A Fernanda arisca-se a não passar. Vai-lhe ser pedido tributo para cima de um tomate e não têm multibanco. De um lado estão os maus e do outro os ainda piores. São todos padres. E, como se sabe, os padres só perdoam depois do óbulo completo e em casos raros de extrema unção devidamente testamentada. A Fernanda arrisca-se a ficar debaixo da ponte ou nas celas húmidas da Torre, rezando por mais cabidela. Foi isso que me disse o erudito José Leite de Vasconcelos, nascido ali em Ucanha: era a defesa do couto monástico de Salzedas; a ostentação senhorial, bem patente na alta torre; e a da cobrança fiscal, pelo valor económico que tal representaria para o mosteiro cisterciense erguido próximo. Aqui tens de pagar. E ainda hoje se paga. Paga-se a visão da fronteira das terras do Ordem de Cister. Vai tudo para compotas.
No Gerês, perto do rio Arado, encontrámos a Orvalhinha (Drosera rotundifolia). Uma das raras espécies de plantas carnívoras do nosso país. Cresce em solos pobres em nutrientes mas ricos em humidade. As minúsculas gotícolas que se assemelham às gotas de orvalho são na realidade uma viscosidade adocicada e pegajosa que a planta segrega através dos pêlos que cobrem a superfície das folhas e que utiliza para capturar pequenos insectos tais como mosquitos, melgas, moscas, pequenas borboletas e libelinhas. Ao poisarem na planta, atraídos pela sua coloração vermelho vivo e pelo aroma adocicado das secreções, os insectos ficam enredados nesta viscosidade e, lentamente, a folha fecha-se sobre o incauto insecto. Os pêlos que revestem as folhas segregam também enzimas digestivas que dissolvem as presas e permitem à Orvalhinha alimentar-se... Mais carnívoras só as mulheres.
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