30.12.07

DESPORTOS RADICAIS

A partir de dia 1 de Janeiro não vale a pena esfalfar-se no "rafting", esfolar as mãos no "boulder" ou no "rapel". Desista de partir uma perna no BMX ou de se afogar no "wakeboard". Para quê a vertigem do parapente ou a loucura da queda livre? Uma trabalheira! "Halfpipe"? "Wrestling"? "Bare-foot"?! Não dá pica suficiente... Nem mesmo o "tunning" com um eventual "carjacking". Zero! Nada, mas mesmo nada lhe vai dar mais adrenalina do que fumar em recintos públicos. Faça desporto radical em qualquer parte. Basta um cigarro e um fósforo. Pratique "smoking" e tenha um 2008 cheio de empolgamento.
jp

29.12.07

FORA DA LINHA




Fábrica de Braço de Prata. Espaço cultural: livrarias; concertos; exposições; performances. Ambiente informal e intelectual, misturado com o habitual voyeurismo de ocasião.

27.12.07

ÁRVORES DE NATAL

O presépio não tem árvores. Há burrinhos, vaquinhas, reis magos, pastores. O menino está nas palhinhas. Nem sequer está na caruma!
Embora não se possa invocar o precedente bíblico, acho muito louvável a tradição do abate dos pinheiros e abetos nesta época festiva e vejo com grande peocupação a substituição por falsas árvores natalícias.
De facto, se o Natal for todos os dias ou mesmo quando um homem quiser, a manutenção desta tradição germanófila permitiria evitar muitos incêndios por exaustão florestal.
jp

26.12.07

EMBRULHOS DE NATAL

Sou um papel de Natal. Fui confeccionado com amor. Transportado com desvelo. Na loja, mãos femininas acariciam-me sensualmente. Embelezam-me. Enfeitam-me com laços. Com orgulho, exibo-me frente à árvore dos desejos. Durante uma semana todos me rodeiam de atenções.
De repente, naquele dia sinistro, mãos enormes abatem-se sobre mim. Rasgam-me selvaticamente. Amarrotam-me com desprezo. Atiram-me para o caixote desleixadamente. No dia seguinte estou no lixo.
Este foi o meu único Natal!
jp

21.12.07

EMBUSTES DE NATAL

Amanhã, 22 de Dezembro, pelas 6 horas e 8 minutos, ocorre o solstício de Inverno.
Amanhã é o dia o menor dia do ano. Isto no hemisfério norte. No sul é exactamente ao contrário.
No hemisfério norte o Inverno começa com o solstício de Dezembro. No hemisfério sul é o Verão que desponta. Já vamos ver a confusão que isto dá!
Em várias culturas ancestrais o solstício de Inverno era festejado, comemorando-se a fertilidade e a fecundidade. A partir do solstício os dias começam a crescer, simbolizando-se, nesses festejos, a vitória da luz sobre a escuridão... Isto no hemisfério norte. No sul é exacta e novamente ao contrário.
A bem dizer, o Natal que nós comemoramos a 25 de Dezembro é o solstício, só que as comemorações foram atrasadas.
Embora objecto de intermináveis disputas teológico-astrológicas, Cristo terá nascido, segundo os melhores cálculos bíblicos, entre Agosto e Setembro de ano 7 antes dele próprio.
Porém, a partir do Concílio de Niceia (325d.C.), toda a história do cristianismo e, de certa forma, da nossa cultura, foi reescrita. Constantino converteu-se, provavelmente por razões políticas, e criou a religião católica apostólica romana como veículo unificador do seu império e das suas ambições. O livro sagrado foi então escrito, misturando e manipulando muitas informações.
No mundo pré-cristão era muito popular oculto da deusa Mitra, com origem provável na Índia ou Pérsia. Chamavam-na "Sol Vencedor". O nascimento de Mitra celebrava-se a 25 de Dezembro, data que os romanos consideravam, erroneamente, coincidir com o solstício. Na madrugada de 24 para 25 comemorava-se o Nascimento do Invicto (o alvorecer de um novo Sol), com o nascimento do Menino Mitra.
Em Niceia mais não se fez do que manipular e integrar este culto pagão, que ainda perdurava fortemente, no ritual cristão. Cristo representa a vida, a luz e a esperança. Então, em vez de festejar o Sol como antigamente, passar-se-ia a celebrar o nascimentode Cristo, absorvendo a festa pagã. Constantino, inteligentemente, viu a forma de consolidar o império e reconverteu o dia do Menino Mitra no dia do Menino Jesus.
Esclarecidos os embustes natalícios, falta dizer que a coisa funciona no hemisfério norte, mas para o sul...
Os povos sul-americanos não festejavam o solstício de Inverno em Dezembro, mas em Junho. Logo, o Natal Americano deveria ser em Junho por aplicação linear do raciocínio de Constantino. As comemorações natalícias foram exportadas à força para as Américas aquando da catequização. O Natal foi, assim, imposto. É mais do que um embuste. É o símbolo vivo do colonialismo que ainda não vi suficientemente combatido pelo inefável Hugo Chavéz.
Mesmo carregado de equívocos, aqui fica uma mensagem de bom Solstício para todos... o mesmo é dizer de bom Natal!
jp

CATÁLOGO DE NATAL EXPRESSO DA LINHA

Hoje é a última oportunidade de encomendar peças "Expresso da Linha". Este blogue fecha para Natal às 24 horas.
É claro que se preferirem andar por aí engarrafados e afogueados no meio da maralha num qualquer centro comercial comprando mais do mesmo, a decisão é vossa!

Para além do exposto, há umas boas dezenas de outras peças, algumas de grandes dimensões, que aguardam a vossa visita. Quase todas são para venda. Não se acanhem!
Boas Festas.
jp

A ÚLTIMA CEIA

Na sua qualidade de "Mestre de Festas e de Banquetes" da corte de Ludovico Sforza, em Milão, Leonardo Da Vinci foi encarregado de remodelar as cozinhas do castelo. Uma oportunidade única de Leonardo demonstrar todo o seu génio.
Durante seis meses deitou mãos à obra. Alargou as cozinhas para o dobro da área, ocupando quase metade do pátio do castelo e obrigando a corte dos Sforza a retirar-se para casa de amigos enquanto as obras duraram. Instalou um tapete rolante que transportava, ininterruptamente, do exterior, lenha já cortada. Instalou também um assador automático dentro da chaminé, movimentado pela corrente de ar quente que subia e que fazia girar um hélice ligado ao espeto. Instalou, ainda, uma escova giratória para manter o chão sempre limpo; um picador de vacas inteiras, movido a cavalos; uma máquina de cortar pão movida a energia eólica; um dispositivo de tubos em espiral, aquecido por carvão, para manter a água sempre a ferver; instrumentos musicais automáticos movidos a manivela, para dar alegria no trabalho; uma armadilha sofisticada para eliminar rãs dos barris de água de potável; um engenhoso sistema de aspersão para inundar a cozinha em caso de incêndio; etc, etc. Só que Da Vinci era sempre melhor na teoria do que na prática...

No dia do banquete inaugural tudo correu mal. Passada uma hora sem que nada fosse servido e ouvindo uma arrepiante e interminável série de gritos e explosões, os convidados decidiram ir ver o que se passava. Eis aqui uma descrição do embaixador florentino, Sabba de Castiglione di Pietro Alemani: "A cozinha do mestre Leonardo é um manicómio. Em lugar dos habituais 20 cozinheiros, agora há umas duas centenas de pessoas afadigando-se com grandes engenhos que enchem o chão e as paredes, nenhum dos quais parecendo funcionar de modo útil ou adaptado à finalidade para que fora criado.
Numa das extremidades da cozinha encontrava-se uma roda hidráulica, que, posta em movimento por cascata que se despenhava sobre ela com fragor, salpicava e encharcava tudo e todos, transformando o chão num verdadeiro lago. Foles gigantes, com 4 metros de comprimento, suspensos do tecto, bufando e rugindo, destinados a afastar o fumo dos fogões, apenas conseguiam aumentar as chamas que, entretanto, se tinham propagado de forma incontrolável. E por toda esta área de cataclismo vagueavam cavalos e bois fazendo girar um engenho cuja função não parecia ser outra senão andar meramente às voltas. Também me foi dado ver a grande trituradora de vacas, avariada, com metade de um mamífero ainda presa na engrenagem... Num outro sítio estava o dispositivo de lenha de mestre Leonardo que despejava ininterruptamente a sua carga na cozinha e nada o conseguia parar, aumentando, assim, o fogo que alastrava. Homens gritavam queimados ou sufocados. Explosões de pólvora, que mestre Da Vinci insistia em usar para acender os seus fogos de combustão lenta, atroavam os ares, enquanto os tambores automáticos continuavam a rufar impiedosamente..."
Ludovico Sforza decidiu castigar Leonardo, excluindo-o da corte por três anos e mandando-o pintar um retábulo na igreja de Santa Maria Delle Grazie, sabendo que o mestre detestava pintar. E foi assim que, 3 anos depois, esgotados os mantimentos e completamente seca a adega do prior da dita igreja, Leonardo e os seus seis discípulos acabam, em esfoço, a obra mais reputada de Da Vinci e cujo tema é, mais uma vez, a comida. A obra chama-se a"A Ùltima Ceia".
Para saber mais, ler "Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci", compilado por Shelag e Jonathan Rough.
jp