Ai, que saudade tão terna
tenho dos bancos da escola!
Da minha rota sacola,
das calças de meia perna,
das botas quase sem sola...!
Da minha lousa partida,
dos lápis esmigalhados,
dos cadernos esborrachados,
da algazarra da saída
aos gritos, berros e brados;
das idas ao "quadro preto"
escrever a tabuada
que, de resto, era cantada
por todos, como em coreto,
para ser bem decorada;
das soletradas leituras,
dos desenhos só a metade
por falta de habilidade
p'ra executar as figuras,
Oh! minha grande saudade!
... Até mesmo a palmatória
e a cana do professor,
(já as conhecia de cor)
também essas a memória
quase as guarde com amor.
Da parede pendia fixo
o grande "Mapa do Império",
E com ar grave e sério
o retrato de um estadista
ao lado de um crucifixo.
Vinha o recreio!... ai o recreio
c'o a infalível contenda
em que as cabeças sem fenda
não ficavam...! De permeio
engolia-se a merenda.
As contas e os ditados?
- de pôr em pé os cabelos!
Erros?- nem vê-los!
Eram todos apontados
e obrigados a fazê-los
vinte vezes cada um
na hora da brincadeira
com o "prof" ali à beira
prontinho para o "pum"
se acaso saísse asneira.
Na História eram os reis,
- seus feitos e valentias...
papaguear as dinastias,
sucessões, actos e leis
- à cabeça as "Sesmarias".
Linhas férreas e estações
marteladas a preceito,
rios, serras, do mesmo jeito,
províncias e regiões...
Portugal todo a eito.
Coração estômago e rins,
suas funções e locais,
veias, artérias e mais
órgãos e outros afins
das Ciências Naturais...
Esse era o primário estudo
no tempo em que eu lá andei.
E em abono direi
que muito daquilo tudo
ainda hoje eu sei.
Portanto, afirmo em verdade
(e como tal dou a face):
Por muito que ela custasse,
nutro uma terna saudade
da minha quarta classe!
Poema de António de S. Tiago, pai de RoseRouge.