Showing posts with label Crónicas do Hospital. Show all posts
Showing posts with label Crónicas do Hospital. Show all posts

29.4.12

CONSCIÊNCIA DA PILA

Um homem nem sempre tem consciência da sua pila. Habitua-mo-nos a crescer com ela e ela a crescer connosco. Mas, a verdade é que ela existe para além da nossa vontade. Um instrumento vagamente incómodo que atrapalha nas calças e nunca sabemos se havemos de arrumar para a esquerda ou para a direita. Com o tempo, porém, vamos aprendo a tolerá-la. As senhoras costumam gostar. Dá jeito para fazer chichi em circunstâncias adversas. É um prodígio de design e elasticidade que permite a adaptação aos lugares mais confinados. Os anos passam e vamos aprendendo a conviver com a nossa pila. Às tantas já nem reparamos. É só quando acontece alguma coisa que lhe damos valor. Operações, dores, ardores... O hospital permitiu-me desenvolver um afecto acrescido. Uma ligação de maior intimidade. Tudo tem um lado positivo. Cada vez sou mais dono da minha pila. 

CRÓNICAS DO HOSPITAL - O REGRESSO

Quando finalmente saí, tudo parece ter outra cor. Ainda não morri desta e o que vier a mais é ganho. Aprendi imenso nesta minha primeira viagem ao hospital. A primeira é que não quero mais nenhuma. Depois, que sou um privilegiado. O hospital era bom. A comida óptima. As enfermeiras uma maravilha. O médico competente. Regresso com a obrigação de beber três litros de água por dia e de não fazer esforços nenhuns. Quanto à água, só receio afogar-me. Quanto aos esforços, parece-me bem. Perguntei e o médico disse-me que podia blogar livremente. Amigos, a vida continua!

28.4.12

RESSECÇÃO ENDOSCÓPICA DA PRÓSTATA


A próstata é uma glândula bem escondida e que discretamente vai produzindo o sémen. Encravada por baixo da bexiga e quase a descair para o recto, a próstata poderia ficar ali acobertada e sossegada pela vida toda. Ninguém dava com ela. Sim, que o exibicionismo fica mais para a frente... Acontece que lhe dá para crescer com a idade. Aumenta de volume e passa de uns normais 20/30 gramas, para 50, 60 e mesmo 100. Azar dos azares, o canal da urina, a uretra, é o mesmo do sémen. A uretra passa pelo meio da próstata em ligação à bexiga. Quando a próstata cresce a uretra fica comprimida e a urina começa a correr mal. De ano para ano, cada vez pior. Pode mesmo fazer uma retenção por obstrução total do canal e provocar infecções a montante, na bexiga e nos rins. É a Hipersplasia Benigna da Próstata (HBP). Uma operação simples para desobstruir a uretra. A Ressecção Endoscópica da Próstata. Na imagem de baixo podem ver o aparelho usado na penetração. Depois há uma espécie de desbaste, como se estivéssemos a trabalhar talha e ficam aqueles fragmentos cortados. Foi esta a operação que fiz. Um operação com um post-operatório chato, pela necessidade de algalia de grande calibre e, depois, do ardor no acto de urinar. Oito dias depois, estou muito melhor e já me sinto um homenzinho. Ressecção é uma palavra "fina". Talvez das poucas que tem dois ss e dois cc.  Esta palavra vai desaparecer e passará a resseção ou será recessãoAproveitem enquanto não chega o Acordo Ortográfico. 

EFEITOS DO SORO




27.4.12

CRÓNICAS DO HOSPITAL - O MITO DAS ENFERMEIRAS

Assistentes de bordo, bombeiras, mulheres polícia... e, claro. enfermeiras. Um fetiche de fardas. Um mito sexy para aumentar a excitação. Vêm de branco, de azul, algumas de encarnado. Deve haver uma hierarquia. Não consigo entender. Movimentam-se airosamente entre tubos e algalias. Seringas e agulhas. Pensos e compressas. Uma profissão exigente. Uma responsabilidade total. São os nossos anjos da guarda. Mexem em tudo com um à vontade desconcertante. E nós estamos muito expostos. Expostos e fragilizados. Pior, nada nos pode excitar. Aliás era o pior que me podia acontecer. Uma erecção e lá volto eu para o bloco operatório com o "material" descosido. Como controlar estas coisas? Francamente, nesta fase, prefiro enfermeiros.

26.4.12

CRÓNICAS DO HOSPITAL - DOS TRAQUES E SEUS DERIVADOS

Dar traques é uma actividade essencial para a saúde. Um traque entalado pode dilatar os intestinos, provocar dor de cabeça, comprimir o diafragma. Pode mesmo despoletar um ataque cardíaco. O traque tem de ser eliminado, custe o que custar. Mas, nem sempre é fácil. Há traques renitentes que se acobertam nos entrefolhos do bandulho. Traques escorregadios que ora sobem, ora descem. Traques cobardes que se recusam a ver a luz do dia. Uns requerem força. Outros, apenas jeito. Dar traques é, socialmente, uma arte. A discrição sem ruído. O alívio sem cheiro. Depois de uma operação "às partes", traquejar exige dificuldade acrescida e cuidados redobrados. Não se pode rebentar com a operação. Não podemos contrair o abdómen. Tem de ser suave. O pior é que sem um pequeno esforço não é possível desalojá-los. E, assim, passamos  o dia a engendrar técnicas. De cócoras? De pernas para o ar? De lado? Os tubos continuam a atrapalhar. Às tantas ainda me sai pela boca! Finalmente um estrépido de felicidade. Uma sonoridade rotunda próxima de um dó maior de sétima aumentada. A cor era definitivamente amarela. Um tempo arrastado, talvez dois compassos ternários e uma semínima abreviada em "staccato" final. Mas os traques são uma função continua. Uma prova de vida. Uma força da natureza. Sei que em breve terei nova batalha com novo traque. Uma batalha privada, porque aqui ninguém ajuda. Ninguém pode dar um peido por nós!

25.4.12

VISÕES DO HOSPITAL







CRÓNICAS DO HOSPITAL - DO CHICHI E DO CÓCÓ

O quarto tem vista para a serra de Monsanto. Mas eu não quero saber da vista. Estou furado, entubado, algaliado. O contrôle da cama articulada amarrado ao varão.  Dois tubos a sair da "coisa". O comando da televisão pendurado no tubo do soro. O telemóvel ao lado da almofada. O caderno de notas do lado direito. A máquina fotográfica do lado esquerdo. Entra a enfermeira. Mais um chute na veia. Analgésico. Batem à porta."Posso limpar?". Outra enfermeira. Outro chute. Agora é antibiótico. Muda o soro. Mais uma litrada. Começo a ficar com alergia na pele. Nova enfermeira. Mais analgésico. Toque na porta. Agora é a comida. Gritaria no corredor. Outra enfermeira: "Ah, temos de tomar um laxante"... Só no hospital é que percebemos a confusão que é o chichi e o cócó. Temos de ir com a enfermeira atrás. Arrastar suportes, sacos de soro, tubos a atrapalhar, as compressas a descair, o pijama a meter-se no meio do material, o papel higiénico que teima em não rasgar. Uma luta inglória que nos faz pensar se vale a pena comer. Afinal vai tudo pela pia abaixo e só dá maçada. Acresce que sai caríssimo comer. Não haverá energias alternativas? Sei lá... comida eólica, uns comprimidos nucleares?

24.4.12

CRÓNICAS DO HOSPITAL - CUIDADOS INTENSIVOS

Não sei porque vim para aqui. Era suposto voltar para o quarto. Devo estar muito mal para me trazerem para os Cuidados Intensivos. Um espaço branco. Mais branco que a cal. Luzes coadas. Camas articuladas ligadas a uma parafernália de fios. Indicadores luminosos, gráficos, computadores que apitam em permanente busca de sinais vitais. Ali temos a certeza de morrer completamente assistidos. Eu devia estar mesmo muito mal para estar na Unidade! Ao meu lado a D. Rosália gemia baixinho. Permanentemente rodeada de enfermeiras. Parece que lhe tinham tirado osso de fémur para enxertar uma vértebra, depois de lhe terem tirado um quisto que obstruía a aorta (ou seria a aorta que obstruía a vértebra?). Enfim, está no hospital há um ano. Ao fundo, a D. Aurora tosse convulsivamente e abre os olhos para gritar pela Catarina, exigindo que se quer levantar imediatamente. Ninguém liga. Do outro lado, um homem forte recentemente operado ao coração, tenta ler um livro de pernas para o ar... Que estava eu ali a fazer? Só podia estar muito mal! Muito mal mesmo! Continuo sem sentir as pernas. A "coisa" começa a arder. A fome ataca violentamente. Explicam-me que não posso comer enquanto durar o efeito da anestesia. Aldrabo. Digo que já passou. Exijo uma sopinha. A enfermeira não vai nisso. A grande vantagem é que não preciso de ir ao WC. Estou algaliado com volta dupla, de saída e entrada, para lavar bem por dentro. Uma urina permanente que sai para um jarro com excelente cor de sangria rosé. Devo ter dormido umas horas. Acordo em sobressalto com a invasão de um grupo de médicos em visita guiada. Ficaram muito tempo ao lado da D. Rosália (a tal do osso na aorta). Quando chegaram ao pé de mim, um perguntou: "E este?". "Ah, esse foi uma recessão". Passaram por mim com absoluto desprezo, quase desdém. Foi aí que percebi que, afinal, talvez o meu caso não fosse muito grave...

23.4.12

CRÓNICAS DO HOSPITAL - NO BLOCO

Da cintura para baixo não sentia nada. A parte de cima ouvia, sentia, mexia. Um corpo dividido. Meio morto. Meio vivo. As vozes atrás da cortina sussurravam palavras incompreensíveis. Termos técnicos. Jargão clínico. Maçonaria anatómica. Um écran mostrava imagens a cores. Não percebi nada. Não tinha legendas. Tremia de frio. Mãos geladas. Dentes a tremer. Músculos em espasmo. A morte deve ser assim. Para baixo não sei. Não sentia nada. Ainda teria pernas? Ao lado passavam rapazes de touca alegres, discutindo futebol. As vozes atrás da cortina murmuravam que estava quase. Quase o quê?! Apeteceu-me perguntar, mas tremia de frio.. Não conseguia articular. Entrei no pânico da congelação. Percebi que estavam a furar. Seria um berbequim? Devia estar a esvair-me em sangue. Um desastre provocado. Uma invasão ao meu corpo... e ainda por cima vou pagar! Apeteceu-me fugir, mas não tinha pernas. Tentei mexer as nádegas. O rabo era um conceito meramente intelectual. Totalmente inamovível. Absolutamente irresponsável. Não tinha comando no corpo. Aliás, não tinha comando em nada. Podiam cortar-me às postas. Tanto faz! De repente acabou. As vozes por trás das cortinas calaram-se. Arrastaram-me para a maca. Elevador acima, elevador abaixo. "Tudo bem, rapaz. Correu tudo bem". "Tudo bem o quê?", balbuciei em estado de choque térmico. "A operação correu bem..." "Ah, sim, pois... e ainda tenho pila?"... 

22.4.12

VOLTEI

Quando se entra para uma operação nunca sabe o que acontece. "Olha, já agora corta-se mais isto... É pá, tira mais aquele bocado... Então e aquilo, não está lá a fazer nada!" Não temos voto na matéria. Estamos KO. Tudo isto se complica quando mexem no "instrumento". Nunca se sabe se fica a tocar bem, se desafina, ou sequer se apita. Sigam as Crónicas do Hospital. Nos próximos dias vou dar-vos uma visão desapaixonada de uma operação vista por dentro.

ET: quero agradecer penhoradamente todos os comentários e dizer-vos que já me fartei de rir (embora não possa!)
ET 2: estou com dificuldade em postar. O Blogger meteu uma novo visual, novas opções... Uma trapalhada!