11.4.08

MÚSICA SENSORIAL

A performance é individual. O preço exorbitante. O espectáculo absolutamente exclusivo. A nossa participação essencial. Primeiro despem-nos. Enfiam uma bata até ficarmos com ar de cientista iraniano. Somos amarrados e introduzidos num túnel magnético. Intimam-nos a não respirar durante meia-hora. Na imobilidade total, a cúpula alucinógenea em azul espacial desce sobre nós em tensão claustrofóbica. O fundo musical ataca um binário minimal-repetitivo: tchq-trec-tchq-trec-tchq-trec. A comichão no nariz desenvolve-se em progressão geométrica. Não podemos coçar. Não temos como lá chegar. Em sobreposição desaba um vibrato profundo: brrr-tun-tun-tun-brrr-ta-ta-ta-brrr-tun-tun-tun. Sem qualquer pausa, segue-se de um uivo tenebroso que nos leva a esquecer momentaneamente a comichão: oiiiiiiiiiiiiiiinnnn. O susto faz-me abrir os olhos. Asneira! O túnel é baixo e apertado. A claustrofobia hesita entre a sensação de poço de mina e gaveta de morge. Em compensação o coração dispara em taquicardia incontrolável. Uma voz longínqua e reverberante anuncia uma nova remasterização sonora: zzz-uhmmm-zzz-uhmmm-bahmmm-zzz-bahmmm. Agora é o pé que entra em comichão. O coração insiste em taquicardia. Os pulmões gritam por oxigénio. Ao fundo mantém-se a base binária: tchq-trec-tchq-trec-tchq-trec-tchq... O ritmo avança subitamente para um agressivo compasso em 5x8: bum-bum-tra-bum-bum-tra. E acaba em "grande finale": brrrrroooazzztrtrtrtrnhéeeeeiiiiiii. Agradeço comovido. Os resultados da ressonância magnética estão prontos dia 17.
jp

10.4.08

PENSEM VERDE


O TEMPO ANDA UM BOCADINHO PÉSSIMO

Na Páscoa estava um frio de rachar. Na semana anterior dava para ir à praia. O Sol voltou logo a seguir às festividades. As miúdas já andavam quase nuas. A praia voltou a encher. Anteontem, porém, entrou uma superfície frontal. Trovoadas. Ondas de 8 metros na Madeira. Tornados em Santarém... O tempo anda um bocadinho péssimo. Há quem diga que é do aquecimento global, que a culpa é do homem e que temos de ter cuidado até com o churrasco! Será?
A verdade é que a Terra está ainda a atravessar uma idade de gelo (atenuada) que começou há cerca de 40 milhões de anos.
Sabe-se agora que a entrada e saída de idades de gelo não tem sido gradual. A alternância de períodos de frio brutal e de calor intenso tem sido, na maior parte das vezes, súbita e muito mais frequente do que julgamos. Por exemplo, há 12 mil anos a Terra começou a aquecer muito rapidamente, mas de repente, voltou a mergulhar num frio tremendo que demorou 1000 anos. Depois, sem qualquer razão aparente, voltou a aquecer, chegando a subir 4 graus em 20 anos. Na Gronelândia chegaram mesmo a subir 15 graus em 10 anos! Num planeta com pouca população, as consequências terão sido poucas (mesmo assim, ficou o mito da destruição da Atlântida que remonta a este período de aumento do volume dos mares). Imagine-se o que aconteceria hoje!!!
O chato, é que não fazemos a menor ideia das razões destas súbitas mudanças de temperatura, embora haja muitas teorias. As mais credíveis apontam para um ciclo vicioso que começa pelo fluxo de água do degelo que, em quantidades anormais, reduz a salinidade (e, portanto, a densidade) dos oceanos no norte do planeta, provocando a inflexão para sul da corrente do Golfo. Privados do calor da corrente do Golfo, as latitudes norte voltariam a apresentar condições para o clima frio (ciclo vicioso). Mas, não fica explicado porque é que a corrente do Golfo não voltou à posição anterior há cerca de 10 000 anos e, em vez disso, fomos presenteados com este agradável período de tréguas climáticas, a que chamamos de Holoceno.
Infelizmente, não há razão para supor que esta estabilidade vá durar muito mais tempo. Alguns especialistas apontam para um novo e rigoroso período de gelo. A ser assim, o aquecimento global poderia servir de contrapeso às condições glaciares. A verdade é que não sabemos e afigura-se mais que duvidoso fazer experiências neste domínio.
O clima depende de tantas variáveis que torna quase impossível compreender o passado e prever o futuro. As calotes glaciares começaram a formar-se de novo e agora tem muito mais água para se alimentar (no período anterior não havia os Grandes Lagos, por exemplo). Será que tudo vai gelar? Por outro lado, pode acontecer que esse gelo derreta e então os mares erguer-se-iam 60 metros e todas as cidades costeiras desapareceriam.
O mais extraordinário é que não sabemos o que se irá passar: aquecimento ou arrefecimento? Vivemos no fio da navalha!
jp

9.4.08

Quem conta um conto, aumenta um ponto: Bem vindo,#links

Quem conta um conto, aumenta um ponto: Bem vindo,#links

VIAGENS NA TERRA DO OI

Você chega em Salvador da Bahia e vê logo que foi enganado.
Primeiro eles não falam português. Experimente uma frase banal: "Desculpe, sabe-me dizer onde posso tomar um bom pequeno-almoço?". Resposta: "Oi?" Tente novamente, com delicadeza: "Olhe, por favor, diga-me onde posso tomar uma chávena de chá?". Resposta: "Oi?".
Mas a mentira continua. Você chama um táxi e pede para ir ao Largo José de Alencar. O motorista, embora com 30 anos de experiência urbana, não sabe e vai lhe dizer: "Oi?". Aliás, ninguém sabe e, no entanto, é o largo mais conhecido da Bahia, o famoso Pelourinho!
Pior, você chega no Pelourinho e ele não está lá!!! Ninguém tinha dito p'ra você, né!
Ali onde ainda hoje ecoam os gritos dilacerados dos escravos torturados. Ali onde o basalto negro reflecte ainda o sangue vertido pelos negros cativos. Ali onde agora moças elegantes tropeçam nos saltos altos ao som de batucada para turista curtir no forró da caipirinha... ali não existe agora nada!
O Pelourinho foi derrubado na voragem do movimento abolicionista, deixando-nos sem saber de que estilo seria: em bola, em pinha, manuelino ou em gaiola extravagante?
Mas o embuste continua...
Vá descontraidamente ao "Shopping da Barra" na esperança de comprar sandálias nº37 para sobrinhas e enteadas para quem o Brasil é o paraíso do "biquini".
Duas horas depois e 22 "oi's" mais tarde, você percebe, finalmente, que 37 na Europa corresponde a 35 no Brasil e consegue, enfim, fazer negócio, para alívio de todos que aguardam vez por entre um amontoado de caixas e uma vendedora bem fornecida que ainda hoje se interroga de que país sul-americano nós seríamos.
Regresse, então, ao hotel carregado de sacos suando nos 34 graus à sombra e 90% de humidade em táxis sem ar condicionado. Você vai querer pagar. O motorista diz: "Meia dois". Agora é a sua vez: "Oi?".
Mentiram p'ra você quando disseram que o único problema era a segurança. Isto aqui não é nada fácil! Sabem como se chamam os habitantes de Salvador? Todos pensaríamos num gentílico normal: salvadorenses ou salvadorenhos. Até podiam ser salvadores. Sei lá! Mas não, são soteropolitanos!!!
Definitivamente, isto não é nada fácil!