O autocarro coreano deslizava suavemente pela Avenida
dos Descobrimentos abaixo. Ao fundo a Torre de Belém no seu calcário
rendilhado, contrastando com o Tejo azul em cenário quinhentista. O Padrão, com
os seus navegadores monolíticos, lembrando velhas glórias do Império. À volta
hotéis de 6 e 7 estrelas, olhando o rio a preços asiáticos, vedados por cercas
electrificadas e seguranças nipónicos em face samurai.
Dentro do autocarro, um grupo de indianos risonhos
comenta que dali tinha saído o Vasco da Gama, o tal que os tinha invadido. E
riam alarvemente. No piso de baixo, um grupo de chineses barulhentos tira
fotografias a tudo o que mexe. Lá atrás, duas famílias de angolanos disfarçam
as origens falando em bantu. Meia dúzia de brasileiros põe a hipótese de
explorar comercialmente o decadente Mosteiro dos Jerónimos.
Lá fora, no calor do meio-dia, pobres turistas alemães
e suecos confraternizam à volta das mesas de pic-nic, compartilhando as sandes
de fiambre que sobraram da véspera. Portugueses esfarrapados, pedem pelos
cantos tocando acordeão e lançando fados vadios com tradução em mandarim. Um
bando de espanhóis dança flamenco a pedido. No átrio central da Praça do
Império, o Presidente da Repúbica faz uma "presidência aberta" de
calção de banho e sardinhas assadas, para turista ver.
A camioneta chega, finalmente, ao Rossio. A guia diz
nas três línguas oficiais, mandarim, brasileiro e inglês do Ragistão: "Chegámos ao fim da nossa viagem. Toda
a zona a norte e leste não é segura. É habitada por portugueses e outros
marginais que aqui se estabeleceram no tempo da União Europeia. Por favor não
se percam do vosso guia".
Post publicado em 2008 e cada vez mais actual.