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18.11.09

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (4)

Foram dois dias a comer e a beber no tombadilho do barco, entremeados de pequenas voltas na parte antiga da cidade, onde predominam as catedrais do marisco, para ganhar apetite e voltar rapidamente a comer e a beber.
Foi óptimo para quem, como eu, não consegue entender o conceito “barco” e que gosta de enfrentar o mar com os pés bem assentes em terra firme.
Para mim, as marinas são locais alienígenas. Um amontoado de cascos, cabos, nós e mastros que custam um dinheirão só para atracar. Passadeiras flutuantes, próprias para estimular o vómito. Bandeirinhas de significado hermético. Sinais cabalísticos. Linguagem exotérica.
Também não percebo como se pode gostar de barcos: espaço confinado; cabeçadas permanentes nas portas; dormidas acanhadas no abafado da noite; convés perigosamente escorregadio; defecações deficientes; banhos racionados; comidas instantâneas; motor sempre desafinado; porcas para apertar; velas para içar; madeiras para envernizar; qualquer coisa sempre para arranjar... Um barco é um “bricolage” permanente!
O tamanho é em pés. A velocidade em nós. Bombordo é esquerda e estibordo direita. Navega-se à bolina cerrada ou folgada, a todo o pano das andainas. Há alhetes, traquetes, mezenas, retrancas e caranguejas. Então e o pau da bujarrona? Pessoalmente, prefiro a verga grande ou, no limite, a verga de joanete. Para quem goste, há ainda os garupés e mastaréus. Isto sem falar do burro de Sotavento e do burro de Barlavento, que ninguém percebe o que andam aqui a fazer. Pior, nas extênsulas chega mesmo a haver adriças. E para quem quiser, há sempre o cesto da gávea para primeiro avistar.
As cordas dos barcos, a que os “marítimos” chamam pomposamente cabos, não se deixam amarrar de qualquer forma. Ele há o nó de cábula; o nó coberto; a emenda da cotovia; o lais de guia pelo seio; a volta de fiel; o nó azelha; o nó trempe; etc, etc…
Enfim, um verdadeiro pesadelo! Suspeito que se alguém disser, “enfia-me a verga grande na retranca, antes que o pau da bujarona se me espete no traquete”, ninguém vai perceber e ainda acaba pendurado no cesto da gávea com uma emenda da cotovia a aconchegar-lhe o pescoço.
Mas, não há dúvida que os barcos nos dão grandes dias de felicidade: o dia em que se compra e o dia em que se vende!
Nota: é mesmo o "iate dos primos".
(a continuar)

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (3)

Paragem obrigatória em Baiona, onde “os primos do Porto” têm estacionado um iate, na respectiva marina. Como o mar não estava de feição e eu tenho a mania que enjoo, limitámo-nos a gastar um pouco de fuel na Ria de Vigo. Nem tivemos coragem para enfrentar as ilhas de Cíes que se avistavam logo à entrada da ria como três naves pétreas viradas ao oceano, por entre vagas alterosas de cerca de meio metro de altura.
A título de curiosidade, diga-se que em 1493 chegou a Baiona a caravela A Pinta, sob ordens de Pinzón e pilotada pelo galego Sarmento. Foi a primeira cidade europeia a ter conhecimento do achamento do Novo Mundo. No porto, está uma réplica comemorativa desse afortunado acaso naval.
Baiona chamava-se Erizana até ao tempo do rei Afonso VII e durante a Idade Média teve vida agitada, dada sua posição estratégica, com o seu porto fechado e defendido pelo Monte Ferro e as ilhotas Serralleiras e as Estelas. Nele chegou a estar concentrada uma frota para combater os piratas ingleses, comandados por Francis Drake, que não cessavam de atacar as costas galegas.
Destaque para a fortaleza Monterreal, situada no Monte do Boi, datando a sua actual construção do séc. XVI, já que o castelo anterior foi arrasado em 997 por Almansor. No seu interior, encontra-se hoje o Parador Conde de Gondomar, onde se dorme bastante melhor que no sufocante iate “dos primos”.
(a continuar)

17.11.09

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (2)

Mal passamos o rio Minho e chegamos à Galiza, percebemos que continuamos em Portugal. Não tentem falar castellano ou português apalhaçado. Eles levam a mal. Falem português devagar, carregando um pouco nos “x” e recebam os sorrisos cúmplices dos irmãos galegos.
De facto a língua galega denomina-se portugalego ou galego-português.
Com a independência de Portugal, a Galiza ficou órfã. A língua galaico-portuguesa quase se extinguiu. Desde o séc. XVI deixou de se escrever oficialmente e de se ensinar publicamente. Durante mais de três séculos a língua foi, deliberadamente, esmagada.
Passou a ser transmitida, quase secretamente, por via oral. A pouco e pouco, tornou-se uma língua de analfabetos e rústicos, sem prestígio social.
Esta tendência agravou-se, em especial depois das invasões francesas e da tentativa de levantamento frustrado de 1846 de raízes paralelas à Maria da Fonte. Os principais cargos passaram a ser ocupados exclusivamente por castellanos, remetendo o galaico para o “guetho” dos marinheiros e dos camponeses humildes, definitivamente banido das esferas culturais e do ensino público.
Ao contrário, o galaico-português levado pelos portugueses às cinco partidas do mundo, confrontou-se com experiências novas. Enriqueceu-se. Assimilou vivências inéditas na política, geografia e no contraste étnico.
O galaico-português da Galiza não viajou nas naus e perdeu oportunidade de se abrir e renovar. Foi-se adulterando, aculturando… Estagnou!
Na imagem o condado galaico-duriense, em 1066. Após a independência de Portugal (1143), o Rio Minho separou o condado em dois territórios. A parte norte, onde se situa Compostela, manteve-se no reino de Leão.
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16.11.09

TURISTA OCIDENTAL - COMPOSTELA (1)

Havia Jerusalém e Roma. Depois inventaram Lurdes. A Península Ibérica mantinha-se fora do “turismo religioso”.
O “turismo religioso” era já uma actividade muito lucrativa desde o distante ano de 326, data em que Helena, mãe do imperador Constantino, se dirigiu a Jerusalém e descobriu o Santo Sepulcro. Na ocasião, a “imperatriz” descobriu também a Verdadeira Cruz, iniciando a “caça à relíquia”, passatempo que se viria a revelar um sucesso, de tal forma que no séc. XVI, segundo Erasmo, seria possível construir um navio mercante com os fragmentos dessa Cruz!
Santiago de Compostela, setecentos anos mais tarde, viria a ser um êxito. Um verdadeiro “case study” de marketing turístico que lhe garantiu a primazia religiosa na Península durante mais de nove séculos. Os portugueses só no séc. XX se lembraram de Fátima.
Compostela é, também, um bom lugar para se tentar entender esse mistério absolutamente irracional da fé e procurar a relação intrínseca entre o medo da morte e a crença na persistência da alma.
Na imagem, Constantino I, imperador do Império Romano de Oriente.
(a continuar)