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22.11.09

CARETOS - IV

A origem destas festas dos Caretos é um enigma. Têm, sem dúvida, semelhanças com as antigas Saturnais, Dionisíacas e Juvenálias, mas a sua essência terá origem mais remota. Segundo Mircea Eliade, " uma integração do complexo solar do "ano" e a roda da fortuna na magia e na mística agrária das crenças europeias antigas e do folclore moderno. Este mesmo complexo cultural "sol-fecundidade-herói" reaparece mais ou menos intacto noutras civilizações. No Japão, por exemplo, ele está presente no quadro do cenário ritual do "visitante", em que todos os anos se realiza a visita e grupos de jovens de cara sarapintada, os "Diabos do Sol" que vão de herdade em herdade para assegurar a fertilidade. Um herói solar apresenta sempre uma "zona obscura", a das relações com o mundo dos mortos, a iniciação e a fecundidade. O herói "salva" o mundo, renova-o, inaugura uma nova etapa que equivale, por vezes, a uma nova organização do universo, ou seja, conserva a herança demiúrgica do Ser supremo".
A máscara constitui um aspecto fundamental deste rito. É o símbolo de passagem de um estado de consciência para outro. Facilita ao jovem "romper" a sua persona de adolescente e renascer como adulto. O seu simbolismo está estritamente relacionado com os "seres do outro mundo", sejam antepassados mortos ou divindades e com a passagem das trevas à luz.
Segundo o Bardo-Thodol, as dividades têm uma faceta terrífica que serve para pôr à prova a espiritualidade da alma humana. Nesta perspectiva filosófica, a face "diabólica" de Deus tem uma função iniciática (por isso, muitos rituais mítico-religiosos passam pela invocação e superação do "diabo". É mais uma vez o caso dos Templários).
Bibliografia: "A Alma Secreta de Portugal", de Paulo Alexandre Loução.
NOTA FINAL: Podem ser apreciadas estas Festas dos Rapazes ou dos Caretos, nomeadamente em Varge, Ousilhão, Constantim e Bemposta (Trás-os-Montes).

21.11.09

CARETOS III

As celebrações Solsticiais ocorrem a partir de 24 de Dezembro. O problema da desertificação demográfica em todo o Trás-os-Montes, não impede que muitos jovens regressem às aldeias neste período de Natal e Ano Novo. Muitos deles são jovens bem integrados e com sucesso na sociedade moderna que aderem a práticas ancestrais.

À frente desta festividade cíclica estão dois Mordomos, eleitos no ano anterior. Os preparativos começam em Agosto com a contratação do gaiteiro e a reserva do vitelo. A festa começa a 24 de Dezembro, coma imolação do vitelo que servirá para as refeições dos "confrades". A "casa da festa" é exclusivamente frequentada pelos rapazes solteiros da confraria e dois cozinheiros (únicos casados admitidos). Ninguém mais lá pode entrar. Fica um ar de secretismo sobre o que lá se passa. Há praxes nunca divulgadas. A noite de 24 é passada com o ensaio das "loas" (quadras de maldizer, sobre acontecimentos ou pessoas da aldeia). A seguir vão comer. Naqueles três dias de festividades, comem e bebem muito, demais.
Na alvorada de 25, os rapazes assistem à missa ainda sem máscaras. Logo a seguir, saem a correr e vestem os seus fatos de Caretos. A partir daí é o caos. Correm, gritam, berram, agitam os chocalhos, fazem diabruras a toda a gente, têm uma liberdade ilimitada. Um estado quase a raiar a loucura. Começa o cantar das "loas", um conjunto de quadras que exorciza, com o seu maldizer, os rumores da aldeia, trazendo para a luz do dia aquilo que vive na obscuridade. Ninguém os pode levar a mal. De seguida vão de casa em casa, continuando as suas travessuras. São recebidos com bolos e Vinho do Porto. Todos gostam de ouvir os Caretos bater à sua porta. Eles representam a energia do Ano Novo que se quer fértil e abundante.
Para a mentalidade arcaico-solar, o guerreiro é símbolo da energia espiritual que cosmiza o caos, ou seja, aquele que se supera a si próprio, que enfrenta com êxito os estados-limite. Por isso, Marte, deus da guerra, era também uma divindade protectora e agrícola.
À noite realiza-se o jantar na "casa da festa" só com a presença dos membros da confraria e dos cozinheiros. Independentemente do estado alcoólico em que fiquem, no dia seguinte, mal a gaita toque, todos têm de estar presentes. É a ideia de ser posto à prova, uma constante nas Festas de Rapazes.
Dia 26, é o dia dedicado a Santo Estevão (o primeiro mártir do cristianismo e padroeiro dos Rapazes). Há missa solene. Ao almoço elegem-se os Mordomos do ano seguinte. De seguida, os rapazes vão pedir autorização aos pais das raparigas para elas participarem no jantar da noite que se realiza em mesas separadas. A Festa encerra com um baile. Depois de separados por três dias, os princípios masculino e feminino, simbolizados pelos rapazes e pelas raparigas, voltam a unir-se. Ultimamente, em Trás-os-Montes, tem crescido o número de Festas de Raparigas. É provável que elas existissem em tempos pré-cristâos, baseadas nos mistérios de Artémis e nos seus ritos de passagem, e que depois não resistiram ao advento da cultura judaico-cristã...
Bibliografia: "A Alma Secreta de Portugal", de Paulo Alexandre Loução.

19.11.09

CARETOS - 2

Conforme nos diz António Tiza: “Os Caretos, Máscaras, Carochos ou Chocalheiros (os nomes variam consoante as aldeias) surgem como sacerdotes de antigas divindades, ligando o sobrenatural ao natural, louvando os mortos e castigando os vivos. Os Caretos são seres superiores, mágicos e proféticos, gozando de uma liberdade quase sem limites, com a faculdade de castigar, acariciar ou criticar. Ao criticar publicamente os males sociais expurgam a comunidade, purificam-na e preparam-na para o novo ano que se aproxima. Danças, gritos e chocalhadas, são ritos que o mascarado executa no desempenho das suas funções – profiláticas e propiciatórias. Festas de rapazes e dos rituais de passagem: a passagem da adolescência para a maturidade, como nas antigas sociedades secretas masculinas, nas quais os jovens se deviam submeter a determinadas provas. A máscara, obra das suas próprias mãos, é o elemento pelo qual se dá a transformação do jovem em animador, líder, sacerdote e profeta.”
A máscara tem uma enorme carga emotiva. A ligação ao Teatro Grego é óbvia. A máscara (prosopon) dos seus actores deu origem à palavra latina persona, étimo de pessoa e personalidade. A nossa personalidade é composta por inúmeras máscaras que nos dominam e aprisionam o Ser mais profundo. Nos seus fundamentos mais esotéricos, o teatro dá-nos a possibilidade de entender essa relação misteriosa entre o Ser e as personalidades. Entre o “rosto” e as “máscaras”. E a máscara, como todos os poderes, pode ser dominada ou dominadora…
Bibliografia: “A Alma Secreta de Portugal”, de Paulo Alexandre Loução.

18.11.09

CARETOS - I

Nos tempos pré-romanos, a região de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal, terá sido habitada pelos vacceos (de origem asturiana), vizinhos dos celtiberos a oriente e dos galaicos a ocidente. Tal como todos os outros povos autóctones, os vacceos acabariam celtizados. Bragança, capital de Trás-os-Montes, deriva de Brigantia, teónimo celta. O espírito comunitário dos vacceos é ancestral e destacado pelo historiador Diodoro. A cultura transmontana é fértil em tradições mítico-religiosas de origem arcaica. Destaca-se o culto o pão, da água e, sobretudo, do fogo, com presença obrigatória nas Fogueiras do Galo, no Natal.
Na época do Natal em que as pessoas estão recolhidas a trocar presentes, nas aldeias transmontanas o povo sai à rua, debaixo de temperaturas quase sempre negativas, dispõe-se em círculo à volta as fogueiras. Os jovens organizam-se, mascaram-se e ritualizam o caos que antecede a nova ordem cósmica – o Ano Novo - e começam a povoar a aldeia com “demónios” e figuras solsticiais.
Os rituais Solsticiais ocorrem nos doze dias que vão do Natal ao Dia de Reis. Vive-se o espírito das Saturnais, em Roma, que decorriam a partir de 17 de Dezembro, integrando, simultaneamente, ritos guerreiros e solares de fundo muito arcaico.
O Solstício de Verão marca o apogeu do visível, da Luz. Seis meses depois, surge o momento dramático: a noite aumentou e o reino as trevas parece tragar por completo o dia. No dia do Solstício de Inverno, porém, o Sol reage e começa, progressivamente, a manifestar-se aumentando os dias. A Luz venceu as Trevas. Por isso, este dia corresponde à data de nascimento dos grandes deuses solares: Agni; Horus; Mithra. Mas esta vitória passa-se no mundo oculto, por isso sempre foi motivo de rituais de cunho esotérico que estabelecem a ligação entre o mundo invisível, onde vivem os antepassados e os deuses, e o mundo visível, onde vivem os homens.
Com a ajuda bibliográfica de Paulo Alexandre Loução, vamos, em próximos posts, percorrer algumas dessas tradições, que ainda hoje ocorrem em Trás-os-Montes. As fotografias foram tiradas por mim, num momento de rara oportunidade.
(a continuar)