18.3.08

NOITES DE LAGOS

Noites de Lagos. O velho mercado de escravos iluminado. Uma referência sempre a lembrar-nos a nossas virtudes e grandezas. O mercado enquadra o largo onde o Infante perscruta insistentemente o mar-oceano, na ânsia da petinga perdida. Espanhóis em permanente "salero" olham, hiperactivos, as lojas precocemente fechadas, exibindo tentadores bonecos de peluche "made in China". Tudo fechado. Nem um D. Rodrigo consigo comer. Interrogo-me porque não fui antes ao Tony Carreira!
O Cine Teatro também está fechado para obras. Aliás todo o inenarrável "Lagos Shopping" está encerrado, exibindo um ar fantasmático que surpreende os pobres espanhóis fugidos à Inquisição e ao Santo Sepulcro.
O comércio em Lagos teve o seu ponto alto no séc. XV quando havia o monopólio mundial da venda de escravos da Guiné. Hoje, para além de dezenas de bares com karaoke e haxe nas traseiras, é um mostruário de chanatas e vestidos "demodée", entre quadrinhos "souvenir" e galos de Barcelos. Tudo muito "Oliveira da Figueira". É o turismo Sol e praia!
jp

17.3.08

CARÊNCIAS




À medida que se avança para sul as mensagens nos WC masculinos vão ficando mais intimistas, mais dramáticas.

Em Alcácer afirmava-se peremptoriamente "Cagar é bom", o que revela um sentimento geral de agrado e de alívio perfeitamente compreesível para quem vem apertado desde a ponte. No entanto a necessidade compulsiva de escrever as iniciais do nome é indicador de um comportamento de base territorial, colocando-se com pertinência a questão de saber se não estaremos perante um líder de matilha!

Já em Grândola deparamo-nos com uma frase algo arrogante e claramente panfletária, denotando um vigor fora do comum e uma necessidade de afirmação invulgar: "Mamo camionistas. 91.... Desloco-me". Repare-se que a expressão "mamo" pode conter várias interpretações, nem todas de significação unívoca. Por outro lado, constata-se um desejo forte e dramaticamente expresso na urgência em resolver a coisa: o autor dá o nº de telefone e afirma, peremptoriamente, que se desloca!!!

Finalmente, em Almodôvar, a mensagem encerra um apelo pungente: "Pila triste procura cu alegre. 93.......". Novamente a identificação não deixa dúvidas. É um assunto sério! Por outro lado há um grito de angústia que não se consegue conter e um evidente estado depressivo, felizmente reconhecido pelo autor que dele demonstra ter pleno conhecimento, exprimindo uma vontade inequívoca de o ultrapassar. E isso, só por si é logo meia cura!

São assim as auto-estradas portuguesas: uma psicanálise permanente!

jp

IMPRESSÕES DE VIAGEM

Sempre que parto, parto já com vontade de regressar. Sempre que parto algo em mim fica para trás. Desta vez foi a "gillette"! Finalmente vou dar liberdade aos pêlos, tão massacrados ao longo destes anos. Decidi ficar hirsuto, desafiando a polícia como corrécio saído de um "carjacking". Acho que estou completamente grisalho o que, segundo alguns, me vai dar imensa classe e, segundo outros, me vai garantir descontos para a terceira idade e dar prioridade nos transportes públicos.
Ao dirigir-me para sul não tenho ilusões. O tempo não vai estar de praia. Com sorte ainda chove. Pior, vou apanhar a invasão espanhola que, por esta altura, recorre a Portugal como única salvação ibérica. É que por lá tudo fecha!
Vou, assim, por essas auto-estradas desertas com o "cruise control" nos 140 km, perto do adormecimento, só para evitar mais uma multa por excesso de velocidade. Paro em todas as áreas de serviço e experimento. No fim selecciono a melhor. Sei que isto é um bocado parvo. Mas se não o fizer, chego a Lagos tão depressa que nem tenho a sensação de viagem!
jp

13.3.08

VOU ALI E JÁ VENHO

Nos próximos dias afastar-me-ei deste chão sagrado, desta costa dourada, destes 20 km de Linha, único local em que vale realmente a pena viver. Vou por esse Portugal profundo, já saudoso da partida antes que do regresso viera. Mas vou. Vou porque tenho de ir. Vou porque não me deixam ficar!
Farei posts de lugares longínquos e exóticos que nem imaginar se pode. Darei notícias sempre que o Wi-Fi permita e a imaginação exista. Fiquem bem.
jp

11.3.08

OS ONZE PECADOS MORTAIS

No silêncio do confessionário, padre Francisco acaricia a estola de seda na obscuridade sacramental da igreja. Um penitente vestido de fato às riscas, gravata às bolas e camisa aos quadrados ajoelha, balbuciando com a voz embargada pelo temor reverencial.
"Padre, cuspi repetidamente três vezes para o chão. É pecado não é?". "Mas estás arrependido, meu filho?" "Nunca mais, padre. Agora passo a engolir o ranho. Para o chão nunca mais!". "Muito folgo, meu filho. Reza três Avés Marias e dois Padres Nossos". "Mas padre, ainda pequei mais. Antes de vir para aqui fumei um cigarro e enfiei dois bagaços. Estou feito, não estou?". Padre Francisco hesita. Puxa pela cábula recém distribuída pelo Patriarcado, profusamente ilustrada e com notas explicativas em anexo. "Não, meu filho, isso não são substâncias proibidas, não tem problema". "Mas padre, ontem fumei uma broca de haxe!!!". Padre, voltando a puxar da cábula. "Pois isso é que é pior. Isso já é uma substância proibida... Está aqui na lista! Mas olha, como um dia destes vai acabar por haver despenalização das drogas leves, podemos converter isso em pecado venial. Mas evita, evita, meu filho!". "Ó padre, agora é que me estou a lembrar. A semana passada vendi uma porrada de armas a uns senhores de turbante. Sei lá, Uzis, rockets, granadas ofensivas, bazucas... É pecado?" Padre volta a verificar a cábula, um pouco embaraçado. "Ora, não é manipulação genética. Não é desigualdade social... É pá, isto não é fácil!". "Olha, filho, dize-me uma coisa. Vendeste com ganância? Com vontade de enriquecer à bruta ou, digamos, apenas como modo de vida?". "Ó padre, o negócio das armas sempre foi o meu ganha-pão, mai nada! Dá para educar os putos, mandar umas coroas aos velhote lá para a parvónia. Ainda o ano passado mandei fazer um quartel novo para os bombeiros lá da aldeia e agora estou a montar uma Fundação para os deficientes de guerra. Sobram umas migalhas para Mercedes e lagostas aos Domingos, mai nada!". "Não, meu filho, não te preocupes. Isso não está na lista. Aqui entre nós até me parece que estás a contribuir para atenuar a desigualdade social. Vai em paz e que o Senhor te acompanhe".
jp

LOCAIS DA LINHA - ONDE FICA?


LOCAIS DA LINHA - ONDE FICA?