4.5.08

A GAITA IBÉRICA

Os Celtas começaram chegar ao nordeste da península vindos do Alto Danúbio, no séc. VI a.C., introduzindo o ferro e importando, tardiamente, a chamada “cultura hallstática” (Hallstat, povoação a 50km de Salzburgo). Misturaram-se com os indígenas peninsulares, dando origem à primeira grande “crioulagem”: os Celtiberos. A “cultura castreja”, exclusiva do norte de Portugal e da Galiza, embora já existente, foi por eles adoptada. As principais tribos celtas que invadiram a Península foram os Arevacos, os Bellos, os Tittos, os Pelendones e os Lusones.
Há no nordeste muitos vestígios celtas e muitas povoações que parecem ainda estar na Idade do Ferro. Mas, lamento desiludir os mais folclóricos frequentadores de “pubs” irlandeses: a gaita não foi inventada pelos Celtas. Refiro-me, obviamente, à gaita-de-foles, também conhecida por cornamusa.
A origem é um mistério, podendo até ser egípcia, mas vindo seguramente do Próximo Oriente e sendo, decididamente, anterior a Roma. Depois de uma utilização bucólico-pastoril durante séculos, entrou em declínio a partir da Renascença. Novos instrumentos, novas estéticas musicais fizeram a gaita perder para a concorrência. Os oboés e os clarinetes ganharam!
Pois foi precisamente nessa altura (e só nessa altura) que a gaita chega à Irlanda. A gaita das Highlands foi mantida pelo povo britânico como um “instrumento de guerra” e utilizado pelos batalhões reais, assim sendo disseminada pelo globo, graças ao império britânico.
Acaba assim o mito da gaita, o denominado “mito celta”, directamente ligado à gaita das Highlands, mito que, no entanto, se mantém para efeitos fonográficos e cinematográficos.
Mas, mesmo sem ser celta a gaita é fascinante. O instrumento pertence à categoria dos aerofones. Um ponteiro com um soprete, que serve de válvula mediadora e um reservatório para o ar, um fole, feito de pele de cabra que permite tocar continuamente, de forma mecânica, sem pausa para o músico respirar. Basta apertar o fole com o antebraço. Essencial na gaita é um segundo tubo melódico pelo qual se emite uma nota constante harmónica, o bordão ou ronco.
A gaita é um instrumento modal utilizando, na sua maioria o modo jónio (modo de dó) e mais excepcionalmente os modos mixolídico (em si) ou eólio (em lá).
jp

MÁSCARA IBÉRICA - DESFILE



No norte de Portugal, em especial no nordeste transmontano, bem como em Espanha, na Galiza e Leon, mantiveram-se, ao longo de séculos, tradições relacionadas com os rituais da puberdade, do solstício ou das bacanais romanas. Estas tradições e mitos pagãos mantêm-se, embora nem sempre se saiba o que se anda a fazer. Corre-se mesmo o risco de transformar rituais sagrados em eventos turísticos e em breve chegaremos ao "Corso dos Caretos", desfilando num qualquer "sambódromo" de ocasião. Foi o recente caso do desfile na Baixa Pombalina de Lisboa. “Ranchos de Caretos” e de "Zés Pereiras" que enfeitiçaram os lisboetas e demais turistas acidentais pela cor e exuberância transmitidos, mas que nada deixaram da realidade mágica que lhes subjaz.
jp

3.5.08

CRISE ALIMENTAR - MOUSSE CARAMELIZADA DE ESTEVAS

Recolham-se as pétalas de 300 flores de esteva completamente secas. Masserem-se as pétalas numa infusão de licor de medronho, durante duas horas. Levem-se depois a cozer, em lume brando, por mais uma hora. Numa tacho ao lado vá preparando uma calda de açúcar mascavado com flor de rosmaninho. Quando ficar em ponto-pérola deite sobre a redução de pétalas. Esmague, num pilão, 2 kg de folhas de esteva e retire a goma com um "salazar". Deite, agora, num tabuleiro o conteúdo do tacho e por cima a goma obtida. Vai ao forno até ficar em ponto de caramelo. Uma sobremesa calórica e (re)laxante.
jp

CRISE ALIMENTAR - CROCANTE DE PHENIX ESCALADA

Esta receita pode ser indigesta se consumida em excesso. Por isso coma com moderação.
Durante a noite acenda uma lanterna potente. De manhã apanhe as borboletas atraídas. Escolha apenas as mais carnudas e de côr acastanhada. Nunca ingira as verdes que são muito adstrigentes. Faça-lhes uma pequena incisão no lombo de forma a ficarem escaladas. Passe-as por um polme de farinha de alfarroba e pimenta verde. De seguida leve-as a fritar em manteiga e salsa até ficarem crocantes. Sirva-se quente, numa cama de cacatuzes em redução de giesta.
jp

CRISE ALIMENTAR - CREME GLACÉ DE LENTILHAS

Na "culinária gourmet de salvação" imperam dois princípios fundamentais: a imaginação e abertura sem reservas a experiências novas.
Comecem por um delicioso creme glacé de lentilhas. Deixem as lentilhas a demolhar no poço até ficarem com uma côr verde psicadélica. Juntem vermes vivos de couve-ratinha apanhados no orvalho da manhã. Levem a uma primeira fervura, adicionando granulado de ração para vaca, sempre a mexer até prender a colher. Deixe arrefecer e leve ao "passe-vite" (se não tiver use o pilão). Vai, novamente, a lume brando com igual quantidade de água, três pés de ortigas bravas e uma malagueta. É servido frio, com cubos de gelo e bagos de uva em taça de abóbora-menina previamente preparada.
jp

2.5.08

A VELHA CASA




CRISE ALIMENTAR - AS ALFAIAS

No retorno ao campo vamos ter de nos habituar às nojentas moscas verdes, às aranhas peçonhentas e às vespas bravas. Ao grunhir contínuo dos porcos. Aos galos irritantemente madrugadores. Aos tractores que não cessam de passar. Aos motores de água em rega permanente. À caca das vacas que se nos cola às botas. Ao cheiro acre a mijo das cabras. Vamos ter de aprender a cavar, sachar, podar, ceifar, mondar... Há um mundo infernal de utensílios que o computador nos impede de usufruir e mesmo de entender. Esse mundo espera agora por nós revigorado pela crise alimentar. Graças a ela (sim, por que tudo tem uma razão), os campos não mais andarão ao abandono e a Política Agrícola Comum (PAC) terá, finalmente, um fim. Encarem a crise com o optimismo de colonos em busca de novas terras. Semeiem e colherão!
jp
ET: estou particularmente satisfeito com a descoberta da palavra "colherão"!