31.12.12
O PODER DE MATAR
Como é difícil dar a ordem. Como é fácil matar. A morte do Bezunga ocorreu sem autorização dele. Não houve sequer testamento vital. Não foi eutanasia. Foi execução. Fui eu que decidi. Que dei a ordem. O fim estava próximo. A morte com sofrimento seria o desfecho inevitável. Matou-se antes de morrer. No fim fica uma overdose de sentimentos. Uma sucessão de pesadelos. Uma infinidade de saudades. Sei que fiz o melhor. Mas é difícil fazer o bem matando.
30.12.12
ADEUS PETRÓLEO?
Gás de xisto pode derrubar preço do petróleo pela metade, diz estudo

Instalação de gás de xisto em Fort Worth, Texas, nos Estados Unidos.
Robert Nickelsberg/Getty Images/AFP
O preço do petróleo pode cair para até 50 dólares em 2015, ao invés dos quase 100 dólares atualmente, graças à revolução do gás de xisto nos Estados Unidos. O estudo foi realizado pelo instituto independente Alphavalue e analisa os benefícios do gás, que pode ser responsável por quase metade do consumo energético dos americanos na metade do século.
BRUXELAS - TINTIN
Hergé nasceu em Etterbeek na Bélgica. A inspiração para Tintim veio, segundo declarou Hergé, do seu irmão Paul. Muitos dos principais personagens retratados nas suas histórias eram baseados em pessoas de carne e osso. Os meus personagens favoritos eram o Capitão Haddoc e o Senhor Oliveira da Figueira.
29.12.12
BRUXELAS - MUSÉE DES INSTRUMENTS DE MUSIQUE
Situado no Mont des Arts, em pleno coração de Bruxelas, e ocupando os antigos armazéns Old England (uma jóia da "arte nova"), o MIM conserva uma das mais ricas colecções de instrumentos do mundo. O frio levou-nos a entrar. Ainda bem. São cinco andares oníricos onde nos perdemos nos sons e na visão da música do mundo. Uma colecção imperdível. Ver mais em www.mim.be
28.12.12
27.12.12
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XIII
Um chapéu esquecido. Um amor perdido. Há um barco a sair,
outro a entrar. A vida segue o destino da corrente. Estou sozinho naquele muro.
Sou a palha daquele chapéu. Sou a neblina daquele barco. O chapéu sabe o que eu
não sei. Sabe do fado e da maré. Sabe do nevoeiro que me percorre. Sabe que ela
não está. Sabe que deixou as marcas da paixão.
26.12.12
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XII
Depois da Restauração, em 1654, D. João IV manda colocar no
Senado da cidade o título de “Não Há Outra Mais Leal”. Curiosamente é no século
XVII que começa o declínio comercial de Portugal em Macau. A feroz concorrência
holandesa e inglesa. A perseguição dos católicos no Japão. O fim do monopólio
português no comércio com a China.
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Eduardo P.L said...
Esse arquivo do blog tem que ir rapidamente para as páginas de um livro de papel. Ótimo material.
25.12.12
EMBUSTES DE NATAL
Em várias culturas ancestrais o solstício de Inverno era festejado. Comemorava-se a fertilidade e a fecundidade. A partir do solstício os dias começam a crescer, simbolizando-se, nesses festejos, a vitória da luz sobre a escuridão... Isto no hemisfério norte. No sul é exactamente ao contrário. A bem dizer, o Natal que nós comemoramos a 25 de Dezembro é o solstício.
Embora objecto de intermináveis disputas teológico-astrológicas, Cristo terá nascido, segundo os melhores cálculos bíblicos, entre Agosto e Setembro do ano 7 antes dele próprio. Porém, a partir do Concílio de Niceia (325d.C.), toda a história do cristianismo e, de certa forma, da nossa cultura, foi reescrita. O Imperador Constantino converteu-se, por razões políticas, e criou a religião Católica Apostólica Romana como veículo unificador do seu império e das suas ambições. O livro sagrado foi então escrito, misturando e manipulando muitas informações e mitos.
No mundo pré-cristão era muito popular o culto da deusa Mitra, com origem provável na Índia ou Pérsia. Chamavam-na "Sol Vencedor". O nascimento de Mitra celebrava-se a 25 de Dezembro, data que os romanos consideravam, erroneamente, coincidir com o solstício. Na madrugada de 24 para 25 comemorava-se o Nascimento do Invicto (o alvorecer de um novo Sol), com o nascimento do Menino Mitra.
Em Niceia mais não se fez do que manipular e integrar este culto pagão no ritual cristão. Cristo representa a vida, a luz e a esperança. Então, em vez de festejar o Sol como antigamente, passar-se-ia a celebrar o nascimentode Cristo, absorvendo a festa pagã. Constantino, inteligentemente, viu a forma de consolidar o império e reconverteu o dia do Menino Mitra no dia do Menino Jesus.
Esclarecidos os embustes natalícios, falta dizer que a coisa funciona no hemisfério norte, mas para o sul... Os povos sul-americanos não festejavam o solstício de Inverno em Dezembro, mas em Junho. Logo, o Natal Americano deveria ser em Junho por aplicação linear do raciocínio de Constantino. As comemorações natalícias foram exportadas à força para as Américas aquando da catequização. É mais do que um embuste. É o símbolo vivo do colonialismo evangélico que ainda não vi suficientemente combatido pelo inefável Hugo Chavéz.
Mesmo carregado de equívocos, aqui fica uma mensagem de Bom Solstício para todos... o mesmo é dizer de Bom Natal!
Post editado no Expresso da Linha de Dezembro de 2007.
24.12.12
VACA ROMPE SILÊNCIO
Remetida a um Convento Carmelita, a vaca tem-se remetido a um profundo e prudente silêncio. Na época a vaca chegou a ser entrevistada pelos doutores da Igreja, Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas nenhum dos entrevistadores contou a mesma versão. Esta adulteração da verdade muito incomodou a pacífica vaca que ficou a ruminar na torpe manipulação humana e jurou não mais abrir a boca sobre aquele jubiloso dia. No entanto, e face às afirmações do burro e do camelo, a vaca não pôde deixar de vir a terreiro repor a verdade e afirmá-la bem alto para glória do Senhor.
“O burro é um recalcado e mete-se nos copos. Distorce a verdade para se vingar. É um animal rancoroso. Põe aquele ar pesaroso, mas é um verdadeiro perigo. O camelo é um exibicionista nato. Sonha com califas e haréns, oásis de mel e tâmaras. É um deslumbrado. Não passa de um iludido que vive de fantasia num deserto de ideias. Em verdade vos digo: o burro e o camelo nem sequer lá estavam. O burro tinha ido à reunião semanal dos Alcoólicos Anónimos e o camelo tinha sido detido pela Mossad por suspeita de colaboração com o Hamas. Eu e só eu é que estava presente, como, aliás, demonstra a fotografia junta. Numa coisa o burro tem razão. Era Agosto. Mas isso que interessa! O que interessa é que o Menino nasceu em casa, no meio de palhinhas. José era carpinteiro e a Senhora se não era virgem parecia bastante. O menino era um santo. Fazia montes de milagres e estava sempre pronto a satisfazer qualquer pedido. Bastava pedir. Foi isso que o tramou. Naquela manhã do dia 14 do mês de Primavera de Nissã o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberto entre as duas alas do palácio de Herodes. O Sol queimava horrivelmente lá no alto, batendo com força nos mosaicos brilhantes. A dor de cabeça era horrível. As fontes latejavam desde manhãzinha. O procurador estava de novo com uma terrível enxaqueca. O réu aguardava vestido com uma túnica azul-clara, rasgada e suja. As mãos estavam amarradas. Um ar vagamente ausente. Tinha fama de milagreiro. Pilatos pediu-lhe uma cura para as dores de cabeça. Essa, porém, não era a especialidade de Yeshua. Tentou, tentou, mas nada. Se fosse uma cura da lepra ou mesmo uma ressurreição, ainda dava. Agora enxaquecas...! Foi isto perdeu o Menino, bendito seja o seu nome. A verdade é que se não fossem as enxaquecas do procurador não haveria Natal.”
A vaca calou-se abrupamente e seguiu a manada em direcção ao convento. Nunca ninguém mais a viu!
“O burro é um recalcado e mete-se nos copos. Distorce a verdade para se vingar. É um animal rancoroso. Põe aquele ar pesaroso, mas é um verdadeiro perigo. O camelo é um exibicionista nato. Sonha com califas e haréns, oásis de mel e tâmaras. É um deslumbrado. Não passa de um iludido que vive de fantasia num deserto de ideias. Em verdade vos digo: o burro e o camelo nem sequer lá estavam. O burro tinha ido à reunião semanal dos Alcoólicos Anónimos e o camelo tinha sido detido pela Mossad por suspeita de colaboração com o Hamas. Eu e só eu é que estava presente, como, aliás, demonstra a fotografia junta. Numa coisa o burro tem razão. Era Agosto. Mas isso que interessa! O que interessa é que o Menino nasceu em casa, no meio de palhinhas. José era carpinteiro e a Senhora se não era virgem parecia bastante. O menino era um santo. Fazia montes de milagres e estava sempre pronto a satisfazer qualquer pedido. Bastava pedir. Foi isso que o tramou. Naquela manhã do dia 14 do mês de Primavera de Nissã o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberto entre as duas alas do palácio de Herodes. O Sol queimava horrivelmente lá no alto, batendo com força nos mosaicos brilhantes. A dor de cabeça era horrível. As fontes latejavam desde manhãzinha. O procurador estava de novo com uma terrível enxaqueca. O réu aguardava vestido com uma túnica azul-clara, rasgada e suja. As mãos estavam amarradas. Um ar vagamente ausente. Tinha fama de milagreiro. Pilatos pediu-lhe uma cura para as dores de cabeça. Essa, porém, não era a especialidade de Yeshua. Tentou, tentou, mas nada. Se fosse uma cura da lepra ou mesmo uma ressurreição, ainda dava. Agora enxaquecas...! Foi isto perdeu o Menino, bendito seja o seu nome. A verdade é que se não fossem as enxaquecas do procurador não haveria Natal.”
A vaca calou-se abrupamente e seguiu a manada em direcção ao convento. Nunca ninguém mais a viu!
Post editado no Expresso da Linha em Dezembro de 2008.
CAMELO DESMENTE
Ao abrigo da Lei de Imprensa passamos a publicar a seguinte nota.
“Senhor Director do Expresso da Linha,
“Senhor Director do Expresso da Linha,
Serve a presente carta para protestar, veementemente, contra as ignóbeis afirmações proferidas pelo burro no pasquim dirigido por Vexa. Falo em nome dos três camelos que transportaram esses nobres Reis do oriente que tão cedo chegaram ao berço do Menino.
O burro não sabe o que diz. Aliás, é burro. A verdade sempre lhe escapou. Incapaz de destrinçar entre subtilezas filosóficas e um par de cenouras. Fala por despeito e raiva. Despeito, porque não lhe deram vestes de brocados e damasco. Raiva, porque nunca na vida transportou alguém importante. Não passa de um elemento decorativo no presépio. Para assumir protagonismo inventa tudo. O Menino nem sequer nasceu em Belém… Tudo de passou em Nazareth, como toda a gente muito bem sabe. Quando passámos a Faixa de Gaza, a estrela de David guiou-nos até àquelas doces palhinhas no meio da gruta, onde a Senhora depositara o fruto do vosso ventre, ámen. Os Reis Magos eram gente séria. Porque diabo se viriam incomodar, deserto fora, desde a longínqua Pérsia? É evidente que aquele era o Messias, “o Desejado”. Ah, e claro que era Natal. Estava um frio de rachar. O burro anda a ver muita televisão. Deve andar a ver os “X Files”. Acho mesmo que ele nunca leu a Bíblia! Então e a vaca, já ouviram a vaca? Sem querer dar lições, há que ouvir todas as partes envolvidas, Sr. Director. Sem mais, reitero que o Natal existe e é para todos!”
Assinado, o Camelo.
O burro não sabe o que diz. Aliás, é burro. A verdade sempre lhe escapou. Incapaz de destrinçar entre subtilezas filosóficas e um par de cenouras. Fala por despeito e raiva. Despeito, porque não lhe deram vestes de brocados e damasco. Raiva, porque nunca na vida transportou alguém importante. Não passa de um elemento decorativo no presépio. Para assumir protagonismo inventa tudo. O Menino nem sequer nasceu em Belém… Tudo de passou em Nazareth, como toda a gente muito bem sabe. Quando passámos a Faixa de Gaza, a estrela de David guiou-nos até àquelas doces palhinhas no meio da gruta, onde a Senhora depositara o fruto do vosso ventre, ámen. Os Reis Magos eram gente séria. Porque diabo se viriam incomodar, deserto fora, desde a longínqua Pérsia? É evidente que aquele era o Messias, “o Desejado”. Ah, e claro que era Natal. Estava um frio de rachar. O burro anda a ver muita televisão. Deve andar a ver os “X Files”. Acho mesmo que ele nunca leu a Bíblia! Então e a vaca, já ouviram a vaca? Sem querer dar lições, há que ouvir todas as partes envolvidas, Sr. Director. Sem mais, reitero que o Natal existe e é para todos!”
Assinado, o Camelo.
Post publicado no Expresso da Linha em Dezembro de 2008.
23.12.12
ENTREVISTA COM O BURRO
O burro tem sido uma das figuras mais esquecidas e desprezadas de todo o presépio. A vaca, os carneirinhos, até os camelos atingiram dimensão bíblica. O burro, porém, não passa de figura de estilo remetido a um silêncio hipócrita pelos exegetas do Novo Testamento, talvez por recearem comparações menos felizes com a sua própria inteligência.
Fomos encontrar o burro amargurado a retouçar um par de cenouras, tristonho e revoltado com este esquecimento evangélico. A entrevista foi rápida e esclarecedora.
“Em verdade vos digo. Fui eu que transportei a Senhora e José à urgência do hospital de Belém. Ela estava muito grávida há uma série de meses. Aquilo acontecera de repente. Os vizinhos diziam que ela concebera sem pecado e olhavam de lado para José. O pobre carpinteiro andava com a cabeça cada vez mais pesada e, em desespero, pregava pregos à toa em qualquer madeira que lhe aparecia à frente. Naquele dia de Agosto fazia um calor de rachar. O Natal já fora há muitos meses, A Senhora berrava. José, histérico, corria de um lado para o outro e só conseguia balbuciar “valha-me a Virgem Maria, valha-me a Virgem Maria”. O hospital fervilhava de agitação. Parei em contra mão. José corria desaustinado: “ai minha Virgem Maria, ai minha Virgem Maria”. À falta de melhor registaram a Senhora como Virgem Maria. O miúdo nasceu nas calmas. Veio logo a falar três línguas: aramaico, latim e grego clássico. Um sobredotado! Cá fora os familiares da Senhora estavam impedidos de entrar. Eram palestinianos. Um ainda se fez explodir de satisfação... José nunca mais foi o mesmo. O miúdo começou rapidamente a mandar lá em casa. A Senhora deixava-o fazer o queria. José não tinha mão nele. Ainda adolescente apanharam-no a andar sobre a água. Outra vez multiplicou os pães. Só disparates. Foi demais. Acabou internado num colégio Essénio. Pior não podia ter sido. A partir daí começou a falar na terceira pessoa e a pregar no deserto. Claro que as insolações não lhe fizeram nada bem. Um dia em que estava mais desidratado entrou num templo e atirou-se aos vendilhões. Partiu a loiça toda. O resto já todos sabem. O rapaz meteu-se na política e acabou mal. No Médio Oriente a política acaba sempre mal!”
O burro calou-se surpreendido por ter falado tanto. Lá atrás o presépio canta gloriosos hinos de louvor em alemão, entre estrelas prateadas made in Taiwan. Pessoas aos magotes sorriem a crédito na euforia das compras. É Natal para toda a gente. Só o burro sabe que não!
Fomos encontrar o burro amargurado a retouçar um par de cenouras, tristonho e revoltado com este esquecimento evangélico. A entrevista foi rápida e esclarecedora.
“Em verdade vos digo. Fui eu que transportei a Senhora e José à urgência do hospital de Belém. Ela estava muito grávida há uma série de meses. Aquilo acontecera de repente. Os vizinhos diziam que ela concebera sem pecado e olhavam de lado para José. O pobre carpinteiro andava com a cabeça cada vez mais pesada e, em desespero, pregava pregos à toa em qualquer madeira que lhe aparecia à frente. Naquele dia de Agosto fazia um calor de rachar. O Natal já fora há muitos meses, A Senhora berrava. José, histérico, corria de um lado para o outro e só conseguia balbuciar “valha-me a Virgem Maria, valha-me a Virgem Maria”. O hospital fervilhava de agitação. Parei em contra mão. José corria desaustinado: “ai minha Virgem Maria, ai minha Virgem Maria”. À falta de melhor registaram a Senhora como Virgem Maria. O miúdo nasceu nas calmas. Veio logo a falar três línguas: aramaico, latim e grego clássico. Um sobredotado! Cá fora os familiares da Senhora estavam impedidos de entrar. Eram palestinianos. Um ainda se fez explodir de satisfação... José nunca mais foi o mesmo. O miúdo começou rapidamente a mandar lá em casa. A Senhora deixava-o fazer o queria. José não tinha mão nele. Ainda adolescente apanharam-no a andar sobre a água. Outra vez multiplicou os pães. Só disparates. Foi demais. Acabou internado num colégio Essénio. Pior não podia ter sido. A partir daí começou a falar na terceira pessoa e a pregar no deserto. Claro que as insolações não lhe fizeram nada bem. Um dia em que estava mais desidratado entrou num templo e atirou-se aos vendilhões. Partiu a loiça toda. O resto já todos sabem. O rapaz meteu-se na política e acabou mal. No Médio Oriente a política acaba sempre mal!”
O burro calou-se surpreendido por ter falado tanto. Lá atrás o presépio canta gloriosos hinos de louvor em alemão, entre estrelas prateadas made in Taiwan. Pessoas aos magotes sorriem a crédito na euforia das compras. É Natal para toda a gente. Só o burro sabe que não!
Post publicado no Expresso da Linha em Dezembro de 2008.
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XI
Estou noutro mar.
Reflexos da cidade que não dorme. Tudo se compra. Tudo se
vende. As ruas levam-me na corrente. Desaguo num mar de gente. Um bulício que
fala. Uma fala que não entendo. Começo a sentir-me longe, cada vez mais longe.
Deixei o meu oceano. Estou noutro mar. Uma estranha sensação de abandono. Um
caminho sem retorno.
21.12.12
BRINCADEIRAS
Houve tempos em que brincar era a nossa vida. Uma coisa
natural. Tão natural como respirar. Os dias eram uma sequência interminável de
brincadeiras. Um jogo permanente. Uma bola aos saltos. Loucas corridas de
carrinhos. A cabra-cega. Berlindes nas três covinhas. O “mata” com o ringue bem
apontado. O jogo da barra. Escondidas. Apanhada. 1,2,3, macaquinho chinês. Brincávamos
sozinhos. Com amigos. Na escola. Em casa. Na rua. As refeições eram um
intervalo insuportável entre duas brincadeiras. Dormíamos a sonhar com o dia
seguinte. Acordávamos cedo com energia redobrada. E a vida recomeçava sempre a
brincar.
Com a adolescência vieram alguns problemas. Ficámos um pouco
mais sérios. Um pouco mais inseguros. Disseram-nos que a vida não era só
brincadeira. Reprimimos o desejo. As alternativas eram crescer. Insistiam
connosco que tínhamos de ser homens e um homem não brinca. Trata de coisas
sérias. De coisas muito graves. O mundo dos adultos era uma coisa cinzenta. Uma
coisa cinzenta que se aproximava com uma rapidez inexorável. Os adultos não
brincam. Entretêm-se. Divertem-se. Passam o tempo.
A verdade é que o tempo passou muito depressa. Ainda ontem
usávamos bibes escolares, hoje ostentamos altivas gravatas. Saudades dessa
infância dourada. Tempos que não voltam. Que ficaram aprisionados da sépia dos
retratos familiares. Hoje, quando recordo esses tempos vejo uma sucessão de
dias felizes. Sensações novas que nos marcavam o quotidiano. Um mundo em
permanente descoberta. Hoje tenho pena de já não saber brincar. Algures no
percurso, perdemos essa dimensão lúdica da vida. Substituímos brincadeira por
sarcasmo. O jogo por cepticismo.
Saber recordar esses tempos é um dom. Pior do que não saber
brincar é negar que brincámos. Esquecer deliberadamente que fomos crianças. Esquecer
que andámos de triciclo. Que caímos e chorámos por causa do galo na cabeça. Que
partimos a jarra da avó com um pontapé torto na bola. Que fechámos um primo na
dispensa e deixámos a família em pânico. Que ficámos de castigo só porque
queríamos brincar mais. Quem não recorda esses tempos não merece ser adulto.
Porque, bem cá no fundo, um adulto é uma criança grande.
Texto que escrevi para introdução ao capítulo "Brincadeiras" das "Crónicas Maquistas". Livro a editar pelo meu amigo Luís Machado, em Macau.
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Maria de Fátima said...
acho-as (às coincidências) e aos acasos, dos fenómenos mais extraordinários nisto de viver!
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - X
Uma cidade que fervia.
Macau era, então, uma cidade que
fervia de actividade. Uma das metrópoles mais movimentadas do Extremo-Oriente.
A rota do Japão tornou-se extremamente lucrativa. O Japão não autorizava a
entrada de outros navios que não os portugueses. Em Cantão, os navios
portugueses pagavam para entrar menos dois terços que os navios de outros
países.
20.12.12
MAIS COINCIDÊNCIAS
Uma amiga minha, que mora lá em Berlim, levou os filhos à escola. Parece que era uma festa. Coisa de alemães. No meio da vozearia germânica gritou aos filhos em português. Surpresa... Um homem que também levava os filhos à escola, interrrogou-a estupefacto: "Fala português?!". "Claro, sou portuguesa", disse-lhe ela. "Eu também. Ou melhor sou de Cabo Verde", devolveu-lhe o homem. "De Cabo Verde? Tive um grande amigo que era de lá. Já morreu. Era a ilha do Fogo", disse-lhe ela. "Do Fogo?! E como se chamava o seu amigo?", pergunta o homem. "Roberto Barbosa", acrescentou a Lina. "Roberto Barbosa?!!!! Não pode ser... Estou a ler uma biografia dele".
19.12.12
18.12.12
MACAU - TURISTA OCIDENTAL - IX
Labirintos de almas.
Há um mundo que teima em se esconder. Vejo sem alcançar.
Quero entrar e não posso. Sou um viajante sem rumo. Por detrás do biombo
escondem-se sinais que não entendo. Entrevejo luzes miríficas, centelhas
divinas, explosões sem ruído. Pressinto corredores sem fim. Labirintos de
almas. Aonde me levará este caminho?
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Eduardo P.L said...BRUXELAS - TOMBE LA NEIGE
A neve sempre me incomodou. É a paisagem monótona e triste. Ainda por cima totalmente branca. O silêncio perturbador que parece querer excluir as pessoas. O frio que se entranha. A ponta do nariz que parece querer cair. A quantidade de roupa especializada que se tem de usar. O constante strep-tease sempre que se entra em qualquer sítio super aquecido. Os carros que precisam de correntes. A condução que se torna pesadelo. O nojo em que ficam as ruas da cidade, misturadas com lama e degelo. A minha incapacidade total de esquiar. As avalanches a ameaçar. Muito equipamento para se acabar sempre a partir pernas. A neve irrita-me muito. Ainda não entendi para que serve.
17.12.12
BRUXELAS - LE DINER
Depois da vernissage, le diner. Um magnífico jantar gentilmente oferecido pela Delegação de Macau junto da União Europeia. Foi no moderníssimo restaurante "Belga Queen" (por acaso propriedade de um português). Les huitres estavam maravilhosas e o homard, nem se fala. Um grande bem haja à Oriana Drummond.
16.12.12
MEMÓRIAS DA ESCOLA
Os anos da nossa formação marcam-nos para sempre. Pela
positiva ou pela negativa. Mas ficam connosco duradouramente. Há um mundo novo
que se abre. Uma nova etapa. A entrada para a escola. Colegas. Professores. Uma
disciplina que nos impõem. Um modelo social que nos apresentam. São anos
essenciais para o nosso desenvolvimento. O que para uns é recordado com
saudade, para outros será penoso. Mas para sempre ficarão essas sensações.
Nunca vou esquecer o dia em que fui suspenso por mau comportamento. Foi o meu
primeiro contacto com a autoridade. A primeira vez em que enfrentei a
hierarquia social formal.
Escola, liceu, universidade. Tempos da nossa juventude. Uma
nostalgia perene. A escola é mais do que aprender a ler ou contar. É mais que o
canudo de doutor. São cheiros inolvidáveis. Corredores sem fim. O toque da
campainha. O ranger do estrado quando o professor de inglês passava. O chefe de
turma que distribuía estaladas sem razão aparente. O reitor que todos
odiávamos. As batas brancas das meninas da manhã. Aquele jogo de futebol que
ganhámos. O sol que entrava pela janela. O estúpido colega da frente que não
deixava copiar. O arranhar do giz no quadro preto. As faltas de material. O
professor que me fez gostar para sempre de História. A abelha gigante que me
picou no recreio. As namoradas de trancinhas que deixámos esquecidas nos bancos
do jardim. Aquele exame de latim que nunca mais acabava. As férias grandes que
tardavam em chegar.
Os anos de escola são anos de profunda transformação.
Entramos envergonhados de calções. Saímos homens de barba rija. São anos de
integração social. De iniciação política. De formação moral. A nossa personalidade
molda-se para sempre. Viajar pelos tempos de escola é revisitar a nossa
autenticidade. Somos o que éramos. Jamais deixaremos de o ser.
Texto que escrevi para introdução ao capítulo "Memórias da Escola" das "Crónicas Maquistas". Livro a editar pelo meu amigo Luís Machado, em Macau.
COMENTÁRIOS QUE VALEM UM POST
Li Ferreira Nhan said...E a sua bela foto do Forte de São Bruno postada (segundo o FB) há aproximadamente 2 horas já possui 42 compartilhamentos e 186 "likes".
O Facebook possui sites muito bons.
De qualidade incrível e de amplo poder de divulgação e informação. Haja visto este: "Descobrir Portugal". Creio que é o segundo no ranking. E conseguiu esta colocação devido a propaganda fiel ao que se propõem. As fotos são belíssimas e mostram Portugal de todos os cantos, sua gente, seus costumes, sua cultura; um excelente guia para quem procura conhecer, apreciar, recordar, viajar; um guia. E se necessitamos informações sempre há alguém disposto a fornecer.
Assino outros sites semelhantes, mas este sem dúvida, é o mais belo!
O Facebook é bom, é útil. E, como tudo na vida, é uma questão de escolhas, temos a tendência de nos aproximarmos dos afins, dos semelhantes. Ainda bem!
(com a demora do meu comentário e a lentidão da net já são 200 pessoas a gostar da sua foto do Forte,
e 2067 das sardinhas.
PARABÉNS!)
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