31.10.07

ESTORIL II

Em 1915 fundou-se a "Sociedade Estoril" com o objectivo de construir o novo Estoril, com arruamentos, hotéis e parques.
Desde o séc. XVI que as águas do Estoril tinham fama de águas santas para doenças de pele. Havia três fontes: Poça, Estoril e Santo António do Estoril. D. José I fez uso dessas águas, tendo habitado durante um Verão o Palácio de Pombal, em Oeiras, donde saía todos os dias, de carruagem, a enfiar-se nas tinas rudimentares da fonte de Santo António do Estoril.
Em 1880 José Viana, proprietário das fontes do Estoril e de Santo António, restaurou e modernizou os arcaicos balneários. Em 1892 atingiu o extraordinário número de 30 quartos.
Foi no balneário de José Viana que se fizeram, após 1915, as luxuosas termas do Estoril, junto ao Parque, com portal de arcadas de colunas, hoje o pórtico do Estoril.
No último quartel do séc. XIX o sítio do Estoril era ainda um pequeno lugarejo à beira da estrada de Cascais. Havia praticamente só 0 Convento de Santo António e a quinta de José Viana, com os seus balneários e um grupo e casas de aluguer, conhecido como "o pátio do Viana"; dois fortes já transformados em casas de habitação; a praia do Tamariz, então chamada "do Juncal" e pinhais a perder de vista.
As obras da "Sociedade Estoril" arrasaram "o pátio Viana". Desses tempos, resta o edifício onde está instalada a Pastelaria Garrett...
Texto baseado no livro "Memórias da Linha de Cascais", de Branca de Gonta Colaço e Maria Archer.

PEDRAS - CASA DO MÊS






25.10.07

SEMPRE NA LINHA



Uns dias de ausência obrigam-me a interromper os posts. É rápido. Vou a Pedras D'el Rey fechar a praia e já venho...

ESTORIL I

A "Costa de Santo António do Estoril",
como era conhecida no princípio do séc. XX, ia da praia da Poça a Cascais. O Estoril não existia. Não tinha veraneantes, nem turistas.
Havia nesse ermo umas águas santas que curavam doenças de pele e um convento franciscano dedicado a Santo António, datado de 1527. Ainda hoje lá está a igreja.
A terra era estéril. Só o pinhal crescia. Ia da Poça ao Cabo Raso.
Confinando com o convento, uma única quinta, propriedade de Roque Lopes, mestre das naus da Índia, cuja viúva veio a instituir um morgado. A quinta ocupava toda a baixa do Estoril, onde hoje se situa agora o jardim, o casino e as arcadas.
Os morgadios foram extintos por D. Maria II, na década de 1830. O então morgado, desembargador Monteiro, tratou de vender rapidamente as terras ao deão da Sé de Lisboa, João da Silva Carvalho, o qual as deixou, por testamento, à afilhada, D. Ana da Silva Carvalho, mãe de José Viana que, por sua vez, as vendeu a Fausto Figueiredo e a Augusto Correia de Sousa.
E, assim, começa o moderno Estoril...
jp
Elementos retirados de "Memórias da Linha de Cascais", de Branca de Gonta Colaço e Maria Archer.

NÃO ESQUEÇAM


23.10.07

MASCULINO OU FEMININO?

Mas afinal o "coiso" é masculino ou feminino?
Em inglês ainda há it. Mas em português não. Aliás, muito it, muito it e acaba-se a atracar de popa. De facto, com tanta neutralidade perde-se a noção.
Por cá o género não é pacífico, podendo mesmo comprometer a performance se um homem se põe a pensar nisso: masculino ou feminino?
É que não as estou a ver a dizer:
- "Ai filho, o teu membro está tão macio", ou
- "Que pénis tão agradável, querido", ou ainda
- "O teu pirilau está óptimo, amor".
Estou mais a vê-las pensar:
- "Que bela sarda"
- "Ganda moca"
- "Linda pila"
- "Sempre de verga pronta"
... tudo sempre no feminino!!!
Confuso, socorri-me de filmes pornográficos onde pontifica a frase: "Enfia-mo todo". Mas também dizem: "Enfia-ma toda". A equivocidade mantém-se.
Consultada uma mulher da vida, fiquei na mesma. "Ó filho, por cem euros chamo-lhe o que quiseres". Não investi!
Voltei-me então para o meu querido mestre, o Xeique Nefzaui, relendo avidamente "O Jardim das Delícias". Procurei na sua linguagem metafórica o derradeiro auxílio. Nada! Para o genital feminino o homem não se poupa: "Pata de Gazela"; "Cabeça de Leão"... Para o genital masculino, porém, apenas um inócuo e desconsolado "Membro", repetido vezes sem conta. Desilusão!
Desesperado volto ao princípio: masculino ou feminino? Sou forçado a chegar à conclusão que é indiferente. Desde que se levante e ande... Escolham o que quiserem. Cá por mim vou deixar de me preocupar, senão ainda fico a ver navios (ou será navias?)
jp

21.10.07

UMA NOITE DIFERENTE

Cinco da tarde. Quinta-feira. A carrinha do Luís entra com dificuldade no portão. Marcha-atrás arrojada a roçar as sebes. Cortadores de relva. Enxadas. Ancinhos. Tesouras de poda. Serras mecânicas... Temos de tirar tudo. O Luís tem uma empresa de jardinagem. A carrinha está atafulhada. A primeira dor de costas assalta-me. Os "passarocos" olham com ar extralúcido, na esperança de um passeio. Pelo sim pelo não, são atados com cordas e esticadores, não vá a excitação dar-lhes para voar.
Seis da tarde. Exaustos, chegamos ao bar "Os Raposos". Tirar tudo. Montar a exposição. Paíneis de peso absurdo e dimensões sobrehumanas. Luzes, esticadores, parafusos... "Onde está o escadote". "Passa o alicate". "É preciso varrer a varanda"...
Sexta-feira. O João aparece com a aparelhagem de som. Colunas. Amplificador. Misturadora. Cabos. Suportes. Microfones. Uma bateria completa... Montar tudo no canto. No fim da noite desmonta, para voltar a montar lá no estúdio-garagem. Nova dor aguda nas costas, agora acompanhada por ligeira tensão no ombro esquerdo.
Sete da tarde. Chegam os músicos para o "check sound". Corro para jantar com o Zé Jorge. Toca o telemóvel. O homem anda-me perdido na Lage... Não sabe onde está. Eu também não. Lá o vou guiando pelo telefone. Jantar engolido na voragem do horário.
Dez da noite. Ficámos a saber que o tango "É um mínimo de explicações e um máximo de sensações", como o definiu Maurice Béjart ou "O pensamento triste que se dança", como dizia Henrique Dispolo. Ficámos a saber que o primeiro mito musical do séc. XX, Carlos Gardel, morreu num fatídico acidente de avião em 1935. Percebemos porque o tango é uma paixão.
O jazz impõe-se. Fesco. Leve. A Maria canta. Estimulante. Os "passarocos" continuam extralúcidos. Toda a gente tem pena de não os levar e eles, provavelmente, queriam ir. E eu também bem queria que eles fossem. É que no fim tenho de os trazer outra vez para casa, para junto da restante criação. Só de pensar nisso a 4L começa a gemer-me nas costas.
Cinco da manhã, já não sei de que dia. Tudo arrumado e de novo em casa. Passarocos em repouso. Aparelhagem de volta à garagem. Lá fora as trinta e duas espécies de aves existentes na moderna Nova Oeiras chilrreiam alegremente, com se nada fora... Introduzo finalmente os tampões nos ouvidos e a noite cai surda sobre mim.
Tanto trabalho! Mas valeu a pena. Cento e trinta pessoas preferiram este programa a qualquer outro naquela sexta-feira. Sinto-me sensibilizado... Em Dezembro há mais!
jp

17.10.07

PRÉ - REFORMA

Este blogue tem andado ao desleixo. Mas vejam a minha vida. Ensaios musicais. Acabar os "passarocos" para a exposição de 6ªF. Uma corrida ao IADE para tratar do espólio do Rob. Reuniões com vereadores da Câmara. Organizar um colóquio de arquitectura aqui no bairro modernista de Nova Oeiras. Reuniões da Associação de Moradores. Correr para almoços com ex-colegas de trabalho. Amanhã carregar tudo para o bar "Os Raposos"para na 6ª à noite voltar a trazer de novo...
Para a semana estava a pensar ir a Tavira, a ver se finalmente consigo uma semana de férias. Já está tudo comprometido. A meio da semana, o lançamento de um livro na Biblioteca Nacional. Na 6ª F, Gala da SPA no São Carlos... E foi para isto que me pré-reformei?!
jp

15.10.07

14.10.07

ENCONTROS MAPA 2

Dia 19 de Outubro (6ªF), pelas 21,30h, realizam-se os Encontros MAPA 2, no bar "Os Raposos", na Av Salvador Allende, 85 C, em Paço D'Arcos (na estrada que liga Caxias a Paço D'Arcos por cima da linha do comboio).
PROGRAMA
- "Passarocos e Extralúcidos" - Mostra artística de Jorge Ferreira Pinheiro.
- "Carlos Gardel e o Tango - Música e Mito" - Apresentação de José Jorge Letria.
- Jazz pelo quarteto "Jambazz": Chico Zé (contrabaixo); João Maló (guitarra eléctrica); Franco Chirife (piano) e João Pinheiro (bateria).
- Sorteio de uma peça simbólica de JFP.
ENTRADA
Sócios da MAPA: 3 euros
Não sócios: 5 euros

13.10.07

TEMPLÁRIOS - 700 ANOS

Na madrugada de 13 de Outubro de 1307 milhares de templários, incluindo o Grão-Mestre Jacques de Molay, foram presos por toda a França, por ordem de Filipe IV, o Belo, executada pelo "diligente" Guillaume de Nogaret, chanceler do reino.
Quase não houve resistência. Quinze mil cavaleiros treinados e corajosos... Castelos fortificados... Comendas inteiras... A extinção dos templários permanece um dos maiores segredos dos templários!
Filipe IV agiu por despeito. A Ordem não o tinha aceite como membro honorário e, um ano depois, recusara igualmente o ingresso do seu segundo filho. Agiu também por ganância. Endividado em mais de 500 mil libras junto da Ordem (que na época funcionava como banqueira da cristandade), Filipe não só se libertava da dívida, como confiava apoderar-se do mítico "tesouro templário".
A Ordem ganhara um poder enorme em dois séculos de existência. Era uma espécie de república aristocrática, incómoda para as monarquias, em especial em França, onde estava mais fortemente implantada. O rei pretendia a reforma da Ordem, passando o cargo de Grão-Mestre a ser um título hereditário da sua família. Mais, o rei receava que os templários viessem a construir um império em toda a Europa, substituindo-se ao Império Romano, que continuava (e continua) a ser o paradigma saudoso da "união europeia".
Os templários dependiam directamente do Papa. Mas isso não foi problema. Filipe conseguiu colocar na Santa Sé o ex-arcebispo de Bordéus, Bertrand de Got, que assumiu o nome de Clemente V e se instalou em Avinhão. Ambicioso e fraco, Bertrand aceitara seis cáusulas prévias, impostas por Filipe IV, para ter o seu apoio. A sexta cláusula estava em branco. Viria a ser preenchida depois de eleito Papa... Era a extinção dos templários!
Por bula de 1312 a Ordem foi formalmente extinta. O património passou para os Hospitalários (hoje Ordem de Malta). Foi a pequena vingança de Clemente V. Filipe nunca encontrou o "tesouro templário" e ficou sem o património fundiário. Dois anos depois, o rei morreu de uma misteriosa doença gástrica, Nogaret foi apunhalado e Clemente V morreu de cancro.
Os templários mantiveram-se noutros países, acolhidos por outras ordens ou integrando novas ordens expressamente criadas para os receber, como foi o caso da Ordem de Cristo, em Portugal.
Nota: hoje e amanhã há uma visita guiada ao castelo de Almourol e de Tomar e o lançamento do livro "Codex Templi", da editora Zéfiro. Recomendo a quem tiver interesse por estas coisas http://www.zefiro.pt/
jp

11.10.07

PARA QUÊ RIMAR AMOR E DOR



Fotos de Roberto Barbosa

CASAMENTO

Ela hesitante - "Senhor a ti me entrego. Sem ti não sei viver."
O coro sussurrando - "Papai-vos irmãos, papai-vos."
Ele em pânico - "Eu nunca fui tão sincero... Não sei mais o que fazer."
O coro em crescendo - "Papai-vos irmãos, papai-vos."
Ela conformada - "Sei que não posso ter tudo o que quero ou o que gosto".
O coro peremptório - "Papai-vos irmãos, papai-vos."
jp

10.10.07

ENTRONIZAÇÃO IV - $$$

A expectativa era grande. Pensava encontrar uma organização filantrópica, desinteressada... Afinal são todos iguais. Acaba tudo a$$im!
jp
Nota: estamos com dificuldade em avaliar a "Casa do Mês" em Outubro. Não se inibam...

9.10.07

ENTRONIZAÇÃO III - A TENTA

Lá ao fundo ele olhava-me com ar selvagem de desafio. Fiquei estático. Completamente paralizado. O bicho começou a rodear-me lentamente, cada vez mais perto. Arrastava areia nos seus movimentos compassados. Agitava-se na minha direcção. De repente decidiu investir. Dei-lhe um primeiro capotazo. Remeteu-se a tábuas. Agora era eu que o incitava. O bicho hesita. Ganha coragem. Nova investida, quase envergonhada. Dei-lhe uma chiquelina. Tombou de joelhos. Levanta-se desonrientado e volta às tábuas. Chamei-o com força. Mexi a cabeça. Gritei... Nada. O bicho não se mexia, não investia.
Lá em cima, nas bancadas, a manada assobiava e apupava. Eu nada mais podia fazer. Aquele humano era um manso. O seu destino teria de ser terminado. É para isso que servem as tentas. Para avaliar a bravura dos homens. Nós depois decidimos se vão ou não ser reprodutores. Embora muitos de nós discordem, continuamos a fazer isto para benefício dos humanos, na esperança de evitar a sua extinção e de lhes apurar a raça.
jp

7.10.07

ENTRONIZAÇÃO I - A CERIMÓNIA

Embora extinta em 1912 a Carbonária deixou entre nós marcas indeléveis. Quase 100 anos depois proliferam por esse país fora as Confrarias Gastronómicas de clara influência maçónica e templária. Afirmam-se gastronómicas. Defendem valores culturais da região. Organizam benfeitorias. Promovem o convívio... Mas, para além disso, o que se esconderá por detrás de toda aquela gordura e vinho tinto? Não acreditamos que andem nisto apenas pela demanda do "colestrol perdido". Seguramente haverá outras motivações, porventura secretas. Fomos ver...

A10. Direcção Benavente. Passando o mítico Rio Grande da Pipa, subitamente apodera-se de nós um nevoeiro intenso. Vogamos por entre a campina ominosa que se estende pela fronteira do imaginário. Sem qualquer pré-aviso, o novoeiro dissipa-se com a mesma velocidade com que tinha aparecido. À nossa frente surge uma humilde choça, perdida nas lezírias da Companhia SA.
A reunião do Capítulo é anual. Os confrades e confreiras, quase todos excelentíssimos engenheiros e merítissimos doutores, envergam os trajes sacramentais, ostentando as prebendas do respectivo grau. A cerimónia abre com fanfarra, tocando música siciliana que nos faz recordar os dias tenebrosos da Calábria.
O Grão-Mestre dá as boas vindas às delegações de Espanha e França e, acompanhado pelo amigo Arlindo e o seu acordeão tântrico de provecta idade, não poupa críticas aos comportamentos dos ímpios, apelando a uma cruzada contra a extinção da Comissão Nacional da Gastronomia e prevendo mesmo o pior: a extinção da própria gastronomia ou até o fim da culinária, passando pela obnubilação total do estômago.
A Mestre de Cerimónias agradece ao Engenheiro Gonçalo de Sá Só Si pela cedência do espaço e à Companhia SA pela cedência do tempo. O Engenheiro Sá Só Si agradece à Confraria terem-lhe tirado o espaço e a Companhia SA agradece a todos terem-lhe roubado o tempo. Toda a gente agradece a toda agente que agradece a toda gente por agradecer a toda a gente durante aproximadamente uma hora. Este é o ponto alto da cerimónia: a anulação do ego, a assumpção de um estado de absorção colectiva que acabará por nos levar às portas do Nirvana, ali a cerca de 5km de Santarém. Finalmente o Presidente da Direcção, chamada "Burra de Ferro", a lembrar os bons velhos tempos da Carbonária, agradece ao Engenheiro Gonçalo Refrão a enormidade do infinito na santidade do vinho tinto, dando a palavra ao convidado de honra, Gonçalo Chavão que proferiu, lenta e pausadamente, a oração de sapìência, em tom de mantra repetitivo apelando à meditação profunda e à transcendência do absoluto.
Ficámos a saber que "Os afectos redundantes que emanam do fundo do coração estão enraizados nesta realidade pouco consolidada que aguarda a vitamina na intempérie das gerações vindouras. E em breve as vozes ultramontanas se calarão e a cabeça pujante vencerá o paroquialismo enfezado". Nesta altura o 1º Almotacé começa a levitar, enquanto o 2º Almoxarife ronca profundamente.
São 15 horas. Lá dentro, na cozinha, as perdizes, lebres e coelhos, começam a impacientar-se dentro das panelas, ansiando precipitar-se para os nossos pratos. É preciso contê-las!
A Mestre de Cerimónias toma de novo conta dos acontecimentos, agradecendo aos agradecidos pelos agradecimentos agraciados. Pede-se silêncio. Momento alto. Os nomes dos neofitos são proferidos sempre acompanhados da respectiva cédula de registo profissional. Às 16 horas a entronização passa a eternização e agora são os faisãoes e os pombos bravos que teimam em desabar sobre as travessas. Os noviços, depois de armados "cavaleiros do tacho" pelo toque mágico da colher de pau nos ombros, proferem em coro o juramento sagrado: "wdravonfrdbvxkyradcxjpghbeasfxer" (foi-me proibido revelar esta parte).
A Mestre de Cerimónias declara então aberto o convívio secular, não sem antes agradecer ao já agradecido desejando um muito obrigado, por quem é, se faz favor, no obséquio das graças por poder agradecer a quem tanto lhe agradece.
Às 17h as mesas do almoço são cuidadosa e repetidas vezes checadas e recontadas por diligentes adjuntos do Almoxarife, sujeitos ao controle final do Averiguador-Mor, Presidente do Conselho Fiscal, conhecida por "Mata Bicho", na linguagem pseudo-maçónica.
Ordas de perdizes, lebres, javalis e coelhos abatem-se então sofregamente sobre nós, em grande balbúrdia, num cozido bravio, procurando falar todos ao mesmo tempo e lutando selvaticamente por chegar em primeiro lugar ao nosso palato. As cenouras e nabos chegam com atraso e contra vontade. Só o feijão-artilheiro se comportou com dignidade.
A Mestre de Cerimónias e o acordionista continuavam a agradecer na constância da permanência que, como se sabe, é igual ao quadrado do cateto.
Saimos dali muito agradecidos, a louvar tudo e todos, em especial as perdizes e lebres que fizeram o favor de se estilhaçar para consolo estomacal...
jp

5.10.07

HERÓIS DO MAR

"Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar.
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra o bretões marchar, marchar!"

Este era o refrão da marcha portuguesa criada em 1890, como protesto contra a capitulação política de D. Carlos ao Ultimato Inglês e que foi o detonador de todas as convulsões que culminaram no regicidio. Um canto anti-monárquico com música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes Mendonça.
Quando em 1911 passou a hino nacional, os bretões foram substituídos por canhões. Por Decreto de 1957, foram suprimidas duas estrofes à versão original, passando o hino a ter o formato actual. Bom feriado!
jp

A CARBONÁRIA E O 5 DE OUTUBRO III

Heliodoro Salgado (na foto) teve um papel fundamental na loja "Obreiros do Futuro". Era um heterodoxo, criticando o comportamento dos partidos políticos e aproximando-se dos anarquistas: "Os partidos são, como as religiões, inimigos das novidades. São improgressivos como congregações. Os seus dogmas chamam-se programas. Cada artigo do programa é um artigo de fé. Quem o aceitar é irmão; pode comungar à mesa eucarística dos fiéis. Quem discordar, porém, é riscado, excomungado, expulso". Heliodoro aproximou-se muito dos anarquistas. As suas ideias estiveram na base do "anarquismo reformista", um anarquismo teórico, próximo do republicanismo. Heliodoro morre em 1906. Não chega a ver a República e muito menos a Anarquia!
Tendo como pano de fundo a Revolução Francesa e os ideais republicanos, este foi um dos períodos mais conturbados da história política portuguesa. O Ultimato Inglês de 1890 contra as pretensões portuguesas em África de ligar Angola a Moçambique (Mapa Cor-de-Rosa), potenciou o descontentamento e serviu de pretexto para agregar revolucionários de todo o tipo, desde os idealistas, aos intervencionistas e aos terroristas. A criação de partidos, lojas maçónicas e núcleos carbonários; as frequentes dissenções destes movimentos e uma instabilidade geral que não soube ser controlada por uma monárquia enfraquecida e pouco esclarecida, acabou no trágico episódio do regicídio, levado a cabo por extremistas com ligações à Carbonária e perpetrado por Manuel Buiça e Alfredo Costa, com a colaboração de outros conspiradores, entre eles Aquilino Ribeiro, recentemente transladado para o Panteão Nacional.
Já com o inexperiente D. Manuel II no trono, a situação continuou a degradar-se. A 2 de Outubro de 1910 o golpe final foi planeado por Cândido dos Reis, chefe máximo dos revoltosos, em reunião com os oficiais republicanos, a Alta-Venda Carbonária e o Directório do Partido Republicano Português. A revolta ficou marcada para o dia seguinte.
A acção, porém, não viria a decorrer como planeado. Miguel Bombarda é baleado e morre, o que introduz desânimo nos revoltosos e alguns quartéis não se sublevam, conforme fora previsto, o que obrigou os revoltosos a entrincheirarem-se na Rotunda. Cândido dos Reis, estranhamente, suicida-se, mas a decisão de prosseguir com a revolução é tomada por Machado dos Santos e pela Carbonária. O exército monárquico, comandado por Paiva Couceiro, não conseguiu desalojar aqueles 200 homens, por manifesta incapacidade ou, quiçá, falta de vontade. Depois veio a adesão de dois navios de guerra, o "Adamastor" e o "S. Rafael", controlados por carbonários, que bombardearam o Palácio da Ajuda. O governo rende-se e o rei é exilado.
A 5 de Outubro de 1910, José Relvas, em nome do Directório Republicano, proclama a República na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, local onde hoje discursa o Prof. Cavaco Silva, prevendo-se que apele a medidas contra a corrupção e alerte para a crise dos partidos...
A Carbonária, bem como outras organizações, desempenharam papel fundamental na preparação da revolução, percebendo que essa revolução só poderia ser preparada em segurança através de estruturas secretas que escapassem à devassa policial. A Carbonária ainda teve um papel importante na mobilização contra as incursões monárquicas de 1911 e 1912, extinguindo-se depois. Em boa verdade, o seu objectivo fora alcançado... (Fim)
jp
Nota: Os posts sobre a Carbonária foram suportados pelo livro "A Carbonária em Portugal", de António Ventura, editado por Livros Horizonte.

4.10.07

INSTRUMENTOS




A CARBONÁRIA E O 5 DE OUTUBRO II

O objectivo da Carbonária era a constituição da República, como única forma de garantir o bem estar do povo. Eram fortemente anticlericais e, obviamente, anti-monárquicos.

A partir de 1907 a Carbonária teve uma enorme expansão por todo o país, chegando a ter cerca de 30 000 agremiados. Luz e Almeida, de nome simbólico La Fayette, decidiu então reformular a Organização. Foi convocada uma reunião do Conselho Florestal que aprovou uma nova Constituição. A Venda Jovem Portugal passou a ter poderes reforçados, nomeadamente na componente ritualista, bem como na eleição do Grão-Mestre. Este vê também a sua intervenção acrescida, competindo-lhe a presidência de todas as Vendas Superiores, incluindo a Venda Jovem Portugal, o que nos leva a ponderar se República e Democracia seriam sinónimos para a Carbonária!
É também neste período que são iniciados António Maria da Silva e Machado dos Santos (na foto), personalidades de grande prestígio no campo republicano e que vieram facilitar (em especial o primeiro) a ligação à Maçonaria, que começava a inclinar-se para a via republicana. Também Cândido dos Reis, o da Av. Amirante Reis e topónimo em todas as vilas e lugarejos, ele que era o chefe máximo dos revoltosos que prepararam a Revolução Republicana, também era carbonário.
A Carbonária infiltrou-se em várias estruturas do país, designadamente em lojas maçónicas integradas no Grande Oriente Lusitano Unido. Em 19 de Março de 1910 formou-se a Comissão Maçónica de Resistência, onde se incluíam, entre outros, José de castro, Cândido dos Reis, Miguel Bombarda, António Maria da Silva e Machado dos Santos, alguns deles altos responsáveis da Carbonária.
A loja "Montanha" foi o veículo da Carbonária dentro da Maçonaria. Como membros vamos encontrar o omnipresente Luz de Almeida, António josé de Ameida, Machado dos Santos e... Aquilino Ribeiro, igualmente carbonário.

Paralelamente à Carbonária Portuguesa, foi fundada igualmente em 1897 a Carbonária Lusitana, sem conhecimento da primeira, também conhecida por Carbonária dos Anarquistas, com uma visão ainda mais extremista: enquanto que para os republicanos a República seria o fim em si mesmo, para os anarquistas "intervencionistas" ela era apenas um meio em direcção à sociedade perfeita, uma utopia em que não seria já necessário governo.
Estes anarquistas "intervencionistas" fundaram a loja maçónica "Obreiros do Futuro", verdadeiro alfobre de conspiradores contra a monarquia até 1907... (a continuar)
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