30.11.09

BLOGGINCANA - NOVEMBRO

Tarefa difícil indicar três blogues não participantes, mas que eu recomendo. Interrogo-me: se não participaram é porque não sabem ou não querem. Se não sabem, para quê incomodá-los? Se não querem, para quê sobressaltá-los? Nesta dicotomia quase marxista-leninista, acabo por me lembrar que tanto faz. Afinal, não é para eles que o jogo se destina. É para quem participa. E esses poderão descobrir mundos novos. Por isso aqui deixo três blogues imperdíveis.

100 Cabeças
Pintor, professor e bloguista. Rui Silvares, tem um blogue inemitável. "100 Cabeças" é um espaço onde se questiona tudo, da política às artes; dos filmes à vida quotidiana. É uma crítica de costumes, umas vezes mais péssimista outras menos, mas a luz ao fundo do túnel está lá sempre, mesmo que às vezes esteja muito ao fundo. Uma intransigência permanente que transmite uma rara lucidez. Absolutamente desconcertante. Escrita corrosiva e cirúrgica é, provavelmente, um dos melhores blogues portugueses. Que me desculpe o Eduardo que me "apresentou" o "100 Cabeças". Que me desculpe por ter infingido as regras. De facto, o "100 Cabeças" inscreveu-se na sessão anterior, mas não participou. Que me desculpe, mas era pecado não referir este blogue.
UTZ
Apenas há poucas semanas comecei a frequentar. Do que tenho visto é absolutamente recomendável, em especial a quem deste grupo se interessa por arte. O autor vive em Londres, escreve para a revista L+Arte. A sua relação com a área de leilões dá-lhe um conhecimento privilegiado do mundo e do mercado da arte numa cidade que, a par com Nova Yorque, está no topo da criação e da venda. O blogue dá-nos muitas novidades. Fala muito da arte portuguesa, com óbvio conhecimento de causa. Tem um olhar próximo e distante dessa mesma arte que a permite valorizar, sem falsos patriotismos ou visões pacóvias. Uma escrita fácil e irónica, fugindo à crítica estafada e enfadonha. Um blogue que está a ser uma revelação. Pena não ter "seguidores".


Um blogue inesperado. Um embaixador em exercício exprime-se na primeira pessoa. Escrita fácil e inspirada que se lê num fôlego. Carregada de humor diplomático que não se refugia em subterfúgios. Cumprindo, e bem, um papel de divulgação cultural de Portugal em França, este blogue conta, também, deliciosas histórias de reuniões, no mínimo exóticas, dos bastidores da diplomacia; fala de figuras conhecidas; de episódios anedóticos passados nesse mundo surreal dos diplomatas. A visão de Seixas da Costa é sempre irónica, inteligente e perspicaz. Um fenómeno na blogosesfera portuguesa. Deixo aqui o post de hoje, 1 de Dezembro, Dia da Restauração, para se perceber que um diplomata pode e deve tomar posição.

UMA POR DIA - BOM APETITE

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (15)

Pois, mas em 44 ainda o Império Romano não tinha percebido as vantagens. Com a execução de Tiago, começa a lenda. “O corpo inteiro, com a cabeça (presume-se decepada), foi levado para fora da cidade para que o devorassem os cães, as aves e as feras”, diz-nos a História Compostelana. Mas, como o apóstolo já tinha estado em Espanha em pregação, os seus discípulos Atanásio e Teodoro pegam no corpo (fica a dúvida quanto à cabeça), enfiam-no num barco guiado por um anjo (como habitualmente neste tipo de salvamentos) e vão por aí fora.
Passam as “Colunas de Hércules”, bordejam a Lusitânia e entram na Ria da Arosa, bem a norte da Galiza, nos domínios da rainha Lupa. Amarram a barca junto a Iria Flavia, numa coluna de pedra que hoje se pode ver por debaixo do altar-mor da igreja de Santiago de Padrón (a pátria dos homónimos pimentos).
Depois de breves disputas com a rainha Lupa, uma aborígene que não estava a ver o potencial turístico da coisa e a habitual derrota de um dragão que por ali andava tresmalhado, os discípulos lá conseguem local para sepultar Tiago (com ou sem cabeça, eis novamente a questão).
Colocam as “relíquias” numa arca de mármore e sobre ela constroem um altar e sobre o altar uma capela e assim sucessivamente, até à edificação total da “Igreja de Pedro” que, não sendo deste mundo, só pode ser galega! Feito isto, foram à vida deles…
Na imagem, painel representando a transladação do corpo de Santiago para a Galiza (Museu Diocesano de Camerina, Itália).
(a continuar)

DISCOS - QUEM SÃO ELAS?

O nosso RB desde o velho "Calhambeque" até à actual fase "pop-iurd", sempre esteve bem acompanhado. Agora quem são elas? Será que os portugueses batem os brasileiros? Comecem de cima para baixo e da esquerda para a direita...
Imagens cedidas por IÉ-IÉ.

HISTÓRIA DE PORTUGAL - INVASÕES BERBERES

Quem tiver paciência de me ler no "Olhar Direito" ficará a perceber porque até no Brasil são mouros. No Olhar Direito estamos a publicar em episódios a História de Portugal. Hoje são as Invasões Berberes. Veja AQUI.

UMA POR DIA - MINARETES

29.11.09

DISCOS - ANTES E DEPOIS



Alguém se lembra deste canastrão?
Imagens cedidas por IÉ-IÉ.

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (14)

O que sabemos é que a história de Compostela é um caso típico de exploração da crendice básica, ao serviço das ambições político-religiosas mais tenebrosas. Eu conto rapidamente…
Como toda a gente que andou na catequese sabe, o apóstolo Jacobus (também conhecido por Iago, Tiago ou Jacques) era filho de Zebedeu e de Salomé e irmão de João “Evangelista”. Costuma ser chamado de Tiago Maior para o distinguir de Tiago Menor, irmão de Jesus.
Para além de um par de duvidosos milagres, pouco se sabe da vida do santo, mas da morte, sim. Foi em 44 d.C. Estava Tiago em Jerusalém, sossegadamente a comer o cordeiro pascal, quando Heródes Agripa I o manda prender e executar, sem mais nem menos. Em Roma era Imperador o coxo Cláudio.
Com raro sentido de oportunidade, Tiago foi o primeiro apóstolo a derramar sangue em nome da fidelidade a Jesus. Outros se seguiriam, dando à seita uma dimensão mediática que nunca teria tido, não fossem os litros de sangue vertidos e a incapacidade dos romanos em, pela primeira vez, lidarem com uma questão religiosa. De facto, eles não estavam preparados para absorver religiões monoteístas. Na sua mente pragmática, um único Deus confundia-se com César e, consequentemente, representava uma ameaça ao Império já que negava a divindade do imperador.
Só muito mais tarde (séc. IV), Constantino, com o Império à beira da desagregação, percebeu as vantagens unificadoras da nova religião. A fé cristã passou a estar associada ao poder temporal, participando activamente da ordem política. O imperador prescindiu da sua natureza divina e passou a ser, modestamente, apenas uma “pessoa sagrada”.
Na imagem, Tiago Maior, numa pintura de Rembrandt.
(a continuar)

CONTRA NATURA

Veja em "Olhar Direito" a minha crónica semanal.

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (13)

E, a partir daí tudo é possível, principalmente a imaginação e quiçá a iluminação!
A Atlântida, cuja capital se situaria em Cuba, desapareceu. Ficaram os cumes das montanhas mais altas que hoje formam as Antilhas. Basta, aliás, olhar para o mapa mundi e ver que houve ali grandes cataclismos!
Os sobreviventes eram de dois tipos: os pelasgos e os trogloditas.
Os trogloditas seriam “essa escória que remanesceu quando a Atlântida desapareceu, acoitando-se nas cavernas sob a mais atroz barbárie” (a chamada Idade da Pedra). Talvez os Lusitanos fossem deste tipo!?
Outrossim, os pelasgos desde as primeiras manifestações da catástrofe, foram-se transladando às regiões orientais… Seriam gente fina da classe média alta que hoje votariam no Bloco de Esquerda.
Os pelasgos ter-se-ão, avisadamente, pisgado a tempo e espalharam-se sob os mais diversos nomes, do Egipto à Grécia, do Médio Oriente à Península Ibérica, dando origem aos “heróis gregos” e a toda essa trapalhada entre religiões e mitos.
É provável que as “peregrinações” à Ponta de Raz tenham esta origem atlante. Só não sabemos quem lá ia: pelasgos ou trogloditas?
(a continuar)

UMA POR DIA - QUEDA

28.11.09

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (12)

No tempo da reconquista cristã, na sequência da divisão romana que pouco ou nada foi alterada pelos Suevos e Godos, toda esta zona estava integrada na Gallaecia, com capital administrativa em Astorga onde reinava a monarquia asturiana. A capital religiosa era Braga, a “Roma” da Ibéria.
Compostela só mais tarde desponta. Foi a invenção do “turismo católico” na Península, curiosamente reatando uma tradição milenar que, já na pré-história, fazia homens dirigirem-se ao “Finis Terrae” galego, também designado pela Ponta de Raz, onde se situaria a mítica cidade de Ys, de raiz atlante e que terá sido destruída há cerca de 10 000 anos quando o Grande Cometa caiu nas actuais Antilhas e acabou com o último período de glaciação.
Como nos diz Platão, “Houve e haverá doravante muitas e diferentes destruições da humanidade, sendo as maiores provocadas pelo fogo e pela água. A causa é um desvio dos corpos que giram em volta da Terra… como Phaeton, o “filho do Sol”, que um dia atrelou o carro do pai mas não conseguiu seguir-lhe a rota e queimou o que se encontrava à face da Terra”.
Quer Platão se apercebesse ou não, ao descrever esta passagem no seu livro “Timeu”, escrito cerca de 355 a.C., estava a referir-se ao cometa das denominadas “baías das Carolinas” que deixou mais de 100 000 crateras em toda a zona sudeste dos Estados Unidos.
Este cometa (talvez um gigantesco asteróide) deve ter sido o responsável pelo fim da última era glaciar, por volta de nove ou dez mil anos a.C. Calcula-se que o núcleo central teria 600 km de diâmetro quando embateu com a Terra, algures no oceano Atlântico, provavelmente a nordeste das actuais Bahamas.
A sua desintegração parcial em milhares de fragmentos, por acção da atmosfera, terá provocado as chamadas “baías das Carolinas”: milhares de crateras espalhadas pelos campos da Carolina do Norte e do Sul, ainda hoje bem visíveis.
O embate oceânico terá gerado um “tsunami” brutal, com ondas de mais de cem metros de altura que, durante horas, devastaram as ilhas da região e a costa americana, submergindo grande parte do território e abolindo a vida animal terrestre, com excepção daquela que se conseguiu refugiar nos cumes mais altos.
Depois do recuo das vagas, toda e qualquer civilização que pudesse existir, perdera-se para sempre!
Na imagem, a Atlântida tal como é descrita por Platão, nos livros "Timeu" e "Crítias".
(a continuar)

UMA POR DIA - DESCANSO

27.11.09

TRALHA DE MÚSICO




Todas as actividades tem tralha associada, sejam pedreiros, carpinteiros ou astronautas. Na música a tralha é sempre imensa. Desesperante. Não havendo carregadores, os instrumentos ideais são o violiono ou a harmónica. Quase se podem levar no bolso. O percursionista é o que mais sofre. Reparem na tralha que vou ter de levar para a Caparica amanhã?... E ainda por cima há Benfica-Sporting. O futebol é inimigo da Cultura!

REDES SOCIAIS - O INVERSO

A semana passada escrevi aqui um texto que mereceu alguma polémica e comentários de grande qualidade. Em resumo, questionava eu as diferenças entre o relacionamento através da net e as eventuais alterações comportamentais daí resultantes, no plano convivencial. Fundamentalmente referia-me às redes sociais, mas também os blogues, sejam eles meros diários, jornalinhos ou verdadeiras obras, podem ser abrangidos nessa virtualização dos contactos que está a alterar o paradidma social. É toda a net que está em causa. A net que nos impede de fazer outras coisas. Que nos deixa em casa. A net que nos aproxima, afastando-nos.
Hoje, porém, vou abordar o assunto ao inverso. A tese é simples. Todos temos um feitio mais ou menos execrável. Todos somos dramaticamente egocêntricos. Todos queremos, muito justamente, exibir-nos. A net consegue um distanciamento que deixa ver o lado bom, sem mostrar o mau. A nossa educação e polimento é mais refinado na net. Ao vivo o tempo de reacção pode ser fatal. Tenho as maiores dúvidas que muitos dos que me lêem tivessem pachorra para me aturar. Conseguimos mostrar coisas a gente distante e receber um “feed back” que muito nos alegra o ego. As pessoas ao vivo tendem a fechar-se. Aqui estão mais disponíveis para partilhar dentro de um anonimato relativo. Por alguma razão os meus principais comentadores (com excepções) não me conhecem pessoalmente. Os meus amigos não me comentam.
Finalmente, e como alguém referia nos comentários ao meu anterior post, aqui há interactividade, coisa que não acontece quando passamos uma noite estupidamente agarrados ao televisor.

COMPOSTELA - FACHADAS DA CATEDRAL




Fachadas leste, norte, sul e oeste (de cima para baixo).
Sacadas da net.

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (11)

A Catedral de base românica, constitui um paradigma da evolução para o naturalismo gótico. No séc. XVIII, foi lamentavelmente desvirtuada por intervenções barrocas.
Destaque para o célebre “Botafumeiro”, um enorme incensário (50 quilos de peso e 1,5 metros de altura) que se movimenta, qual Pêndulo de Foucaut, vomitando fumo espesso em direcção aos quatro pontos cardeais. O original, em prata, foi oferecido por Luís XI de França em 1554 e, curiosamente, roubado pelas tropas francesas em 1809. Será isto um acto de fé ou necessidade compulsiva do direito de regresso?
Teve de ser substituído por outro mais em conta: da prata, passou-se ao latão prateado! O “Botafumeiro” servia para aliviar o cheiro fétido exalado pelas centenas de pessoas suadas e urinadas que na Idade Média pernoitavam na Catedral.
(a continuar)

26.11.09

DUAS POR DIA - TALVEZ


A título muito excepcional hoje vão Duas Por Dia. Não me peçam para repetir.

UMA POR DIA - REBENTA

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (10)

Compostela é a Catedral. O resto passa completamente despercebido…!
“A catedral constitue un magnífico exemplo de arquitectura románica, xunto a unha estructura barroca coa que é recoberta. A súa construccion foi iniciada em 1075 e rematada en 1188 gracias ó importante pulo dos obispos Xelmírez e Peláez.
A sua pranta é de cruz latina e triple nave no corpo da igrexa e no transepto; coberta de cañón seguido na nave central e de arista nas laterais, tríforio en todo o seu desenrolo, xirola e cimborio no cruceiro.
Os pereginos soen dirixirse ó Pórtico da Gloria, onde deberán colocar a man na cavidade modelada pelos millións de peregrinos que a puxeron. Ó pé da columna débese bate-la testa na imaxe de Sánsón que existe ante este, três veces. É o chamado Santo dos Croques.
Unha vez que acadamos a xirola, compre descender á cripta para orar diante a urna de plata que garda os restos mortais de Santiago.
Com un pouco de sorte, veremos en movimento ó imenso botafumeiro mentres soa o non menos impressionante organo de catedral”.

É assim a descrição em galego-português.
De facto, a construção da Catedral começou cerca de 1075, promovida pelo bispo Pelaez e sob a orientação, primeiro, dos Mestres Bernardo, Velho, e Roberto. Depois, seguiu-se Mestre Esteban, sob novo impulso do bispo Gelmires. A partir de 1168, o misterioso Mestre Mateo iniciou a sua intervenção, criando a entrada ocidental e principal da Catedral, dirigindo a construção dos últimos tramos da nave e da cripta que iria suportar o famoso Pórtico da Glória.
(a continuar)

25.11.09

UMA POR DIA - ÁGUA BENTA

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (9)

Compostela! No local onde hoje se situa a catedral, existiria um povoado romano que se tende a identificar com a “mansão romana de Aseconia”. O povoado desapareceu, mas permaneceu uma necrópole em uso até ao séc. VII. Os restos mortais do Apóstolo Santiago, o Maior, teriam aparecido por aqui, no lugar onde posteriormente se edificou Compostela. O nome da cidade tanto pode vir de Campus Stellae (“campo de estrelas”), como de Composita Tella (“terras bem ajeitadas”, um eufemismo de cemitério).
Ruas medievais, numa malha apertada e labiríntica. Restaurantes azeitados, todos com muito tomate. Dezenas de lojas vendendo exactamente o mesmo: canecas de loiça com a catedral estampada, cajados e vieirinhas.
As vieirinhas são fundamentais para se perceber o encanto da cidade. Para quem estuda malacologia, sabe que as vieiras são moluscos bivalves, da família dos Pectinidae que, para além de darem excelentes gratinados, vão bem com o Santo, cujos despojos deram à terra numa barca repleta de conchas e que ficariam como símbolo da peregrinação. Isto, para além de Tiago, quando conheceu Jesus, ser pescador.
Mas mais, como nos diz Fulcanelli, in O Mistério das Catedrais, “… A concha de Compostela (“campus stellae”) serve na simbólica secreta para designar o princípio Mercúrio (a água benta dos filósofos), também chamado Viajante ou Peregrino. É usada misticamente por todos os que empreendem o trabalho e procuram obter a estrela”.
(a continuar)

24.11.09

EPHEDRA - SÁBADO - NOVO CONCERTO NA CAPARICA

Vamos tocar quatro peças ao melhor estilo rock-progressivo dos anos 70. Um espectáculo imperdível que estamos a preparar há algum tempo. Oportunidade de rever o "Ephedra". Nunca se sabe quando voltamos a tocar www.myspace.com/ephedralx.
Cartaz executado por David Santos (baixista do grupo), tendo por base o cenário original de Paulo Viana com que tocamos em 1975 no "1ª Acto", em Algés.

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (8)

Perdido em reflexões de alta velocidade na auto-estrada para Santiago, acabo por concluir pela óbvia existência de uma cabala orquestrada entre médicos e padres. O progressivo aumento da esperança de vida serve apenas para nos garantir mais oportunidades para prestar as tais provas que nos levam direitinhos ao Paraíso perdido, já que isto aqui na Terra está cada vez menos recomendável.
A verdade, porém, é que quantos mais anos vivermos, mais hipóteses temos de pecar e, por outro lado, corre-se o risco de levar o Estado à falência, dados os enormes custos sociais implicados. Não seria melhor resolver isto, logo à nascença? E porquê adiar o Paraíso para depois da morte? Será que é por comodismo que não se tenta em vida? Será mesmo impossível? Ou será utopia escatológica de pavor moribundo?
Na imagem, os "Quatro Cavaleiros do Apocalipse", de Albrecht Durer.
(a continuar)

UMA POR DIA - CAMINHOS

REDES SOCIAIS

As redes sociais, desde velho hi5 e Menseger, aos recentes Facebook e Twitter, estão a tomar conta do relacionamento interpessoal. A comunicação tornada obrigatória pelos divinos operadoras do moche, em cifra de sms. Em breve estaremos todos ligados em rede atirando mensagens ao espectro rádio eléctrico na busca de interacção. Uma interacção que virá de qualquer lado. Não importa de quem. Pelo menos estamos entretidos naquele fugaz momento de relacionamento impessoal. Temos muitos “amigos” desconhecidos. Sabemos todos onde estamos, onde fomos, as fotografias que partilhamos. Podemos dizer as mesmas alarvidades em conjunto. Podemos rir das mesmas estafadas anedotas. Dizemos banalidades sem ofender. A verdade é que estamos sozinhos, mas acompanhados. Isolados, mas integrados. Somos parte da mesma rede. Da mesma ilusão social.
Sempre tive um complexo negativo relativamente a este tipo de comunicação. Para mim o relacionamento pessoal continua a ser pessoal e intransmissível. Os amigos são os Amigos e falam. Telefonam. Jantam. Fazem confidências. Estão aqui uns para os outros. Estimam-se e respeitam-se. Nas redes sociais saímos e entramos. Dizemos umas piadolas. Ficamos pelo estritamente necessário. Não nos expomos. Não nos agredimos. Não precisamos de gerir os egos mais do que o tempo necessário de um clique.
A net pode ter um efeito perverso: o de criar mais isolamento, dando a ilusão de estar a criar maior ligação interpessoal. Dizemos coisas na net que, provavelmente, nunca diríamos de viva voz. Porquê? Porque o interlocutor é mediado. Muitas vezes nem o conhecemos. O relacionamento virtual oprime o real e, salvo para intenções muito específicas, prejudica a sã convivência.
A viciação na net tem de começar a ser combatida ou a virtualização da amizade determinará que o isolamento seja cada vez mais real.

23.11.09

UMA POR DIA - MUITO LONGE

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (7)

Dito isto, decidimos ir a Compostela por terra e não pelos salvíficos “Caminhos de Santiago” até porque, como disse Buda, “Não podes seguir o caminho antes de te teres tornado no próprio caminho”. Como esse não era manifestamente o caso, fomos pelas óptimas auto-estradas galegas.
Nos “placards” informativos a distância para Madrid aparece sempre apagada e corrigido à mão: “a España xxx km”, prova de uma incontestável atitude segregacionista que nem a “Xunta” da Galiza procura esconder.
A simbologia religiosa da “peregrinação” é a da passagem do homem pela Terra, cumprindo o seu tempo de provas para, no momento da morte, aceder à Terra Prometida, ao Paraíso perdido. O peregrino está de passagem, rumo à cidade ideal. Ao dirigir-se aos lugares santos, o peregrino procura a identificação com Aquele que os santificou. Deve fazer a viagem não no luxo, mas na pobreza, simbolizada no seu bastão de caminheiro: resistência e despojamento.
Foi, aliás, com este espírito que o modesto D. Manuel I, grande devoto do Santo, fez a viagem com séquito faustoso, com todos os requintes de luxo, incluindo alfaiates e músicos. Em Compostela, o rei deixou uma oferta e um desejo, igualmente modesto: uma lâmpada de cinco fogos que deveria ficar acesa permanentemente depois do seu regresso a Lisboa!!! Confesso que não a encontrei.
(a continuar)

UMA POR DIA - LONGE

22.11.09

CARETOS - IV

A origem destas festas dos Caretos é um enigma. Têm, sem dúvida, semelhanças com as antigas Saturnais, Dionisíacas e Juvenálias, mas a sua essência terá origem mais remota. Segundo Mircea Eliade, " uma integração do complexo solar do "ano" e a roda da fortuna na magia e na mística agrária das crenças europeias antigas e do folclore moderno. Este mesmo complexo cultural "sol-fecundidade-herói" reaparece mais ou menos intacto noutras civilizações. No Japão, por exemplo, ele está presente no quadro do cenário ritual do "visitante", em que todos os anos se realiza a visita e grupos de jovens de cara sarapintada, os "Diabos do Sol" que vão de herdade em herdade para assegurar a fertilidade. Um herói solar apresenta sempre uma "zona obscura", a das relações com o mundo dos mortos, a iniciação e a fecundidade. O herói "salva" o mundo, renova-o, inaugura uma nova etapa que equivale, por vezes, a uma nova organização do universo, ou seja, conserva a herança demiúrgica do Ser supremo".
A máscara constitui um aspecto fundamental deste rito. É o símbolo de passagem de um estado de consciência para outro. Facilita ao jovem "romper" a sua persona de adolescente e renascer como adulto. O seu simbolismo está estritamente relacionado com os "seres do outro mundo", sejam antepassados mortos ou divindades e com a passagem das trevas à luz.
Segundo o Bardo-Thodol, as dividades têm uma faceta terrífica que serve para pôr à prova a espiritualidade da alma humana. Nesta perspectiva filosófica, a face "diabólica" de Deus tem uma função iniciática (por isso, muitos rituais mítico-religiosos passam pela invocação e superação do "diabo". É mais uma vez o caso dos Templários).
Bibliografia: "A Alma Secreta de Portugal", de Paulo Alexandre Loução.
NOTA FINAL: Podem ser apreciadas estas Festas dos Rapazes ou dos Caretos, nomeadamente em Varge, Ousilhão, Constantim e Bemposta (Trás-os-Montes).

UMA POR DIA - CORES

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (6)

Tivemos de abandonar os nossos irmãos galegos e combater os vizinhos mouros, única forma de evitar conflitos irremediáveis com Leão e de obter o apoio papal que, de outra forma, não teria sido favorável.
Afastado o perigo islâmico, a Galiza ficou como que esquecida de si própria, sem ideal histórico que justificasse a autonomia. No séc. XVI, Castela esmagou numa última batalha, na região de Lugo, a derradeira resistência galega.
A Guerra Civil de Espanha interrompeu uma incipiente tentativa de restauração linguística e autonómica que a República espanhola parecia disposta a conceder às várias regiões da Espanha.
Na Galiza, tal movimento foi conduzido em torno das revistas “Nós” e “Nossa Terra” e de intelectuais como José Bieito, Vicente Risco, Afonso Rodrigues Castelão, João Vicente Viqueira ou António Vilar Ponte.
Surgiu o movimento Reintegracionista que defendia a fusão com Portugal. Vicente Risco diria: “Portugal representa o triunfo da Galiza ideal”. Rodrigues Castelão iria mesmo mais longe, afirmando: “Desejo, pois, que o galego se aproxime e confunda com o português”
Depois da Guerra Civil, a autonomia ou o Reintegracionismo passou a ser, sobretudo, uma bandeira da esquerda. Só após a queda do muro de Berlim é que o movimento passa a ser transversal, abrangendo tanto elementos da esquerda como da direita, agora unidos na defesa do nacionalismo galego.
A partir de 1992, porém, com a norma ortográfica imposta pela Junta autonómica governada pelo Partido Popular, vence a tese castelhanizante dos “falsos galegos”. Todos chamam a esse galego oficial e escrito o castrapo (uma espécie de língua de trapos).
O movimento Reintegracionista é perseguido e julgado em tribunais. A revolta alastra!
Pensa-se que o número de “lusitas” militantes na Galiza atingirá actualmente mais de 10 000 pessoas.
Mas, será que esta vontade se fica pela cultura e língua ou terá objectivos políticos mais vastos?
(a continuar)

21.11.09

ESTOU FARTO DA III REPÚBLICA

Veja em "Olhar Direito" a minha crónica semanal.

UMA POR DIA - MÁSCARA


Sendim (Trás-os-Montes)

CARETOS III

As celebrações Solsticiais ocorrem a partir de 24 de Dezembro. O problema da desertificação demográfica em todo o Trás-os-Montes, não impede que muitos jovens regressem às aldeias neste período de Natal e Ano Novo. Muitos deles são jovens bem integrados e com sucesso na sociedade moderna que aderem a práticas ancestrais.

À frente desta festividade cíclica estão dois Mordomos, eleitos no ano anterior. Os preparativos começam em Agosto com a contratação do gaiteiro e a reserva do vitelo. A festa começa a 24 de Dezembro, coma imolação do vitelo que servirá para as refeições dos "confrades". A "casa da festa" é exclusivamente frequentada pelos rapazes solteiros da confraria e dois cozinheiros (únicos casados admitidos). Ninguém mais lá pode entrar. Fica um ar de secretismo sobre o que lá se passa. Há praxes nunca divulgadas. A noite de 24 é passada com o ensaio das "loas" (quadras de maldizer, sobre acontecimentos ou pessoas da aldeia). A seguir vão comer. Naqueles três dias de festividades, comem e bebem muito, demais.
Na alvorada de 25, os rapazes assistem à missa ainda sem máscaras. Logo a seguir, saem a correr e vestem os seus fatos de Caretos. A partir daí é o caos. Correm, gritam, berram, agitam os chocalhos, fazem diabruras a toda a gente, têm uma liberdade ilimitada. Um estado quase a raiar a loucura. Começa o cantar das "loas", um conjunto de quadras que exorciza, com o seu maldizer, os rumores da aldeia, trazendo para a luz do dia aquilo que vive na obscuridade. Ninguém os pode levar a mal. De seguida vão de casa em casa, continuando as suas travessuras. São recebidos com bolos e Vinho do Porto. Todos gostam de ouvir os Caretos bater à sua porta. Eles representam a energia do Ano Novo que se quer fértil e abundante.
Para a mentalidade arcaico-solar, o guerreiro é símbolo da energia espiritual que cosmiza o caos, ou seja, aquele que se supera a si próprio, que enfrenta com êxito os estados-limite. Por isso, Marte, deus da guerra, era também uma divindade protectora e agrícola.
À noite realiza-se o jantar na "casa da festa" só com a presença dos membros da confraria e dos cozinheiros. Independentemente do estado alcoólico em que fiquem, no dia seguinte, mal a gaita toque, todos têm de estar presentes. É a ideia de ser posto à prova, uma constante nas Festas de Rapazes.
Dia 26, é o dia dedicado a Santo Estevão (o primeiro mártir do cristianismo e padroeiro dos Rapazes). Há missa solene. Ao almoço elegem-se os Mordomos do ano seguinte. De seguida, os rapazes vão pedir autorização aos pais das raparigas para elas participarem no jantar da noite que se realiza em mesas separadas. A Festa encerra com um baile. Depois de separados por três dias, os princípios masculino e feminino, simbolizados pelos rapazes e pelas raparigas, voltam a unir-se. Ultimamente, em Trás-os-Montes, tem crescido o número de Festas de Raparigas. É provável que elas existissem em tempos pré-cristâos, baseadas nos mistérios de Artémis e nos seus ritos de passagem, e que depois não resistiram ao advento da cultura judaico-cristã...
Bibliografia: "A Alma Secreta de Portugal", de Paulo Alexandre Loução.

UMA POR DIA - AGAROFOBIA

20.11.09

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (5)

Galiza sem marisco é como um jardim sem flores. Muito camarão, lagostim e sobretudo mexilhão cultivado diligentemente em plataformas a boiar nas rias, permitindo acesso fácil e produtividade garantida. O sabor pede águas mais batidas, mas, com aquela cebolada toda, tanto faz. O “pulpo” com colorau está omnipresente, bem como o ”lácon con grelos”… E fomo-nos a eles como Santiago aos Mouros!
O vinho é “albarinho”, em vez de “alvarinho”. E é nesta subtil diferença que, simbolicamente, se resume a separação política, contra-natura, entre Portugal e Galiza que, na verdade, são uma só nação.
Se olharmos para o mapa da Península, à Galiza falta o corpo e a Portugal falta a cabeça. Os povos do Douro ao Cabo Finisterra têm a mesma origem “callaica” e constituíram durante séculos uma comunidade com características próprias e permanentes, com um sentido de unidade e língua comum.
No processo de independência de Portugal, que se iniciou em 1128 e veio a culminar em 1143, a Galiza não nos pôde acompanhar.
A Europa tinha em Santiago de Compostela um local de peregrinação e uma luz de esperança na luta contra o Islão. Era preciso que esse local se mantivesse acessível. Os “Caminhos de Santiago” não poderiam ser cortados por um poder de Leão tornado hostil, em consequência de uma eventual independência de Portugal.
Na imagem, o Cabo Finisterra.
(a continuar)

UMA POR DIA - RAÇAS

19.11.09

CARETOS - 2

Conforme nos diz António Tiza: “Os Caretos, Máscaras, Carochos ou Chocalheiros (os nomes variam consoante as aldeias) surgem como sacerdotes de antigas divindades, ligando o sobrenatural ao natural, louvando os mortos e castigando os vivos. Os Caretos são seres superiores, mágicos e proféticos, gozando de uma liberdade quase sem limites, com a faculdade de castigar, acariciar ou criticar. Ao criticar publicamente os males sociais expurgam a comunidade, purificam-na e preparam-na para o novo ano que se aproxima. Danças, gritos e chocalhadas, são ritos que o mascarado executa no desempenho das suas funções – profiláticas e propiciatórias. Festas de rapazes e dos rituais de passagem: a passagem da adolescência para a maturidade, como nas antigas sociedades secretas masculinas, nas quais os jovens se deviam submeter a determinadas provas. A máscara, obra das suas próprias mãos, é o elemento pelo qual se dá a transformação do jovem em animador, líder, sacerdote e profeta.”
A máscara tem uma enorme carga emotiva. A ligação ao Teatro Grego é óbvia. A máscara (prosopon) dos seus actores deu origem à palavra latina persona, étimo de pessoa e personalidade. A nossa personalidade é composta por inúmeras máscaras que nos dominam e aprisionam o Ser mais profundo. Nos seus fundamentos mais esotéricos, o teatro dá-nos a possibilidade de entender essa relação misteriosa entre o Ser e as personalidades. Entre o “rosto” e as “máscaras”. E a máscara, como todos os poderes, pode ser dominada ou dominadora…
Bibliografia: “A Alma Secreta de Portugal”, de Paulo Alexandre Loução.

18.11.09

UMA POR DIA - BONÉ

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (4)

Foram dois dias a comer e a beber no tombadilho do barco, entremeados de pequenas voltas na parte antiga da cidade, onde predominam as catedrais do marisco, para ganhar apetite e voltar rapidamente a comer e a beber.
Foi óptimo para quem, como eu, não consegue entender o conceito “barco” e que gosta de enfrentar o mar com os pés bem assentes em terra firme.
Para mim, as marinas são locais alienígenas. Um amontoado de cascos, cabos, nós e mastros que custam um dinheirão só para atracar. Passadeiras flutuantes, próprias para estimular o vómito. Bandeirinhas de significado hermético. Sinais cabalísticos. Linguagem exotérica.
Também não percebo como se pode gostar de barcos: espaço confinado; cabeçadas permanentes nas portas; dormidas acanhadas no abafado da noite; convés perigosamente escorregadio; defecações deficientes; banhos racionados; comidas instantâneas; motor sempre desafinado; porcas para apertar; velas para içar; madeiras para envernizar; qualquer coisa sempre para arranjar... Um barco é um “bricolage” permanente!
O tamanho é em pés. A velocidade em nós. Bombordo é esquerda e estibordo direita. Navega-se à bolina cerrada ou folgada, a todo o pano das andainas. Há alhetes, traquetes, mezenas, retrancas e caranguejas. Então e o pau da bujarrona? Pessoalmente, prefiro a verga grande ou, no limite, a verga de joanete. Para quem goste, há ainda os garupés e mastaréus. Isto sem falar do burro de Sotavento e do burro de Barlavento, que ninguém percebe o que andam aqui a fazer. Pior, nas extênsulas chega mesmo a haver adriças. E para quem quiser, há sempre o cesto da gávea para primeiro avistar.
As cordas dos barcos, a que os “marítimos” chamam pomposamente cabos, não se deixam amarrar de qualquer forma. Ele há o nó de cábula; o nó coberto; a emenda da cotovia; o lais de guia pelo seio; a volta de fiel; o nó azelha; o nó trempe; etc, etc…
Enfim, um verdadeiro pesadelo! Suspeito que se alguém disser, “enfia-me a verga grande na retranca, antes que o pau da bujarona se me espete no traquete”, ninguém vai perceber e ainda acaba pendurado no cesto da gávea com uma emenda da cotovia a aconchegar-lhe o pescoço.
Mas, não há dúvida que os barcos nos dão grandes dias de felicidade: o dia em que se compra e o dia em que se vende!
Nota: é mesmo o "iate dos primos".
(a continuar)

BRAGANÇA - ANOS 60




Slides familiares da década de 60. Na 3ª imagem estou eu, o meu avô (fardado) e o meu tio.