
30.11.07
HARRODS - LUXURY WASHROOMS
Num ambiente egípcio, encontramos bem no centro de Londres as melhores casas e banho públicas da cidade.No Harrods a limpeza é esmerada e permanentemente vigiada por um servente que impede acumulação de detritos indesejáveis nas partes mais recônditas da sanita. A porta da retrete é de madeira massiça, insonorizando sons intestinos mais atrevidos. É uma porta completa até ao chão. Não há aquele intervalo voyeurista que deixa ver calças descaídas ou o bico dos sapatos. Também não há grafitis ordinários nas paredes. As toalhas são de papel espesso. Nem sequer há aqueles irritantes secadores de parede. É evidente que teria preferido toalhetes de pano como, por exemplo, se pode encontrar no Museu des Arts et Métiers, em Paris. Também não seria demais a possibilidade de chuveiro e até um pequeno jacuzzi... Nas casas de banho das senhoras há uma selecção de perfumes de utilização gratuita. Enfim, de visita obrigatória e quiçá muito útil em momentos de aflição.
Quanto ao restante armazém, conseguem-se adivinhar, finalmente, alguns ingleses no meio de magnatas russos, daqueles que já perderam completamente a noção do valor do dinheiro. Uma bica custa 800 escudos e uma delícia de morango um conto e quinhentos! A renovada decoração é em piroso novo-rico, como poderão constatar pelas fotos que se seguem. A não perder!
jp
28.11.07
WE WILL ROCK YOU
Estamos em 2057. O rock há muito fora proibido. Os instrumentos musicais totalmente destruídos. A sociedade vive formatada por uma poderosa empresa, a "Global Soft", que tudo domina e controla. A empresa é comandada por uma "Queen", mulher durona e boazona à base de botas altas, cara triangular e olhos penetrantes de cobra. Nos subterrâneos recônditos dos arrabaldes sub-urbanos vivem acossados rebeldes marginais, os "Bohemians". Reunem-se secretamente no "Heart Break Hotel", assim chamado não se sabe porquê, aguardando o "Champion", que eles não sabem quem é. Cantam pedaços de músicas dos anos 70 memorizados por tradição oral, cujo significado desconhecem. Aliás desconhecem tudo e nós começamos a duvidar da razão que ali nos levou. O "Champion" é o Salvador, aquele que conseguirá desvendar o mistério do lago Genebra (possivel alusão ao incêndio no pavilhão de Montreux onde tocava F. Zappa e que daria origem à música "Smoke on the Water", dos "Deep Purple").Um pobre rapaz chamado Galileo Figaro tem visões de "strawberryfields forever" e outros disparates do género, como desatar a cantar coisas que não sabe o que são. Envolve-se com uma garota mal amanhada e vagamente excêntrica, Scaramouche, que também canta coisas proibidas, sem saber porquê. A Queen não gosta e a PIDE cai-lhes em cima.
Depois de muitas peripécias, fugas e desamores, tudo sempre cantado aos altos gritos e com a banda de suporte fazendo enorme basqueiro, os dois jovens encontram os rebeldes, os tais que não sabem o que são. Depois de prestarem provas orais (mais berraria!), os dois são aceites pelos "Bohemians" e passam também a não saber o que são, sendo certo que antes também não sabiam.
De repente, vindo das brumas de Avalon, emerge do lago Genebra a figura etérea do Rocky-Merlin, personificada pela imagem votiva de Freddie Mercury. Um muro (sempre um muro) separa-os agora da liberdade. Cantam... Cantam muito... O ar vibra de tensão dramática... O Muro cai com estrondo! Ao fundo uma viola eléctrica encrostrada na pedra, qual Excalibur, pede que a soltem. Só o "Champion" Galileu Artur a consegue arrebatar. A Queen rende-se. A música volta em todo o seu esplendor numa gritaria esfusiante. Finalmente todos percebem o quer dizer "We Will Rock You", coisa que nós, na nossa ignorância ibérica, definitivamente não percebemos.
Toda esta edificante mistela pode ser vista no Dominion Theatre, em Tottenham Court Road. Como curiosidade, o Freddie Mercury chama-se Ricardo Afonso e é português e o astrofísico Brian May, ex-guitarrista dos "Queen" foi, na semana passada, eleito reitor da Universidade de Liverpool.
Uma sugestão final: porque é que o mítico José Cid não faz uma treta semelhante baseada no D. Sebastião e os 1111 cavaleiros na demanda do Galo de Barcelos?
jp
27.11.07
LONDRES - CIDADE MULATA
Frio. Chuva. Muita tralha nos bolsos. Chapéu. Luvas. Guarda-chuva. Dois pares de óculos. Máquina fotográfica. Pilhas. Telemóvel. "Alto, já me esqueci da merda do passe do metro". Paranóia... "Porra, estava no bolso das calças!". "Cuidado, olha o carro da esquerda". Tudo invertido. Sei lá quanto vale uma libra. O que será um pence?! Estação de Clapton. Sinistra. Ambiente de II Guerra Mundial. Faltam 5 minutos para o comboio. Três estações até Liverpool Station. Multidão. Pretos. Árabes. Hindus. Brasileiros. Ingleses, nada. Filas para baixo. Filas para cima. Vertigem nas intermináveis escadas rolantes. Claustrofobia nos corredores infindáveis. Corrente de ar permanente. "Já nos perdemos. Não é por aqui. Pergunta aquele. Tem cara de bife". "Yes, já te teres enganado. Agora tu ir na Central Line. Tu sair em Holborn. Tu apanhar linha roxa. Tu sair Piccadilly, yes?!".... Plataforma 1... "Mind the gap"... Vira à esquerda... "For securaty reasons"... "Não a direcção é Ealing"... Mind the gap... "Any suspitious behaviour"... Plataforma 2... "Mind the gap"... Uma hora depois e três ansiolíticos mais tarde, submergimos cambaleando num cruzamento atafulhado de gente. Mais pretos, árabes, judeus, turcos, sikhs, russos... Filas ininterruptas de autocarros obscurecem o horizonte cinzento e triste da noite que se aproxima. Piccadilly, um absurdo de praça. Uma esquina mal enjorcada onde pontifica o célebre anúncio da Sony, a lembrar as mais sinistras cenas de "Blade Runner". Londres cidade mulata de língua crioula à beira da explosão!
jp
26.11.07
COTA JAZZ
Se vires muita gente cota com ar vagamente intelectual e tentando parecer despretenciosa podes ter a certeza que o jazz é bom.A igreja de St. Lukes, East London, foi recuperada e transformada em auditório. Acústica espectacular. Ambiente fabuloso. Ficámos na mesa 1, logo ali frente ao palco.
Sir John Dankworth tem 85 anos. É um dos resistentes das "big band". Assumidamente herdeiro de Duke Ellington e de Stan Kenton. 17 músicos em palco. Som arrebatador. Descontracção total. Humor constante. Um extâse para os sentidos.
Um acaso levou-me lá. Devo ter visto um dos melhores espectáculos de jazz "mainstream" dos últimos anos.
Em Londres está a decorrer o "London Jazz Festival". Por todo o lado há concertos. A não perder.
jp
25.11.07
SLOW HAND
Em Londres encontrámos acidentalmente o Eric que nos contou a verdadeira história. Contrariamente ao que afirmámos no nosso post de 13 de Novembro, a alcunha de "slow hand" não tem nada a ver com tocar depressa ou devagar. O homem partia muitas cordas nas actuações e demorava uma eternidade a substituí-las. Enquanto esperava, o público ia batendo ritmadamente palmas: clap, clap, clap... "slow hand clap". A coisa ritualizou-se. Slow hand clap. Slow hand Clapton. Clapton the "slow hand". E pensar que andei estes anos todos enganado!
jp
PORTELA + 5
TGV. Quarenta minutos. Ota. Aeroporto "Mário Lino". Check-in Londres. Fila interminável. Malas com rodinhas. Tira o cinto. Bip. Outra vez. "Ei, não é aqui. Para Londres agora é em Alcochete". Pânico. Mais hora e meia de TGV. Aeroporto "Francisco Van Zeller". "Londres? Isso era na semana passada. Agora é em Beja... Ou será Faro?". Opto por Beja. "Não, aqui é só low-cost". Regresso tumultuoso a Lisboa. Afinal a TAP era na Portela! Outra vez filas. Tira o cinto. Bip. Descalça os sapatos. Bip. Bip. Tira as cuecas. Bip. Será da dentadura? Radiogafias. Ressonâncias... Nada. Deve ser dos miolos. Por enquanto ainda podem seguir, embora 80% sejam líquido. Ainda bem que vim com 24 horas de antecedência...Como tudo seria mais simples e económico com o aeroporto em Madrid!
jp
16.11.07
ARE YOU EXPERIENCED?
Mais um disco de 1967. "Are You Experienced?" é o primeiro álbum de Jimi Hendrix, depois dos êxitos em single de "Hei Joe" e "Purple Haze".Juntamente com Mitch Mitchell, na bateria, e Noel Redding, no baixo, este disco é um marco absoluto na história do rock. Curiosamente é mais uma vez um trio ("The Jimi Hendrix Experience"), mas o talento exuberante e a capacidade discursiva de Hendrix obscurecm os outros músicos que, diga-se de passagem, são de grande qualidade e eficácia. Aqui não há trio. É Hendrix mais dois!
Jimi Hendrix revolucionou completamente a guitarra eléctrica. A sua "Fender Stratocaster" explode em cores psicadélicas; em "feed-backs" gemidos"; em "sustains" sofridos; em distorções dramáticas. Dele ficou a imagem de virtuoso e malabarista da guitarra. Hendrix foi muito, muito mais do que isso. Com ele a guitarra soltou-se. Ganhou asas. Voou. Hendrix libertou para sempre a guitarra eléctrica. Nunca mais ninguém conseguiu tocar assim. Hendrix não tem imitadores. Ninguém ousa. O risco é não passar de macaqueação gestual!
Mas, para além da guitarra, Jimi era um extraordinário vocalista. Nem sei se aprecio mais o guitarrista se o vocalista. Provavelmente é o conjunto indissociável que ele conseguiu criar e que confere uma originalidade vibrante à sua música. Que lhe dá uma unidade inemitável. Voz sonora. Poderosa. Arrastada. Uma voz "cool", em contraponto com a guitarra indomável.
Jimi canta como se estivesse a falar. Para mim é um dos melhores vocalistas de sempre da música rock. Morreu em 1970, com 28 anos, provavelmente sem a menor consciência da sua importância.
jp
15.11.07
WE ARE ONLY IN IT FOR THE MONEY
Para muitos o álbum "Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band", dos "Beatles" (mais um editado em 1967), é um dos melhores de sempre e terá revolucionado a "pop-rock".Não foi isso que pensaram os "Mother's Of Invention". Logo a seguir editaram "We Are Only In It For The Money". Uma sátira feroz e abandalhada ao disco dos "Beatles", cujo título e capa dizem tudo... e, provavelmente, tinham razão. O LP dos "Mother's" é, também, uma crítica contundente ao movimento "hippie", então no seu auge.
É um disco de colecção que me ficou de herança do meu falecido amigo Raul Marcial, responsável pela minha imersão precoce em músicas menos ortodoxas. Para além de Zappa, também os "Grateful Dead" me foram por ele apresentados.
Ainda que um pouco "naif", este disco reflecte o humor que viria a caracterizar toda a obra de Frank Zappa, líder do grupo e que viria a ter uma carreira com mais de cem discos editados. Músico compulsivo e obsessivo, Zappa era um doido com juízo. Temas como "Are You Hang Up?"; "What's the Ugliest Part of Your Body?"; "Harry You're a Beast"; ou "Nasal Retentive Calliope Music", são bons exemplos dessa vertente satírica da música zapiana.
Não é música fácil de ouvir. As letras são de difícil compreensão. Não dá para abanar a cabeça e, muito menos, para acender isqueiros. A obra é politicamente incorrecta. A música absolutamente única. Zappa influenciou decisivamente o meu universo musical e até a minha forma de estar na vida.
jp
14.11.07
13.11.07
DISRAELI GEARS
Os "Cream" eram três: Eric Clapton (o "slow hand", assim chamado devido à sua baixa velocidade de execução), na guitarra eléctrica; Jack Bruce, no baixo e voz; e Ginger Baker, na bateria. Os "Cream" eram um trio de luxo, mais tarde imitado pelos "Police", embora num registo mais pop.
"Disraeli Gears" foi o segundo álbum. O primeiro foi "Fresh Cream" e o terceiro e último "Whells on Fire". Dissolveram-se depois em projectos diversos de pouca duração ou a solo, como é o caso de Clapton.
Naquele tempo os LP apareciam em Portugal com 6 ou 7 meses de atraso ou, às vezes, nem apareciam. Eu e uns amigos descobrimos um atalho. Uma coisa que hoje nem dá para entender... Via postal recebíamos os discos directamente de Londres! Durou até a Alfândega detectar a fuga aos direitos fiscais.
Era o máximo aparecer em festas de garagem com um disco recém lançado em Londres ou Nova Iorque, do qual só tinham conhecimento os mais esclarecidos, aqueles que liam a revista "Rolling Stone" ou ouviam o programa "Em Órbita", no Rádio Clube Português, ou a "Vigésima Primeira Hora", na Renascença. Organizavam-se sessões de audição em minha casa, nas quais, num silêncio religioso, se ouvia até à exaustão as malhas do Clapton ou a batida irreverente do Ginger Baker que tinha a particularidade de tocar com dois bombos, coisa nunca vista e que era para nós motivo de grande exaltação. A devoção era tanta que o meu cão pastor alemão chamava-se Bruce, em homenagem ao baixista.
Com a sua capa ao melhor estilo "Canaby Street" e as míticas canções "Srange Brew" e "Sunshine of Your Love", "Disraeli Gears" é um disco de referência e que, na época, questionava a música "easy listenning" dos "Beatles" ou a falta de virtuosismo dos "Stones".
jp
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