E depois há Serralves. Talvez com menos profundidade que a Fundação Gulbenkian (Lisboa), mas seguramente com a irreverência da modernidade de um projecto cultural de vanguarda lançado com enorme êxito há 25 anos. O Parque de Serralves é um espaço verde, que se estende por 18 hectares. A Casa e o Parque foram mandados construir pelo Carlos Alberto Cabral, 2º Conde de Vizela. Concluída em 1940, a Casa de Serralves é da autoria do arquitecto português Marques da Silva e é considerado um exemplo único da arquitectura Art Déco em Portugal. O projecto para o jardim da Casa de Serralves foi encomendado pelo Conde de Vizela ao arquitecto Jacques Gréber, em 1932. Até à abertura do Museu de Arte Contemporânea, em 1999, a Casa de Serralves acolhia as exposições. Posteriormente, construiu-se o Museu de Arte Contemporânea, edifício projectado pelo arquitecto Siza Vieira, nas suas linhas habituais rectilíneas e despojadas. Absolutamente imperdível. Em futuros posts daremos conta do que vimos lá dentro. Sim, que aqui pode-se fotografar.
.31.7.12
30.7.12
PORTO - PRAIAS DO NORTE
Para mim as praias do norte de Portugal são presságio de naufrágio iminente. Vejo barcos que se desfazem nas rochas cortantes. Velas rotas, mastros partidos, cascos abertos. Navios esfacelados na bolina do destino. Tragédias anunciadas. Águas geladas que agonizam ecos de socorro na vaga intensa. Maré traiçoeira arrastando gente esfarrapada que nada na exaustão da falta de ar. Restos desmembrados que dão à costa na bruma densa da manhã inquieta. As praias do norte são um desafio. Um prazer fustigante. Um acto de coragem.
29.7.12
PORTO - CAPITÃO DA AREIA
Depois do almoço a visita ao iate dos primos estacionado na nova marina da Afurada afigurou-se uma solução sensata para abater a dúzia de sardinhas abocanhadas ao almoço, mais o respectivo lastro líquido. Foi-me garantido que o iate estava bem amarrado com cordas, ou como raio se chama aquilo, e que não saía do sítio nem que Neptuno acordasse. Como todos sabem, gosto muito de barcos... mas em terra. Um barco dentro de água enerva-me, especialmente se eu estiver lá dentro. Por isso, adoro marinas. Os barcos completamente imóveis. Muito bem arrumadinhos. Fortemente amarrados. Guardados. Limpos. Tudo em segurança. Assim até dá gosto viajar e escusamos de gastar combustível. A minha mãe, que é bastante mais inteligente do que eu, decidiu ficar comodamente instalada nos seus 92 anos de experiência, observando a epopeia marítima que o filho teimava em protagonizar. É a vida...
28.7.12
PORTO - AFURADA
Afurada não é no Porto. É precisamente do lado oposto mesmo em frente, do outro lado do rio, no município de Gaia, quase em cima da foz do rio. O seu nome primitivo era Furada, sendo assim designada nos forais de D. Dinis em 1228 e de D. Manuel em 1518. Zona tipicamente piscatória, acolhia pescadores vindos de outras terras como Espinho, Ovar e Murtosa que diziam que vinham à pesca "à Furada", dando assim origem ao seu nome actual: Afurada. Os aforeiros, aforenses, afurados... enfim, os habitantes de Afurada são gente simpática que sabe pescar e, melhor, sabe grelhar bem o peixe. Terra de pescadores e de mulheres em eterno luto. Terra de naufrágios que se contam na memória das tempestades. Na Afurada a confusão do estacionamento entre barcos e carros, tudo misturado com a faina piscatória, agravou-se desde que decidiram utilizar parte da infra-estrutura do porto como parqueamento automóvel. A edilidade diz que está a remodelar toda a zona costeira e a gente acredita, que remédio. Ruas sinuosas a cheirar a sardinha assada e maresia, redes e bóias, numa confusão saudável entre o mar e a terra. Talvez por ficar já na margem esquerda do Douro, a sul do Porto, senti um certo toque de mourama e fiquei mais reconfortado. Mas deve ter sido porque estava com fome. Uma terra a revisitar.
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Silvares said...
Digamos que estão com muito bom aspecto, se tivermos em consideração o facto de estarem mortas.
27.7.12
26.7.12
PORTO - A TASCA DO ESPANHOL
O restaurante fica no meio de prédios. Uns a cair, outros ainda não. Uma tasca pequena com avançado em plástico para cima da rua atrapalhando o trânsito. As televisões vomitam futebol europeu. O menu era único. Entrada de camarões. Sardinhas assadas de "intermezo". Sargos e rodovalho para rematar. Salada de pimentos e muito vinho a condizer. Tudo por 16 euros/pessoa. A "Tasca do Espanhol" fica algures em Leça da Palmeira. Nunca mais lá conseguirei ir sem ajuda local. Às tantas, sei lá porquê, começa tudo a dançar. E vinham mais sardinhas e eles dançavam cada vez mais. O Ricardo, empregado para todo o serviço, recomendava picantes variados, enquanto o Tino de Rãs vendia livros numa panela pintada, numa vernissage improvisada de resultado duvidosos. Já ninguém entendia bem o que se passava ali. Aparece o dono do restaurante em play back numa macaqueação gestual de Quim Barreiros "a querer cheirar o teu bacalhau". Lá atrás, mulheres platinadas riem desbragadas em decotes de profundidade devastadora. Homens barrigudos exibem a cruz dourada na camisa aberta até ao umbigo, ostentando as chaves do BMW estacionado fora de mão... Na "Tasca do Espanhol" tudo pode acontecer. Acontece que até se come bem. A Ribeira e as Caves de Gaia são para turistas. Aqui o Porto é profundo e inesquecível.
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Li
Ferreira Nhan said...
o Porto e Lisboa.
Um senhor e uma senhora!
Ambos, diferentemente, belos.
Cada um com sua luz,
cada qual com seus mistérios.
Com seus segredos, seus varais, seus lixos e luxos.
Com seus rios, sua terra, seu alimento.
O pão, o vinho, a mesa farta.
Sua gente, sua fala.
Ele com o b pelo v.
Ela com o ches.
Um em cima
e a outra em baixo.
Nem imagino uma cidade sem a outra; completam-se.
Em tempo, a simpatia, o acolhimento, a boa educação não pertence ao povo do Porto ou de Lisboa; é própria do povo português.
25.7.12
FEEL DOURO
Entre os lisboetas corre uma velha piada que diz que o melhor do Porto é o letreiro que indica Lisboa. Na verdade, um lisboeta tem alguma dificuldade em se adaptar ao Porto. É a "curiosa" pronúncia do norte, são as ruas estreitas e sujas, os monumentos escurecidos e densos, as casas a cair de podres, uma cidade algo claustrofóbica, despenhada sobre um rio estreito e de cor duvidosa. Urbanisticamente o Porto teve o azar de não ter tido um terramoto que destruísse o casco medieval e permitisse um planeamento moderno e eficaz. Hoje, sem recursos, a cidade expõem as suas feridas arquitectónicas da Ribeira à Cedofeita, passando pela extraordinária rua da Constituição, de passagem obrigatória e urbanismo incompreensível. Conduzir no Porto é uma competição permanente pela disputa numa corrida imaginária. Sinalização que não se respeita. Simpatia que não existe. Os automobilistas do Porto ainda acham que dentro do carro têm todo o poder do mundo. De facto, numa visão rápida, o sinal para Lisboa parece ser a única solução. Só depois vamos percebendo o mistério do Porto. A cidade não se desvenda logo. É preciso Feel Douro.
24.7.12
INTERLÚDIO VISUAL
Vamos sair de Lanzarote e passar para o Porto, essa cidade Invicta que fica tão longe e tão perto. Aguardem os próximos posts.
ET: na imagem, fotografia analógica recolhida na ilha de Gozo (Malta).
TEIDE - AGAROFOBIA
Felizmente sou hipocondríaco. Um estado de permanente paranóia que me faz ter a certeza de que todas as doenças são imaginárias. Tenho essa certeza porque não fora assim e há muito estaria morto. Contam-se pelas dúzias os ataques cardíacos, a taquicardia em ritmo acelerado, o pânico por falta de ar, as dores de cabeça à beira do aneurisma, as quebras de tensão esmagadoras, a claustrofobia de elevador, as vertigens no vão de escada. As doenças são muitas e todas elas residem em mim. Felizmente sou hipocondríaco e tudo fica logo muito relativo. Já sei que nada daquilo vai acontecer. Hei-de morrer numa qualquer originalidade indecifrável na leitura inclusa do panfleto médico... Naquele dia estava um sol ofuscante. A falta de ar era intensa. O Teide está a três mil metros de altitude. A ilha de Tenerife, nas Canárias, é um vulcão em cone que ultrapassa o horizonte do Atlântico. Por baixo um deserto a perder de vista onde se gravaram os "Western Sparghetti" e a abertura do "2001 - Odisseia no Espaço". Estava feliz. Entrei inconsciente pelo deserto. Sozinho e descontraído. Olhei o vazio a perder de vista... e esse foi o meu mal. Atirei-me de imediato em mergulho para o chão. Um pânico indescritível tirou-me a respiração e inibiu-me a razão. Agarrei todas as pedras que pude com força telúrica e mordi a terra com angústia visceral. Rastejei até à camioneta, sem nunca tirar os olhos do chão. Os outros olhavam-me espantados, acreditando que estava em estado antropológico de descoberta existencial. Adorei o Teide. Mais uma paranóia que descobri. Sou agarofóbico.
23.7.12
FUNDAÇÃO CESAR MANRIQUE
Para quem quiser ver mais sobre a espantosa obra de Cesar Manrique: http://www.fcmanrique.org/obra.php?col=4
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22.7.12
O TEJO HOJE ESTAVA MOVIMENTADO
Saída da Tall Ship Race misturada com cargueiros e barcos diversos. Foi a fotografia possível. Ia a conduzir. Grande espectáculo de velas passando a Barra do Tejo.
LANZAROTE - COOL AND CLEAN
Uma das coisas que mais me emocionou em Lanzarote foi o branco mediterrânico e o verde atlântico emoldurando as janelas. Um padrão constante, numa arquitectura simples e confortável, despojada e limpa. Não havia cabos à vista. Os telefones, a electricidade, o gás, tudo era obrigatoriamente enterrado. Tudo muito "clean". Admirei-me de tudo isto. Uma ilha perdida, pouco habitada, com poucos recursos... como era possível manter estes padrões? Onde esperava uma trapalhada de fios e um horror de barracas, encontrei um paraíso imagético. Só depois percebi que tudo se devia a Cesar Manrique.
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21.7.12
LANZAROTE - CESAR MANRIQUE
Um dos habitantes mais ilustres de Lanzarote é César Manrique (Arrecife, 24 de Abril de 1919 — Teguise, 25 de Setembro de 1992). Ele foi pintor, escultor e activista do desenvolvimento sustentável da ilha. Combinou a produção de uma valiosa obra pictórica, escultórica e arquitectónica com a defesa dos valores ambientais e com a promoção do desenvolvimento turístico sustentável da sua ilha natal, que em boa parte graças à sua acção é hoje uma Reserva da Biosfera. Na sua obra procurou a harmonia entre a arte e a natureza como espaço criativo. Entre outros galardões, recebeu o Prémio Mundial de Ecologia e Turismo e o Prémio Europa Nostra.
20.7.12
COMPOTAS DE VERÃO
Tomate capucho, pêssego, ameixa e lemon curd. A Fernanda pegou na fruta do quintal e meteu tudo na Bimby. Resultado à vista. O sabor é só para mim. Uhmmmm!
CANÁRIAS - O GENOCÍDIO
Após inúmeras disputas sobre a posse das Canárias, em 1479 com a assinatura do Tratado das Alcáçovas e, depois, do Tratado de Toledo (1480), pôs-se fim às guerras pela soberania sobre as Canárias. Portugal prescindiu das ilhas em troca de todo o comércio para sul daquele paralelo. Só a partir daqui a Espanha
conseguiu vencer e exterminar os guanches, que deixaram de contar com o apoio
português. Aquando do início da conquista castelhana estima-se que haveria entre 30.000 e 35.000 guanches em Tenerife e entre 30.000 e 40.000 na Gran Canária, populações muito consideráveis face às características do território.
Sem embarcações nem capacidade bélica comparáveis, os guanches foram progressivamente retirando para as partes mais altas e acidentadas das ilhas, deixando o litoral aberto à colonização castelhana. As populações que iam sendo submetidas eram baptizadas e assimiladas à força. Outro grave problema que afectou os guanche foi a sua falta de imunidade a doenças que foram trazidas pelos colonizadores. As epidemias foram-se sucedendo, provocando perdas irreparáveis no efectivo populacional. A resistência guanche acabou por se concentrar em Tenerife e Gran Canária, onde as populações eram maiores, apenas terminando com o extermínio das últimas forças refugiadas nas montanhas. A partir da derrota de Doramas, um caudilho guanche, e da exterminação da resistência em Orotava, a submissão era inelutável, com alguns dos últimos resistentes a cometerem suicídio ritual, saltando de falésias.
A partir daí os povos guanche foram rapidamente assimilados, já que depois da guerra e das doenças, as populações remanescentes não puderam impedir a rápida miscigenação. Em meados do século XVI já a memória guanche começava a desaparecer. Estava consumado o genocídio.
Hoje, dos guanche pouco resta, embora o nacionalismo canário tente esforçadamente reviver a sua memória. Mesmo o estudo das suas múmias e restos arqueológicos pouco avançou em comparação com o estudo de povos bem mais remotos.
Na imagem, estátua em Tenerife de Bencomo, o "Rei Grande", símbolo da resistência guanche.
19.7.12
E SE A VIDA FOSSE NO FACEBOOK?
Imaginem-se num café. A rotina diária à volta de uma mesa. Os amigos de sempre. Conversas estafadas. Os tiques que já se conhecem. As opiniões habituais. O Manel que cheira a suor. O Joaquim com mau hálito da boca. O Zé sempre a querer fumar. A Maria cheia de convicções. A Rita carregada de opiniões. As anedotas do costume. Piadolas banais. Gargalhadas de circunstância. Os filhos, os netos, os cães e os gatos... Imaginem-se num café apanhados na armadilha da tertúlia matinal ou do chá das cinco. Imaginem que não podem desligar. Que não podem ficar off-line. Que têm de continuar no chat até que o almoço os chame ou que o jantar faça horas. E a mulher do lado cada vez berra mais alto. O Zé está doido para fumar. O Joaquim insurge-se contra o governo. A televisão grita as últimas da crise. Na mesa ao lado discute-se futebol. A máquina lá atrás jorra cafés com ruído maquiavélico. A loiça escorrega das mãos atarefadas de empregados suados à beira do paroxismo, rebentando no chão de mosaicos como berlindes estilhaçados ... O sossego do Facebook. As novidades anunciadas no silêncio da partilha. Os comentários que não são obrigatórios. A conversa que se pode interromper. E podemos estar vestidos ou nus, desgrenhados ou de roupão... Uma vida global num clique solitário.
CANÁRIAS - POVOS GUANCHES
Os europeus chamam guanches aos habitantes que encontraram nas ilhas Canárias quando lá chegaram no século XIV. A verdade é que não se sabe a sua origem, sendo a teoria mais consistente a que lhes atribui origem proto-berbere, incluindo-os no conjunto dos povos que colonizaram o norte de África há cerca de 15000 anos, num período em que a glaciação quase ligaria as Canárias ao continente africano, devido à descida do nível do mar. O nome guanche poderá ser uma apropriação castelhana de guanchinet (guan significaria pessoa e Chinet seria o nome indígena para a ilha de Tenerife). Ou seja, guanchinet seria pessoa de Tenerife, designação que se generalizou a todos os habitantes indígenas de todas as ilhas, embora cada ilha tenha a sua especificidade, sendo mais correcto falar de povos guanches (no caso de Lanzarote, os seus habitantes são designados maxos). Os guanches terão sido os últimos povos sobreviventes das "grandes culturas" que ocuparam a vasta região do Saara, antes de o deserto de apoderar das verdejantes planícies africanas. O genocídio dos guanches pelos castelhanos, no século XV, constitui uma perda irreparável para o estudo da "época da glaciação laurenciana". Já veremos como tudo se passou...
Na imagem, reconstituição de uma povoação guanche na ilha de Tenerife.
18.7.12
17.7.12
LANZAROTE
Algures em 1998 fui até Lanzarote (uma das 12 ilhas do arquipélago das Canárias, integrado na chamada macaronésia). Na altura ainda não havia câmeras digitais. As fotos que agora apresento são um scan dessas arcaicas fotos impressas no velho papel mate. O futuro prémio Nobel, José Saramago, já se tinha refugiado na ilha acompanhado pela sua amiga espanhola. A ilha surpreendeu-me em absoluto. A paisagem que vemos na foto anterior e nesta mesma são pequenos vulcões. Uns podem explodir, outros estão aparentemente adormecidos. Diferentemente de Tenerife ou da Ilha do Fogo (Cabo Verde), onde os vulcões se impõem como chaminés esmagando a ilha, aqui os vulcões são como borbulhas ou acne juvenil: muitos e prontos a rebentar. As águas saem quentes. Há geisers por todo o lado. Um perigo organizado e feito turismo, numa ilha impressionantemente limpa e carregada de arte pública. César Manrique é a referência. Uma referência pouco conhecida que vou procurar "revelar" em próximas posts.
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