraticidade. Ambas bifurcadas na Praça da Sé, em direcção à tutelar torre de menagem.
Casa de três pisos e loja, paredes meias com a Câmara Municipal, a escassos cem metros do Museu Abade Baçal. Gravada no granito frontespício, a data abissal de 1783.
O meu avô Domingos, cidadão honorário de Zamora, vinha da raia com brilhosinho nos olhos sempre pontualmente às sete para jantar. A minha avó Olinda disfarçava e o pessoal tentava não ter conversas polémicas, engolindo rapidamente a sopa de feijão verde e a alheira com grelo cozido... Política nunca!
Depois do jantar a rua estalava de calor acumulado. Caminhada esforçada até ao "Café Leão", ali a 300 metros. Saturação de tabaco. Bicas suadas. Conversas encaloradas. "Que grande que ele está"... "Cada vez mais igual ao pai"... "Então sempre queres ser médico quando fores grande?". Grande já eu era. Tinha 12 anos! E, francamente, não tinha a mínima vontade de ser qualquer coisa. Queria era sair dali rapidamente. E as primas nunca mais vinham. Porra!
A bisavó Marta, com lúcidos 99 anos, vestia-se a preceito enfrentando o preto e branco da televisão Grunding com sorriso de cerimónia. Respondia à locutora de serviço, na certeza de que estava dentro da caixa iónica e que falava directa e exclusivamente para ela, alheia a qualquer tentativa de explicar o conceito de teledifusão.
As moscas atacavam manhã cedinho, na manivela escorregadia da bomba do poço situado no fundo do quintal. Cento e cinquenta pesasdas voltas enchendo a cuba de granito para a rega da tarde, aumentando exponencialmente os enchumaços ósseos dos meus ombros magritos.
Depois vinha a apanha dos figos de capa-rota em escadas gigantes de ferrugem, fugindo a abelhas gulosas e vespas assassinas. Trabalho escravo supervisionado pelo avô puxando o ancinho entre alfaces francesas e morangos serôdios.
Às onze estava pronto para o primeiro folar do dia, guloso do presunto e das pernas de frango. Sentado na sanita de emergência na varanda em sobrado com janela panorâmica para o quintal via lá em baixo gatos malhados tentando passar despercebidos na penumbra da couve galega fugindo aos chumbos incertos da "Diana 23".
O almoço aproximava-se rapidamente sob a forma de uma nojenta canja de perdiz carregada de miúdos, seguida de rojões com batata entalada. Para rematar, o habitual queijo com marmelada. Em dias especiais havia pisperno, com nabo e casula. Sobremesa, o fumegante chouriço de mel com amendoas, com apetitoso aspecto a cocó fresco e sabor a goiabada de porco.
Agosto... Todos os anos era raptado em plenas férias grandes. 3450 curvas. Entalado no moderno Simca "Aronde", entre cestas de reforço gastronómico para o caminho e a omnipresente governanta Alice. Pernoita obrigatória no "Grande Hotel do Luso". O indispensável bacalhau em Torre de Moncorvo, para evitar o derradeiro vómito... Bragança à vista. Nove meses de inverno, três de inferno. Para mim era sempre inferno!
Agosto... Que estava eu a fazer naquela pasmaceira? Subtraído à moderna Nova Oeiras... precocemente retirado às namoradinhas de praia... distante da Marginal... violado a meio das férias grandes... contrariado no mais profundo do meu ser?!
Quarenta Agostos passaram. Muitas mais moscas morreram. Familiares também. Já não há casa de granito. As primas já não querem brincar aos médicos. O "Café Leão" é agência bancária. As curvas de Foz Côa esqueceram-se da vertigem nos acidentes do IP4. O castelo ergue-se agora entre desvairada especulação imobiliária. Os bombeiros continuam a apitar. As serras continuam a arder... Eu sobrevivo noutra qualquer pasmaceira entre o "grande salpicão" e a "chouriça fatal" esperando a hora do "divino folar" que, num Agosto qualquer, hei-de inevitavelmente saborear!
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20.5.07

LANÇAMENTO II

Muita gente...
O "Trio Margens"...
Boa leitura e boas viagens.

19.5.07

LANÇAMENTO I

Detesto viajar!
Check-in... Check-out. Malas com rodinhas à beira da catástrofe. Aviões com maralha a preço de saldo. Apalpado, revistado, humilhado. Hotéis em obras permanentes. Horários de grupo. Evacuações à pressa. Peregrinações intermináveis. Cultura de pacote.
Para quem vive em Oeiras, no extremo ocidental do velho coninente, tudo é periférico. Somos centro de nada, fronteira de coisa nenhuma... Uma maçada!
Para quê sair do sofá. Largar a comodidade exótica do Canal Odisseia... O realismo do National Geographic... O regresso ao passado do Canal História?
Detesto viajar!
E, no entanto, viajo. Empurrado por amigos que não suportam ver-me parado. Uns chatos que mais parecem inimigos, no afã do meu desassossego.
É a eles que dedico estas crónicas de um turista ocidental!
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17.5.07

TURISTA OCIDENTAL

Editado pela Junta de Freguesia de Oeiras e S. Julião da Barra, vai ser lançado no Sábado, dia 19 de Maio, pelas 17h, no Lagar de Azeite (perto do Palácio do Marquês e da Câmara Municipal), o meu livro "Turista Ocidental-Crónicas de Viagens".
O prefácio é de José Jorge Letria; as fotografias da capa de Roberto Barbosa e o design de Mafalda Diniz.
São oito crónicas sobre viagens na Península Ibérica em que a história se mistura com uma visão por vezes cáustica da mundo e por onde passam episódios da História da Península, os Templários, o "Quinto Império", os Lusitanos, a evolução do Islão e a seita dos "Assassinos".
A edição é gratuita. Quem quiser aparecer está convidado.

CONVENTO DE CRISTO

Finamente chegamos ao Capítulo, The Famous Window, com vem anunciado em todos os guias turísticos. O ex-libris de Tomar.
A janela é uma verdadeira mixórdia . O decorador estava à rasca com a encomenda do rei e decidiu baralhar a simbologia o mais que pode, de forma a Sua Majestade ficar de boca aberta e pagar a pronto.
A Jarreteira entrou pelo Tosão de Ouro, entre alcachofras e algas envoltas numa amálgama de raízes de sobreiro, enquanto o vórtice da rosácea chupava cães, gatos, reis, anjos e ratos, levando atrás o mundo inteiro e o "quinto império" também". Tudo isto suportado pelo Zé Povinho que, lá em baixo, vai pagando os impostos, enquanto o Montichora (esse mítico animal indiano que, aliás, dá um excelente ensopado), solta as cordas que nos hão-da amarrar para sempre a Ocidente.
Excerto da crónica "Graalice", integrado no livro "Turista Ocidental", a editar a 19 de Maio.

16.5.07

LISBOA

Em tempos remotos, depois do Grande Dilúvio que encheu o mar e destruíu a civilização atlante, o neto de Noé, Túbal, aportou a Setúbal, tendo-se tornado no mais poderoso rei da Península Ibérica. Com ele veio também o seu sobrinho, Elysa, que terá fundado Lisboa e dado o nome aos celestiais Campos Elíseos.
Passaram milénios e o Tejo sempre foi cobiçado. Os fenícios chamaram-lhe Allis Ubbo (enseada amena). Os romanos, Felicitas Julia. Não havia muralhas.
Os mouros gostaram tanto disto que por cá se instalaram em 714, dando-lhe o nome de Ashbouna, e até fizeram castelo. Os vestígios estão na "Cerca Moura". Quinze mil habitantes em quinze hectares, distribuídos pelas actuais freguesias de S. Tiago, S. Cristovão e parte da Madalena.
Só em 1256, D. Afonso III fez de Lisboa capital do reino e D. Fernando vê-se forçado a construir a "Cerca Fernandina", face ao perigo castelhano. Abrangia então 105 hectares.
Hoje a "Grande Lisboa" tem quase dois milhões de habitantes. A "nova cerca" teria de passar por Sintra, Cascais, Loures, Amadora, Oeiras, Chelas, Sacavém, Almada, Seixal e outros arrabaldes indescritíveis.
Excerto da crónica "Lisboa a Sintra-Uma Perspectiva Saloia", integrado no livro "Turista Ocidental", a editar a 19 de Maio.

14.5.07

BORBA

A expedição começou numa fugaz passagem por Borba, "vila engarrafada". Por lá passam milhares de hectolitros de vinho vindos de Espanha, Itália ou mesmo França e que, de imediato, ficam apátridas para, no momento seguinte, ganharem a nacionalidade lusa.
É ali que se dá um dos maiores milagres comunitários: qualquer vinho que venha cá parar, venha donde vier, sendo aqui engarrafado, enrolhado e rotulado, fica logo contaminado e passa a "made in Portugal". Não é o milagre da transubstanciação, mas é, sem dúvida, da rotulação.
Excerto da crónica "Fuga para o Alentejo", integrado em "Turista Ocidental", a editar a 19/5.

COMPOSTELA III


Decidimos ir a Compostela por terra e não pelos salvíficos Caminhos de Compostela até porque, como disse Buda, "Não podes seguir o caminho antes de te teres tornado no próprio caminho". Como esse não era manifestamente o caso, fomos pelas óptimas auto-estradas galegas.

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Excerto da crónica "Compostela" que integra o livro "Turista Ocidental"

11.5.07

COMPOSTELA II

Havia Jerusalém e Roma. Depois inventaram Lurdes. A Península Ibérica mantinha-se fora do "turismo religioso".
O "turismo religioso" era já uma actividade muito lucrativa desde o distante ano de 326, data em que Helena, mãe do imperador Constantino, se dirigiu a Jerusalém e descobriu o Santo Sepulcro. Na ocasião a "imperatriz" descobriu também a Verdadeira Cruz, iniciando a "caça à relíquia", passatempo que se viria a revelar um sucesso, de tal forma que no sèc. XVI, segundo Erasmo, seria possível construir um navio mercante com os fagmentos da Cruz!
Santiago de Compostela, 700 anos mais tarde, viria a ser um êxito. Um verdadeiro "case study" de marketing turístico que lhe garantiu a primazia religiosa na Península durante mais de nove séculos. Portugal só no séc. XX se lembrou de Fátima, mais uma vez revelando enorme falta de visão e de ambição.
Parece que há seis rotas principais para Santiago, mas o verdadeiro "Caminho" nasce à porta de cada um de nós. Os homens continuam a partir em busca da "cidade ideal". Partem por desespero, por amor, por aventura... Partem procurando um recomeço, uma renovação.
É bom existirem lugares de peregrinação. Mesmo que não se encontre Deus, pode ser que nos encontremos a nós, o que, provavelmente, é a mesma coisa!
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Excerto da crónica "Compostela" que integra o livro "Turista Ocidental", a ser lançado a 19 de Maio no Lagar de Azeite, em Oeiras.

10.5.07

COMPOSTELA I

Paragem obrigatória em Baiona onde os "primos" do Porto" têm estacionado o iate na respectiva marina.
Para mim as marinas são lugares alienígenas. Um amontoado de cascos, cabos e mastros que custam um dinheirão só para atracar. Passadeiras flutuantes, próprias para estimular o vómito. Bandeirinhas de significado hermético. Sinais cabalísticos. Linguagem exotérica.
Também não percebo como se pode gostar de barcos. Espaço confinado; cabeçadas permanentes; dormidas acanhadas; defecações deficientes; banhos racionados; motor sempre desafinado; porcas para apertar; velas para içar; madeiras para envernizar... qualquer coisa sempre para arranjar. Um barco é um "bricolage" permanente!
O tamanho é em pés. A velocidade em nós. Bombordo é esquerda. Estibordo direita. Navega-se à bolina cerrada ou folgada, a todo o pano das andainas. Há alhetas, traquetes, retrancas e caranguejas. Então e o pau da bujarona? Pessoalmente, prefiro a verga grande ou, no limite, a verga de joanete.
As cordas dos barcos, a que os "marítimos" chamam pomposamente cabos, não se deixam amarrar de qualquer forma. Ele há o nó de cábula; o nó coberto; a emenda da cotovia; o lais de guia pelo seio; a volta do fiel; o nó azelha, etc, etc.
Enfim, um pesadelo! Suspeito que se alguém disser "enfia-me a verga grande na retranca, antes que o pau da bujarona se me espete no traquete", ninguèm vai perceber nada e ainda acaba pendurado no cesto da gávea com uma emenda de cotovia a aconchegar-lhe o pescoço.
Mas, não há dúvida que os barcos dão grandes dias de felicidade: o dia em que se compra e o dia em que se vende!
(jp)
Excerto da crónica "Compostela", integrada no livro "Turista Ocidental", a editar no dia 19 de Maio, no Lagar de Azeite , em Oeiras.

7.5.07

VIAGENS NA TERRA DO OI

Você chega em Salvador da Bahia e percebe logo que foi enganado.
Primeiro eles não falam português. Experimente uma frase banal: "Desculpe, sabe-me dizer onde posso tomar uma chávena de chá?" Resposta: "Oi?".
Mas a mentira continua. Você chama um táxi e pede para ir ao Largo José de Alencar. O motorista com trinta anos de experiência não sabe onde fica e vai lhe dizer:"Oi?". Aliás, ninguém sabe e, no entanto, é o largo mais conhecido da cidade, o famoso Pelourinho!
Pior, você chega no Pelourinho e ele não está lá!!! Ninguém tinha dito p'ra você, né?
Ali onde ainda hoje ecoam os gritos dilacerados dos escravos torturados. Ali onde o basalto negro reflecte o sangue vertido na ponta da chibata colonial. Ali onde, agora, moças elegantes tropeçam nos saltos altos que resvalam no empedrado traiçoeiro. Ali onde ressoam batatuques e atabaques para turista curtir o forró da caipirinha... ali não existe agora nada!
O Pelourinho foi derrubado na voragem do movimento abolicionista. Ficamos sem saber de que tipo seria. Em bola? Em pinha? Em gaiola extravagante?
Mas o embuste continua...
Vá descontraidamente ao Shopping da Barra na esperança de comprar sandálias nº37 para sobrinhas e enteadas que vêm no Brasil o "paraíso do bikini".
Duas horas depois e 27 "ois" mais tarde, você percebe, finalmente, que 37 na Europa corresponde a 35 no Brasil e consegue, enfim, fazer negócio para grande alívio da vendedora que, para além de ter de arrumar 50 caixas de sapatos, ainda hoje se interroga de que país sul americano nós seríamos.
Regresse ao hotel carregado de sacos, suando os 34 graus e 90% de humidade. O táxi não tem ar condicionado. Você quer pagar. O motorista diz: "Meia seis". Agora é a sua vez: "Oi?".
Mentiram p'ra você quando disseram que o único problema era a segurança. Isto aqui não é fácil!
Por exemplo, sabem como se chamam os habitantes de Salvador? Todos pensam num gentílico normal: salvadorenhos ou salvadorenses... Até podiam ser salvadores. Sei lá! Mas não. São soteropolitanos!!!
Isto não é, decididamente, nada fácil!
(jp)
Excerto de "Viagens na Terra do Oi", em preparação.

1.5.07

DILEMA

No princípio era o verbo. Até aí tudo bem... só abstracções. Pior é que os substantivos andavam loucos por entrar na farra. Com tanto desejo de protagonismo, os adjectivos já só queriam um predicado ou mesmo uma simples preposição.
Deus entrou em impasse: "Vou criar primeiro personalidades ou qualidades? Se crio sujeitos vão dizer que ando à caça de votos. Se vou para as qualidades não tenho sujeitos a votar. Que fazer?"
(jp)