Estes jantares de gala dos últimos dias levantaram imensas memórias. Pessoas, sítios, coisas, cheiros... Acima de tudo voltaram a fazer-me vestir fato e gravata. E essa foi a recordação devastadora. Ainda me lembro dos tempos em que se faziam fatos por medida (enfim, "ternos" para os brasileiros). O alfaiate tinha sempre aquela pergunta fatal: "Arruma para a esquerda ou direita?". Uma pergunta que nos fazia hesitar... Será que há uma pendência irregular? Um colhão maior que o outro? Só nessa altura era levado a pensar nisso. A morfologia do tomate, a hipotenusa da uretra, a bissetriz da glande. De facto não somos simétricos. Nunca tinha pensado se arrumava à esquerda ou à direita. Os alfaiates sabem do que falam. Descobri ontem que cada vez arrumo mais à esquerda. Mas isto nada tem a ver com política. É mesmo uma questão de tomates.
30.4.15
29.4.15
25 ANOS MAIS TARDE
A verdade é que este cronista semi-bandalho e fotógrafo de meia-tigela, de quem fazem o favor de ser amigos, foi em tempos o primeiro presidente de uma associação lusófona do sector das comunicações que agora faz 25 anos. Uma associação que foi absolutamente pioneira em termos de lusofonia. Nessa altura tinha mesmo de usar gravata, fazia discursos e viajava por Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné e São Tomé e Príncipe. Aventuras, muitas. Histórias, ainda mais. São esses 25 anos que agora se estão a comemorar. Eram na época 12 operadores de 6 países. Hoje são 38 associados de 9 países lusófonos. Deixo-vos alguns apontamentos da revista que a AICEP preparou para o evento.
27.4.15
26.4.15
25.4.15
23.4.15
MORTE TIBETANA - EPÍLOGO
O meu amigo Rui Oliveira, com quem tenho vindo a trocar estas impressões sobre "a morte Tibetana", deu-me a visão em que acredita. Uma vida difícil feita de meditação, dietas, vencimento do ego, frustrações, derrotas e vitórias. Um processo complexo que visa aumentar a consciência e, assim, promover a sucessiva reencarnação numa vida cada vez mais espiritual. No limite atingiremos os 100% de consciência e aí o corpo não passa de invólucro incómodo a descartar com urgência. Vendo bem, as grandes religiões do mundo dizem todas o mesmo. Todas têm um fundo budista que acredita na reencarnação, na ressurreição, na ascensão ao paraíso... E o castigo é o inferno, o Hades, a ausência do paraíso mais as suas virgens impolutas, a repetição de vidas sobre vidas sem progresso consciencial... Vai tudo dar ao mesmo. A imaginação humana não tem limites para justificar a morte e para ultrapassar a putrefacção da carne. Os cientologistas até acreditam no extraterrestre Xenu! Eu que procurava uma coisa simples, acabo por ficar nos católicos. Primeiro, porque sem grande esforço posso sempre redimir-me numa confissão sincera feita a qualquer padre ao virar da esquina. Depois, porque em última análise, tenho sempre a extrema unção que facilita imenso a vida aos moribundos mais empedernidos. Mas uma coisa tenho de admitir: é admirável o esforço permanente que um tibetano tem de fazer. E isso, seguramente, mesmo que não releve para qualquer vida renovada, é um desafio integral que só pode criar melhores pessoas nesta vida. O esforço vale. Obrigado Rui.
22.4.15
MORTE TIBETANA - V
O meu amigo Paulo acha que, assim sendo, então a sequência lógica será que, quem estiver bem preparado vai manter as memórias anteriores na reencarnação seguinte, o que lhe parece ser uma grande responsabilidade. Eu confesso que estava à espera de coisa mais simples. E, acima de tudo, fico preocupado como o espírito consegue agarrar a sua nova vítima (sim, que os corpos não passam de vítimas desses abutres luminosos a que chamamos almas). E no final das contas para quê? Para atingir a "claridade". E o que é a "claridade"? O Rui termina aqui o seu texto, que desde já agradeço do fundo do coração, não só por tê-lo feito, como por me ter deixado brincar com ele, coisa de enorme tolerância e avanço espiritual. Vejam o que ele diz:
"Gostava de sublinhar o facto que a “pessoa” que morre e a “pessoa” que renasce
são distintas. Não se trata da mesma pessoa (quer dizer do mesmo conjunto do
corpo com a memórias, conceitos e emoções associados), mas sim do mesmo
princípio consciente, ou da mesma corrente de consciência, o que é muito
diferente - mesmo se a “informação de vida” acumulada ao longo das vidas
sucessivas fica de alguma maneira associada a essa corrente de consciência. Quando
certas pessoas têm memórias autênticas de vidas precedentes, as memórias são
reais, mas não se trata da mesma “pessoa”.
Em resumo, quando se morre, aquilo que pensamos habitualmente ser “nós” morre mesmo, mas o fluxo de consciência continua".
Em resumo, quando se morre, aquilo que pensamos habitualmente ser “nós” morre mesmo, mas o fluxo de consciência continua".
FIM
21.4.15
INTERLÚDIO MUSICAL
Hoje acordei feliz. Coisa rara em mim. Dormi cinco horas repousadas e sonhava com restos de viagra entre lençóis vagamente perfumados. O dia era de sol. Reunião com arquitectos para o novo livro que há-de vir. Café matinal na nova casa de chá aqui no bairro. Tudo sem dores de cabeça. Nem sequer uma dor de costas. Dia feliz. Almoço de amêijoas à Bulhão Pato e arroz de lingueirão. Comprei uma máscara de Careto, mais os butelos e casulas para o almoço de amanhã com amigos que hão-de vir. Ainda fui tratar das lâmpadas dimadas e espetei imensos pregos de aço numa parede beto-resistente, carregado de energia vínica auto-induzida. E continuava feliz, quase com medo que me desse alguma coisa cardíaca. Jantei queijo com chutney de tomate enquanto o Futebol Clube do Porto enfiava 6 a 1 do Bayern. O dia continuava feliz. Aí chegou a Fernanda vinda de um lanche prolongado com amigas que trabalham na zona das bolachas com chocolate, ali para os lados da Estefânia. Adoro quando ela chega a casa. E o dia continuou feliz. Tão feliz que mantenho sérias reservas quanto a qualquer doença súbita de tanta felicidade. Amanhã aviso, caso não tenha morrido sem querer.
MORTE TIBETANA - IV
O "bardo" tibetano não é o limbo cristão. No limbo a malta já se teve de portar mal. Não chegou ao pecado mortal, mas cometeu seguramente alguma venialidade. Sei lá, roubou caramelos, meteu-se na política, foi banqueiro... No "bardo" vão todos lá parar. Os bons, os feios, os porcos e os maus. Mas ao menos têm uma certeza: sabem que vão sair dali. Agora como e quando é que nunca saberão. Andam inquietos à espera do Karma adequado, espreitando os relacionamentos mais aguerridos, num voyeurismo salvífico que os traga de novo aos 0,4% de consciência. E tudo recomeça de novo. A meditação, o arroz integral, as dioptrias cansadas da tomada de consciência. Aparentemente seria mais fácil uma simples ressurreição, mas o Rui garante que não:
"Ora
de todos os hábitos concetuais e emocionais, o mais forte é o desejo de
continuar a “existir”, quer dizer, neste caso, de arranjar outra vez um corpo.
De forma que a pessoa no bardo procura desesperadamente uma ocasião de se
associar a um novo corpo. O aparecimento desta ocasião depende do karma da
pessoa, quer dizer dos condicionamentos resultantes de tudo o que a pessoa
viveu. E quando a ocasião surge, a pessoa “vê” o futuro pai e a futura mãe
ternamente unidos (sejamos otimistas) e no momento fisiológico da conceção, o
princípio consciente associa-se intimamente ao novo corpo.
É preciso saber que o choque da morte é extremamente forte psicologicamente, e que as memórias que a pessoa tem no momento de morrer desaparecem muito rapidamente ao longo das sete semanas, em média, que dura o bardo. E o nascimento é outro choque fortíssimo. São estes choques que fazem com que se perca habitualmente as memórias da vida precedente".
(Continua)
É preciso saber que o choque da morte é extremamente forte psicologicamente, e que as memórias que a pessoa tem no momento de morrer desaparecem muito rapidamente ao longo das sete semanas, em média, que dura o bardo. E o nascimento é outro choque fortíssimo. São estes choques que fazem com que se perca habitualmente as memórias da vida precedente".
(Continua)
20.4.15
MORTE TIBETANA - III
De facto só 0,4% parece muito reduzido. E, como diz o meu amigo Paulo Viana, "olha se a perceção de nós próprios e do que nos rodeia fosse a 100%!!! Já assim, por vezes, é insuportável...". E sugere mesmo o vinho tinto para abafar certos desmandos do excesso consciencial. Pois é, mas o Rui vai ainda mas longe e vai-se ver o interesse da consciência estar bem desperta:
"O que se produz no processo da morte no caso das pessoas não realizadas
é que a tal estrutura dualista se desfaz progressivamente, passando pela morte
clínica e para além desta e desligando o espírito do corpo, até que o princípio
consciente se encontra completamente a nu, e a sua “claridade” absoluta é
experimentada durante um instante. Mas como a pessoa não tem a capacidade de
reconhecer nessa claridade a sua natureza real, o impulso dos hábitos
concetuais e emocionais precedentes desencadeia então a reconstrução de uma
nova estrutura dualista à volta do princípio consciente. Só que, como a pessoa
já não tem corpo, essa estrutura, esse “eu”, que é ao princípio muito
semelhante ao da pessoa que morreu, e que dispõe, mesmo sem corpo, de todas as
perceções sensoriais e de consciência, fica “a boiar” num estado que se
chama “bardo” (“intermediário”) em tibetano e que pode ser muito
desconfortável".
(Continua)
19.4.15
MORTE TIBETANA - II
Chegados aqui ficamos de consciência completamente inquieta. Afinal de que estamos a falar? Consciência social? Consciência política? Consciência familiar? Os putos são muito inconscientes... Eu próprio, tem dias... É disto que estamos a falar? Então e o espírito, a alma, a consciência? É tudo a mesma coisa? Uma baralhada! Nesta altura começo a achar tudo isto uma enorme trabalheira. Chego mesmo a pensar nas 72 virgens mais os rios de mel dos muçulmanos ou em estar placidamente sentado à direita de Deus Pai na lógica prudencial do catolicismo esquemático. Começo a pensar se não será mais simples, mais eficaz. Mas o Rui esclarece:
"Segundo o Budismo, o aspeto mais fundamental da consciência, a base da capacidade que temos de estar conscientes, de conhecer, de saber, chama-se “princípio consciente”, ou “claridade”. Pode estar presente em nós num modo “despertado”, como é o caso nos Mestres espirituais realizados, ou num modo confuso quanto à sua própria natureza e quanto à sua visão do que existe, como no nosso caso. No modo confuso, e na ausência do reconhecimento da sua verdadeira natureza, o princípio consciente elabora uma estrutura dualista conceptual e emocional bastante complexa à qual se identifica, o “eu”, e a partir da qual projeta a sua própria versão do mundo, quer dizer tudo o que para ele é “outro”. Voltando à ciência, segundo as descobertas mais recentes da neurologia, a percentagem do funcionamento do nosso espírito de que estamos conscientes é de... 0,4% (!), o que nos dá uma ideia do pouco valor real da nossa perceção de nós próprios e do que nos rodeia".
(Continua)
(Continua)
MORTE TIBETANA - I
Conforme publiquei uns posts atrás, reencontrei na net o meu amigo Rui Oliveira que não via há mais de 30 anos. O Rui vive agora em Bruxelas e é monge tibetano. Temos mantido um diálogo activo, franco e muito informal. Como todos sabem, tenho um medo enorme de morrer. Sempre achei que se devia acreditar numa qualquer religião para facilitar o "passamento". Ando à procura de uma coisa que dê pouca maçada e tenha resultados garantidos. A religião católica não é má. Coisa simples. Umas missas, meia dúzia de confissões, umas hóstias consagradas e temos perdão assegurado. O problema é que não só não acredito em deus, como intelectualmente aquilo se se afigura fraquinho. Isto para além daquela construção teórica da trindade que mais parece um "três em um" manipulada por um bom publicitário de produtos de limpeza. Foi assim que, numa das nossas recentes conversas, interroguei o Rui sobre o conceito de morte para os tibetanos, na esperança de me poder ajudar. Nos próximos posts vou passar o que ele respondeu, em quatro episódios, para melhor absorção dos leitores.
"Segundo o Budismo, o corpo e a consciência são de natureza diferente. Estão intimamente ligados, mas a consciência não é produzida pelo corpo, está simplesmente associada a este enquanto este está vivo. Os diversos processos mentais (sensações, perceções, pensamentos, memórias, etc.) que se produzem graças à consciência estão intimamente ligados ao funcionamento eletroquímico do cérebro e dos outros centros neuronais do corpo (há imensos neurónios também na região do coração, no ventre...) mas não são produzidos por ele. Diga-se de passagem que a ciência atual confessa a sua incapacidade de explicar a natureza da consciência e a sua origem, o que é natural dado o ponto de vista exclusivamente materialista de qual ela parte".
(Continua)
17.4.15
O EFEITO TENI
Ontem, depois de muito hesitar, fui comprar aqueles sapatos clássicos que ficam bem com tudo. De facto os mocassins ficam bem com qualquer coisa, das jeans ao fato assertoado. E, na verdade, ando a precisar de ficar mais clássico, nem que seja para o meu funeral. Na loja do shopping a vendedora era estilizada e competente. Enquanto aviava umas dondocas de salto agudo e voz de Cascais, enfiava-me sapatos atrás de sapatos. Alta, magra e sexy, deixava ver os seios pequenos protegidos por soutien negro no decote descaído do top provocantemente devastador. Por mim ficava ali a ver se alguma coisa servia, na inclinação da calçadeira. Estava já a pensar em botas à Beatle só para o ângulo ser maior... Foi aí que tive a surpresa que irá mudar para sempre toda a minha vida. A vendedora olhou-me bem de frente e disse-me com toda a profundidade que o know-how e a própria expertise lhe garantiam: "Olhe que estes sapatos têm o Efeito Téni". Eu sabia que havia dois ténis e até mesmo um téni. Mas Efeito Téni, francamente nem desconfiava. Ainda tentei entender, mas nessa fase mais introspectiva a minha mulher empurrou-me ostensivamente para fora da loja. Trouxe os sapatos e ainda uma banha da cobra para evitar nem sei o quê, mas fiquei sem saber o que é o Efeito Téni.
14.4.15
12.4.15
10.4.15
PRESIDENCIAIS
Entrámos em período eleitoral declarado. Vamos ter legislativas em Outubro e presidenciais em Janeiro de 2016. E esta acumulação faz imensa confusão: devem os candidatos presidenciais esperar pelos resultados das legislativas ou não para formalizar as suas intenções? Entretanto os putativos candidatos acumulam-se. Uns de esquerda outros de direita. Por junto conto já sete putativos presidentes, fora os que mentem e desmentem, os que se chegam à frente para logo recuar e os que fazem constar que talvez sim ou talvez não. Mas há alguns nomes a salientar. Há os candidatos tacticistas que vão esperar pelo momento oportuno em que uma vaga de fundo os eleve ao cargo quase sem fazer campanha. É o caso do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, homem de direita, que mesmo sem apoio explícito do PSD, avançará em Novembro, depois das legislativas. Ou seja, fica com dois meses para fazer campanha. Mas como fala todas as semanas na TV, todos sabemos quem é o homem. Um "pantomineiro", como se diz em Trás-os-Montes. Um homem venenoso, exibicionista e mais rápido do que a própria sombra. Não tem amigos, porque sendo mais inteligente do que todos, acaba por os envergonhar ou destruir. Consta que se se mordesse a si próprio morria envenenado como o escorpião. Mas engana muita gente...! Na ala esquerda temos o "fantasma" António Guterres. Um homem socialista cristão que já foi Primeiro-Ministro e fugiu daqui porque tudo era pântano à sua volta. Está agora muito bem a fazer de Comissário da ONU para os Refugiados, onde compartilha viagens com Angelina Jolie (agora Pit). Se Guterres anunciasse que se candidatava tinha a coisa no papo. Fazia o pleno dos socialistas e roubava votos ao centro-direta. Mas não. Táctico e com aspirações a Secretário-Geral da ONU, deixa o país em suspenso sem dizer sim, não, talvez... O Candidato Jolie deixa a presidência como refúgio, como segunda escolha, caso a ONU não lhe sorria. Mais do que táctica, é cobardia. É total desprezo pelo país e por quem cá vive. Por isso admiro os candidatos que já se disponibilizaram e se apresentaram como candidatos. Alguns são meras candidaturas de statement, outras são candidaturas de check-mate. É o caso de António Sampaio da Nóvoa que está a dividir o aparelho do PS e a lançar a confusão nos tachistas do partido, aqueles formam a velha elite socrática dos socialistas, aqueles que rodam à volta de António Costa ou de quem António Costa não soube distanciar-se. Interessante saber como vai o novo líder do PS gerir esta tensão. Apreço por quem soube assumir-se a tempo e com coragem. Pode ser o começo de transição institucional pacífica. Talvez possamos sem "podemos".
9.4.15
NETOS
Nunca pensei ter netos. É um Ser que é nosso, sem ser exclusivamente nosso. Um Ser partilhado. Netos são os frutos genéticos da nossa colheita. Um apuramento de castas. Um vinho fino. Os netos transformam a nossa idade. Temos de nos por ao nível deles. Voltar a contar histórias, mudar fraldas, aquecer biberons, andar de gatas, jogar às escondidas... Somos outra vez novos de novo. Ser avô foi a melhor coisa que me aconteceu.
4.4.15
TIO RUI
Conheci o Rui Oliveira por volta de 1971. Apareceu não sei de onde e juntou-se ao Ephedra sei lá porquê. De groupie passou a guru. Naquele tempo, guru era alguém que pensava mais à frente. Alguém que buscava respostas redentoras. Alguém que se queria sublimar. Alguém que procurava a continuidade do espírito. Rapidamente o Rui passou a "Tio Rui". Um jovem inquieto por dentro e calmo por fora, de cara redonda e olhos vagamente orientais. Um jovem obsessivamente em busca de si próprio. Enquanto nós comíamos bifanas de porco carregadas de mostarda e muito vinho tinto, o Tio Rui mastigava 28 vezes o arroz integral com panados de cenoura deglutidos a chá verde com sabor a coisa nenhuma, tudo transportado a tiracolo num bornal esverdengado pendente do ombro. Ficávamos sempre à beira do abismo, na incerteza da dúvida metafísica. Será que ele sabia? Porquê aquela busca? Intrigante. Perturbante... Maçador. Pelo sim pelo não ficávamos atentos não fosse ele descobrir o segredo da ressurreição ou apenas a mera reencarnação, que já não seria nada mau. Em 1973 o Tio Rui fugiu de Portugal. Fugiu à tropa e à guerra do Ultramar. Fugiu para Bruxelas e nunca mais o vi. Foi pela net que nos redescobrimos há pouco mais de um mês. Passaram 42 anos. Desde então temos mantido correspondência regular. O Rui é monge budista tibetano e está a contar a vida dele. Vamos na Temporada 1, Episódio 4. A história é brutal. Uma vida absolutamente alternativa que impressiona pela coragem, desprendimento e amor. Agora que toda a gente desatou a morrer à nossa volta, o Tio Rui vai ter muito que explicar. Como se renasce... Como se salva a alma... O que acontece ao corpo... Quem somos... Para onde vamos... E não haverá um atalho? Ontem em conversa com mais três "ephedras" que ainda não resolveram morrer, pensámos em patrocinar uma cooperativa celestial, tipo "Renasciturus", "Concórdia Divina" ou mesmo "Felicidade Eterna". O Tio Rui voltava para Portugal e agora, pois mais sábio e mais reencarnado, ensinava-nos a sair Disto. Fica o desafio.
Foto de 1973: Pavilhão Gimnodesportivo da Amadora, ao centro Rui Oliveira (Tio Rui).
3.4.15
PÂNICOS
A ginástica faz mal. Sempre soube isto, mas resolvi insistir. Ontem a meio de um exercício deu-me uma tontura brutal. Só tive tempo de me apoiar ao varão para não desabar com estrondo. A classe ficou perplexa. A professora preocupada. Saí aos tropeções, entre o pânico de um ataque cardíaco e um inócuo ataque de tensão baixa. Pelo caminho ainda ponderei poder ser uma hipoglicémia ou qualquer outro fenómeno incontrolável, tipo aneurisma ou carótidas bloqueadas. Por sorte tinha médico à tarde, ou melhor médica. A médica, por acaso uma senhora muito interessante, face à minha sintomatologia, deu logo o diagnóstico: síndrome vertiginoso ou de Ménière. Fiquei aliviado e até um pouco enfatizado com um nome tão elegante. Coisa de otólitos e do ouvido interno. Mas a doutora acrescentou um comentário fatal: "Pois, vejo aqui na ficha que é muito ansioso. Com ansiedade a vida não deve ter o mesmo prazer, não é?". Não respondi por mera táctica de paciente permanente e doente sem fronteiras que lhe irá pedir, compulsivamente, novas receitas, mais cedo ou mais tarde. Mas apeteceu-me dizer-lhe: "Olhe, doutora, a vida sem ansiedade não tem brilho. É baça e vagamente inócua. Um pânico, esse, ainda está uns graus acima da ansiedade. Se não sabe nunca viveu. Nada como uma boa agorafobia, um claustrofobia, o coração em arritmia hipotética, um rim em pseudo-cólica. Sim, doutora, tenho pânicos todos os dias. O pânico é a vida do outro lado. A morte a cada instante. A permanente falibilidade. O terror. E quando o pânico passa, uff, a vida ganha uma cor deslumbrante. Uma cor que os "normais" não atingem. Sem ansiedade a vida não tem o mesmo prazer. Sem pânicos, a vida é um continuum de banalidades, uma sucessão de bolas de Berlim e de bananas maduras. Olhe, doutora, sem pânicos a vida sabe a ansiolíticos sem sal".
2.4.15
É MUITO QUILÓMETRO
A nossa vida é comparável a um automóvel. Quando somos novos estamos sempre em rodagem. Gostamos de estar bem polidos. Pintura reluzente. Um risco no capot enerva. Por dentro não queremos um grão de pó. A direcção tem de estar bem alinhada. Os pneus bem calibrados. A injecção directa. Um carro novo só precisa de gasolina. A partir de certa idade começamos a ser mais tolerantes com a máquina. O carro pode estar sujo, riscado, a suspensão a bater, a embraiagem a patinar. Só queremos que o carro ande. Com a idade também nós começamos a precisar de aditivos, a carecer peças, Com a idade vão aparecendo as colites, sinusites, a próstata a precisar de inspecção, ejaculacção retrógrada, manutenção da lombar, lubrificação da hérnia, hiatos exofágicos, furos por todo o lado... Só queremos que a máquina não pare.
1.4.15
O PAÍS ESTÁ MALUCO
O país está maluco. Nas Finanças há uma lista VIP que avisa quando os funcionários vasculham os nossos impostos. Mas a lista só tem quatro nomes: Presidente, Primeiro Ministro, Vice-Primeiro e um Secretário de Estado. Vai-se a ver e afinal há 2300 pessoas credenciadas para poder vasculhar as nossas declarações e mais de 200 trabalham em empresas privadas que prestam apoio técnico à Autoridade Tributária. Melhor seria talvez todos termos acesso aos impostos de cada qual e acabava-se a fuga de informação. A transparência era total. A máquina fiscal está de tal forma eficaz e impetuosa que esta semana foram penhorados quatro bolos numa pastelaria por dívidas ao fisco. O valor do leilão em hasta pública atingiria 2 euros no máximo, se os bolos não ficassem entretanto podres. Já na semana passada tinham penhorado umas bananas e demais produtos hortícolas de uma instituição de apoio social a idosos por um dívida de 4000 euros. Acabaram a devolver a hortaliça depois de uma campanha pública de escárnio e mal dizer. Seria bom que os nossos problemas fossem só estes. Quase parece de propósito para nos fazer esquecer o caso BES/PT ou a prisão de José Pinto de Sousa, mais conhecido por Sócrates, ou todas as desgraças demagógicas que vamos ter de suportar até às eleições de Outubro. Mas não. Sinceramente acho que não há um projecto deliberado para nos alienar da realidade. O que está a acontecer é por força da crise e de medidas mal calibradas e mal executadas. Portugal está a resvalar para pior cenário: passamos do país em que se podia fazer tudo, para aquele em que não se pode fazer nada. Mais uns anos e vamos ser controlados nos restaurantes que frequentamos, na roupa que vestimos, nos passeio que damos. Duas vezes no Belcanto dá direito a um interrogatório pesado; um par de Lacostes e temos de apresentar a declaração de IRS; três saídas por ano ao estrangeiro e seremos suspeitos de branqueamento de capitais. A crise, e os sistemas implementados, estão a fazer passar de um país permissivo, para um país intolerante. E isto pode ser perigoso pela desumanização e indiferença que cria. A sociedade está a alterar-se muito rapidamente e é essencial criar contra-poderes que impeçam injustiças flagrantes.
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