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24.3.09

VINHO DO PORTO V

Os LBV (Late Bottle Vintage) são uma excelente alternativa aos Vintage. Também provenientes de uma só colheita, ficam não dois mas cinco ou seis anos em casco, antes de serem engarrafados. Podem bebidos logo. Não necessitam de ser decantados, nem na horizontal. São um excelente compromisso de qualidade/preço relativamente aos "Vintage". Bebem-se com um bom queijo, recomendando-se o melhor do mundo: o Queijo da Serra da Estrela. Ainda dentro dos vinhos excepcionais, temos o "Vintage Character", este já proveniente de um lote de quatro anos, sempre excepcionais, e, consequentemente, sem data no rótulo. O preço continua a baixar.
Como já se disse a maioria dos vinhos são envelhecidos em casco. Os "Ruby" são vinhos que envelhecem em grandes balseiros de madeira de carvalho (cerca de 20 000 litros), o que lhes dá pouco contacto com o ar que entra pelos poros da madeira. Assim, são vinhos de baixa oxidação que mantêm as características iniciais de vinhos jovens, com sabor intenso a frutos silvestres. Vinhos despretensiosos. Os "Tawny" provém do mesmo tipo de uvas, mas envelhecem 2/3 anos em balseiros de 20 000 litros e depois são transfegados para pipas de 550 litros. Esse maior contacto com a madeira e com o ar que penetra pelos poros aumenta a oxidação e o o envelhecimento é mais rápido. Quando ficam muitos anos na madeira, acabam por adquirir uma cor âmbar, clara e amarelada. Um "Tawny" velho pode chegar aos 40 anos de envelhecimento. A complexidade dos aromas e sabores é, então, enorme. Uma vasta gama de aromas subtis, de grande intensidade, sobressaindo os frutos secos e a madeira. Deve ser consumida à sobremesa e, curiosamente, acompanha bem com chocolate, café e amêndoa. Sendo um vinho muito versátil pode ser servido fresco, sendo ideal para o Verão. Finalmente, há também os Portos Brancos, feitos exclusivamente a partir de uva branca (contrariamente a outros vinhos brancos). São vinhos relativamente desprezados para um apreciador, mas muito usados como aperitivo. Como se vê em Portugal inventam-se todos os pretextos para beber vinho. Um hábito que, infelizmente, está a perder clientes para a cerveja. O preço será apenas uma das razões!
jp

23.3.09

VINHO DO PORTO IV

Os vinhos do Porto estão sujeitos a classificação rigorosa. Os vinhedos podem ser de nível A a F. Os vinhedos classificados com o nível A e B são os únicos autorizados a produzir os "Vintage" e os "Single Quinta Vintage". A classificação é dada pelo Instituto do Vinho do Porto que concede uma licença, na qual se especifica as quantidades de vinho do Porto que podem ser confeccionadas. No caso dos "Vintage" só são permitidos 600 litros por cada 1000 vinhas. A classificação obedece a múltiplos parâmetros: a produtividade; altitude; tipo de clima; tipo de solo; espaçamento das vinhas; exposição ao solo; tipo de uvas; tipo de poda; etc, etc. A pontuação máxima é de 1630 pontos. Depois vai baixando de 200 em 200 pontos até à letra F.
Os ingleses estiveram envolvidos com o vinho do Porto desde o séc. XVII. O teor encorpado dos vinhos agradava-lhes e substituía o Bordeaux, cuja importação era dificultada pelo permanente estado de guerra com França (a guerra dos "Cem Anos", na verdade durou 300). Por outro lado, desde o tempo da 2ª dinastia (D. João I, 1383) havia uma aliança com Portugal, aliança reforçada com o Tratado de Methwen, de 1703, conhecido pelo "Tratado dos Panos e dos Vinhos", e que garantiu privilégios alfandegários de entrada em Inglaterra dos vinhos, em relação aos franceses e alemães. Os comerciantes ingleses começaram a perceber que o vinho viajava mal por mar e azedava frequentemente. Passaram a juntar-lhe aguardente para estabilizar (há quem defenda que este processo era já usado pelos portugueses na rota dos Descobrimentos. Este sistema evoluiu para a fortificação do vinho (junção de aguardente vínica) em pleno processo de vinificação, interrompendo a fermentação dois ou três dias depois de ter começado, permitindo a conservação de parte do açúcar das uvas que, assim, não se transforma totalmente em álcool. Este vinho, não só tem características próprias, como envelhece muito mais e melhor do que o vinho "normal". Há dois estilos de envelhecimento: em casco (a maioria) e em garrafa.
Os vinhos envelhecidos em casco (pipa ou tonel) devem ser consumidos rapidamente após acompra da garrafa. Não vão envelhecer. Só podem é estragar-se. Diferentemente, os vinhos envelhecidos em garrafa (após algum tempo de maturaçaõ em madeira, claro) atingem a maturidade plena no vidro. Os Vintage e os Single Quinta Vintage são envelhecidos em garrafa. Os "Vintage" são os de mais alta qualidade e preço. Uma selecção de vinhos de um só ano de produção excepcional e como tal designada pela entidade reguladora. Permanecem dois anos em casco e são depois engarrafados, envelhecendo por décadas nas caves arejadas, ganhando um requintado aroma e copioso sabor. Devem ser bebidos no fim da refeição acompanhando nozes e frutos secos. Um vez aberta a garrafa deve ser consumida no prazo máximo de 48 horas...
Amanhã acabo que estou quase alcoolizado. Boanôteatodos... ick!
jp

19.3.09

VINHO DO PORTO - III

As castas predominantes são quatro: os Brâmanes ou sacerdotes; os Chátrias ou guerreiros; os Vaisias, camponeses e comerciantes; e os Sudras ou escravos, povos não arianos. As castas não se podem misturar. Cada uma tem de ficar na sua, eternamente. Mas isto é na Índia. Aqui no Douro, felizmente as castas misturam-se... e bem!
São 40 as castas permitidas na confecção do Vinho do Porto. No entanto, as melhores e mais utilizadas são seis. A Touriga Nacional é a melhor em vigor e força. Produz pouca quantidade, mas de grande qualidade. Uvas pequenas e azuladas. Os vinhos têm uma tonalidade profunda e aroma a frutos silvestres. Dá-se em solos quentes e áridos como estes do Douro. A Tinta Roriz é a única, das clássicas, não originária de Portugal (em Espanha é a "temperanillo", na região de Rioja). Viril no carácter e com taninos fortes, tem nariz de resina, com aroma a cedro. A Touriga Francesa dá uma quantidade abundante, vinhos claros e aromáticos. A Tinto Cão, uma das primeiras variedades a ser aqui plantada, provavelmente antes do séc. XVI, produz pequenas quantidades de excepcional subtileza e invulgar aroma prolongado. A Tinto Amarela, produz com abundância. Cachos apertados, com uvas de casca fina e com sabor profundo a frutos maduros. Adora uma boa exposição ao Sol. Finalmente a Tinta Barroca é uma inovação introduzida há cerca de 100 anos. Colheitas abundantes. Vinhos robustos, aveludados e elegantes. Suaviza o lote final. A vinha é resistente ao frio, podendo ser plantada virada a norte.
Na década de 1870 apareceu a filoxera. Um insecto que ataca as raízes da videira e que as destrói completamente. Foi a calamidade na Europa. Na iminência de terem de beber água ou cerveja, os civilizados europeus acabaram por descobrir que o male viera da América, claro. Provavelmente numa vinha contaminada que fora exposta num Salão de Agricultura em Paris. Ora, se essa vinha não morria, era resistente... A partir de então as vinhas europeias passaram todas a ser enxertadas com vinha americana. O rizoma é plantado e depois faz-se a enxertia da vinha nativa. A diferença é que aqui no Douro o enxerto é feita nos próprios vinhedos e não em viveiro. Ficamos por aqui. Amanhã vamos aos Vintage...
jp

18.3.09

VINHO DO PORTO - II

O Rio Douro nasce em Leão (Espanha) e desagua no Porto. Foi ele que deu o nome à Região Demarcada. O vinho chegava aos aos armazéns de Gaia, em frente ao Porto, depois de uma perigosa travessia desde a Régua. Era transportado pelos barcos rabelos e o seu nome inicial era Vinho de Ribadouro. O Douro era um rio perigosíssimo até aos anos 70 do séc. XX, altura em que foi feito um sistema de barragens e eclusas que amansaram o caudal.
O Vinho do Porto surge com a sua especificidade devido a três factores distintivos: o clima; o solo; e as castas escolhidas.
A zona está separada do clima severo do Atlântico pela Serra do Marão, conhecida pela sua intransponibilidade. Uma barreira protectora para as uvas. A zona sofre Invernos rigorosos e Verões tremendamente secos. As vinhas são plantadas em vertiginosas encostas. Até aos anos 20, eram plantadas exclusivamente em socalcos suportados em muros, totalmente construídos à mão. Os desastres fatais eram (e são) frequentes. Só permitiam o cultivo de uma fila de de vinha. Muito trabalho e pouca uva, era o resultado. Com a introdução da recto-escavadora foi possível penetrar mais fundo no terreno e dispensar os muros de suporte. Os patamares construídos (veja-se a foto) passaram a permitir duas filas de vinha a uma distância de dois metros, uma da outra, sendo agora o trabalho feito mecanicamente. É possível com o "sistema de patamares" obter 3500 vinhas por hectare. Outro sistema, recentemente introduzido, é a plantação na vertical. A inclinação deve, porém, ser inferior a 45%. Aumenta-se a quantidade de vinhas para 5000 por hectare. Embora, presentemente, o trabalho na vinha seja quase totalmente mecânico, a víndima continua a ser manual. É mais caro, mas assegura-se a qualidade da uva. Só os cachos em bom estado e bem maduros são recolhidos. O solo da região demarcada é, também, importante na característica final do vinho. O solo é proveniente de um rompimento de rocha xistosa, sedimentária, que constituíu há milhões de anos o fundo de um lago. Grandes cataclismos determinaram que a rocha tivesse mudado da posição horizontal para vertical! Essa inversão deu ao solo uma porosidade muito especial e rica em nutrientes. Há vinhas cujas raízes conseguem penetrar no solo mais de dez metros em busca de água. Deixo para amanhã a problemática das castas. Já estou cheio de sede...
jp

17.3.09

VINHO DO PORTO - I

Julgavam que já se tinham visto livres do Douro? Puro engano. Até 6ª feira o Expresso da Linha tem o prazer de vos contar, com grande detalhe e inegável prazer, os pormenores mais sórdidos dessa mixórdia a que chamam Vinho do Porto. Para desanuviar de tanto álcool, faremos alguma abstinência em sequências postalíferas da velha cidade de Lamego, a Lamaecus dos romanos, onde em tempos inenarráveis habitaram Lígures e Túrdulos.
O vinho do Porto é um vinho natural e fortificado. A noção de fortificado remonta ao tempo em que os ingleses vieram para aqui embebedar-se com mais vigor. Há, porém, historiadores que dizem a tradição existir já no tempo dos Descobrimentos, visando a "fortificação" evitar que o vinho ficasse azedo tão rapidamente. Este vinho faz-se exclusivamente das uvas provenientes da Região Demarcada do Douro. Esta é, de facto, a mais antiga região vitivinícola do mundo, criada por alvará de D. José I, em Setembro de 1756, era ministro o nosso amigo Marquês de Pombal, também Conde de Oeiras, coisa que terá sido determinante num ligeiro aconchego de uvas de Carcavelos no mosto portista... mas isso agora não interessa nada! A principal diferença para os restantes vinhos é que a fermentação do vinho do Porto não é completa. É interrompida dois a três dias depois de ter começado, pela adição de aguardente vínica neutra (cerca de 77º de álcool), mantendo o vinho doce, visto que o açúcar das uvas não chega a ser totalmente transformado em álcool. Este vinho acaba, assim, por ficar nos 18º a 22º graus de alcolémia. A Região Demarcada tem cerca de 40 000 hectares, despenhados por montes e vales em socalcos de vertigem. Divide-se em três zonas principais: Baixo Corgo; Cima Corgo e Douro Superior, sendo as 2 últimas as melhores. A geologia ajudou e o clima também (como veremos amanhã). Até lá, à Vossa!
jp