30.10.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - ERRO CRASSO

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Quem Conta um Conto”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.


EPISÓDIO IV (continuação)
Crasso perdia-se em meditações alcoólatras quando o escravo porteiro lhe fez um discreto sinal. Levantou-se, arrotou três vezes e dirigiu-se pesadamente ao perístilo. Pelo caminho engoliu duas aspirinas para aliviar a tola. Na penumbra do perístilo, um homem magro, de gabardina clara, gravata cinzenta e chapéu de abas largas sussurrou-lhe: “Avé Crasso. A coisa está garantida. Acabei de falar com Pompeu. O homem concorda, desde que lhe construam uma estátua de ouro no Senado e lhe deem um jacto particular. Também quer a exploração da Hispania Citerior, apenas da Citerior. Diz que ficou farto dos Lusitanos desde que lá foi resolver aquele problemazito com o Sertório. Povo bronco e meio louco… Não se sabem governar, nem querem ser governados. Além disso as acessibilidades são péssimas. Pompeu já não está para maçadas”.
Com o azul da piscina reflectido na toga branca, Crasso hesitava: “ E César…? Que diz César?”.
Arnaldo Rocha já tinha previsto as reticências de Crasso. Crasso só gostava de poder para ganhar dinheiro. César gostava de dinheiro para ganhar poder. Arnaldo tinha o discurso preparado: “Ouve, Marco Licínio, desde 133 antes de Cristo…” - antes de Cristo? Arnaldo calou-se atrapalhado. Sentiu o “lapsus linguae”… Cristo? Quem é Cristo? Arnaldo pressentiu que o conhecia de uma qualquer missão futura - “Bom, ouve, Marco Licínio desde esse remoto ano, seja ele qual fôr, que Roma não tem paz. Sem estabilidade a economia não funciona. Sem economia não há desenvolvimento. Sem desenvolvimento não há riqueza. Meu crasso Caro, perdão, meu caro Crasso, Pompeu quer a Espanha. César resoveu conquistar as Gálias. Tu ficas com o “fillet mignon”, a expansão para leste. A Pérsia, a Índia, a China... a seda, o petróleo, o ópio...”.
Crasso olhava a piscina com ar ausente. Continuava renitente. “Eu sei que tens razão, Arnaldo. Mas embirro mesmo com Pompeu e desconfio de César. César é um homem estranho. Rapa os pelos do corpo todo… Não toca em vinho. Nunca o vi beber. Ora, se “in vino veritas”, então “a contrario sensu” o homem nunca diz a verdade, ou conta apenas uma versão da verdade, a que mais lhe convém. Não se sabe o que lhe vai na alma. Homem perigosíssimo!”. ”Ouve, Marco Licínio, não podemos continuar neste clima de guerra civil. Uma coisa, são guerras fora de portas, com saques, tributos e escravos. Outra, são guerras “intra-muros”, imprevísiveis, irracionais, incontroláveis. Os ricos são sempre afectados. E tu, Crasso, és o que mais tem a perder. Reconcilia-te com Pompeu. O homem tem mais prestígio e honrarias do que alguma vez podia sonhar. Não passa de um saloio vindo lá das berças da Úmbria. Quanto a César, tens razão... Perigosíssimo. Por isso te deves aliar a ele. Além de ser um estratega, é um verdadeiro nobre e, ao que dizem, descendente de Vénus, embora a certidão de nascimento se tenha extraviado. César é marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos e, ao mesmo tempo, é também um populista. César não olha a meios para atingir os fins. O povo gosta dele. Queres ter um golpe de estado tipo Catilina?”. “Crasso, deixa-te de merdas. Aceita este acordo secreto a que um dia os historiadores chamarão “triunvirato”. Só tens a ganhar. Hoje és o homem mais rico de Roma. Amanhã serás o mais rico do Mundo”.
Os olhos cobiçosos de Marco Licínio Crasso brilharam no escuro. Arnaldo soube de imediato que o homem estava convencido!
(continua na 3ª feira)
jp

JET LEG - A FAINA


JET LEG - CENAS DE PRAIA




JET LEG - O NELSON DOS COCOS



JET LEG - A PRAIA

Você vai na praia desprevenido. De repente já comprou uns óculos de sol que lhe ficam a matar. A ostra até que está barata. Mas às 9 da manhã prefiro lagosta. Dez reais com limão. O Nelson dos Cocos está parado em êxtase tropical no meio da praia olhando o infinito. O queijinho assado passa na brasa. O homem do bloqueador vai apregoando “Até bronzeia o pensamento”. Cocada de leite condensado? Milho verdinho? Doce de carambola?... Porque não?! O Nelson dos Cocos acorda subitamente agitado e atira-se em movimento acelerado numa perigosa tangente aos chapéus-de-sol. Bonés, camisetas… Já agora levo um par de colares e uns brincos. Fazem sempre falta. Meio-dia. Sai um ensopado de siri e uns pastelinhos de camarão. Passam atoalhados e redes, saídas de praia e sacos de sisal. Madrepérolas e sementes de açaí em cores ofuscantes. Avança um carrinho de mão com autofalante incorporado desbravando a praia em alturas de forró. Discos escaldantes no calor do equador. No arrasto vêm três guitarristas vestidos e cowboy-gaúcho em melodia de frevo. Mariachis da areia em braços empenados no rap pernambucano. Mais óculos… Agora não! Talvez um picolé ou caju assado. Hesito! Passa o queijinho outra vez na brasa. O Nelson dos Cocos começa a abrandar procurando o infinito que teima em lhe escapar. Vai uma irresistível porção de camarão à milanesa. Remata-se com um caldo de cana-de-açúcar. Calorias em estado puro. Diabetes garantidos. “Bolinhos de macaxeira com frango ou bacalhau. Sou o Luciano!”. “Pois é, Luciano… agora não vai mesmo mais nada”. “Então volto amanhã”. O Luciano abafa na palhinha e, presume-se, amanhã também. O Nelson dos Cocos paralisa definitivamente, acometido por uma súbita letargia que sobre ele se abate com intensidade transcendental. Num carrinho encarnado, muito fininho, vem o doce japonês, conhecido por “quebra-queixo”. Resisti! Volta na brasa o queijinho…
Lá ao fundo o mar espreita convidativo. Quero tomar banho. Temos de nos despachar. São 4 da tarde e ainda não almoçámos...!
jp

JET LEG - WAITING

JET LEG - ARRECIFES



JET LEG - STº ALEIXO




Esta ilha está à venda por 28 milhões de USD... sem o bacalhau. É aproveitar que o dólar está a desvalorizar. Presumo que não tenha água, nem luz, mas também para que é que isso interessa!

JET LEG - AGORA SIM...




Um lamentável lapso de senilidade privou os meus "ouvintes"(?)... "videntes"(?)..."blogantes"(?), enfim "coisos", de apreciar o verdadeiro manguezal em todo o seu esplendor. A redacção pede desculpa por este lapso inexplicável!
jp

29.10.08

JET LEG - MANGUEZAL




A excursão de catamaran à ilha de Stº Aleixo (à venda por 28 milhões de USD) e à foz do Rio Formoso correu bem. Não enjoei, não vomitei, não me afoguei... Enfim, sobrevivi! Deixo-vos algumas imagens de inegável beleza do impressionante manguezal que rodeia as margens do rio, com as suas raízes aquáticas profundas. Neste habitat natural reproduzem-se ostras e outros bivalves e crescem os juvenis tubarões. É uma zona húmida protegida e como tal deve ser respeitada e acarinhada.

jp

JET LEG - LUAR DAS MARÉS





JET LEG - PORTO DE GALINHAS

De Joboatão a Ipojuca em via semi-lenta rodeado de cana de açúcar permanente, você chega em Porto de Galinhas. Aqui onde havia operações secretas de descarga ilegal de escravos a que davam o nome de código “galinhas”, há agora uma multidão sem código que se amontoa no siri do arrecife. A escravatura no Brasil só foi totalmente abolida em 1888, já depois da independência, pela Princesa Isabel, através da Lei Áurea. Conta a lenda que os barcos aportavam com galinhas no convés e escravos agrilhoados ao monte no porão. Alguém saía gritando pelo povoado: “Hoje tem galinha nova no Porto”. Quem sabia o código vinha correndo se abastecer de “peças”* fresquinhas vindas de Angola e do Congo. A seguir eram distribuídas pelas roças distantes, onde os “senhores do engenho” dominavam a monocultura do açúcar. Depois da ocupação, os holandeses levaram a cana para as Antilhas, fazendo baixar o preço no consumidor europeu. A concorrência não dispensava mão-de-obra barata. Por isso a escravatura no Brasil foi abolida tão tarde. Mais uma vez, a culpa é dos holandeses!
Hoje já não há escravos. As galinhas, porém, invadiram o povoado. A vila está cheia de galináceos esculpidos em grandes troncos de palmeira. Na pousada, os puxadores das portas, os cabides, as xícaras, os pratos, os tapetes, tudo é galinha. Há móveis-galinha; espelhos-galinha; quadros de galinhas em mergulho, no pára-quedas, surfando, dançando o samba… Até o sanduíche tinha um ovo estrelado! Porto de Galinhas, um harém para o nosso galo de Barcelos! Há vinte anos eram 60 casinhas modestas num povoado piscatório. Hoje tem 250 pousadas e 6 resorts… e o Pestana acaba de comprar toda a frente marítima mais a norte, na zona da “Casa do Governador” para fazer um resort de luxo. Porto de Galinhas vai virar capoeira!
* “Peça” ou “peça da Índia” era, desde 1530, um escravo jovem do sexo masculino, de primeira qualidade; todos os outros escravos de ambos os sexos valiam menos do que uma peça. Este termo podia, portanto, incluir 2 ou mesmo 3 indivíduos, consoante a idade, o sexo e a condição física que eram comprados como uma única “peça”. Já agora, será daqui que vem a frase ”saíste-me uma boa peça?!
jp

28.10.08

JET LEG - PELA ESTRADA FORA






JET LEG - NOTÍCIAS DO PARAÍSO

Depois de uma esperançosa gravidez, Ivete fez aborto espontâneo. O país enlutado partilha a dor da cantora. Nós também.
Em S. Paulo, Polícia Civil contra Polícia Militar inundam ruas em guerra civil. Autoridade dá exemplo.
O rapto trágico de Eloá, em StºAndré, acaba na doação de órgãos da moça. Uma vida salva quatro. Foi pulmões, fígado, coração e rins. Só desaproveitou mioleira que o namorado, Lindembergue, desperdiçou na ponta do calibre 32. Azar mesmo foi o pai da moça, seu Everaldo, apanhado num flagrante fotográfico, se descobre andar foragido por três homicídios no estado de Alagoas.
O Sporting do Recife, “os Leões” (que, obviamente, equipam de encarnado, assim se distinguindo dos “lagartos” de Lisboa) empata com o Náutico, deixando tudo na mesma no campeonato estadual.
O que não vai ficar na mesma são os “convénios” assinados entre o Governo Federal e as Perfeituras. Uma bolada de 35 biliões de reais afectas ao poder local vão agora ser controladas pelo Portal dos Convénios. Lula exulta com mais esta peça do intrincado Sistema Integrado de Administração do Governo Federal (SINFI) destinado a vigiar a aplicação do dinheiro. Ainda a semana passada o senador Negrão Abençoado, através de uma emenda, conseguiu 1 milhão de reais (cinco vezes mais do que afecto ao Carnaval de Olinda) para as festas da terra natal, o ignoto vilarejo de Quipapá, com apenas 25 000 habitantes. Ouvido pelo Diário de Pernambuco, Negrão Abençoado, confessou que seu nome era apenas Marcos António Ramos da Hora. Abençoado vem dos milagres, dos milagres de gestão que ao longo dos anos tem praticado com devoção. E gestão é coisa milagreira mesmo, né?
Ontem foi dia de fartura em Vila Rica, no município de Jaboatão de Guararapés. No rio Jaboatão, mais uma vez apareceram toneladas de peixe morto. Já não é a primeira vez. A culpa é da poluição da Usina Bulhões. A pesca foi fácil. Tainha, tilápia, jundiá, tudo recolhido a balde deu para comer ao povo todo… e se fizesse mal, faz tempo que já tinham morrido todos.
A “classe C” (carro, casa e computador), a classe média brasileira emergente no crédito dos últimos anos, está passando mal. Vê-se agora obrigada a apertar de novo o cinto. O Lula vem anunciar que tem biliões para investir na crise. Parece que aqui não gostam dele. Mas, também, quem gosta do poder?... Só quem manda no poder!
jp

AFINAL O QUE É O BRASIL?

Veja no "Olhar Direito".

27.10.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - ERRO CRASSO

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Quem Conta um Conto”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.

EPISÓDIO III (continuação do episódio de 14 de Outubro)
O jantar aproximava-se rapidamente do fim. Os convidados foram saindo amparados por escravos, aguardando liteiras que os transportam às “villae” do Palatino e do Quirinal, para acabarem de vomitar na intimidade do lar.
Crasso ficou sozinho com a própria azia. Tinha pouca pachorra para aquelas orgias. Mas Crasso era pragmático. Para uns a vida é desbunda permanente. Para ele os juros eram a vida existente. Crasso aturava intrigas desde que rendessem sestércios. Adorava o “Poder” desde que fizesse dinheiro. Suportava pedantes desde que estivessem hipotecados.
“Cambada de ingratos. Será que estes palermas já não se lembram que fui eu que os libertei de Espártaco e daquela turba de escravos que lhes ameaçava a vida e, pior ainda, os bens…! Fora apenas há onze anos, que diabo. Que o Hades os engula a todos!
Depois, não percebo esta recente idolatria pelo Pompeu. Arrivista. Gaulês do Piceno. Vaidoso de merda. Não lhe chegam bustos. Quer estátuas de corpo inteiro... Um dinheirão!
“Toque de Midas”… que sabem eles do “toque de Midas”? Só lendas e mitos para entreter comensais. Sim, é verdade, eu quero ser o “homem dourado”, o alquimista do império. E depois, qual é o problema? Sem riqueza o mundo não avança. Se o mundo não avança eu não fico mais rico… logo, existo!
Midas é a mitologia da alquimia. Será que estes imbecis não percebem isso? Há muito que tento a transmutação do chumbo, do mercúrio e do zinco em ouro. Há muito que busco a “Pedra Filosofal”. Tenho ao meu serviço sacerdotes egípcios vindos directamente de Menfis e Karnac. Até agora nada! Desconfio que é tudo conversa fiada. Só o calor do Sol pode criar o verdadeiro ouro. Dizem-me que aquela corja não passa de magos, alquimistas da treta. Agora andam a tentar com excrementos humanos, a que chamam “matéria-prima”… Não sei como aturo isto! Oh, como gostava de ser o Grande Demiurgo e dispensar estes aldrabões. O pior é se têm razão? Imaginem que conseguem mesmo fazer ouro sem ser ao meu serviço? Já viram o efeito desastroso na economia!”.
(continua na 6ª feira)
jp

JET LEG - OLINDA CORES E SABORES






JET LEG - OLINDA AS CASAS