30.11.13
29.11.13
NAZARÉ
Para quem não viu a espectacular série de três episódios que passou na RTP1, fica um aperitivo. Eu que nem sou muito de surf fiquei esmagado pelas imagens. Mais impressionante ainda é a "onda" que Garrett McNamara suscitou ao explorar um fenómeno geomorfológico único, o "canhão da Nazaré", que dispara ondas que chegam aos 30 metros. O documentário mostra a obra que está a ser feita, dinamizada pelo seu grupo, com a criação de centro de treino para surfistas, acções junto das escolas e dinamização de uma atitude ecológica junto da população. Garrett apaixonou-se pela Nazaré e a Nazaré apaixonou-se por ele. Em breve irei para ver este espectáculo único no mundo.
Recomendo que abram o écran.
Recomendo que abram o écran.
27.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XVIII
Todos os bens de Valdemar estavam em nome de off-shores.
Ninguém sabia quem ele era. Não saía de casa. Comandava tudo através de uma
poderosa e sofisticada rede de comunicações. Mas, agora, Valdemar estava
confrontado com um problema grave. Os chineses, que fabricavam o explosivo
sintético, já deviam ter feito a entrega há oito dias. Era Octávio que tinha
aquele “dossier”. Desde a sua execução os chineses começaram a ficar nervosos.
Valdemar fora obrigado a assumir a operação. Aquele era um negócio demasiado
importante para ele não se envolver directamente. Valdemar não gostava de se
meter com bombistas, mas naquele caso o pagamento era astronómico. O estranho
grupo de Bruxelas pagava dez milhões de dólares por cinquenta quilos de
explosivo entregues de forma faseada em cinco vezes. Valdemar empenhara a sua
palavra e a sua reputação. Os chineses não gostaram de ouvir outra voz ao
telemóvel. Esperavam Octávio e apareceu-lhes Valdemar. Desconfiaram e
interromperam a operação. Os explosivos já deviam ter saído do porto de
Guangzhou, capital de Guangdong (Cantão), num navio de carga com destino a
Marselha. Valdemar tomou uma decisão. Partiria imediatamente para Macau.
26.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XVII
Valdemar bebericava um martini sentado numa cómoda
poltrona branca. Não voltara a São Paulo desde os últimos acontecimentos. A
necessidade de executar Octávio, um dos seus lugar-tenentes, e a investigação
que estava a decorrer para encontrar os assassinos, fê-lo tomar aquela decisão.
Não voltaria a arriscar. Decidiu refugiar-se na casa de Santa Catarina. Uma casa
escondida de todos, no meio da mata, a oitenta quilómetros de Florianopólis.
Uma casa que mandara construir de raiz, perto da Lagoa de Ibiraquera. Era daí
que orientava o seu “latifúndio”. Uma extensa rede de túneis e um bunker enterrados na mata, faziam da
casa uma fortaleza quase inexpugnável. No velho porto de Imbituba, do outro
lado da lagoa, uma lancha rápida assegurava uma fuga por mar em caso de
emergência. Um helicóptero dissimulado garantia deslocações urgentes.
(Continua)
(Continua)
25.11.13
24.11.13
22.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XVI
Vivaldo estava há cinco horas a ser interrogado. Eram dois. Aquele
homem gordo que lhe tinha pedido o cartão de telemóvel no “KateKero” e outro
homem com ar de pugilista que o ameaçava com o olhar. Vivaldo já tinha contado
a história algumas trinta vezes. Encontrara o cartão nas tripas do cação. Agora
queriam saber de onde vinha o cação, quem o tinha pescado, a que horas...
Enfim, aquilo era surrealista! Acabaram por ir buscar o Viegas, o colega do
mercado, que confirmou a história toda. “O Gordo” sabia, agora, que o cação
fora comprado na lota, no dia 28, às seis horas da manhã, no dia seguinte ao
atentado. O cação fora pescado nessa noite e estava fresquíssimo quando chegou
à lota. Como o cartão ainda não tinha sido afectado pelos ácidos estomacais,
isso significava que teria engolido o cartão talvez duas ou três horas antes.
Na impossibilidade de interrogar o próprio cação, “o Gordo” dirigiu-se
rapidamente à lota e, através dos registos de venda, conseguiu identificar a
tripulação da traineira que que tinha capturado o cação. “Deus Me Valha” era um
daqueles barcos pequenos e coloridos de pesca artesanal, com uma tripulação de
três elementos e um cão. O mestre, Remualdo, lembrava-se perfeitamente do
cação. Já vinham de volta da faina, eram umas quatro da manhã. A noite tinha
sido fraca devido à nortada intensa. Perto da entrada, nos pontões de entrada
para a Marina, viram uma grande sombra dentro de água. Atiraram isco e apareceu
um cação esfaimado. Lançaram a rede e apanharam-no com facilidade. Era raro ver
um bicho daqueles tão perto da costa, mas acontecia. Aquela é uma zona de peixe
miúdo que surge ali em grande quantidade. O cação devia estar a caçar presas
fáceis e acabou caçado. Ou seja, alguém deitara fora um cartão de telemóvel,
numa zona de fácil acesso, pois há ali vários pontões. E, esse alguém, fê-lo
entre as treze horas de dia 27 e as duas da manhã de dia 28. A investigação
entrava agora noutra fase. O interrogatório de todos os habituais
frequentadores das pequenas praias circundantes, dos surfistas, dos pescadores
e dos empregados dos cafés de praia.
20.11.13
19.11.13
COMIDA E ALIMENTAÇÃO
À medida que fico mais crescido cada vez gosto mais de comer. O meu gosto está cada vez mais abrangente. Cada vez entendo menos quem não gosta de comer. Atrevo-me, por isso, à seguinte classificação (não exaustiva):
- Os que não gostam de comer (normalmente associado a doenças físicas ou mentais);
- Aqueles para quem comer é apenas alimentar-se (normalmente pessoas com pouca experiência de mesa, seja por razões económicas ou por hábitos educacionais);
- Os que têm a mania da comida saudável e das dietas;
- Os enjoadinhos ("Ai, disso não como que parece uma cobra!" "Não gosto nada de coentros". "Isso tem alho, que nojo!");
- E os que gostam de comer.Dentre estes últimos, podemos distinguir:
- Os alarves (tipo "grande bouffe". A evitar por causa dos traques);
- Os de boa boca (marcha tudo, muitas vezes sem grande critério);
- Os esquisitos (pessoas que limitam a sua dieta a poucas coisas e não gostam de novidades);
- A malta dos petiscos (dão a volta a Portugal só para comer um prato engordurado numa qualquer tasca de província. Normalmente desprezam comida elaborada, que consideram "maricas");
- Os regionalistas (ficaram presos a gostos de infância, normalmente associados a comidas muito especificas de determinadas regiões ou países - ex. comida transmontana ou italiana - ou à "sopa da avó")
- Os gourmets (podem ser de dois tipos: os experimentalistas e os "modistas". Os primeiros, normalmente sabem alguma coisa de culinária e gostam verdadeiramente de se inovar - por vezes demais. Os segundos, limitam-se a comer o que está na moda, para dizer aos amigos que estão na moda);
- Os chefs (uma espécie que agora abunda nas televisões e que, não sabendo cantar ou dançar, fazem shows de refugado);
- Os críticos culinários (uma espécie de intelectuais do garfo);
- Nós (aqueles para quem a comida é uma experiência sensorial, um modo de estar em sociedade e uma razão de viver).
- Finalmente as mulheres (que, para além de doces e caipirinhas, serão sempre um mistério para mim).
- Finalmente as mulheres (que, para além de doces e caipirinhas, serão sempre um mistério para mim).
Na imagem, enguias fritas. Tentem classificar-se...
MARIALVISMO - V
Vamos deixar o Marialvismo. Ninguém quer saber nada disto e eu nem sou marialva. Por isso que se lixe! Mas sempre vos direi que o marialva é descendente do espírito libertino do Marquês de Marialva, misturando cavalos, com touros e fados, uma imensa saudade e muito sebastianismo. A cultura da nobreza Ribatejana e Alentejana passa por aqui. Uma cultura monárquica e de ancien regime. Há uma mistura entre o popular permanente bêbado e o aristocrata insistentemente ébrio. Um canta fado vadio, o outro canta trovas a El Rei enbuçado. Só os mais ricos têm cavalos e trajes de luces que lembram fatos do sec. XVII. Só eles têm dinheiro para curtir o marialvismo. Os outros, os matadores de touros, ganham a matar e pouco tempo se divertirem entre uma cornada e outra. São os gladiadores da arena. Os forcados são a ralé, forçados a imobilizar o touro com as mãos. Depois são copos pela noite fora. As investidas nas mulheres da vida. As desgarradas até altas horas da noite. De dia as herdades a perder de vista, sempre com gado e cheiro a estrume. Gente dura e estroina que faz de cada dia o último da sua existência no cheiro a bagaço ácido que lhes entranha o ego. O mito português passa muito por esta gente, que exprime um portuguesidade exacerbada e por vezes agressiva. Hoje as mulheres estão no marialvismo como os homens. E se dantes havia um machismo evidente, agora as mulheres imitam os comportamentos e mimetizam as atitudes. Bebem, cantam, andam a cavalo, toureiam e cantam fado. Podemos interrogar-nos se estamos perante um verdadeiro machismo. A subcultura está mais forte? Deixou de ser machista e retrógrada e passou a ser aceite e mais abrangente? Ou não passa de uma moda para enfiar o barrete?
18.11.13
ACORDO ORTOGRÁFICO
A escritora Teolinda Gersão publicou ontem este texto no Facebook.
«Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela,subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero. E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me pe.rguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática.»
OPERAÇÃO CAÇÃO - XV
Melzek tinha esquecido todos as regras básicas da sua profissão.
Depois do atentado, há muito que devia ter saído de Lagos. As instruções eram
claras: manter-se mais três dias na cidade e depois sair do país via Lisboa.
Mas, Melzek foi-se deixando ficar. Só tinha o próximo trabalho dali a seis
meses. Um contrato para eliminar um conhecido empresário mexicano. E,
francamente, aos 48 anos estava farto deste desassossego. Sempre a viajar.
Identidades falsas. Sempre escondido. Sem família. Sem amigos. A ideia de
assentar e fechar actividade não lhe desagradava. Talvez ficar ali pelo
Algarve. Comprar uma boa casa com vista para o mar. Dinheiro não lhe faltava.
Idalécia podia ser uma boa companhia. Era meiga e dedicada. Ficar-lhe-ia
eternamente grata. Começou a pensar seriamente na hipótese. Depois de despachar
o próximo trabalho viria para o Algarve. Naquela noite, Idalécia teve uma
surpresa. Um anel de brilhantes. Melzek estava a ficar romântico.
(Continua)
17.11.13
MARIALVISMO - III
A seguir ao interregno Pombalino, o marialva, por assim dizer, regressa. É a divinização das hierarquias e o Sebastianismo irracionalista que emergem e, sobretudo
o estabelecimento da pax ruris portuguesa. Este ideário, depois dos interregnos liberal e republicano, seria retomado e exacerbado pelo Estado Novo. António Sardinha, ideólogo do Estado Novo, dizia: «Nós não duvidamos das forças reconstrutoras que dormem o sono do Senhor, à espera do Terceiro Dia, no subconsciente de Portugal» utilizando uma apologética do mito, confirmadora dos limitados recursos do ideário patriarcal e o uso do verbalismo mítico (Cardoso Pires, 1970: 147). O “ideal português” é definido, já em 1963 do seguinte modo: «o ideal português, na sua expressão
«filosófica, movimenta-se... em redor das 10 palavras chave: mar, nau, descobrimento,viagem, demanda, oriente, amor, Império, saudade e encoberto» (O que é o Ideal Português, 1963). A noção de Portuguesidade assenta numa psicologia de massas, do primado do instinto, reafirmando-se na superioridade da chamada sabedoria popular sobre o conhecimento científico, revalorizando-se a ingenuidade, a rudeza ou o culto do tosco (Cardoso Pires, 1970:157).
16.11.13
MARIALVISMO - II
Uma confusão a evitar é a que se estabelece por vezes entre marialva, libertino e Don Juan, compactando os três na noção de “garanhão”. Para José Cardoso Pires é impossível haver subprodutos marialvas com disfarces libertinos. O Don Juan vive num processo de angústia, como no Don Johannes de Kirkegaard, e não nas satisfações fáceis do marialva, sendo que no primeiro a sexualidade é mesmo secundária, contando sim a independência de uma personagem como Madame Merteuil que dizia «je suis mon ouvrage». Ser a sua própria obra implica uma ideia de individualismo e liberdade, a que o marialvismo seria avesso. O machismo ou exibição viril, atributo do marialva, obediência à “voz do sangue”, é incompatível com a aceitação da igualdade em é incompatível com a aceitação da igualdade em soberania dos amantes (Cardoso Pires, 1970:79).
MARIALVISMO - I
«Nada na mão/ algo na v'rilha! remancho as noites/ e troto os dias/ entre tabaco/ viris bebidas/ fraco mas forte/de muitas vidas/ Que eu já dormi/ co'as duas mães/ e as duas filhas/ que vão à missa /com três mantilhas/ ... bebo contigo/ cerveja, whisky/ p'ra que se veja / mais rubra a crista»
Alexandre O'Neil (1970)
15.11.13
FREE TO STAY - UMA HISTÓRIA DE VIDA
Escrever uma história de vida não é dizer o que as
pessoas pensam de si mesmas ou o que querem que se diga de si próprias. É
reinterpretar os factos e as suas consequências na vida dos biografados. É uma
escolha do autor. Uma escolha subjetiva. Uma biografia
é um retrato escrito. Não há ficção. Não há fantasia. É uma viagem pela vida de
alguém. Uma história que vem do passado e que se prolonga no futuro. Amanhã
netos que hoje estão no berço terão dos avós uma imagem que ultrapassa a sépia de
um álbum de família. Eles verão a substância e não apenas a forma. E isso é uma
maneira de preservarem a sua própria identidade.
Free to Stay é mais um livro que se completa. Já me saiu das mãos. Agora é com a gráfica. É uma história de vida (já vou na quarta). Uma encomenda de pessoas que não conhecia e de quem fiquei amigo. Trabalhei no projecto desde Janeiro. Depois de muitas entrevistas, transcrições, investigação e consultas a processos judiciais, chegou-se ao fim. Foram 12 versões vistas e revistas. O lançamento é a 12 de Dezembro. O trabalho gráfico é de Mafalda Diniz.
14.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XIV
Em Lisboa, nos laboratórios da Polícia Judiciária, o cartão de
telemóvel fora descodificado. Era impossível identificar o seu proprietário.
Mas os números de contacto e as mensagens foram recuperados. Para grande
surpresa dos investigadores, as mensagens arquivadas eram, no mínimo,
suspeitas. Em especial, três mensagens
podiam ligar-se ao atentado. Uma, recebida a 20 de Agosto, dizia: “Podes ir
buscar a encomenda”. A outra, recebida a 26 de Agosto, dizia: “Entrega a
encomenda amanhã”. E, finalmente, uma terceira enviada a 27 de Agosto, às
13,15h, dizia: “A encomenda foi entregue. Podem pagar o porte”. A troca
de mensagens era feita para um número de Bruxelas. O número de Bruxelas estava
inactivo desde o dia 27 de Agosto e era impossível detectar o assinante. “O Gordo”
tinha um instinto extraordinário para estas coisas. Para ele, tinham acertado
na mouche. Aquela comunicação era entre os mandantes e o autor do atentado. Mal
recebeu a informação correu ao mercado de Lagos e levou Vivaldo para
interrogatório.
13.11.13
GOLEGÃ - CASA-ESTÚDIO CARLOS RELVAS
Carlos Relvas é uma figura central da fotografia em Portugal. deixou-nos um extraordinário património de imagens que o consagram como um artista de excepção. Mas legou-nos também a incomparável Casa-Estúdio da Golegã, única no seu género a nível mundial, para sempre ligada à sua obra e ao seu projecto de vida.
Relvas já tinha construído um primeiro atelier exclusivamente direccionado para a fotografia, apetrechado com um sistema de vidraça e cortinas que lhe permitia controlar a entrada de luz. Mas é em 1876 que inaugura o seu segundo e magnífico atelier, autêntico templo dedicado à arte fotográfica.
Ver mais aqui http://www.casarelvas.com/site/pt/php/casa_estudio.php
12.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO XXIII
No restaurante “Aux Armes de Bruxelles”, em plena Ilot Sacré de
Bruxelas, três homens na casa dos quarenta anos, bem vestidos e de ar próspero,
jantavam calmamente. Restaurante cheio. Barulho ensurdecedor. O empregado grego
trouxe as moules marinières. Um dos homens falou baixo. “Jacques, já
pagaste ao Hassan?”. “A equipa marroquina está paga e o Melzek já tem o
dinheiro transferido para as ilhas Caimão”, retorquiu Jacques. “Perfeito.
Falei ontem com o “brasileiro”, o Valdemar, e a entrega do explosivo está
prevista para o mês que vem”, disse Michel, que parecia ser o líder do
grupo.
Louis que até aí permanecera calado, parou de devorar as moules e
perguntou: “Não deveríamos esperar um pouco mais?”. Jacques fitou Louis
bem de frente e disse-lhe com voz autoritária: “Sabes bem que já está tudo
planeado. Os explosivos chegam a Marselha via marítima. O nosso operacional vai
buscá-los. Entra em Espanha pela fronteira de Portbou, na Catalunha. O atentado
será exactamente um mês depois do atentado de Lagos. Desta vez não queremos
muitos mortos. Queremos a destruição de um símbolo cristão. A Capela Real em
Granada vai rebentar. A “Jihad Islâmica” vai mostrar a sua força naquele que
foi o último reduto do Islão na Península. Já discutimos isto ao detalhe. Não
compreendo a tua hesitação, Louis”. Louis encolheu os ombros e desabafou: “Acho
que devíamos esperar mais tempo. Tenho receio que seja muito em cima do
atentado de Lagos e que ainda haja muita polícia no terreno”. “Louis, já
discutimos isso até à exaustão. Temos de provocar uma onda de terror imediato.
Um pânico permanente. A seguir vamos atacar em Santiago de Compostela. A partir
daí, a cruzada pode ser pregada com sucesso”, retorquiu Michel sem margem
para réplica.
(Continua)
11.11.13
DIA DE S. MARTINHO
Diz o ditado popular "no dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho". Aliás "dos Santos até ao Natal, é um saltinho de pardal". Hoje comem-se castanhas e bebe-se água pé e o tempo está sempre bom. Diz a tradição que São Martinho (soldado romano) num dia tempestuoso viu um mendigo quase nu, tremendo de frio, que lhe estendia a mão suplicante... São Martinho parou o cavalo e com a espada cortou ao meio a sua capa de militar, dando metade ao mendigo. Subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido e um sol de Estio inundou a terra de luz e calor. Diz-se que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o acto de bondade praticado pelo Santo, todos os anos, nesta mesma época, cessa por alguns dias o tempo frio e o céu e a terra sorriem com a benção dum sol quente e miraculoso." É o chamado Verão de São Martinho
FEIRA DA GOLEGÃ
A Golegã voltou a acolher criadores de cavalos, provas desportivas e actividades
destinadas a profissionais, amadores ou simples curiosos do mundo equestre. A
37.ª edição da Feira Nacional do Cavalo e a 14.ª Feira Internacional do Cavalo
Lusitano decorreram entre 2 e 11 de Novembro. Fomos lá ontem. Uma loucura de gente e de cavalos. Um ambiente marialva que só o Ribatejo acolhe. Falaremos do "marialvismo" em próximos posts. Faremos, também, uma breve incursão sobre o cavalo lusitano, provavelmente um dos cavalos mais disputados entre os amantes do mundo equestre.
9.11.13
8.11.13
GGGGGGGGGGGGGGGGGGGG
Estive quase um mês sem a minha Canon G12. Estava a ficar maluco. É o dedo que não dispara. O olho que não vê. A alma que não sente. Hoje, finalmente, ficou pronta. Diz que era humidade. O sensor. As palhetas. O âmago da máquina... Trezentos euros de emoção diária. A dividir pelo prazer sai de borla. A multiplicar pela crise vai a défice. Preparem-se que a máquina vem com grande aceleração e eu estou esfomeado.
6.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XXII
Eram sete da manhã. O “Gordo” sentou-se na esplanada da Pastelaria KateKero,
ali junto ao mercado de Lagos. Pediu um galão e duas sandes de queijo. Devorou
o pequeno-almoço com precisão quase militar. Pediu um café duplo com
“cheirinho” e encostou-se na cadeira de palha, acendendo o primeiro cigarro da
manhã. Ao lado, uma mesa ruidosa de vendedores de peixe comentava os incidentes
e especulava sobre os culpados. Um homem grande, de careca reluzente,
sobressaia pela voz aguda e a cerrada pronúncia algarvia: “Olha aí, Vivaldo,
vais ver que o culpado foi o teu cação. Deve ter sido ele que explodiu a bomba
e fugiu com o detonador”. Viegas ria muito alto e explicava aos colegas
como Vivaldo encontrara o cartão de telemóvel nas tripas do cação. “É
verdade, já ouviste as mensagens? Não me digas que deitaste fora o
“chip”?” Nesta altura, “o Gordo” começou a ficar interessado e não resistiu
a entrar na conversa. “Desculpem meter-me, mas sou da Judiciária e nunca
devemos desprezar uma pista. Acha que me pode entregar esse “chip”. Nós temos
processos para extrair toda a informação. O mais certo é não interessar para
nada e devolvo. Pode ser?” Vivaldo encolheu os ombros, meteu a mão no bolso
das calças e displicentemente entregou o cartão ao inspector.
(Continua)
5.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XXI
O inspector Ribeiro, “o Gordo”, estava há oito dias em Lagos e a
investigação, de certa forma, fugira-lhe das mãos. A investigação internacionalizara-se.
A unidade antiterrorista do FBI estava no terreno. Os ingleses enviaram
especialistas em explosivos. Os franceses faziam a ligação aos serviços
secretos marroquinos. As bases de dados do NCTC americano tentavam identificar
aquela voz encapuzada que lera o comunicado. E, no entanto, os progressos eram
quase nulos. Ninguém sabia quem era aquele grupo terrorista. De Marrocos não
vinham novidades. A motivação do alegado grupo começava a ser posta em causa.
“O Gordo” não era parvo. Sabia pouco de explosivos, mas sabia que os criminosos
acabam sempre por cometer um erro qualquer. E, mais tarde ou mais cedo, esperava
ser ele a descobrir esse erro.
(Continua)
4.11.13
OPERAÇÃO CAÇÃO - XX
Estamos na Medina de Fez. Um homem magro e alto de barba
rala entra numa porta esconsa e discreta. Um estreito corredor escuro. Subitamente a casa alarga-se
como por magia. Uma sala vasta. Enorme. Um pé direito duplo, ladeada de uma
colunata com arcos em ferradura. Lá em cima, no telhado, vidros coloridas dão à
sala uma luz caleidoscópica. Mesas postas para o almoço. Bulício de comensais
falando alto e fumando narguilés. Numa mesa
ao fundo, dois homens jovens bebericavam chá de menta em copos de vidro grosso.
Hassan cumprimentou-os e sentou-se. Enrolou calmamente um cigarro fininho e
falou numa dijara cerrada. “Este foi dos trabalhos mais fáceis que
tivemos. Nunca pensei em ganhar tanto dinheiro a gravar aquela mensagem idiota
da “Jihad Ibérica”. Os outros não puderam conter o riso. Hassam passou-lhes
para as mãos dois envelopes com vinte mil euros cada e disse-lhes: “Agora
desapareçam de Fez e separem-se por umas semanas. Se tudo correr bem ainda vamos
ter mais filmes para gravar”.
(Continua)
(Continua)
3.11.13
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