31.1.09

AVES DE NOVA OEIRAS - PISCO-DE-PEITO-RUIVO

O pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula) tem 13 cm de comprimento. Alimenta-se de insectos. Nidifica em arbustos. Sobretudo invernante. Alguns permanecem todo o ano. Canto espectacular.
Foto SPEA

TEMPLÁRIOS REVISITADOS - UM POUCO DE HISTÓRIA

IBÉRIA RECONQUISTADA
“Admirai os abismos da sua misericórdia: não é uma invenção estranha e digna d’Ele admitir ao seu serviço homicidas, ladrões, adúlteros, perjuros e tantos outros criminosos e oferecer-lhes por este meio uma oportunidade de salvação? Tende confiança, pecadores. Deus é bom.“ (São Bernardo).

O espírito das cruzadas começa por ser ensaiado na península ibérica.
Enquanto o califado omíada de Córdova se divide em 23 pequenos reinos – taifas – corria o ano de 1031 e os reinos cristãos do norte da península abriam-se ao ardor da Ordem de Cluny e iniciavam a reconquista.
Em 1085, Afonso VI, de Castela, conquista Toledo. Este primeiro grande feito cristão colhe de surpresa os muçulmanos.
O emir de Sevilha, al-Mutamid, não tem outro remédio senão pedir auxílio aos berberes do Magrebe, à tribo dos Lamtuna, que fundará a dinastia dos Almorávidas.
Desembarcados em Algeciras, derrotam os exércitos castelhanos, adiando por um século a reconquista. De facto, os Almorávidas reunificam Al-Andaluz (“Terra dos Vândalos”), acabando com os reinos de Taifas, dando origem a um novo período de progresso social e económico.
Mas o cerco cristão estava montado e as conquistas iam-se sucedendo. Em 1118, Afonso I de Aragão toma Saragoça.
Os Almorávidas, entretanto, perdem a supremacia a favor de uma nova tribo berbere procedente do coração do Atlas e que preconiza a junção do Magrebe e do Al-Andaluz. Os Almohade governarão a partir de Marrakech.
Os cristãos, porém, continuam imparáveis: Portugal, entretanto fundado por Afonso Henriques (em 1143), liberta-se totalmente do jugo muçulmano em 1242, com a tomada de Silves, por D. Afonso III; em Espanha, Fernando III, de Castela, conquista grande parte das cidades da Andaluzia, no séc XIII.
É neste contexto que surge em Jaen (Andaluzia) uma nova dinastia – Nasari – fundada por al-Ahmar Ibn Nasr (o célebre Abenamar), a qual, com sede em Granada, tem o reino reduzido à região de Almeria, Málaga e Granada. Esta dinastia tem ainda o fulgor para construir os palácios da Alhambra, mas cai ai, em 1492, às mãos dos Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela).
O último sultão Nasari, Boabdil, entrega Granada, em condições de capitulação generosas, que cedo iriam ser ignoradas pelos vencedores. Os muçulmanos resistem em táctica de guerrilha, refugiados na vertente sul da Serra Nevada (Alpujarra), até que acabam totalmente derrotados pelo exército de Filipe II (I de Portugal). Em 1610 tiveram lugar as últimas expulsões massivas e a Inquisição entra em força.
Pela primeira vez, na Península Ibérica, o papado e sobretudo a Ordem de Cluny (que funcionava como uma espécie de “inteligência” católica) canalizaram a glória, a bravura e a força do Ocidente contra o Infiel, provando que era possível chegar aos Lugares Santos.
jp

30.1.09

AVES DE NOVA OEIRAS - A CARRIÇA

Inserido no Projecto "Jardim Vivo", dinamizado pela Associação de Moradores de Nova Oeiras, de que faço parte, temos desenvolvido um trabalho de classificação ornitológica das aves residentes em Nova Oeiras ou, das que sendo migratórias, por aqui nidificam ou passam grande parte do ano. Para além disso foram também colocados 30 caixas-ninho, para as espécies com dificuldade em nidificar e uma sinalética espalhada pelo bairro adquada à identificação das espécies. Este trabalho tem sido desenvolvido em colaboração com a SPEA (Sociedade Portuguesa Para o Estudo das Aves), indispensável na área científica, e tem o apoio da Junta de Freguesia de Oeiras. Este ano vamos tentar editar um livro com as ilustrações e bilhete de identidade de cada espécie. Neste momento estão identificados 31 espécies. Por antecipação, aqui vos deixo, em primeira mão as fotos. Uma por dia.
A carriça (Troglodytes Troglodytes), na foto, tem 9 cm de comprimento. Alimenta-se de insectos. Faz o ninho em arbustos. Residente todo o ano. Uma das aves mais pequenas da Europa.
Foto SPEA

UM DIA PARA ESQUECER III

Eram oito da manhã de uma noite dormida em sobressalto, com sonhos povoados de bambis a conduzir na contramão e a gritarem "Não tenho resisto, não tenho resisto", perseguidos por ciganos com máscaras de gatos e carregados de dores de cabeça, tentando o "carjacking" consecutivamente, quando ouvimos o miar aflito da gatinha na varanda do nosso quarto. Estafada e mal dormida, não tinha sido raptada. Entrou. Comeu e está a dormir há 10 horas. A dor de cabeça passou. O cigano não voltou, nem "resistou". Só a chuva teima em cair. Um dia para recordar!
jp

UM DIA PARA ESQUECER II

Engulo uma sopinha de feijão à pressa. Corro à Câmara Municipal. A reunião fora remarcada para as 16h. Um bando de arquitectos à volta de uma mesa. Sala interior, super aquecida. Calor húmido. Cabeça cada vez pior. Discute-se a atribuição de um prémio anual de reconstrução arquitectónica aqui no bairro. Só há um candidato. Três horas de discussão intensa sobre critérios, licenças, paciências e excrecências. Alto, a canditatura entrou fora de prazo. Debandada geral. Cabeça, reconduzida à expressão mais simples, agita-se em convulsões devastadoras. Arrasto-me molhado. Farmácia. Urgente. Mais um migraleve (não haverá disto em pesado?). Telemóvel. Filho... Cigano vem de reboque buscar o carro às 10 da noite. Conversa estonteante sobre responsabilidade civil e criminal. Sobre os bens sujeitos a registo. Sobre matéria de prova e tribunais. Sobre os poderes do Estado... Coisa muito avançada que me deixa à beira do esgotamento cerebral. A paranóia do "resisto" aumenta e dor de cabeça também. Adormeço a ver a crise no telejornal. Telemóvel. Filho... Cigano está atrasado. Afinal já não trás reboque. Vem com um rapaz com a "carta seguarada"!!! O que é isso. Sei lá. Mais paranóia. O mais certo é o carro ir direito para o "carjacking". Não pára de chover. Chega o cigano. Fotocópias. É pá se não fazes o registo amanhã... faço eu e pagamos duas vezes! Faço, faço, mas estão a desconfiar ou quê? Não, não é só por seres cigano, ó meu (esta parte foi censurada e não chegou a ser proferida). Grande confusão no portão. Cabos para carregar a bateria. Carros mal estacionados. Luzes acesas. Pumba, pára a polícia. "Então o que se passa". Enquanto eu o despacho, o polícia fala comigo mas não tira o olho do cigano. Começo a perceber a angústia dos palestinianos. Estou quase a dar asilo político a este. O pior são os "resistos". Cigano e seu séquito despedem-se à pressa. Fiquei com a impressão que não gostam da polícia. Mas foi só impressão! Continua a chover. A cabeça a doer.... Pronto, agora já está. Seja o que Deus quiser! Ainda tenho de postar... Ufff! Onde está a gata? A minha gatinha? Busca pela casa. Nada! Fugiu? A chover assim? Vou para a rua... "Bsh, bsh, bshhh... Nada! A minha gatinha preferida. A esta hora costumamos estar na marmelada no sofá. Onde está a gata? Nunca fez isto. Mais paranóia. Será que entrou para o carro do cigano...?
jp

UM DIA PARA ESQUECER I

Uma noite passada num jantar de amigos a escalpelizar o efeito da história do Bambi nos traumas de infância. Deitar tarde. A cabeça em enxaqueca acorda de manhãzinha a implorar aspirinas. Tropeço nos chinelos. Não sei das aspirinas. Volto para a cama. Cabeça a latejar. Viro-me e reviro-me. A cabeça não pára. Toca o telemóvel. Nove e trinta. O meu filho que o carro dele lá em baixo vem agora ver 800 euros por causa do anúncio querem comprar. Pois que ele tem de ir não sei quê... Não sei! Estou muito doente. Não posso. Dói-me a tola. Deve ser do Bambi. Mas sim, qualquer coisa. Quando? Tenho de estar na Câmara às duas. Não posso. Mas ele que venha mais cedo. Viro-me. Pego no sono atormentatado. Onze e trinta. Telemóvel. Cabeça. Filho. Carro. Homem. Vender. Oportunidade. Já vou. Cabeça. Quando? Novo sono atormentado. Meio-dia. Expulsam-me da cama. Duas aspirinas um migraleve. Café duplo. Cabeça. Filho... Chega o comprador. Sai-me um cigano de um Renault Laguna, daqueles com patilhas à maneira. Daqueles a quem tu nunca comprarias um carro em segunda mão. O problema é que eu nao ia comprar... ia vender. Esta equação invertida percorreu a enxaqueca até estalar nas fontes. Mais um migraleve que aspirinas é para Bambis. Filho discute preço. Eu desconfio. E se.... e se... e se... ele não regista a propriedade? Uhm? Declarações. Fotocópias. "Ó amigo, mas está a desconfiar?". Duas horas. Telemóvel. Não já não posso ir. Reunião da Cãmara adiada. "A vareta do óleo tem água", diz o comprador, cada vez mais cigano. Pois, por mim até podia ter vinho. Sei lá o que é uma junta. E muito menos queimada. Cabeça, pum, pum pum. A chuva continua a cair. Agora também vento. Telemóvel. Sim, não, ah, pois... Era engano. "Não dou mais do que 500". Começa a meter dinheiro vivo na mão do meu filho. "Setecentos". "Mas queres que eu perca dinheiro. E os "resistos"?". Incompreensivelmente, o cigano e o meu filho começam de repente a tratar-se por "tu", como se fossem amigos de infância. "Seiscentos". E volta a contar um pacote de notas. "Não", diz o puto já quase cigano. E que sim. E que não. Mais notas contadas. Apático e abúlico contemplo a cena com alheamento paranóico. Já só quero os "resistos". Sair dali. Qualquer coisa! "Seicentos e sessenta e não se fala mais nisso". "É pá tu és bom negociador". Este o último truque para envaidecer o meu filho. Negócio fechado. Paranóia instalada: e os "resistos"?
jp

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO VI
No dia 20 de Agosto, Arnaldo despertou às quatro horas da matina, emborcou um rosé fresquinho, com dois nacos de folar de chouriço. Della já tinha a máquina a aquecer. Um velho “Sinca Aronde”, de 1955. E lá seguiram pela estrada fora, rumo a Alcobaça. Arnaldo há séculos que tinha a carta de condução apreendida, desde que provocara um gravíssimo acidente na recta do Dafundo, na euforia comemorativa da “Restauração”, na própria noite de 1 de Dezembro de 1640.
Arnaldo escolhera aquele dia por ser feira na vila de Alcobaça. Vinte de Agosto é o dia da morte de S. Bernardo. Dia de confusão. Ningém ia reparar nele. Para melhor se disfarçar, vestiu-se de romeiro. Enganou-se de século...! Toda a gente o olhava com estupefacção.
Entrou no Mosteiro pelo arco quebrado em sete arquivoltas lisas. Cheiro a insenso insuportável. No lado esquerdo do transepto um puto, de calções e camisa branca, repetia até à exaustão uma versão apopalhada do “misereri nobis”, numa organeta “Farfisa”. Arnaldo percorreu as três naves iluminadas pela rosácea da fachada ocidental. Deambulou pela charola. Penetrou as nove capelas radiais. Procurava a entrada secreta para o scriptorium. Lá no alto, as abóbadas em ogiva olhavam-no com suspeição. Passou os túmulos de Afonso II e Afonso III. Comoveu-se com os restos de paixão de Pedro e Inês.
Subitamente, lembrou-se…! A ábside tem três andares. O primeiro andar é constituído por grossas colunas em que assentam arcos pontiagudos. Por trás da quinta coluna, uma discreta cruz orbicular. Arnaldo premiu o centro. A laje lateral abriu-se...
Lá dentro, obscuridade à luz de tochas. Velas crepusculares iluminando dezenas de estiradores desertos. Um latagão, em traje beneditino, saltou-lhe ao caminho. Olhos vesgos, um verde, outro azul. Cara disforme de bexigas. Lábios lepurinos. "Tu nã poteres entrato. Tu malenobis. Vatemecum... Vatemecum". A boca exalava um tremendo fedor, próprio das línguas francas. Agarrou Arnaldo com braços possantes. Arnaldo aplicou-lhe três golpes de "karate"... Ineficaz. Dois pontapés nos tomates... O homem era eunuco. À beira do estrangulamento, conseguiu tirar do bolso o saca-rolhas que sempre o acompanhava. Espetou-o no olho verde, enquanto o azul gritava de dor. O monstro caiu perplexo, arrastando consigo a tocha mais próxima, que incendiou dezenas de rolos em papiro espalhados pelo chão.
Arnaldo recompôs-se num ápice. Na sala enorme, apenas uma mesa estava ocupada. Lá ao fundo um monge centenário, vestido de branco, com uma faixa castanha atravessada no hábito, desenhava iluminuras indiferente a tudo.
Arnaldo avançou. O homem olhava em frente sem ver... Era totalmente cego. À sua frente, espalhados pela mesa, centenas de desenhos acumulados representando abóboras amarelas, abóboras de carne branca, a abóbora de carneiro e a abóbora porco, abóboras moganga, abóboras quaresma e o próprio zapalito de tronco.
Arnaldo perguntou-lhe ansiosamente: "Mestre, depressa, onde está o "Grande-Livro"?... Nada! O homem não se mexia. Continuava a pintar cucurbitáceas umas a seguir aos outros. "Mestre, mestre, o "Livro", depressa, onde está o "Livro"... Nada! O homem, além de cego, era definitivamente surdo.
O fogo alastrava. A biblioteca era agora uma caixa de fósforos. Os livros ardiam como piras funerárias. O hábito do monge começava a arder. Ele sorria... Finalmente libertava-se para ascender ao céu. Arnaldo nada podia fazer. Correu para se salvar... E assim morreu Alexandre, o último "monge de Cister".
Nada restou. O "Grande Livro" ardeu com toda a biblioteca...
jp

28.1.09

EM BUSCA DO SOMA PERDIDO

O Éden era um jardinzinho amoroso onde tudo era permitido, até que um dia… uma mulher (sempre elas) comeu o ”fruto proibido”. Um fruto que deu aos pobres hominídeos acesso à ”Árvore do Conhecimento“. Há antropólogos que defendem ter sido o consumo sucessivo desse fruto que nos aumentou a capacidade craniana para os actuais 1500 cm3, dada a dimensão da pedrada, tornando-nos animais racionais (!?).
O certo é que os Deuses tiveram medo que o Homem atingisse a “Árvore da Vida”, conquistasse a Verdade Absoluta e garantisse a imortalidade… Expulsaram-no do Paraíso!
Esta triste estória aparece em todas as mitologias, crenças e religiões, curiosamente apontando para uma mesma data: por volta de 10 000 a.C., época de grandes cataclismos planetários, científicamente comprovados, que poderão ter por base a queda de um enorme asteróide na zona das actuais Antilhas, Florida e Carolina do Sul e a que alguns atribuem o desaparecimento da mítica Atlântida, de Platão, que teria sede em Cuba.
É a nostalgia do paraíso perdido. Uma época de ouro desaparecida. Uma época de abundância, parceria e equilíbrio social.
O “fruto proibido”, esse de certeza não era uma maçã. O que seria? Provavelmente um preparado de um ou vários cogumelos alucinogéneos: talvez o “Amanitas moscaria” (conhecido por “visgo da mosca”) ou o “Stropharia cubensis”, rico em psilocibina e abundante no estrume das vacas (será por isso que são sagradas na Índia…?).
A expulsão do paraíso e o fim da comunhão com a Terra-Mãe marca o começo da cultura masculina e dominadora, coincidindo com o início da nossa Era.
Curiosamente, o código básico da ”civilização ocidental”, o Génesis, começa com o relato da primeira rusga de droga. É só ler os versículos 3.6 e 3.22. Está tudo preto no branco.
Diz o versículo 3.6: “Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto, e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido que estava junto dela e ele também comeu. Então abriram-se os olhos aos dois…”.
E o versículo 3.22 acrescenta: “O Senhor Deus disse: «Aqui está o homem, que pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da Árvore-da-Vida, comendo do qual viva eternamente.» O senhor expulsou-o do Jardim do Éden (…) Depois colocou, a leste do Jardim do Éden, querubins armados de espada flamejante, para guardar o caminho da Árvore-da-Vida”.
Pois é, maçã é que não era! Qual é a maçã que faz abrir os olhos aos dois e esclarece a inteligência?!

A expulsão do “Jardim” por um Jeová rancoroso e inseguro coincide com modificações climatéricas que ocorreram entre 12.000 e 9.000 a.C. e que transformaram os férteis planaltos do Sul da Argélia, e mais precisamente a zona de Tassili-n-Ajjer, no actual deserto do Sahra. Os anjos flamejantes que guardam a Árvore da Vida parecem ser um símbolo implacável da violência do Sol do deserto que passou a existir naquela região de abundância.
Nas grutas de Tassili-n-Ajjer, há pinturas rupestres com mais de vinte mil anos. Descrevem Xamãs com cara de abelha, dançando com punhos cheios de cogumelos.
Com o avançar do deserto, os povos pastoris de Tassili-n-Ajjer começaram a deslocar-se para “leste do Paraíso”, levando consigo a “cultura dos cogumelos”, Ásia Menor acima, até ao “caldeirão” indo-europeu, algures a Norte do Irão, pegando-lhes a moda da “Grande-Pedrada”.

O Soma deve vir desta tradição de cogumelos rituais, receita cada vez mais hermética, dominada pelos brâmanes arianos, vindos do Irão que a usaram como arma do poder de casta. Com os milénios, a receita foi-se deteriorando, até se perder.
A “pedrada” deixou de ser religiosa e passou a ser recreativa, mas nunca mais deixámos de procurar o “fruto proibido”, nem que seja na uva fermentada.
Acho que todos perceberam porque bebemos. É a nostalgia do Soma. Saudades do conhecimento perdido. Busca da Árvore da Vida… Imortalidade… Divindade!
Deus é um cogumelo!
in "Turista Ocidental" de Jorge Pinheiro.

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA

Festival de Jazz de Cascais de 1981. Quem é?
Fotografia Roberto Barbosa.

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA


Phil Woods no Festival de Jazz de Cascais, em 1974.
Fotografia Roberto Barbosa.

ANTOLOGIA ROBERTO BARBOSA

Dizzie Gillespie no primeiro Festival de Jazz de Cascais, em 1971.
Fotografia Roberto Barbosa.

27.1.09

EFEMÉRIDE - PEDRO II "O PACÍFICO"

Em 27 de Janeiro de 1668, D. Pedro, com esta cara e tudo, é jurado, pelas Cortes de Lisboa, regente e herdeiro do seu irmão Afonso VI, entretanto aprisionado no seu quarto. Poucos meses depois, D. Pedro casa com a mulher do irmão, Maria Francisca de Saboia, cujo casamento, por alegada não consumação, fora anulado com suspeitosa rapidez. O rei Afonso é removida para a ilha Terceira, nos Açores, e novamente trazido para o Palácio de Sintra, onde os seus passos ficaram marcados no chão do único quarto que conheceu até à morte (1683). A verdade é que Afonso era hemiplégico, doença que lhe afectava parte do corpo e também o raciocínio. D. Pedro teria sido forçado ao golpe palaciano. A sua regência durou até à morte do irmão. Só então foi rei.
Com ele se consolida a independência face a Espanha, com a assinatura do Tratado de Madrid (1668) que põe fim às guerras post-Restauração (daí o cognome). Mas foi alto o custo dessa paz. Os "amigos" ingleses obrigaram à assinatura do Tratado de Methwen (John Methwen, embaixador inglês em Portugal), com a concessão de isenções fiscais totais aos lanifícios ingleses. A indústria textil portuguesa entrou em estagnação. Além disso, cedeu aos ingleses Tânger e Bombaim. Seria o princípio do fim do Império Asiático português, já muito desgastado com as pilhagens holandesas. Portugal, em termos de política europeia, voltou a ficar na órbita inglesa. A viragem para o Brasil foi a solução, ajudada pela descoberta de gandes filões de ouro em Minas Gerais que, no entanto, só viriam a ser explorados com o seu sucessor, D. João V.
D. Pedro II era "... de estatura grande,... sua pessoa, vista entre outros, naõ podia deixar em dúvida que era real,... Jugou as armas com grande perfeição, e destreza,... no arriscado, e muito difícil exercício de correr Touros, excedeo a todos do seu tempo"
jp

26.1.09

SEM COMENTÁRIOS




AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO V
Ainda arrelampado de tantas emoções, Arnaldo, tropeçou escada acima, irrompeu no escritório e aterrou de borco na cama. “Della, filha, anda cá tomar umas notas”. A secretária executiva entrou já sem soutien. Àquela hora da tarde Arnaldo gostava de brincar com as lombas enquanto raciocinava. E se mais brincou, melhor raciocinou.
Arnaldo passou pelas brasas… Sonhava com abóboras meninas e carruagens de Cinderela. Onde já teria ouvido falar daqueles rituais. Acordou sem ter dormido. Na memória, uma abóbora coberta. Levantou-se de supetão… O “Grande Livro das Cucurbitáceas”… Biblioteca de Alexandria… O Farol... Ptolomeu Auleta… Quanto tempo… Tudo destruído. Onde estaria agora o livro que poderia desvendar o mistério? Abóbora coberta... abóbora coberta... compotas “Cister”. Alto! Na penumbra do quarto fez-se luz: se ainda existisse, o “Grande Livro” só poderia estar em Alcobaça.

Arnaldo comprou a obra completa de São Bernardo de Claraval, em três volumes com magníficas ilustrações a cores. Passou quinze dias a esgotar a matéria, sentado na mesa do costume, encharcando-se de tinto templário vindo expressamente de Monsaraz, enquanto Della lhe descascava a fruta.
O pior foi quando descobriu que, em Portugal, já não havia monges de Cister. A Ordem fora definitivamente extinta em 1880. Os últimos mosteiros eram femininos... Odivelas, onde ainda hoje se ensinam virtudes e marmelada às filhas dos coroneis.
O mosteiro de Alcobaça, fundado em 1153, era só homens. A Ordem de Cister era reputada pelos seus conhecimentos agrícolas. Uma Ordem de agrónomos, a quem os reis davam pântanos, para transformar em terra arável. Arnaldo entreviu monges solitários usando o fruto sem pecado. Adão tinha falhado com a maçã. Alcobaça percebera a mensagem divina: cada um com sua abóbora. Foram eles que introduziram as famosas conservas de fruta e, está claro, a provocante “abóbora coberta”. Em 1833 o mosteiro foi saqueado, na voragem do liberalismo vintista. Hoje o mosteiro subsiste como asilo de inválidos, um conjunto de repartições concelhias e relíquia para turistas, no vislumbre do passado...! Nunca mais houve cistercienses em Portugal.
Mas, Arnaldo sabia que os monges nâo eram só lavradores. No mosteiro havia uma rica biblioteca. Era lá que estava depositado o cartório real e os famosos “Códices Alcobacenses”. Arnaldo lembrava-se bem da visita que fizera ao mosteiro, acompanhando o séquito de D. Dinis, aquando do lançamento da primeira pedra no pinhal de Leiria. Fora então que Arnaldo entreviu o ”Grande Livro das Cucurbitáceas”, esse pergaminho sagrado, desaparecido desde a destruição da biblioteca de Alexandria.
(continua na 6ª feira)
jp

OS MÍTICOS EPHEDRA


Desenho de José Maria Tavares Rosa.

PHIL MENDRIX

LIÇÃO

AQUELA MÁQUINA

A JOVEM AMÉLIA

24.1.09

OLHAR A SEMANA - TOMADA DE CONSCIÊNCIA

Veja no blogue "Olhar Direito" a crónica da semana.

COISAS DA QUINTA





TEMPLÁRIOS REVISITADOS - UM POUCO DE HISTÓRIA

A CRISTANDADE EM MARCHA
“A cristandade, renegando o fruto da carne, imaginando-se concebida sem pecado, leva o Ocidente e edificar-se sobre uma contradição fundamental, sobre um dualismo maniqueu dissimulado pela Redenção e não deixa aos fiéis outra saída que não seja a hipocrisia ou o heroísmo…” (Jean Duché, “História do Mundo”).

No séc XI, a autoridade papal estava enfraquecida: os reinos ocidentais não cessavam de se guerrear; uma série de eventos catastróficos e de superstições relacionadas com o fim do milénio enfraqueciam a fé … Havia que galvanizar os povos ocidentais numa missão comum… que, já agora, serviria também propósitos económico-expansionistas.
Foi assim que surgiu a peregrinação ao Santo Sepulcro, como panaceia para todos os males e redenção das almas!
Como já vimos, Jerusalém sempre foi a pátria simbólica do cristianismo[1]. Mas, primeiro havia que reconquistá-la aos “infiéis”.
Num dia frio de Novembro de 1095, no Concílio de Clermont, o papa clunisiano Urbano II lançou um grito que iria despertar toda a cristandade: “Deus o quer! Deus o quer! Deus o quer! Que cada um renuncie a si mesmo e se encarregue da cruz!”
Este clamor abre a epopeia das Cruzadas e proclama também o destino do Ocidente: eis o imperialismo missionário.
Em 1095, o Sol passa a erguer-se a Ocidente, fenómeno a todos os títulos notável e que ainda perdura no séc. XXI!
Na época das cruzadas, o mundo árabe, da Espanha ao Iraque, é ainda, intelectual e materialmente, o depositário da mais avançada civilização do planeta. Depois, o centro do mundo desloca-se resoluta e inexoravelmente para Oeste.
As cruzadas marcam também a fractura entre esses dois mundos, que ainda hoje perdura. Quando Ali Agca dispara, em 1981, sobre o papa, explica o seu acto: “decidi matar João Paulo II, comandante supremo dos cruzados…”.

Enquanto os cruzados se inflamam com a libertação dos Lugares Santos, Urbano II, como grande político que era, pensa que a ocasião é própria para simultaneamente, apagar o cisma da Igreja Grega (ortodoxa), consumado quarenta anos antes (em 1054).
O momento é bem escolhido: os árabes estão divididos e enfraquecidos; os bizantinos tinham pedido auxílio ao Ocidente, face à ameaça turca.
O Povo do Profeta perdera o controle do seu destino. Desde cedo dividido por querelas religiosas e dinásticas (a que já nos referimos), é, a partir do séc. IX, dominado por estrangeiros.
De facto, o califa de Bagdade, “Príncipe dos Crentes” da ortodoxia Sunita, mais não era do que um símbolo e um fantoche nas mãos dos Turcos Seljúcidas[2], que vindos da Ásia Central e posteriormente islamizados, dominavam efectivamente todo o Médio Oriente e a Pérsia.
O sultão turco de Bagdade, “protector” do califa, era, teoricamente, o soberano de todos os príncipes da região. Porém, na realidade, cada província do império Seljúcida é mais ou menos autónoma e os membros das famílias reinantes estavam totalmente absorvidos nas suas querelas dinásticas.
No Egipto reinavam os Fatímidas (chiitas), os quais, em vez de apoiar os seus irmãos sunitas de Bagdade, teriam mesmo, segundo o historiador árabe Ibn al-Athir, um pacto de não agressão com o basileus Aleixo Comneno, imperador romano do Oriente, e estavam interessados em que os Franj (nome dado pelos árabes aos cruzados) atacassem e tomassem a Síria, estabelecendo uma zona tampão entre si e os Seljúcidas.

A acrescer a toda esta divisão e interesses divergentes, não pode ignorar-se a instabilidade permanente provocada pela seita político-religiosa, porventura mais bem organizado e mais temível de todos os tempos: os hachishin[3].
Fundada em 1090 por Hassan as-Sabah, ”o velho da montanha”, esta seita defende o regresso ao chiismo em todo o Islão. Nesse sentido desenvolve um plano secreto com os Fatímidas do Egipto e vem instalar-se na Síria, onde através do terrorismo e de uma rede de espionagem impressionante, desestabiliza toda a região.
A partir da fortaleza inexpugnável de Alamut (“ninho de águia”), perto do mar Cáspio, Hassan dirige a sua organização com uma disciplina fanática, exigindo uma obediência cega: o assassínio é a arma política utilizada.
O atentado deve ser o mais público possível, (muitas vezes à 6ª. feira, nos locais de culto). Para Hassan, o assassínio é uma dupla lição: castigo para a pessoa executada; sacrifício heróico do executor (fedai ou “comando suicida”), o qual era abatido no local sem oferecer resistência, assim ingressando imediatamente no Paraíso (…é o tal dogma corânico da “jihad”, levada ao extremo).
Hassan e os seus continuadores lançam os reinos turcos uns contra os outros, infiltrando-se entre os conselheiros dos reis e não hesitando em se aliar com os reinos cristãos, constituídos após as primeiras cruzadas, numa estratégia subversiva e deliberada de tomada do poder[4].

Deve ainda salientar-se o apoio que os cristãos existentes na região (em especial os Arménios) terão seguramente dado aos cruzados, com a sua ferocidade e o seu fanatismo (há provas irrefutáveis e confessadas de canibalismo, com intuitos intimidatórios) e alguma supremacia técnico-militar, quer em termos de organização, quer de equipamento (utilizam armaduras, por exemplo).
Finalmente, e a partir de 1218, as invasões Mongóis, de Gengiscão e seus descendentes, deixam os muçulmanos numa tenaz, tanto mais que os invasores asiáticos se aliaram várias vezes com os reinos cristãos estabelecidos, contra os reinos árabes.

Só perante toda esta situação é explicável que tão poucos cristãos pudessem triunfar sobre milhões de muçulmanos e com tanta rapidez…
A verdade é que, após uma expedição que começa em Niceia (curiosamente, a mesma Niceia do Concílio), na batalha de Civitot, em 1096, este primeiro grupo de cruzados acaba por tomar Jerusalém logo em 15 de Julho de 1099, após quarenta dias de cerco!
Na sua sequência caem novas praças fortes e cidades.
Entretanto, novas vagas de cruzados vão chegando à Palestina, reforçando posições e fazendo novas conquistas.
Em pouco tempo os Franj deixam de ser considerados meros invasores e passam a fazer parte do xadrez político da região…
Vários reinos muçulmanos se aliam ou pedem ajuda a estes novos reinos cristãos, para combater outros reinos muçulmanos, adiando, assim, a jihad e a expulsão dos Franj.
Esta só viria a ser consumada pelos Mamelucos (do Egipto), com a tomada de Acre, em 17 de Junho de 1291.
[1] A menção de Jerusalém na Bíblia é entendida, na Idade Média, em vários sentidos: historicamente, é a capital dos judeus; alegoricamente, representa a Igreja de Cristo; moralmente, simboliza a alma humana; analogicamente, eleva para a cidade celeste.
[2] A origem dos Seljúcidas está envolta em mistério. O epónimo do clã, Seljuk, tinha dois filhos, Mikael e Israel, o que deixa supor que a dinastia que unificou o Oriente muçulmano era de estirpe cristã ou judaica. Após a islamização mudaram os nomes. Por exemplo Israel passou a Arslan.
[3] A forma de actuação dos membros da seita levou a acreditar que na altura dos atentados estariam drogados com haxixe, o que poderá ter dado origem ao nome haschishin, depois exportado pelos cruzados para a Europa sob a forma de “assassinos”. A tese do haxixe não está, porém, comprovada, havendo quem admita que o nome da seita deriva do fundador Hassan…Outros, consideram que a palavra “assassine” significa guardião e que a seita teria uma componente esotérica “comparável” aos Templários (voltaremos a este tema).
[4] Alamut é destruída pelos Mongóis em 1257. Desde então a seita perpetuou-se sob uma forma o mais pacífica possível: os ismaelianos, adeptos do Aga Khan, que, em bom rigor, é o sucessor em linha directa de Hassam as-Sabah.
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23.1.09

OBJECTOS I

OBJECTOS II

OBJECTOS III


AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO IV
No dia seguinte levantou-se pela fresquinha, disposto a tirar aquilo a limpo. Vestiu-se a rigor, sem esquecer a gabardina, embora a previsão de 40 graus não fizesse adivinhar chuva. Levou o equipamento indispensável: uma câmara de video; binóculos infra-vermelhos; o canivete suiço e a habitual Beretta.
Escondido dentro da casca de uma cucurbita-major-rotunda, prepara-se para esperar. As horas passam. Perto das onze, o calor quase o deixava em estado de coma. Ao meio-dia em ponto os canaviais agitam-se. Vindos do rio, dezenas de rapazes à beira da puberdade, com estranhos fatos às tiras e máscaras de madeira. Cada um transportava uma placa de xisto prateado que depositou no chão, ao Sol ardente. Depois, colocam uma abóbora-menina em cima da placa de xisto. Deixam-na subir aos 37 graus. Um corte rápido na tampa traseira. Correm para trás das moitas, num evidente ritual sexual de desfloração precoce.
Arnaldo saltou do esconderijo. Correu ágil. Apanhou em flagrante um violador menos experiente. Apontou-lhe a pistola. O rapaz despejou tudo... A montante do rio Liz mantinha-se irredutível uma tribo esquecida entre canas da Índia e sacos plásticos do “Supermarché”, chefiada por um velho coronel que se dizia descendente do troglodita Viriato.
Arnaldo obrigou o moço a conduzi-lo à aldeia perdida. Entraram numa chata abandonada e lá foram remando por esse rio acima, rodeados de coliformes fecais do tamanho de enguias e espumas borbulhantes de odor fatal. O rio ia-se fechando sobre si próprio. Freixos, salgueiros pendentes, eucaliptos monstruosos, figueiras retorcidas sugando o leito do rio. O Sol escondia-se no medo da obscuridade. Ao longe, avistam-se aldeias típicas em cimento cru, lusalite e chapa de zinco: Pouso, Arrabal, Caranguejeira, Espite... Subitamente, numa curva à direita, o rio torna-se brumoso. Na margem, fogueiras dispersas. Adivinha-se um clamor silencioso. O rapaz dirigiu a barca por um braço do rio. Na praia fluvial, centenas de jovens machos em tronco nu, máscaras de "caretos" e longos varapaus. Atrás, uma rocha escarpada. No alto, a estátua magestática do deus Endovélico, encimando uma escadaria tosca, ladeada por “porcas de Murça”, protegendo o altar sacrificial manchado em tons de cor de laranja.
Um coro estridente de gaitas de foles abriu alas. O coronel emergiu do nevoeiro. Cara pintada de azul e branco. Ao peito uma suástica flamejante. Cerrada pronúncia de Bijeu. Convidou Arnaldo para uma cabana palafita. “Xei que bieste p`ra me matar. Não tenho medo. A morte é uma xerteja… A bida uma dúbida” Tu, Arnaldo, éjs um amado pelojs deujes. Por ixo te respeito e te dou hojpitalidade. Maj que xabes tu dajs abóborajs? Nada! É o xolstíxio dos rapajes. Ali perdem a birgindade. É um ritual maijs belho cumundo. Só Deuje xabe. Eu xou apenaj um xaxerdote. Maj, em berdade te digo, p`ra quê mulherejs de perna longa. Ficam vem najs fotografiajs, maj na cama oqueque fajes a tanta perna?”
Arnaldo percebeu o ponto de vista. Deixou a tribo entregue ao seu destino e regressou escoltado por carpas artificiais produzidas em Taiwan e lampreias de borracha made in Coreia.
(continua na 3ª feira)
jp

22.1.09

DAVID CERNY

David Cerny, autor da polémica escultura "Entropa" encomendada pela presidência Checa e exposta em Bruxelas, comprometeu-se a reembolsar as verbas que lhe haviam sido atribuídas pelas autoridades checas. O artista reconheceu ter enganado o governo do seu país ao realizar sozinho a obra em lugar de, como estava previsto, apresentar uma obra colectiva assinada por 27 artistas dos 27 países da UE. Vai assim ter de devolver os 75 000 euros de subsídio, mais as verbas de transporte, 50 000 euros. Não se sabe se vai também devolver os cerca de 400 000 euros recebidos de mecenas privados.
A falsificação de 27 curricula que entregou junto com a obra parece remeter-nos para um caso de polícia. No entanto, a verdade é que o escultor pensou (e provavelmente bem) que era impossível dar coerência a uma obra repartida por 27 autores. Depois, também não seria nada fácil fazer contas com aquela rapaziada toda... ainda por cima artistas. E os prazos? Bom, nem quero pensar. Cada um a atrasar-se, à espera uns dos outros e a apresentar justificações sucessivas! Uma ideia peregina só possível numa mentalidade eurocrática perdida nos consensos da comitologia. O artista, na sua objectividade criativa, resolveu o problema de forma expedita: falsificam-se uns CV e já está! Ainda por cima a peça tem piada. Tinham de vir os polacos e os búlgaros com a sua tradicional falta de sentido de humor estragar a festa! Espera-se agora que, no mínimo, a publicidade dada a este caso possa compensar o artista dos danos directamente emergentes e não lhe retire lucros cessantes.
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PAISAGENS AQUÁTICAS



MELHOR VARAL 2008 - JOÃO MENÉRES

Em nome do Roberto Barbosa quero agradecer a todos os que votaram na fotografia candidata ao melhor Varal de 2008 no blogue “Varal de Ideias”. A fotografia do Roberto obteve 53 votos. Com 78 votos ganhou a fotografia de João Menéres a quem quero dar sinceros parabéns. Uma fotografia tecnicamente perfeita, esteticamente equilibrada e plena de ironia. Ao Eduardo, os meus agradecimentos pela oportunidade de participar nesta final, ainda que indirectamente.
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ESTÁCIO DE SÁ

Não tendo sido colonizada pelos portugueses nos anos que se seguiram à descoberta do Brasil em virtude da hostilidade dos indígenas Tamoios, a baía de Guanabara foi ocupada por colonos franceses, sob o comando de Nicolas de Villegagnon. Ali tentaram instalar a “França Antártica” (1555-1567). A expedição e instalação francesa tiveram o apoio muito directo do ministro Gaspar Coligny. A instalação inicial deu-se na ilha de Serigipe, onde foi construído o Forte Coligny, estendendo-se depois para terra, ocupando a zona entre a actual praia do Flamengo (onde desagua o Rio Carioca) e o outeiro da Glória. Aí, os franceses iniciaram a construção de uma cidade, Henriville, em homenagem ao rei Henrique III e que poderia vir a servir de refúgio aos protestantes huguenotes perseguidos em França. Cidade rudimentar que logo foi destruída pelos portugueses, dela não há vestígios hoje em dia.
A 22 de Janeiro de 1565, Estácio de Sá, com mandato da regente portuguesa D. Joana de Áustria (na menoridade de D. Sebastião), embarca da praia de São Vicente, alguns quilómetros mais a norte, como uns mamelucos e uns quantos tupiniquins e ataca os franceses que acabam expulsos. Seria o fim do devaneio francês e o princípio da “cidade maravilhosa”. A 1 de Março desse ano, Estácio funda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (em homenagem ao príncipe português) em terreno plano, ali entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde constrói uma paliçada (actualmente Fortaleza de S. João). Estácio morre dois anos depois na batalha de Uruçu-mirim (praia do Flamengo) ferido por seta indígena dos Tamoios que lhe vazou um olho e terá originado uma septicemia.
Desses tempos heróicos nada resta. A cidade cresceu sobre terra dos tupiniquis, dos tamoios e dos tupinambás. No séc. XVIII surgiu o caminho que do centro da cidade segue a São Cristóvão, através da Rua Matacavalos (actual Rua do Riachuelo), passando pela Estrada de Mata-Porcos, hoje Largo do Estácio, onde ainda podemos encontrar a Igreja do Divino Espírito Santo.
O samba moderno nasceu no Bairro do Estácio. A primeira Escola de Samba do Brasil foi criada em 1928 por Ismael Silva, Bide, Marçal, Mano Edgar e outros. A chamada “Turma do Estácio” costumava reunir-se na subida do morro de São Carlos, no Estácio. Essa Escola passou a chamar-se “Deixa Falar”. Pretendia-se romper coma tradição de violência entre os blocos dos vários bairros e criar um novo tipo de Carnaval. Como a rivalidade era grande e todos se achavam superiores, o pessoal do Estácio dizia “Deixa falar”. O nome ficou. A Escola não chegou a participar no primeiro desfile oficial, em 1932. Nessa data tinha-se transformado em rancho. O samba era uma mistura de maxixe, modinha, polca e jongo. As primeiras escolas de samba apropriaram-se da estrutura de dos cortejos e das procissões e apressaram a linha melódica associada a uma intensa cadência rítmica para imprimir mais andamento a esse cortejo. As fantasias só foram obrigatórias a partir de 1949. Entretanto no morro nascia a escola “Unidos de São Carlos”, actualmente “Estácio de Sá” e cujo momento alto foi a conquista do título de 1992, com o enredo “Pauliceia Desvairada”!!!
Um Largo muito musical a que certamente não foi alheia a seta indígena que inflamou a vista ao fundador Estácio de Sá, fazendo-lhe, assim, apurar o ouvido. Lá nasceu também o nosso querido Luiz Melodia que nos perseguiu a adolescência (vá-se lá saber porquê) com aqueles versos endiabrados e inconsequentes: “Se alguém quer matar-me de amor/que me mate no Estácio/bem no compasso/bem junto ao passo/do passista da escola de samba/do Largo do Estácio/O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço/trago não traço/faço não caço/o amor da morena maldita do Largo do Estácio”.
Imaginem se os franceses têm ficado por lá… Andava tudo muito huguenote, sem samba, sem desfile, sem fantasia e em vez do Luiz Melodia tínhamos o “xarope” do Adamo da Antártica a cantar “Tombe la Neige” sem caipirinha. Safa!
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