31.12.08

UM ANO DEPOIS DE OUTRO

Houve tempos em que comemorar o Ano Novo era um cerimonial indispensável no calendário anual. Uma festa, um jantar, um "rèveillon"... Em Novembro começava a pensar-se no que fazer e aonde. Uma festa pública ou privada? Só jantar e copos ou também para dançar? Em minha casa? Em casa de quem? Dividiam-se responsabilidades pela comida e bebida. Quem levava a música... A diversão era fugaz e o ano entrava de qualquer forma, mas havia a necessidade de nos juntarmos, de afirmar a nossa existência e a nossa amizade. Uma celebração colectiva para exorcisar a solidão, um pretexto para reforçar os ritos tribais que nos uniam.
Os anos passaram. Um novo ano sobre outro e outro depois de mais um. Uma infinidade de anos que acabaram por banalizar a "passagem de ano". Afinal é só um dia! Um dia como qualquer outro. Um dia a que nós, por mera convenção, atribuímos um valor simbólico sem grande sentido cósmico, distorcido pelo consumo idiota, pelo exagero de álcool e pela precipitação em engolir passas. As tribos de antigamente têm agora células ramificadas que se desmultiplicam em eventos paralelos. Impossivel reunir toda a gente. Dispersamo-nos em mensagens policopiadas enviadas no SMS da solidão. Eu fico tiquetaqueando no cinzento do teclado na virtualidade da blogoesfera. Não espero nada. O Ano Novo nada me deve. Eu também não lhe devo nada. É apenas mais um ano depois de outro!
jp

30.12.08

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA


Copyright Roberto Barbosa.

29.12.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO IX
Sines, 1495.
Arnaldo arrendara casa junto à praia, no bulício de pescadores e marinheiros, piratas e flibusteiros.
A pequenita Maria há muito o abandonara, saudosa da sua mercearia, ciumenta da poderosa “Organização”.
Arnaldo desesperava à volta de um prato de caracóis, nas tardes soalheiras repartidas com os irmãos Gama, filhos do velho Estêvão. Paulo, o primogénito, sempre adoentado e Vasco, robusto e violento como um touro.
O caminho para a Índia continuava por desvendar. D. João chorara a morte do filho; desgastara-se a negociar Tordesilhas; perdera o controlo na economia; enfrentara a nobreza à beira da guerra civil e, finalmente, adoecera sem retorno.
Em Junho daquele ano, Arnaldo é chamado às Caldas da Rainha onde D.ª Leonor estava em hidroterapia no hospital que fundara há poucos anos.
A rainha disse-lhe: “Arnaldo, não quero o bastardo D. Jorge no trono. Quero que o “Venturoso” seja meu irmão Manuel, duque de Beja. Mais, quero um herdeiro de todos os reinos ibéricos. Encarrego-te de tudo resolver”.
Finalmente um pouco de acção! Arnaldo forjou rapidamente um testamento que João II assina moribundo. D. Jorge é nomeado Mestre de Santiago e de Avis. D. Manuel, sucessor.
Arnaldo corre a Beja a dar a boa nova, com um “set” completo de fotos em corpo inteiro da “salerosa” Isabel, viúva do acidentado Afonso, pois mais madura e experiente, que muito entusiasmou o duque.
D. João morre no Alvor em 25 de Outubro de 1495, em casa de seus primos Ataíde, cuja filha Vasco da Gama há-de desposar.
“O rei morreu ao pôr-do-sol, estava a maré vazante. Não a maré do declínio, mas a que acompanha a partida das naus e leva a esperança do rei para além-mar”.
D. Manuel é aclamado rei em Alcácer do Sal. Dois anos depois casa com a provocante Isabel... A coisa estava-se a compor!
(continua na 6ª feira)
jp

MICK JAGGER

Desde o longínquo "It's All Over Now", de 1965 (o primeiro hit nas "charts" americana e inglesa), até à actualidade, os "Stones" são a banda com maior longevidade na cena mundial. Nos anos 60 discutia-se apaixonadamente quem era "melhor", os "Stones" ou os "Beatles". A batida forte; a influência dos "rythm and blues" e a voz poderosa de Jagger faziam dos "Stones" um grupo rebelde. Ao pé deles os "Beatles" pareciam meninos de coro. Essa rebeldia foi explorada pelo grupo como "trade-mark", derivando rapidamente para variantes pseudo-diabolizantes de que "Simpaty for the Devil" é o ex-libris. Brian Jones, um dos fundadores, morre afogado depois da ingestão de um cocktail de drogas variadas, em Julho de 69. Tinha abandonado os "Stones" há um mês. Com ele desaparecia o principal compositor do grupo. Jagger assume o comando, transformando o grupo numa máquina financeira à escala planetária. Qualquer coisa que seria impensável naqueles distantes anos de 60, atentendendo ao comportamento de Jagger e Keith Richards, envolvidos em permanentes escândalos sexuais e curas de desintoxicação continuadas. O segredo dos "Stones" foi conseguir integrar essa rebeldia num valor que o "establishement" assumiu e consume como pipocas. Um grupo que podia perfeitamente ter-se ficado por um internamento compulsivo num hospício, é hoje o expoente máximo do "rock" mundial.
Fotografia: "Rolling Stone".

MESTRE MACHADO

Filho de um conhecido pianista e de uma harpista de renome, José Machado é o violinista da minha banda, os “Ephedra”. Só isso bastaria para o tornar famoso e de digno de admiração. Sucede, porém, que ele é também o Director do “Grupo de Música Contemporânea de Lisboa”, fundado por Jorge Peixinho e é, ainda, professor de violino no Conservatório Nacional.
Fomos encontrá-lo no seu atelier, envolto em raspadores, formões, serras de fita, limas, lixas, vernizes, colas e pincéis. Mestre Machado constrói os seus próprios violinos. Um artesão no seu mundo. Um mestre na sua arte.
Fazer um violino demora em média 200 horas, sem contar com a secagem dos vernizes. Um bom violino de um construtor italiano do princípio do séc. XX pode custar entre 40 a 60 mil euros. São os mais procurados, não só pela qualidade da construção, mas também porque já passaram 50 anos, o tempo mínimo para o violino atingir o nível requerido para atingir a maturidade sonora. As colas e vernizes secaram em absoluto. A madeira adquire patine. A acústica é optimizada. O instrumento ganha alma.
O tampo inferior do violino e o braço são de sicómoro (uma espécie de ácer). O tampo superior é de madeira de pícia. A madeira é escavada com formões até atingir a espessura ideal: 2,6 milímetros. Mais grosso fica mais resistente, mas reflecte-se negativamente no som. Mais fino torna o instrumento demasiado frágil, correndo o risco de rachar. As ilhargas são dobradas pacientemente com ferro quente até ganharem aquelas formas voluptuosas e sensuais que apetece afagar.
Depois vem a colagem das várias peças. Utilizam-se sempre colas naturais, podendo ser de origem vegetal ou animal. Resinas extraídas de árvores ou soluções obtidas através da fervura de ossos, pele e tendões de animais. O produto é, depois, dissolvido em álcool ou óleo de linho (semelhante ao usado na pintura a óleo). Finalmente vêm os vernizes. O primário é um verniz mole e incolor. Depois vem o verniz de acabamento, colorido e rijo, uma solução a partir do dammar ou mástique, gomas de origem vegetal.
Por último, o arco. As cerdas são de crina de cavalo. A vara é de madeira de Pernambuco do Brasil (uma variedade particularmente resistente de pau Brasil). O arco foi aperfeiçoado no final do séc. XVIII por François Tourte. A curvatura passou a ser concava, tipo mola, assim aguentando maior tensão e assim se diferenciando dos arcos de origem não europeia que são convexos.
O violino pertence à família dos instrumentos de cordas friccionadas. Dentro da família é o mais agudo, equiparando-se ao soprano na voz humana. A sua origem remonta à Índia Antiga. O Ravanastron e o Siringui, de duas cordas, seriam os seus antepassados. Passaram para o mundo árabe com três cordas. É o Rababe, antecedente directo da Rabeca Medieval, surgido no séc. X e igualmente com três cordas. O violino moderno, de quatro cordas, aparece no séc. XV/XVI e estabiliza com Stradivarius na forma actual.
É este o violino que Mestre Machado constrói diligentemente no seu atelier de Queijas. Como se vê, fazê-lo é fácil. O pior é tocá-lo!
jp

O ATELIER





PAUL SIMON


Um génio está perante vós. Um poeta espantoso que também é compositor. Um compositor extraordinário que faz versos fabulosos. O quotidiano adquire, nas letras de Simon, a profundidade de uma vivência caleidoscópica. Ninguém como ele cantou a "american song". Este é o grande bardo do séc. XX. Um caso em que a rotura da parceria com Garfunkel em nada prejudicou a inspiração de Paul Simon, antes pelo contrário. Depois de largar Art para voos cinematográficos de baixa intensidade, Simon publica três discos que eu levaria para a tal "ilha deserta": "Still Crazy After All These Years"; "One Trick Pony" e " Hearts and Bones". Em 1986 e 1990, respectivamente, Simon envereda pela fusão étnica. "Graceland", um disco que nos deu o melhor da África do Sul e "Rythm of the Saints", como apoio do Olodum da Bahia de Todos os Santos, são um paradigma daquilo que parecia ser impossível. Música de características e ritmos fortíssimos e, no entanto, inconfundivelmente, música de Paul Simon. Posteriormente menos inspirado, Simon tem-se sabido resguardar e, contrariamente a outros artistas dos anos 60, mantém uma enorme reserva na sua vida privada e uma gestão cuidada das suas performances públicas. Um génio!

Fotografia: "Rolling Stone".

28.12.08

GEORGE HARRISON

Como seria ser o terceiro "Beatle"? Harrison sempre teve uma presença pública discreta. Menos criativo, era talvez ele que dava substância à musicalidade do grupo. Não que fosse um virtuoso (aliás, nenhum era), mas as suas intervenções eram de extremo bom gosto e muito personalizadas. Os seus solos não eram improvisos. Eram estudados e arranjados ao pormenor. George foi o primeiro "Beatle" a soltar as amarras de um grupo que começava a ser asfixiante, na luta de personalidades entre John e Paul. Logo em 1968, George tenta a música instrumental ("Wonderwall Music"). O disco não teve êxito. Em 1970 esse êxito vem com "All Things Must Pass", um triplo álbum que atinge o nº1 nas "charts" americanas, logo seguido por "My Sweet Lord". Curiosamente, esta música emblemática de Harrison acabou por ser considerada um plágio pelos tribunais e Harrison condenado a pagar "royalties" a Ronnie Mack, autor de "He's So Fine". A paixão de George pelo cinema era antiga. Em 1979 fundou a sua própria produtora "Homemade", responsável por mais de 80 filmes, entre eles "A Vida de Brian". Uma existência complexa, num homem de causas. Budista convicto, herança dos tempos "hippies" que conservou até à morte, George era o meu "Beatle" preferido.
Fotografia: "Rolling Stone"

27.12.08

PAUL McCARTNEY


Este rapazinho de ar angelical e voz maviosa fez a paixão de milhões de juvenis fêmeas, hoje gentis avós de jovens "punks" que o consideram um piroso. Se Lennon poderia ser hoje um chato, Paul não passa de homem ordinário que diz coisas banais, sentado em cima de milhões de libras que por mais casamentos desastrasos que faça, não têm processo de lhe escapar. Depois da extinção dos "Beatles", Paul continuou a compôr por conta própria, tocou e cantou a solo, com a mulher, Linda e com os "Wings", em várias formações. A marca "McCartney" encarregou-se de vender, vender muito. Mas o talento subitamente desaparecera. As músicas de Paul perderam a novidade, a espontaneidade. Curiosamente, também Lennon, depois de hipnotizado pela camareira Yoko Ono, para além de um ou dois êxitos dignos de registo, perdera a inspiração. Um caso de uma parceria que funcionou enquanto existiu. Juntos, eram um fenómeno. Separados, são vulgares!

Fotografia: "Rolling Stone"

26.12.08

JOHN LENNON


Nos próximos dias vou publicar fotografias da revista "Rolling Stone". Qualidade garantida. Gostaria de ter os vossos comentários sobre as figuras apresentadas. Comecemos com o inefável John Lennon. Como músico acho-o genial. Inovou decisivamente os conceitos rock. A música que fez, de parceria com Paul, traçou a linha de demarcação entre o velho rock and roll e a nova pop. O álbum "Revolver" é um marco essencial. A nova música passou a ser europeia. Mais intelectual e com maior fusão de tendências. De 60 a 67 os "Beatles" eram os líderes de um movimento de renovação que ultrapassou a música e se converteu num movimento social. Os "Beatles" sairam de cena exacta e precisamente no momento em que se estavam a esgotar. Um "timing" perfeito, embora acidental. Quanto a Lennon, em si mesmo, nunca me foi uma personagem simpática. Deliberadamente "non-sense" e de um diletantismo provocante, acabou por ser algo patético nas mensagens públicas, sempre que excedia a música. Tenho, porém, de lhe reconhecer muito talento e suficiente carisma. Infelizmente talvez lhe faltasse um pouco de humildade... Se fosse vivo seria um chato!

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO VIII
Afonso era um infante traquinas. Desde miúdo gostava de carrinhos de choque e batalhas navais. Em 1490, aos dezasseis anos, casou precocemente com Isabel, filha dos Reis Católicos. Era a prometida união das quatro coroas… A Ibéria fundida.
D. João, contra a vontade da mãe, deu-lhe de presente um cavalo artilhado no mais “fine tuning”.
Naquele dia de mau presságio, seis meses após a boda, o Infante e seus estouvados escudeiros, foram a correrias para os lados de Almeirim. A mãe, D.ª Leonor, ainda gritou da amurada: “Leva-me o capacete, Afonso”. O rapaz nada… Estava endiabrado. Depois de duas “sopas de pedra” e um garrafão regional de vinho roxo, Afonso apostou que chegava a Santarém sempre na contramão, atrapalhando o tráfego. Só parou de frente contra uma carroça de judeus em fuga de Castella. Os bombeiros demoraram três horas a desencarcerar o infante dentro do cavalo. Coluna partida… Vida acabada… Sonho imperial desfeito!
(continua 3ªfeira)
jp

25.12.08

ONDE FICA O NATAL?

Corrida ao Centro Comercial. Estaciono onde não posso. Saio por onde não devo. Entro por qualquer sítio. Agarro um par de peúgas. São azuis ou pretas? Tanto faz? Empurrão pelas costas. Sou atirado à secção de pijamas. Vai um para o pai. Sei lá se é Large. Depois trocam? OK. Fixe. Lista, lista… Falta o bâton para a mãe. Irra, não tem desta cor. Então pode ser mais escuro. Esse, esse serve. Bip… SMS. “Para a família e tal, pois que o Natal, também para ti, o mundo melhor”. Não vem assinado. Sei lá quem é. Olha, “Igualmente”. Segue! Lista, lista… Agora é a secção infantil. “Não. Não quero embrulho”. E, a bem dizer, também não quero pagar! Gente e mais gente escorre pelas escadas rolantes. Sempre à última hora! É pá, desisto. O resto fica para depois do Natal. Vou dar uns cupões em crédito para compras. O melhor é mesmo dar dinheiro… Porque não me lembrei desta antes!!! Alto… E o Bolo-Rei e as rabanadas! Volto a sair. Bip… Entra mais um SMS. “Família que se cuidem p’ra pior já basta assim e 2009 também Santo para vocês”. Mais “Igualmente”. Fiquei sem dinheiro. Multibanco. Filas. Telemóvel em modo insistente. “Olá, estão bons?” Zás… Código. Carteira. Tudo no chão. “Só um minuto!”. “Quem fala?”. Máquina engole cartão. Fila impaciente. “Está”. “Bom Natal”. Pois…! Que se lixe o cartão. Não percebi quem era. Tarde passada em visitas sucessivas na correria acelerada. “Boas Festas… Para todos… Sim… Igualmente… Pois a crise… É a vida... Claro… A família… Tem de ser… É preciso é saúde…”. Consoada pontual no bacalhau cozido com couves e alho. A lampreia de ovos. Rabanadas. Bolo-Rei. Mesa em dourado. Prendas a despachar. Filhos da Fernanda. Os meus filhos ficaram com a minha ex-mulher. Vem também a ex-sogra da minha actual mulher. Os meus ex-sogros não vieram. Mas também porque haviam de vir? O neto da Fernanda pode vir hoje. Amanhã está com a ex-mâe, perdão, com a ex-mulher do filho que não é meu. O meu pai está no hospital. O meu futuro sogro também. A minha mãe não quer consoada. A madrasta da Fernanda também ficou por lá. Depois do jantar vamos lá a correr… Não sei fazer o quê! Dia 25, almoço com os futuros ex-sogros. Já não sei! Jantar com os meus pais e com os pais dos meus futuros netos. Enfim, filhos dos outros filhos que também são meus filhos. Ah, mas a namorada do meu filho não vai. Tem de ir à mãe que ao almoço esteve com o pai. Às oito e meia o meu pai está impaciente. Não sabe onde está. Sabe que tem de voltar. Não sabe para onde. Despejamos as prendas à pressa, na pressa que o tempo passe… Onde fica o Natal no meio disto tudo?
jp

23.12.08

COMUNICADO OFICIAL

“Eu sou o Verbo. Não reconheço sujeitos. Não admito adjectivos. A Minha cólera cairá sem piedade e com grande fragor sobre todos aqueles que acreditem nessas bestas. E não Serei nada misericordioso. Não há Natal?! Mas o que é isto? Querem desafiar-me? Onde já se viu tamanho desaforo!!! Quem decide se há Natal ou não sou Eu e mais ninguém! Não são burros ou camelos, muito menos vacas! Isto é alguma Arca de Noé ou quê?! Claro que o Menino era Meu filho e Maria era mesmo virgem. Isso posso Eu garantir! Só não ponho as mãos no lume pelo Espírito Santo. Um bom Natal para todos e sejam felizes… enquanto podem!”
Assinado, Nosso Senhor.
jp

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO VII
O escudeiro Bartolomeu lá foi por esse Mar Tenebroso abaixo com três caravelas. A bordo também o irrequieto Cristobal Colon, que se conseguira infiltrar em missão de espionagem.
Passaram muito abaixo do Cabo das Tormentas (45 graus de latitude sul, segundo o astrolábio de bordo). Não havia terra à vista. Só mar, só mar... e cada vez mais frio. Cristobal esfregava as mãos de contente e cantava para quem o queria ouvir: “És por ocidenté, és por ocidenté”...
Bartolomeu reuniu secretamente com o piloto e, a coberto da noite, viraram rumo a norte. A 3 de Fevereiro de 1488, avistaram terra já para além do Cabo das Agulhas. Estavam já em pleno Mar dos Bárbaros, também conhecido por Oceano Índico, mas só eles sabiam. Cristobal continuou sempre enganado, o que foi péssimo... Dez anos mais tarde, ao serviço dos Reis Católicos, acerta-me em cheio nas Antilhas, que ainda hoje se chamam Índias Ocidentais.
Regressaram rente ao cabo das Tormentas, fustigados por ventos demoníacos, ondas avassaladoras, numa noite escura sem sossego e
“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes do leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que a minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme.
De El-Rei D. João Segundo!”

Bartolomeu entra na barra do Tejo em Dezembro de 1488. O “Capitão do Fim” abrira as “portas do Índico”... O mundo não acabava num abismo!
Poesia: Fernando Pessoa
(continua na 3ª feira)
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22.12.08

VACA ROMPE SILÊNCIO

Remetida a um Convento Carmelita, a vaca tem-se remetido a um profundo e prudente silêncio, distanciando-se dos eventos natalícios que tanta polémica têm provocado ao longo dos séculos e que ainda hoje geram as mais desencontradas opiniões. Algum tempo depois do Grande Acontecimento, a vaca chegou a ser entrevistada pelos doutores da Igreja, Mateus, Marcos, Lucas e João. Embora a entrevista tivesse sido gravada, nenhum dos entrevistadores contou a mesma versão. Esta adulteração da verdade muito incomodou a pacífica vaca que ficou a ruminar na torpe manipulação humana e jurou não mais abrir a boca sobre aquele jubiloso dia. No entanto, e face às afirmações do burro e do camelo, a vaca não pôde deixar de vir a terreiro repor a verdade e afirmá-la bem alto para glória do Senhor!
“O burro é um recalcado e mete-se nos copos. Distorce a verdade se para vingar. Aquilo que não consegue por seus méritos, tenta através da mentira. É um animal rancoroso! Põe aquele ar pesaroso, mas é um verdadeiro perigo. O camelo é um exibicionista nato. Sonha com califas e haréns, oásis de mel e tâmaras. É um deslumbrado! Julga-se acima da média. Não passa de um iludido que vive de fantasia num deserto de ideias. Acredita em tudo o que lhe dizem e, pior, no que inventa.
Em verdade vos digo: o burro e o camelo nem sequer lá estavam. O burro tinha ido à reunião semanal dos Alcoólicos Anónimos e o camelo tinha sido detido pela Mossad por suspeita de colaboração com o Hamas. Eu e só eu é que estava presente, como, aliás, demonstra a fotografia junta. Numa coisa o burro tem razão. Era Agosto. Mas isso que interessa! O que interessa é que o Menino nasceu em casa, no meio de palhinhas. José era carpinteiro e a Senhora se não era virgem parecia.
O menino era um santo. Fazia montes de milagres e estava sempre pronto a satisfazer qualquer pedido. Bastava pedir. Foi isso que o tramou. Naquela manhã do dia 14 do mês de Primavera de Nissã o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberto entre as duas alas do palácio de Herodes, o Grande. O cheiro enjoativo a óleo de rosas, misturado com o odor do cabedal e o suor da escolta armada; ao fundo, um leve fumo acre vindo das cozinhas… tudo enjoava o procurador. O Sol queimava horrivelmente lá no alto, batendo com força nos mosaicos brilhantes. A dor era horrível. As fontes latejavam desde manhãzinha. O procurador estava de novo com uma terrível enxaqueca. O réu aguardava vestido com uma túnica azul-clara, rasgada e suja. As mãos estavam amarradas. Um ar vagamente ausente. Tinha fama de milagreiro. Pilatos pediu-lhe uma cura para as dores de cabeça. Essa, porém, não era a especialidade de Yeshua. Tentou, tentou, mas nada. Se fosse uma ou cura da lepra ou mesmo uma ressurreição, ainda dava. Agora enxaquecas...! Foi isto perdeu o Menino, bendito seja o seu nome. Se não fossem as enxaquecas do procurador não haveria Natal.”
A vaca calou-se abrupamente e seguiu a manada em direcção ao convento. Nunca ninguém mais a viu!
jp

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA

ESTE ESTENDAL DO ROBERTO ESTÁ HOJE PUBLICADO NO "VARAL DE IDEIAS"
FAÇAM LÁ OS VOSSOS COMENTÁRIOS PARA A FOTO PODER IR À VOTAÇÃO DO MÊS.

21.12.08

CAMELO DESMENTE

Ao abrigo da Lei de Imprensa passamos a publicar a seguinte nota.
“Senhor Director do Expresso da Linha. Serve a presente carta para protestar veementemente contra as ignóbeis afirmações proferidas pelo burro no pasquim dirigido por Vexa. Falo em nome dos três camelos que transportaram esses nobres Reis do oriente que tão cedo chegaram ao berço do Menino.
O burro não sabe o que diz. Aliás, é burro. A verdade sempre lhe escapou. Incapaz de destrinçar entre subtilezas filosóficas e um par de cenouras. O burro não passa de um excremento vivo. Fala por despeito e raiva. Despeito, porque não lhe deram
vestes de brocados e damasco. Raiva, porque nunca na vida transportou alguém importante. Não passa de um elemento decorativo. E de qualidade inferior! Para assumir protagonismo inventa tudo. O Menino nem sequer nasceu em Belém… Tudo de passou em Nazareth, como toda a gente muito bem sabe. Quando passámos a Faixa de Gaza a estrela de David guiou-nos até àquelas doces palhinhas no meio da gruta, onde a Senhora depositara o fruto do nosso ventre, ámen. Os Reis Magos eram gente séria. Porque diabo se viriam incomodar, deserto fora, desde a longínqua Pérsia? É evidente que aquele era o Messias, “o Desejado”. Ah, e claro que era Natal. Estava um frio de rachar. O burro anda a ver muita televisão. Deve andar a ver os “X Files”! Acho mesmo que ele nunca leu a Bíblia! Então e a vaca, já ouviram a vaca? Sem querer dar lições, há que ouvir todas as partes envolvidas, Sr. Director. Sem mais, reitero que o Natal existe e é para todos!”
Assinado, o Camelo.
jp

TODAY'S FLOWER

20.12.08

OLHAR A SEMANA - DEIXEM OS POBRES ROUBAR!

Veja no blogue "Olhar Direito" a minha crónica semanal. Perceba porque nesta época natalícia apelo para que deixem os pobres roubar. Ao menos eles precisam!
jp

ENTREVISTA COM O BURRO

O burro tem sido uma das figuras mais esquecidas e desprezadas de todo o presépio. A vaca, os carneirinhos, até os camelos atingiram dimensão bíblica. O burro, porém, não passa de figura de estilo remetido a um silêncio hipócrita pelos exegetas do Novo Testamento, talvez por recearem comparações menos felizes com a sua própria inteligência.
Fomos encontrar o burro amargurado a retouçar um par de cenouras, tristonho e revoltado com este esquecimento evangélico. A entrevista foi rápida e esclarecedora.
“Em verdade vos digo. Fui eu que transportei a Senhora e José à urgência do hospital de Belém. Ela estava muito grávida há uma série de meses. Aquilo acontecera de repente. Os vizinhos diziam que ela concebera sem pecado e olhavam de lado para José. O pobre carpinteiro andava com a cabeça cada vez mais pesada e, em desespero, pregava pregos à toa em qualquer madeira que lhe aparecia à frente. Naquele dia de Agosto fazia um calor de rachar. O Natal já fora há muitos meses, A Senhora berrava. José, histérico, corria de um lado para o outro e só conseguia balbuciar “valha-me a Virgem Maria, valha-me a Virgem Maria”. O hospital fervilhava de agitação. Parei em contra mão. José corria desaustinado: “ai minha Virgem Maria, ai minha Virgem Maria”. À falta de melhor registaram a Senhora como Virgem Maria. O miúdo nasceu nas calmas. Veio logo a falar três línguas: aramaico, latim e grego clássico. Um sobredotado! Cá fora os familiares da Senhora estavam impedidos de entrar. Eram palestinianos. Um ainda se fez explodir de satisfação... José nunca mais foi o mesmo. O miúdo começou rapidamente a mandar lá em casa. A Senhora deixava-o fazer o queria. José não tinha mão nele. Ainda adolescente apanharam-no a andar sobre a água. Outra vez multiplicou os pães. Só disparates. Foi demais. Acabou internado num colégio Essénio. Pior não podia ter sido. A partir daí começou a falar na terceira pessoa e a pregar no deserto. Claro que as insolações não lhe fizeram nada bem. Um dia em que estava mais desidratado entrou num templo e atirou-se aos vendilhões. Partiu a loiça toda. O resto já todos sabem. O rapaz meteu-se na política e acabou mal. No Médio Oriente a política acaba sempre mal!”
O burro calou-se surpreendido por ter falado tanto. Lá atrás o presépio canta gloriosos hinos de louvor em alemão, entre estrelas prateadas made in Taiwan. Pessoas aos magotes sorriem a crédito na euforia das compras. É Natal para toda a gente. Só o burro sabe que não!
jp

19.12.08

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA




Copyright Roberto Barbosa

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE



Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Quem Conta um Conto”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.

EPISÓDIO VI (continuação)
De supetão entra Diogo Cão. Cabelo desgrenhado... Escapulário seboso... Olhos dementes...
“ Eu é que fui o escolhido. Foi el-Rey que mo disse... Eu é que fui o escolhido!”
“ Olha lá, Cão, tu enganaste o Rey. Foste duas vezes lá abaixo... Da primeira enfiaste pela baía do Cabo do Lobo. Correste a Lisboa. Era a passagem para o Golfo Arábico, disseste. O Papa enganado... El-Rey humilhado. Da segunda vez chegaste à Serra Parda. Deves ter julgado que era o fim do mundo!”
“Ingratos! A corte é só intrigas. Fui eu que mais padrões espetei pela costa africana abaixo. Agora não tem nada que enganar. Está tudo sinalizado. Excelência, só quero mais uma oportunidade, por favor, excelência... Eu é que sou o “homem-padrão”.
Arnaldo começava a ter pena. Só que D. João ordenara expressamente: “Arnaldo, estais prohibido de Cão aceitar. Muy mal me hay feyto. Até o Papa enganar (e lá estou eu a versejar, porra!)”.
Arnaldo não tinha quaisquer hipóteses: “Lamento, Cão. Já tiveste dois reais patrocínios”.
O homem saiu devastado... Ainda hoje vagueia por Lisboa, arrastando um padrão quilométrico que tenta espetar em qualquer canto da cidade, recitando exaltado:
“... E a Cruz ao alto diz que o que há na alma
E faz a febre em mim navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.”

Arnaldo estava exaurido. Desistiu. Já nem quis ouvir Gonçalves Zarco, Nuno Tristão, Diogo da Azambuja... Só velhadas alucinados. Era preciso sangue jovem. Ambição… Era necessário alguém com espírito corsário. Cancelou as entrevistas. Partiu a banhos com a pequenita Maria, à praia do Meco.
(continua 3ªfeira)
jp

16.12.08

FILHOS DO POVO DO SUL - XLVII (ÚLTIMO EPISÓDIO)

No “Ephedra” as divergências agudizavam-se. Uns queriam a profissionalização; outros já tinham percebido que aquilo não ia a lado algum; outros ainda continuavam a não saber o que queriam. Certo é que todos precisávamos de autonomia, de independência dos nossos pais. Precisávamos de dinheiro!
Ainda tocávamos desgarradamente aqui e ali, mas já não havia ilusões. E isso reflectia-se nas músicas e nas actuações.
No Barreiro fomos tocar a um teatrinho de província, daqueles com camarotes tipo S. Carlos. Poucas dezenas de pessoas na assistência. Quase ao lado, um pavilhão desportivo a abarrotar para ouvir baladeiros. Pior, o pouco público ainda mandou vir com as músicas de forma insultuosa!
A coisa agravou-se no “Teatro Ad Hoc” que se eternizava ali no Martim Moniz. No final do espectáculo em vez de palmas fomos invectivados sobre se aquele era o “verdadeiro Ephedra”, o que provocou aceso diálogo entre palco e plateia. E o público tinha razão... Tem sempre razão!
A velha chama tinha-se perdido. O nosso estilo tinha mudado. Tínhamos perdido as características que nos identificavam. O público não nos reconhecia. Provavelmente, nem nós nos reconhecíamos.
Aquela foi uma noite fatal. De repente interiorizámos tudo o que já sabíamos. Percebemos que o sonho acabara. Aquele foi o último concerto do “Ephedra”.
Continuámos a tocar sozinhos para dentro de um gravador. Primeiro éramos cinco. Depois quatro, três... No fim éramos dois multinstrumentistas, eu e o Paulo, alguns robots e a Isabel como cantora. Continuámos assim, teimosamente, até 1990 mas, tal como o Paulo previra, o sonho acabara “no fundo de um quintal”.
Entretanto, num momento de rara lucidez, tomei a melhor decisão de gestão de toda a minha vida: fechei o restaurante e a loja de artesanato antes de ficar totalmente atolado em dívidas.
Em 1977, finalmente livre de ilusões, comecei a trabalhar por conta de outrem, a pagar IRS e a descontar para a segurança social. .
O “sistema” ganhou!
Estranhamente, devemos ter influenciado parte de uma geração. Desde os tempos “heróicos” de casa do Paulo, até ao decadente “Ad Hoc”. Espanta-me que ainda hoje, mais de trinta anos passados (muito, muito passados), tanta gente se lembre ainda de nós. Críticos, músicos, fãs, gente anónima, gente perdida, gente que se encontrou... gente fantástica!
Espanta-me, porque pouco sabíamos tocar. Mas o importante não é, de facto, saber tocar. As pessoas querem emoções, não querem virtuosismos. As pessoas querem participar em algo novo, algo que está a nascer.
Hoje vejo a música como um deus que me deixou sem me abandonar. Um deus que me quer mesmo que eu, por vezes, o esqueça. Continuo a sentir-me sacerdote do tempo, espaço divino, harmonia celestial. Continuo a gostar de mim e, por isso gosto dos outros... mesmo daqueles que nunca ouviram “Ephedra”.
jp
Depois de 57 episódios termina a saga dos "Filhos do Povo do Sul". Procurei dar a minha vivência entre 1972 e 1977, tendo como pivot a banda "Ephedra". A história ficou concluída em 2005. Felizmente, entretanto, o "Ephedra" ressuscitou e até gravou um disco. A história está, por isso, incompleta, como convém a uma boa história. Graças a estes posts, um amigo descobriu fotos da época que todos julgávamos perdidas. Logo que termine a digitalização farei posts inéditos que serão uma surpresa para muitos. Deixo-vos com o refrão da música que deu origem ao nome das crónicas. A letra é de autoria de Luís Piques.
Sou filho do Povo do Sul
Tenho a boca a saber a sal
Ai de beijar essa deusa do mar,
Deusa do mar sereia.
Voei contigo na areia,
Em mil carícias de bagaço e mel
E entre as tuas coxas, amor,
De unhas cravadas,
Amei a terra inteira!

CUCURBITACEAE


AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Quem Conta um Conto”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.
EPISÓDIO V (continuação)
Na entreporta surgiu uma cabecita louca, tosquiada em tigela, sorriso gaiato, a revelar dentição isenta de escorbuto.
“Finalmente um jovem”, suspirou Arnaldo...
“Olá, puesso entrá-lo”, balbuciou Cristobal Colon.
“És espanhol, cabrão?”
“Non, non, que non. Yo soy de Genóva, mui gran entidá. Pero muy aficcionado del Real Madrid”.
“És judeu?”
“No, no, soy catolíco, muy catolíco”.
“Ouve lá, tu tens pedalada para isto?”
“Por supuesto. Yo gran marujeiro. Yo va a l`Índia per oest. Primo el Cipango, presto l`Índia. Da capo al fine”.
Pronto, pensou Arnaldo, cá está um maluco perigoso. Tenho de o despachar rapidamente. Ainda me acerta em cheio na América...
“Cristobal, ouve, puto. Por oeste não vais a lado nenhum. Aliás, o contrato é para leste. È pegar ou largar”.
“Que non, que non. És per oest. Mucho mejor. Sine Cabo Tormenta. Mucho mejor!”
“Bom, já vi que és marreta. Entrevista acabada. Maria, tira-me o puto daqui”.
Bronc... Cranc... Trás... “Next”.

Com ar displicente, entra Bartolomeu Dias.
“Eu já estou contratado. A “Mckinsey” tratou de tudo directamente com el-Rey. Só cá venho picar ponto. Não sei se tenho pachorra para ir até à Índia. Talvez passe o Cabo das Tormentas… Sei lá!”
Saiu como entrou. Arnaldo ficou siderado…

Ainda mal refeito, entra-lhe novamente Cristobal Colon de mapa na mão, escapando à vigilância da pequenita Maria.
“Gran Entidá, ló trago el mapita dé Fra Mauro ê los cálculos de Toscanelli. Si, grandíssima eminenzia, à l’India per ocidenté. Vederé, eminenzia, tuto comprabato… Capiche?”
Arnaldo nem quis ver o mapa. Tinha de despachar o homem rapidamente… Um chato!
Redigiu nota aos reis católicos: “Queridos monarcas, por esta lhes envio o “Navegador Gaspacho”, homem de grande talento e fé, que irá a qualquer sítio desde que seja por ocidente. É aproveitar!”
Cristobal saiu agradecido… Arnaldo, ficou aliviado!
(continua na 6ªfeira)
jp

BRASIL


Mais uma Tertúlia Virtual. Brasil foi o tema. Uns descobriram que o Brasil não foi fácil de achar. Outros, têm Deus por brasileiro. Há quem jogue futebol. Tem Bossa Nova e muito samba. Uma cidade maravilhosa. Bandeira maçónica. Paisagens de cortar respiração. Há quem duvide do desenvolvimento. Quem critique a política. Quem se insurja contra as desigualdades. Quem garanta uma nova era. Há optimistas pessimistas e pessimistas optimistas... Mas todos temos saudades do Brasil. Uns porque lá estão. Outros porque de lá sairam. Outros porque nunca lá foram. Outros porque lá irão!
jp

14.12.08

BRASIL - MISTÉRIOS DA DESCOBERTA

Foi este homem que descobriu o Brasil. Duarte Pacheco Pereira (o Aquiles Lusitano, como o apelidou Camões), nascido em Lisboa ou em Santarém, por volta de 1450, foi cosmógrafo, guerreiro e navegador. Em 1498 é encarregado, por D. Manuel I, de uma expedição secreta, organizada com o objectivo de reconhecer as zonas situadas na linha de demarcação do Tratado de Tordesilhas. A expedição partiu de Cabo Verde e culminou com a descoberta do Brasil, entre Novembro e Dezembro desse ano. A expedição alcançou terra firme num ponto da costa entre o actual Maranhão e o Pará, tendo depois seguido para norte, em reconhecimento, até à foz do Amazonas e ilha de Marajó.
Em 1493 Cristovão Colombo regressara da América convencido que vinha da Ásia Oriental, de Cataio ou de Cipango (ele próprio não sabia bem!). Na verdade estivera apenas em Guanahani, Cuba e Haiti. Aportou a Lisboa com um carregamento de selvagens de epiderme pardacenta, cabelos pretos e escorridos. Supunha que eram índios, da Índia. Apresentou-os triunfante a D. João II, pensando vingar-se da afronta que o monarca lhe fizera não o tendo contratado. D. João sabia perfeitamente que aqueles homens nus a tiritar de frio não vinham do Indostão, uma civilização que ele sabia milenar e com um nível de sofisticação muito superior. Convinha-lhe, porém, simular que acreditava em Colombo, para melhor convencer os castelhanos que eles se tinham adiantado na descoberta do caminho marítimo para a Índia, enquanto ele ultimava a sua estratégia na descoberta do rumo verdadeiro. Bartolomeu Dias dobrara já o Cabo da Boa Esperança e D. João estava na posse da carta de Pêro da Covilhã, enviado em missão de espionagem terrestre até terras de Prestes João (Etiópia).
Colombo seguiu o seu caminho para Castela. D. João, tendo podido silenciá-lo para sempre (como chegaram a propor alguns cortesãos), preferiu deixar os Reis Católicos cair no engodo. E eles caíram! De imediato exultaram com a “descoberta da Índia” e quiseram dela tomar posse. O Príncipe Perfeito vibrou, então, o golpe de mestre que iria rematar toda a sua brilhante carreira de governante. Mostrou-se indignado. Armou barcos. Fez preparativos para a guerra. Aquelas terras descobertas por Colombo pertenciam-lhe. A tenção cresceu, deliberadamente exagerada por parte de Portugal. Trocaram-se azedas notas diplomáticas. Por fim, o Papa acabou por intervir, para evitar a guerra entre as duas potências cristianíssimas. O ignorante Sumo Pontífice traçou a célebre linha que dividia o Globo em dois hemisférios, o Ocidental para os castelhanos que, assim, ficariam com as terras de Cipango; o Oriental para os portugueses que lhes dava a África e o caminho marítimo para a Índia (que só D. João e alguns confidentes sabiam estar já aberto com a viagem de Bartolomeu Dias). A linha passava a 100 léguas a ocidente e Cabo Verde. D. João, porém, exigiu que essa linha passasse a 370 léguas. Depois de se certificarem que a alteração não ameaçava as descobertas de Colombo, os monarcas castelhanos concordaram. A 7 de Julho de 1494 celebra-se o Tratado de Tordesilhas, deixando os espanhóis arredados, por muito tempo, da melhor parte da América do Sul e de todo o Extremo Oriente, só porque estavam mais atrasados em Geografia.
É quase certo que Portugal sabia já da existência das terras brasílicas, avistadas por navegações mais arrojadas partindo dos Açores. A atitude negocial e visão de D. João II conseguiram, assim, duas coisas essenciais para a criação do Império Marítimo Português: o exclusivo da navegação do Atlântico Sul, permitindo contornar a África através da “volta do largo”, garantindo a Carreira da Índia; e a presença “de jure” no Novo Mundo, criando uma colónia que hoje é o Brasil. Havia, porém, que consolidar o estabelecido.
Entre as várias cláusulas do Tratado de Tordesilhas importa destacar uma. Previa-se a constituição de uma comissão mista e paritária de astrónomos e pilotos que participaria numa expedição conjunta destinada a determinar, no prazo de dez meses, os marcos fixados virtualmente no Tratado. Portugal, contrariamente a Castela, nunca tomou qualquer iniciativa para dar cumprimento à cláusula. Estava-se em 1494 e a prioridade era, então, o Caminho Marítimo para a Índia. No caso de uma expedição conjunta encontrar terras a poente, isso poderia provocar confusões sobre a determinação do hemisfério em que as mesmas se situavam. A monarquia portuguesa preferia que os Reis Católicos continuassem a acreditar que tinham chegado a oriente, baseados nos relatórios de Colombo, enquanto se faziam os preparativos para a viagem de Vasco da Gama. Depois, Castela seria confrontada com a triste realidade da sua ridícula convicção. Até lá, tudo o que se descobrisse para ocidente seria mantido secreto.
D. João II morre em 1495. Sucede-lhe o cunhado D. Manuel, duque de Beja. Em Outubro de 1497, D. Manuel casa com a princesa Isabel, filha mais velha dos Reis Católicos e, simultaneamente, morre o filho primogénito daqueles monarcas, deixando grávida a mulher, Margarida de Áustria, que dá à luz um nado-morto. A sucessão de Castela e Aragão recai, então, sobre os reis de Portugal. Instado pelos reis católicos, D. Manuel, contra o parecer de muitos nobres portugueses, acaba por aceitar. Juntamente com a mulher, Isabel, parte para Castela e chega a ser jurado herdeiro em Toledo, a 28 de Abril de 1496. Logo a seguir, D. Isabel morre ao dar à luz o príncipe D. Miguel da Paz, doravante sucessor das três coroas e D. Manuel, com a morte da mulher, perde automaticamente a qualidade de herdeiro presuntivo dos reinos de Castela e Aragão e regressa a Portugal. O filho fica, no entanto, em Castela sob tutela dos avós, o que não deixava de ser preocupante. É à luz desta teia de acontecimentos que deve ser interpretada a posterior expansão ultramarina das monarquias peninsulares.
Havendo já notícia de expedições castelhanas e inglesas sobre o Atlântico Sul, era necessário averiguar com urgência as demarcações de Tordesilhas e verificar se essas expedições estavam na área de influência de Portugal. É assim que D. Manuel elabora “um plano sistemático nas águas do Atlântico ocidental, ao norte e sul do equador”.
Uma dessas explorações, comandada por Duarte Pacheco Pereira, descobre o Brasil entre Novembro e Dezembro de 1498. A prová-lo está o manuscrito Esmerado de situ Orbi, da autoria de Pacheco Pereira e que esteve desaparecido por quase 4 séculos. Nele se contêm descrições exactas dos locais a que a expedição chegou, sua fauna, flora e habitantes humanos. Acrescem inúmeras provas recolhidas em documentos castelhanos, nomeadamente no Memorial de la Mejorada, bem como no Planisfério de Cantino e ainda na própria Carta de Pêro Vaz de Caminha.
As medições de Duarte Pacheco Pereira indicam como linha de demarcação o meridiano 36º a oeste de Lisboa, o que deixaria na esfera castelhana uma parte do litoral maranhense e a totalidade do paraense. Esta a explicação porque a descoberta não foi divulgada.
Pedro Álvares Cabral, comandante da 2ª armada para a Índia, “limitou-se” a estabelecer nas terras já descobertas um ponto de apoio na Carreira para a Índia que passaria a cruzar o oceano austral regularmente e precisava de uma escala na “volta do largo” (um percurso superior a 3000 milhas). E mesmo essa viagem obedeceu a condições de extremo secretismo e só viria a ser publicitada em Junho de 1501, quase um ano depois de a notícia ter chegado secretamente a D. Manuel. Nessa altura, já a rota para a Índia estava assegurada e o “pequenito” D. Miguel da Paz morrera aos 2 anos de idade, libertando a sucessão do trono português de uma partilha, no mínimo, incómoda.
Bibliografia consultada: “A Construção do Brasil”, de Jorge Couto; “D. João II - O Homem e o Monarca”, de Mário Domingues; “O Descobrimento do Brasil”, Damião de Peres e “Na Rota da Pimenta”, de Teresa de Castelo Branco.
jp

TODAY'S FLOWER

OLHAR A SEMANA - ORÁCULO GREGO

Veja "Olhar Direito".

13.12.08

ÚLTIMA CHAMADA

DIA 15, 2ª FEIRA. TEMA:BRASIL. PARTICIPE!

HÁ CEM ANOS ERA ASSIM





Desde a heroína da Bayer, ao vinho de coca e aos drops da Lloyd, há cem anos as drogas compravam-se legalmente e sem receita na "pharmacia" ou na drogaria. A que se deveu a sua ilegalização? Concluíu-se que faziam mal? Ou deu jeito a alguns cartéis a sua proibição? O caso dos derivados da cannabis é paradigmático. O lóbi proibicionista nos USA era fortemente patrocinado, senão dirigido, pelo magnata do petróleo Dupont. A descoberta dos tecidos de poliester (nylon) precisava de afastar os tecidos de canhâmo para se impor no mercado. Essa foi a verdadeira razão da proibição. Será preferível a venda livre e legal ou o proibicionismo hipócrita que cria mais um submundo criminoso sem conseguir estancar a "busca do Soma perdido"?

jp

12.12.08

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA




Copyright Roberto Barbosa.

11.12.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

Como dizia Santo Agostinho, o tempo não existe: o passado já passou; o futuro ainda não chegou; o presente acabou de passar. Arnaldo Rocha é um agente especial da poderosa “Organização” que tenta, desesperadamente, criar o “Quinto Império”, a união do norte e do sul, do leste e do oeste. Arnaldo Rocha percorre o tempo atrás do mito.
Publicação simultânea, em episódios, no Brasil (“Quem Conta um Conto”) e em Portugal (“Expresso da Linha”), todas as terças e sextas feiras.
EPISÓDIO IV (continuação)
No dia seguinte a rua acordou em grande alvoroço. Dezenas de homens barbudos, suando cebola e alho, acotovelam-se aguardando horário de expediente.
Às nove em ponto Arnaldo abriu o “estaminé”. Assustou-se com o que viu. Uma cambada de estropiados, com ar esgroviado. Uns coxos, outros zarolhos, quase todos sem dentes, gritavam impropérios, tentando ser os primeiros a entrar.
De repente, a pequenita Maria, saiu da mercearia e veio em seu auxílio. Irritada com todo aquele reboliço, desatou a distribuir senhas de vez, organizou as filas e gritou: “Aqui só entra quem tiver carta de patrão de alto mar”.
A debandada foi geral... Ficaram meia dúzia. Arnaldo podia iniciar as entrevistas...

Entra um velhote trôpego. Olhos esbugalhados.
“Nome?”
“Gil Eanes”.
“Profissão?”
“Há mar e mar. Há ir e voltar...”
“Pois... Então e experiência?”
“Há mar e mar. Há mar e mar. Há ir e...”
“Chega, homem. Já percebi. Pergunto por experiência!”
“Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal... Há mar e mar...”
“ Maria”, chama Arnaldo, “Põe-me o cavalheiro na rua, se fazes favor!”
“Há mar e mar. Há mar e mar. Há mar e...”
Catrapum... Crash... Trás... “Ai!”. Gil Eanes despenha-se pela escada abaixo, com ligeira ajuda da pequenita Maria, sempre galhofeira, que logo berrou: “Next”… pregão que iria ficar famoso em todo o Intendente.
(continua na 3ª feira)
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GRANDES CATACLISMOS - IV




Margens do Douro, perto de Miranda.

SINTRA - A SERRA

A Serra “constitui um maciço de rochas eruptivas, granulares, variadas, intrusivo nas séries calcárias e xisto-calcárias do Jurássico superior e do Cretácico, em que produz notáveis efeitos de metamorfismo de contacto, transformando-as em corneanas calcossilicatadas, onde avultam as granadas, a vesuvianite e o epídoto...” Isto é o que diz o geólogo Matos Alves e eu, sinceramente, não tenho razões para duvidar.
Enfim, grandes cataclismos, aliás, muito recentes: a formação foi só há 500 milhões de anos! Ficou um calhau muito grande, com 10km de comprimento, 5km de largura e 540 metros de altura máxima, na Cruz Alta. Sintra, a Cyntia romana, fica a 207 metros de altitude. Os mouros renderam-se sem luta a Afonso Henriques, logo após a conquista de Lisboa, em 1147. O foral veio, com naturalidade, em 1152.
Residência de Verão da monarquia desde D. Dinis, Sintra tinha, em 1970, uma área de 315km2, 13 freguesias, 122.746 habitantes, que viviam em 36.882 fogos, que não só não arderam, como se multiplicaram... Em 1994, tinha 14 freguesias, só em mulheres já ia em 145.080, num total de 282.220 caramelos. Em 2004 é fazer as contas… Os fogos esses não mais pararam. A Serra é que paga!
Fotos do Castelo dos Mouros e do Palácio da Pena
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TERTÚLIA VIRTUAL - BRASIL

É já no dia 15 de Dezembro a última Tertúlia Virtual de 2008. Tema : BRASIL. Inscreva-se conforme indicado no side bar e participe.

O Brasil não é só um país e um povo. É música, literatura, poesia, escultura. O Brasil é uma natureza exuberante. Uma comida exótica. Uma cultura única. O Brasil é também uma economia emergente, um país de contradições, um futuro incerto. O Brasil tem uma História que nos é próxima. Parte da História do Brasil é também a História de Portugal. Como vêm os brasileiros essa História comum? E nós, como a vemos? Por tudo isto e o mais que a sua imaginação alcance.... PARTICIPE!