Passei por Viseu no meu regresso de Vila Real. A cidade é imponente e mantém uma traça medieval, no núcleo central, absolutamente imperdível. Curioso é que sempre que vou a Viseu chove a cântaros. Não foi excepção desta vez. Uma chuva inclemente que nos fez derrapar na calçada escorregadia, na fuga precipitada para o restaurante.
Este era o objectivo: o restaurante "O Cortiço", um ex-libris da gastronomia portuguesa. Um espaço situado na judearia de Viseu. Escuro, no granito pesado das paredes grossas e toscas, "O Cortiço" tem uma culinária regional, com pratos trabalhados e segredos bem guardados. Ainda me lembro de lá ir em vida do fundador do restaurante, D. Zeferino de seu nome. Um"chef" (como agora se diz) que fez da casa um local de peregrinação obrigatória e um negócio super rentável. Eram filas e filas de espera. Marcações cerradas. Almoços até às cinco da tarde. Agora... havia três mesas ocupadas!
Este é o famoso arroz de carqueja do Cortiço. Cozinhado em barro preto, é absolutamente sui generis no tempero. A carqueja é uma erva do mato que dá um gosto envolvente, vagamente adocicado e nos transporta a uma infância perdida nas serras desse Portugal profundo. Os portugueses adoram comer. Têm feiras só para petiscar. Durante a refeição falam de outras refeições. No melhor restaurante falam de outros onde já foram ou onde irão sem falta. Talvez por isso os povos do norte nos sejam estranhos. Comem para se alimentar. Nós fazemos da comida um culto.
A crise económica está a alterar drasticamente este panorama. Os bons restaurantes estão às moscas. Para manterem alguma clientela tiveram de absorver o IVA que aumentou, estupidamente, para 23%. Os restaurantes começam por restringir custos, começam a perder qualidade e, de seguida, fecham. Os portugueses alteram os hábitos. Comer fora deixa de ser o desporto nacional e passa a ser uma extravagância. As falências nos restaurantes sucedem-se. A cultura portuguesa altera-se. Cada vez mais estamos a comer nos "fast foods" e nas irritantes pizzarias que povoam os nossos "shopings". A obesidade aumenta. A saúde diminui. Os gastos sociais só não aumentam mais porque morrer sai mais barato. Em breve estaremos a comer o IVA (Imposto de Valor Acrescentado)... se ainda houver. A presente crise não é só económica. É uma crise de valores. Uma crise de valores (g)astronómicos.