30.8.08
OS CAMINHOS - SANTIAGO DA GUARDA
Em Portugal a rede de caminhos para Compostela estava por todo o lado, mas era mais desenvolvida nas regiões de maior densidade populacional: Lisboa, Santarém, Coimbra, Entre Douro e Minho. Como curiosidade, de Lisboa ao Porto levava-se, então, uma semana! Os peregrinos eram apoiados por locais de descanso, casas de pasto, albergarias e hospitais. Uma verdadeira rede turística que potenciava o desenvolvimento de forma sustentada (diríamos nós hoje). É também por isso que os santos são importantes. Um milagre é quase sempre económico!
Reis e grandes senhores usavam o direito à aposentadoria, aboletando-se em casas particulares e recusando-se a pagar a "hospitalidade". Nas cortes de Lisboa de 1439, foi decidido criar estalagens em todas as cidades e vilas muradas que estivessem na rota de Compostela, para obviar abusos. Mais desenvolvimento...!
SANTIAGO DA GUARDA (ver na foto Residência Senhorial dos Condes de Castelo Melhor, que funcionou como albergaria) está situada no troço do Caminho Português que percorre Santarém-Leiria-Coimbra. Saindo de Tomar segue-se por Pereiro, depois Alvaiázere, Maçãs do Caminho, Almoster e Ansião. Aqui atravessamos uma pequena ponte medieval de onde parte uma rua com o nome da Rainha Santa Isabel. Voltamos à estrada e perto de Vila de Boi encontramos os vestígios de uma calçada romana. Entramos em Santiago da Guarda.
O Solar dos Condes de Castelo Melhor, hoje excelentemente recuperado pela Câmara de Ansião, merece uma visita expressa. Por baixo do Solar foi descoberta uma importante villa "tardo-romana", do séculos IV d.C, cuja parte urbana teria cerca de 1200m2. Pavimentos musivos de rara beleza estão agora visíveis, protegidos por um chão de vidro que nos permite circular por toda a villa. Já do período medieval, a torre que integrava a linha de defesa a sul do Mondego, nos tempos a reconquista cristã, é agora visitável através de uma estrutura de escadas metálicas de arrojada concepção e vertigem garantida. A não perder!
Quanto aos Caminhos de Santiago, parece que há seis rotas principais, mas o verdadeiro Caminho é o que nasce à porta de cada um de nós. É bom que continuem a existir locais de peregrinação. Mesmo que não se encontre Deus, pode ser que nos encontremos a nós, o que, provavelmente, é a mesma coisa!
jp
29.8.08
SANTIAGO DE COMPOSTELA
Para além de um par de duvidosos milagres, pouco se sabe da vida do santo, mas da morte, sim. Foi em 44 d.C. Estava Tiago em Jerusalém, sossegadamente a comer o cordeiro pascal, quando Heródes Agripa I o manda prender e executar, sem mais nem menos. Em Roma era Imperador o coxo Cláudio.
Com raro sentido de oportunidade, Tiago foi o primeiro apóstolo a derramar sangue em nome da fidelidade a Jesus. Outros se seguiriam, dando à seita uma dimensão mediática que nunca teria tido, não fossem os litros de sangue vertidos e a incapacidade dos romanos em, pela primeira vez, lidarem com uma questão religiosa. De facto, eles não estavam preparados para absorver religiões monoteístas. Na sua mente pragmática, um único Deus confundia-se com César e, consequentemente, representava uma ameaça ao Império já que negava a divindade do imperador.
Só muito mais tarde (séc. IV), Constantino, com o Império à beira da desagregação, percebeu as vantagens unificadoras da nova religião. A fé cristã passou a estar associada ao poder temporal, participando activamente da ordem política. O imperador prescindiu da sua natureza divina e passou a ser, modestamente, apenas uma “pessoa sagrada”.
Pois, mas em 44 ainda o Império Romano não tinha percebido. Com a execução de Tiago, começa a lenda. “O corpo inteiro, com a cabeça (presume-se decepada), foi levado para fora da cidade para que o devorassem os cães, as aves e as feras”, diz-nos a História Compostelana. Mas, como o apóstolo já tinha estado em Espanha em pregação, os seus discípulos Atanásio e Teodoro pegam no corpo (fica a dúvida quanto à cabeça), enfiam-no num barco guiado por um anjo (como habitualmente neste tipo de salvamentos) e vão por aí fora.
Passam as “Colunas de Hércules”, bordejam a Lusitânia e entram na Ria da Arosa, bem a norte da Galiza, nos domínios da rainha Lupa. Amarram a barca junto a Iria Flavia, numa coluna de pedra que hoje se pode ver por debaixo do altar-mor da igreja de Santiago de Padrón (a pátria dos homónimos pimentos).
Depois de breves disputas com a rainha Lupa, uma aborígene que não estava a ver o potencial turístico da coisa e a habitual derrota de um dragão que por ali andava tresmalhado, os discípulos lá conseguem local para sepultar Tiago (com ou sem cabeça, eis a questão).
Colocam as “relíquias” numa arca de mármore e sobre ela constroem um altar e sobre o altar uma capela e assim sucessivamente, até à edificação total da “Igreja de Pedro” que, não sendo deste mundo, só pode ser galega! Feito isto, foram à vida deles…
O monumento vai ficar abandonado durante séculos, até que, por volta de 813, o eremita Pelayo, um especialista de marketing e homem de grande visão estratégica que por ali andava, alegadamente a pregar aos visigodos (ainda infectados com restos de arianismo), “redescobre” o túmulo no meio do bosque!
Avisa de imediato o bispo, cujo avisa Afonso II, o Casto, rei das Astúrias e todos se precipitam com grande júbilo para o local. Encontram três sepulturas, com os ossos todos à molhada. Mesmo sem qualquer perícia forense, de imediato decidem ser o santo e seus discípulos, não pondo sequer a hipótese de ser também a própria rainha Lupa!
Para completar o golpe publicitário, logo em 844, na batalha de Clavijo, Santiago, montado no seu inseparável cavalo branco, aparece a combater ao lado de Ramiro I contra os muçulmanos, tendo os “infiéis” sido, definitivamente, impedidos de progredir para norte.
Santiago aparece, depois, nas batalhas de Simancas e Ourique. Sempre que era preciso transformar o assassínio em “guerra justa”, lá estava o santo para abençoar. Santiago torna-se, com naturalidade, no padroeiro das Espanhas.
O negócio estava montado. Faltava um "sponsor". Ele veio na pessoa do Imperador Carlos Magno, rei dos Francos. Santiago aparece-lhe insistentemente em sonhos, explicando o simbolismo da Via Láctea e recomendando-lhe que a seguisse para venerar as suas relíquias. O Imperador vai por duas vezes a Compostela dando origem à "peregrinação" e inaugurando oficialmente o chamado "Caminho Francês". Nos dois séculos seguintes, mais de meio milhão de peregrinos vão até lá, dando à cidade uma importância que ela não tinha, passando a competir directa e ostensivamente com Braga, até aí sede religiosa da região galaica-duriense e que hoje não passa da cidade dos arcebispos.
jp
TURISMO CATÓLICO
O “turismo religioso” era já uma actividade muito lucrativa desde o distante ano de 326, data em que Helena, mãe do imperador Constantino, se dirigiu a Jerusalém e descobriu o Santo Sepulcro. Na ocasião, a “imperatriz” descobriu também a Verdadeira Cruz, iniciando a “caça à relíquia”, passatempo que se viria a revelar um sucesso, de tal forma que no séc. XVI, segundo Erasmo, seria possível construir um navio mercante com os fragmentos dessa Cruz!
Santiago de Compostela, setecentos anos mais tarde, viria a ser um êxito. Um verdadeiro “case study” de marketing turístico que lhe garantiu a primazia religiosa na Península durante mais de nove séculos. Os portugueses, para variar, deixaram-se antecipar. Só no séc. XX se lembraram de Fátima.
jp
28.8.08
27.8.08
26.8.08
PRAIA BARRIL
Homens de barrigas empertigadas em fato de banho às riscas que vagueiam contrariados pelos areais infindáveis atrás de mulheres pequeninas e estriadas, procurando em 15 dias agarrar a forma que lhes fugiu, inapelavelmente, vai para 20 anos. Homens que têm as férias transformadas num pesadelo dietético, suportando almoços de praia minguados nas sandes com matéria magra e sumos "light", olham este anúncio com comovido prazer salvífico.
O anúncio atinge directamente o cortex cerebral naquela zona em que o remorso se esconde e liberta, definitivamente, o ser arrependido que há em nós. Bebe, bebe à vontade, bebe que esta é a Praia do Barril. Bebe, não tenhas remorsos. É para isso que estás aqui. E o homem, completamente redimido de angútias existenciais, bebe até a barriga ganhar vida própria!
jp
SEMPRE A CONTROLAR
Como todos sabemos, no português de Portugal é absolutamente normal, diria mesmo, corriqueiro, a expresão "bebé" aplicada a relações amorosas. Por exemplo, praticamente toda a gente diz: "Ai, bebé, como gosto de ti". Ou, ainda: "Amo-te, bebé!". Já numa fase mais avançada da relação é frequente ouvir: "Porra, bebé, assim não que doí!". Ou, numa fase derradeira: "Olha, bebé, vou ali comprar cigarros e já venho". Agora, francamente, "Anda bebé, acende o meu fogo", nem os Doors se teriam lembrado!
jp
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