31.3.08

CARÊNCIAS II

Retornar a casa é um prazer que só se pode ter depois de sair. Quilómetros de auto-estradas em velocidade via verde, queimando gasolina raiana acabada de atestar. Paragem obrigatória nas áreas de serviço, sempre a aliviar. Os grafiti abandonados insistem nas portas dos WC num apelo desesperado de resposta imprevisível.
O exemplo que vos deixo é típico de uma determinação obsessiva pelo belo. Há uma noção hedonística que ultrapassa a mera busca do prazer. O corpo tem de ser musculado, giro... e até 27 anos. A idade limite é, afinal, a a pedra angular desta mensagem. O mito de "Peter Pan", na sua versão escatológica, raras vezes atingiu tal estilização. Tudo isto revelando grande maturidade e um desejo sério, baseado em saber de experiência feito. A mensagem, por outro lado, não é expressamente especificada, mas meramente subentendida, denotando enorme confiança na obtenção de resposta.
Não se entende, por isso, a ausência total de identificação. Nem telemóvel, nem assinatura... Nada! Não há uma assumpção evidente. O autor, depois do enunciado claro, como que se refugia no anonimato cobarde. Estaremos perante um mero provocador ou será apenas uma questão de prisão de ventre?
jp

EXPOSIÇÃO NA FIGUEIRA DA FOZ


No Centro de Artes da Figueira da Foz, inaugura amanhã, dia 1 de Abril, a exposição de pintura de Emanuel Vieira Afonso (em cima) e Carmo Romão (em baixo), em mais uma iniciativa da MAPA-Associação Cultural, patente até 20 de Abril. De 2ª a 6ªF, das 9 às 19,30h. Sábados e feriados das 10 às 20h. Domingos das 10,30 às 21,30h.

30.3.08

ADEUS S. MAMEDE





Uma das serras mais bonitas de Portugal. S. Mamede fica no distrito de Portalegre (Alto Alentejo), bem colada a Espanha. Faz a transição entre o Alentejo e a Beira. Há sobreiros, cerejeiras e castanheiros; águias e abutres; veados e javalis; lontras e morcegos. Bem perto estão Avis, Alter, Arronches, Crato, Nisa e Monforte. Um pouco mais longe (100km), já em Espanha, Cáceres com as suas fabulosas ruínas romanas. Imperdível!

MARVÃO II





29.3.08

MARVÃO

O Marvão é um ninho de águias alcantilado numa escarpa de 860 metros, na vizinhança do antigo caminho romano Cáceres-Santarém. Os Lusitanos teriam aqui um castro denominado Medóbriga. Foi fortaleza árabe e deve o seu nome a Ibn Marwan al-Yil'liqui, líder de um movimento sufista que, com capital em Badajoz, pegou em armas contra os emires de Córdova até 931. Marvão era o refúgio deste homem que viria a ser morto pelo regime.
Foi conquistado por Afonso Henriques, com foral de Sancho II (1226). Tomada pelos espanhóis, foi reconquistada várias vezes. Pertenceu, depois, à Casa de Avis. Não foi poupada nas lutas entre miguelistas e liberais, tendo tomado o partido destes últimos. Foi importante ponto fortificado durante as invasões francesas. Terminadas as guerras, Marvão foi perdendo importância estratégica e decaiu muito. Hoje é uma "vila museu", embora permaneça como sede de concelho.
Casas apinhadas em ruas estreitas e tortuosas. Janelas típicas e originais chaminés alentejanas. Arcos góticos. Recantos pitorescos. A Câmara Municipal com o escudo e a esfera armilar de D. Manuel. O portal renascentista da Igreja do Espírito Santo. A capela de Nossa Senhora da Conceição, com retábulo de mármore branco e negro. Um castelo roqueiro em razoável estado de conservação e bela torre de menagem dionisíaca. As guaritas cobertas de cúpulas e a cidadela virada a sul sobre panos de muralha talhados na escarpa. Eis Marvão!
jp

EMBAIXADA BRASILEIRA

A Área da Cultura da Câmara Municipal de Oeiras não cessa de nos surpreender pela positiva.
Ontem, no Auditório Ruy de Carvalho, em Carnaxide, estava anunciado o Duo Euclydes Mattos, no violão e voz, e Alfredo Bessa, na percussão. Dois mestres da música brasileira. Euclydes Mattos é um virtuoso que já tocou com Hermeto Pascoal, Roberto Menescal ou Walter Perkins. Domínio absoluto da guitarra, num ritmo que só brasileiros sabem dar. Alfredo Bessa é um dos pais da moderna percussão brasileira. Em 1956 fundou a "Escola de Samba de Ipanema". Trabalhou com tudo o que é gente, de Elis Regina, a Tom Jobim e foi o principal percussionista de Baden Powell.
Tudo isto eram motivos mais que bastantes para ir ver. Mas o que não se esperava é que o duo fosse, afinal, um trio, com a presença em palco do Embaixador do Brasil junto da CPLP. Falou. Explicou. Disse poemas. E, acima de tudo, tocou colheres. Duas pequenas colherzinhas de café que manejava como um profissional. Tudo com enorme classe e descontração. Fantástico!
Para quando um embaixador de Portugal a tocar o "Malhão, Malhão" na Austrália?
jp

28.3.08

CASTELO DE VIDE II





CASTELO DE VIDE

Castelo de Vide fica no extremo norte da Serra e S. Mamede. A vila não apresenta património artístico ou arquitectónico apreciável, nem alguma vez foi palco de acontecimentos históricos dignos de grande registo.
É aqui que a partir de meados do séc. XV se estabelece uma das comunidades judaicas mais densas de Portugal, embora seja, simultaneamente, a terra alentejana com maior número de igrejas por metro quadrado. Os judeus foram escorraçados de Espanha pelo édito de 1442 dos Reis Católicos e aqui se vieram instalar, desenvolvendo a sapataria, a tecelagem e a cardação. Também muito se dedicaram às ciências, destacando-se o botânico Garcia da Orta e mestre Jorge, o físico.
A judiaria é um intrincado de ruas estreitas e escorregadias que deslizam morro abaixo, mantendo uma aura de mistério e de cultos proibidos, culminando na sinagoga. Arcos góticos de meia volta enfeitados com baixos relevos de espigas e ramos de oliveira, remetem-nos para um ambiente medieval que o frio gélido se encarrega de eternizar.
Foi aqui, em Castelo de Vide, que se deu o primeiro milagre, ainda que incipiente e por procuração, da então infanta Isabel de Aragão, futura Rainha Santinha. Por uma questão de heranças e parilhas entre D. Afonso Sanches e D. Dinis, ambos filhos de Afonso III, o primeiro, julgando-se com direito àquelas terras, amuralhou Castelo de Vide. D. Dinis, já então rei, considerou que tal manifestava intenções bélicas. Colocou cerco à vila. A coisa estava a descompor-se quando chega ao acampamento real uma embaixada de Aragão com a proposta de casamento com a infanta Isabel. E a paz veio com tão feliz notícia que a todos encheu de júbilo. O cerco foi levantado... e a muralha destruída. D. Dinis ficou feliz, mas não era parvo!
O castelo foi, depois, reconstruído e adaptado a artilharia, no contexto da Guerra da Restauração. Em 1705 uma explosão de pólvora destruíu parte da torre de menagem. Em 1823, quando já estava um caco, foi desactivado, iniciando um processo de total degradação que, com naturalidade, lhe conferiu o estatuto de Monumento Nacional que mantém com galhardia , mas sem grande proveito.
jp

27.3.08

AFINAL HÁ MAIS

Tendo recebido reclamações pela enorme distância a que fica o Menir da Meada e a consequente dificuldade em usufruir plenamente da sua interacção, interrompo a minha digressão a terras de S. Mamede para anunciar, em primeira mão, que também em Lisboa há bichos desses.
Como se pode ver a sofisticação é logo outra. Muito mais requintes nos acabamentos. Bom torneamento do dorso. Materiais mais leves e ergonómicos. Cores sugestivas. Forma equilibrada. Peso reduzido. Tamanho apetecível, não excedendo os 2,5 metros. Transporte assegurado. Enfim é outra coisa!
Em que rua de Lisboa fica este exemplar?
jp

26.3.08

MAIOR NÃO HÁ

Esta é a maior pila conhecida da Península. Com 5 mil anos de idade parece ainda cheia de vigor. Situado na zona da Serra de S. Mamede, a norte de Castelo de Vide, o Menir da Meada, tem 15 toneladas de peso; 7,5m de comprimento e 1,15m de diâmetro.
Não se assustem, meninas. Nem todos são assim!
jp

25.3.08

GOING UP THE COUNTRY




SANTO ANHO


Castelo de Vide. Antes e depois da benção. Repare-se na aura do anho já depois de abençoado (é o segundo, claro). Costume antigo, a benção pascal dos anhos no adro da Igreja Matriz, é uma tradição que vem perdendo fregueses. Não que o anho esteja mais ateu. Segundo o pároco, Francisco Alves, o problema é a doença da língua azul e o receio de contaminação. Mas, então, para que serve a benção?
jp

24.3.08

ÚLTIMA CEIA?

Receoso que esta fosse mesmo a última ceia, corri para a zona de Castelo de Vide e Marvão, onde havia garantias de sobrevivência biblícas.
O jantar de 5ª Feira foi leve, para permitir alguma penitência espiritual: uma singela sopa de cação com poejos, galo de fricassé e javali no forno de lenha com batata assada. Sobremesa, a tradicional boleima.
Na 6ª Feira Santa, depois de uma rápida incursão a Portalegre, onde, felizmente, os museus estavam todos fechados, fomos direitos ao almoço, no "Tomba Lobos", ali na povoação de Pedra Basta, na estrada para Alegrete. E bastou: entradas de perdiz de escabeche, miúdos de coentrada, peixinhos da horta e pimentos no alho; presunto serrano e carpacio de toucinho; moleijas com chocolate e brochetas de tomate; gamo em vinho tinto; intervalo digestivo para degustação de azeite em vinagre balsâmico; queijo assado no forno; empadão de bacalhau com espargos bravos; cozido de grão. Finalmente os doces: torrão real; toucinho do céu; fartes e boleimas. Uma catedral, este "Tomba Lobos"!
A tarde foi um doloroso interlúdio até ao jantar que se viria a concretzar em El Pino, a 10 quilómetros da fronteira, onde o portuguès "Tonho" Zé tem um restaurante, em fuga permanente à ASAE. Uma ligeira sopa de bacalhau para acamar e queixadas de porco assadas ("burras"), para rematar. Doces em Espanha, esqueçam. Deus deu-lhes quase tudo, menos doces e petróleo.
O Sábado era de Aleluia. Os nossos anfitriões não hesitaram e ofereceram-nos um almoço memorável, enquanto lá fora o granizo batia leve, levemente... mas nós não fomos ver. Pezinhos de coentrada; cabeça de porco com feijão; sarapatel; bacalhau dourado e carne fresca com batatas (assim se chama aqui o ensopado de borrego que, dantes, só era confeccionado em alturas festivas. No resto do ano, era carne de porco da salgadeira). Tudo isto regado com água cristalina, está claro.
A tarde foi de enorme expectativa pela hora do jantar que, retinente, lá veio. Eram 20 horas e uma sopa de peixe do rio, acompanhada a fatias de carpa frita, seguida de um achegan escalado ao alho e salsa, insinuou-se-nos no restaurante "Casa das Carpas", em Castelo de Vide. Para rematar, dei-lhe com tarte de castanha, não fosse o diabo tecê-las!
É claro que peixe não puxa carroça, ainda por cima depois de uma missa gelada e de uma chocalhada a correr pela vila fora, dando ao badalo até cair para o lado. Por isso, era meia-noite e dada a fraqueza que todos exibíamos, houve chouriço assado e açorda alentejana na adega do turismo rural onde ficámos ("Turimenha", 917303725, São Salvador da Aramenha)
Útima ceia? Não acredito. Quando muito é ceia móvel!
jp

23.3.08

NOTA PASCAL

A Páscoa só voltará a ser tão cedo (23/3) no ano de 2228. Esperemos que ainda haja última ceia. De facto a Páscoa não é nada fácil!
Primeiro, por mais que a Santíssima já tenha explicado, convenhamos que não é fácil perceber como um Deus pode ser três, cada um dos quais é, de direito, plenamente Deus, embora não existam três deuses, mas apenas um. A coisa fica mais complicada com a problemática da natureza de Cristo. Qual a relação entre a sua natureza humana e a sua natureza divina? Estão misturadas ou permanecem separadas? Se estão misturadas, então Cristo é uma substância distinta dos mortais. Se estão separadas, então qual a substância que morreu na cruz? Poderá dar-se o caso de não estarmos salvos?! Enfim, uma enorme trapalhada!
Depois, para agravar, a Páscoa não pára quieta. Sempre a mudar. Sempre a mexer-se. Totalmente imprevisível! A Páscoa é no primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera. Uma enorme confusão entre o calendário romano-cristão e o calendário judaco, um solar, o outro lunar.
A partir daqui, tudo é móvel: o Carnaval; Pentecostes... Por exemplo, o dia do Corpo de Deus nunca se sabe quando é. Desde logo é estranho Deus ter corpo e ainda por cima ser móvel! Pois o feriado calha na primeira 5ªFeira depois da oitava semana de Pentecostes que, por seu turno, decorre 50 dias após os Ázimos que é na primeira lua cheia da Primavera e que, segundo uns, coincide com a "ùltima ceia" e, segundo outros, terá sido o dia da morte de Jesus, ou seja, o dia da Páscoa cristã.
Seja como fôr, a morte do rabi é, decididamente, móvel. Logo, a ressurreição também varia e, consequentemente, o dia do juízo final é, de facto, totalmente imprevisível... Haja Deus!
jp

20.3.08

BAFODALHO

Biqueirão anchovado. Costeletas de sardinha. Cavala alimada. Vista deslumbrante sobre as arribas que se despenham sobre o mar. A mesa parece também querer voar, banhada em azeite selvagem e cebola radical. O alho, porém, a tudo se sobrepõe, evitando devaneios insanos que nos levariam à queda no abismo.
No Algarve o alho perde a vergonha. Atinge tudo e todos numa profusão desmedida. Não é já condimento. Perde a condição de tempero. No Algarve o alho toma conta da cozinha e do cozinheiro. Ganha vida própria. Exibe-se radioso na panóplia dos sabores. Perde-se na vaidade "gourmet" do palato. Inunda as papilas de desejos inconfessáveis. No Algarve o alho é um bem essencial... e convém que seja um bem colectivo!
De facto, no Algarve quem não gostar de alho não pode ir a uma repartição pública depois do almoço e terá muita dificuldade em adormecer acompanhado. Só no Algarve se entende a exuberância e o significado profundo do Bafodalho!
jp

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE



Um dos primeiros exemplare de arte gótica no Algarve, a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe fica antes da Raposeira, a caminho de Sagres, perdida no meio do campo (tem indicação). Era muito frequentada pelo Infante D. Henrique e cavaleiros da sua casa que aqui vinha a missa quando ficava na sua quinta da Raposeira. A não perder!

VILA DO BISPO

Francamente não vale a pena ir a Sagres. O vento é insuportável. As senhoras ficam todas despenteadas. As arribas fazem imensas vertigens. Está tudo cheio de espanhóis. A Escola Naútica nem sequer foi lá. Para quê perder tempo?!
Fiquem por Vila do Bispo. Vão ao "Café Correia". Mas vão com calma. Preparem-se para esperar. É a noção e slow food levada ao extremo peninsular. Aliás, mesmo que não queiram, a Dª Lilita não vai dar hipótese. Desde que entram até que saem não vai deixar de os tentar desanimar; "Aqui a cozinha é que manda"... "Aqui toda a gente espera"... "Só faz falta quem cá está"... enquanto dirige um olhar de soslaio para a porta, insinuando uma despedida ofendida.
Não fujam. Esperem três quartos de hora e verão que não se arrependem. Uma sopa de peixe com massinha prepara-lhe o estômago para camarão guisado com batata cozida à parte. Um espectáculo! Já nem sei o que é melhor. Se o camarão se a batata. A batata de Vila do Bispo é, seguramente, uma das melhores do mundo!
Na cozinha o marido, o Sr. Correia, trabalha sozinho. O tempo não existe. Só o paladar. Esse paladar forte que vem da serra, mas utiliza produtos do mar. Um fusão intemporal que nos faz ter a certeza que é no Algarve onde melhor se come em Portugal.
Decoração em azulejos variegados. Taças desportivas e bonecada variada encimando prateleiras, tudo misturado com garrafas desarrumadas. Aqui a única coisa importante é a comida. Acabe com uma deliciosa fatia de tarte de alfarroba. Tudo coisas leves que predispõem à meditação e à filosofia transcendental.
"Café Correia", Vila do Bispo, 282639127 (encerra aos Sábados).
jp

19.3.08

CAMINHOS DO VENTO




FORTE DO PAU DA BANDEIRA. "CAMINHOS DO VENTO", DE JOSÉ MARIA S. PEREIRA

ARTE PÚBLICA

Sob os auspícios da CML, Lagos está repleta de Arte Pública. Esta iniciativa, em boa hora lançada, tarda em surgir noutros concelhos marítimos com idênticas potencialidades. A ideia é boa. Os custos são baixos. A receptividade excelente. Por todo o lado são notórios os reflexos da iniciativa. Nas ruas, nos telhados, nas janelas, nas paredes, nos automóveis. Uma profusão de formas e de cores inunda cafés e esplanadas, provocando as mais díspares opiniões.
Para uns ficou-se aquém do organicismo dadaísta que, levado ao extremo, deveria relançar uma óptica "primitivo-futurista", motivando a diarreia cultural permanente. Para outros, a sugestão escatológica enunciada poderá provocar o caos urbano pela indução de comporamentos miméticos que resultarão, inevitavelmente, numa alteração comportamental totalmente indesejável. A polémica está instalada. Há quem já chame a esta nova forma de arte "pintura dejectável"!
Indiferentes à polémica, milhares de gaivotas mantêm o seu ímpeto artístico. Vão de chaminé em chaminé em chaminé, em voos planantes, gritando ao vento a sua liberdade criativa e deixando cair, aqui e ali, pinceladas efémeras de acrílico flamejante.
jp

LIBERDADE



MEIA PRAIA

Meia Praia. Deserto desolado de aridez solitária que só não é maior por ser apenas metade. Finalmente vêm aí os "ressorts". Do outro lado da estrada, tipicamente estreita e ostensivamente esburacada, começam a surgir as obras que para sempre transformarão este deserto numa "Las Vegas" do barlavento.
Guindastes e gruas ostentam orgulho no progresso inexorável. Ao longe ouve-se já o saudável ruído de "catrapilers" impacientes por revolver a terra que só está ali para atrapalhar. O pastoso betão aguarda, impaciente, a hora de se despenhar para dentro dos alicerces. Engenheiros, arquitectos, pedreiros, trolhas, pretos, brancos, romenos, ucranianos... durante anos a Meia Praia será um estaleiro a céu aberto. Depois haverá rotundas, engarrafamentos e uma procissão permanente de turistas à beira do escaldão. Entretanto, teremos de aturar o Sousa Tavares em artigos sucessivos destilando veneno sobre quem lhe conspurcou as poéticas memórias de infância.
E tudo isto porquê? Porque ainda estamos a viver uma idade de gelo. Três quartos de toda a água doce da Tera estão aprisionados em gelo e temos calotes glaciárias em ambos os pólos, situação talvez única em toda a história do planeta. Há Invernos com neve abundante na maior parte do hemisfério norte e glaciares permanentes em locais temperados como a Nova Zelândia. Durante a maior parte da sua história o padrão da Terra era de calor generalizado e sem gelo. A actual idade de gelo começou há 40 milhões de anos... É natural estarmos fartos!
jp

18.3.08

INCOMPORTÁVEL



PRAÇA

Praça. Manhã cedo. Vendedoras de bigode apregoam a frescura da amêijoa, por entre o riso alarve de picadores de gelo já com cinco medronhos de aceleração. Velhotes encardidos escamam compulsivamente peixe em desespero de causa. "Bifas" com vestidos aos folhos e maridos com ar marsupial em mochila de ocasiâo acham tudo baratíssimo.
A manhã é um pesadelo. O efeito do sedativo nocturno não há meio de passar. Por mais cafés que beba continuo a emitir vagos mugidos cheios de significado pessoal, mas carregados de incompreensão alheia. É nesta hora do dia que me sinto mais indefeso, mais carente. Preciso de alguém que me guie, que adivinhe os meus mais elementares pensamentos, que os profundos ainda não acordaram.
A praça de Lagos é tão moderna que os preços acompanharam decididamente a inflação, deixando o nosso poder de compra ao nível da cavala. Retiramos envergonhados com um par de tomates e uma alface que à noite farão companhia a um residual "cassoulet avec du confit de cannard" que teima em nos perseguir desde Lisboa.
jp

REAL ESTATE