
5.6.08
LE CORBUSIER - EXPOSIÇÃO NO CCB
Charles-Édouard Jeanneret, "Le Corbusier" (Corbu, para os amigos) nasceu a 6/10/1887, na Suiça, e morreu de ataque cardíaco em plena natação atlântica em 1965, tinha 78 anos.
É um dos arquitectos mais importantes (se não o mais importante) do séc. XX e um dos pilares da arquitectura moderna, juntamente com Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright e Oscar Niemeyer. Em 1943 é publicada a célebre "Carta de Atenas" que integra os princípios da Escola Moderna de Arquitectura que influenciou durante décadas a arquitectura e o urbanismo.
A exposição integra desenhos, maquetas, fotografias, filmes, peças de mobiliário e obras de diversos artistas, de Braque a Picasso e a Mondrian e que fazem parte da Fundação Le Corbusier, de Paris.
Le Corbusier foi sempre polémico nas propostas que fazia. Ficou conhecido pelas suas linhas direitas e pelos apartamentos desenhados como peças de lego que se encaixam em grandes blocos habitacionais ou arranha-céus, com espaços ajardinados intervalados, num urbanismo racionalista levado ao extremo. O jogo dialético entre privacidade e publicidade é um dos temas centrais do seu trabalho. Na foto pode ver-se um projecto (rejeitado) para renovação de parte da cidade de Paris, o famoso "Plan Voisin", que ocuparia o lado direito da Île de France, destinado a 3 milhões de pessoas.
O design de interiores é uma das suas preocupações, bem como o aproveitamento de todos os espaços disponíveis. São dele inúmeras peças de mobiliário que ainda hoje vemos à venda nas lojas da especialidade, com inegável modernidade. A pertir de 1950 começa também a dedicar-se à escultura e à pintura. Segundo ele, "Não há escultores só, pintores só, arquitectos só. O acontecimento plástico realiza-se numa forma una ao serviço da poesia".
A sensação que se tem ao percorrer a exposição, é a de que fomos transportados aos anos cinquenta. De repente entramos num filme de Jacques Tati. O ambiente de "Play Time" não cessa de nos alucinar.
Nova Oeiras, o bairro onde vivo, é um dos exemplares nacionais e europeus mais representativos da influência corbusiana na arquitectura e urbanismo. Torres e blocos de linhas rectas, espaçados entre si, com uma penetração no espaço público numa lógica orgânica. Espaços verdes bem arborizados, constituindo pequenos bosquetes, entremeados com zonas de clareira e rodeados por moradias com jardim. Garanto-vos que é bem agradável. Vejam em cima algumas fotos e consultem o site da Associação de Moradores (link AMNO)... e apareçam quando quiserem.
jp
4.6.08
MÚSICA - SERVIÇO UNIVERSAL
A música é uma arte totalmente subsídio-dependente. Uma espécie de "serviço universal" tendencialmente gratuita para os utentes. As pessoas habituaram-se a ouvir música de borla. Dantes fazia-se um concerto para promover um disco. Agora faz-se um disco para promover um concerto. Os "downloads" tornaram o CD obsoleto. Não se cobram direitos de autor. Tudo é virtual. Os discos servem para promover um artista. Mas esse artista (salvo situações de dimensão internacional, que são poucas) está nas mãos de "mecenas" que, na maioria dos casos, são câmaras municipais e das suas festas concelhias. Ou se consegue entrar para a reduzida "short-list" da vereação ou estamos condenados a casamentos e baptizados. Os músicos que tocam fora do "mainstream" muito dificilmente conseguem o seu nicho de mercado. As "entidades" não entendem, porque não têm, na grande generalidade, qualquer política cultural e o público não está na disposição de pagar bilhete quando lhe dão coisas de borla, sejam boas ou más. É um processo preverso em que os músicos, mesmo os de renome, se esgatanham por conseguir ir às festas da "Caranguejeira-de-Baixo", impedindo renovação e novos talentos. Como todas as actividades, também esta é uma vida de cão. Sempre foi. Mas o que me preocupa agora é a subsídio-dependência quase total a que se chegou. Quem são os músicos que arrancam para um espectáculo sem patrocínios de cobertura? Quem são os músicos que se atrevem a ir só pela bilheteira?
jp
3.6.08
HÁ DIAS ASSIM
Naquele dia levantou-se como se estivesse só. O mundo lá fora não existia mais. Acabara o frenesim, o ruído, a guerra, a paz. Não havia gente. As casas estavam vazias. As ruas desertas. Acabara tudo. O vento desistira de assobiar. As nuvens, estáticas, viam o Sol parado no ocaso permanente. Sentou-se na cama. Gritou alto. Ninguém ouviu. Não havia ninguém para ouvir. Uma raiva imensa apoderou-se dele. Porque tinham todos partido? Porque ficara esquecido? Chorou de fúria. Gritou de novo. O eco devolveu-lhe uma solidão impenetrável. Lentamente ergueu-se. A luz não acendia. Nas torneiras a água não corria. Desceu quase em pânico. A escada rangia sob os seus pés num lamento surdo. Lá fora mantinha-se um silêncio de morte. Reparou que os pássaros não cantavam. Que os cães não ladravam. Reparou que nada se mexia. As folhas das árvores jaziam no chão moribundas. Era Outono em pleno Verão. Sem rumo, saiu de casa. Ninguém. Nada. Não havia o mais pequeno movimento. As pernas não pareciam suas. Andava sem se mexer. Estava parado em andamento. Ao longe um horizonte obscuro olhava-o com indiferença. A vida já não morava ali. A vida deixara-o para trás. De repente reparou que não acreditava em nada. Que não tinha fé em coisa alguma. Que a esperança há muito morrera. Jazia inerte sem vontade. Perdera-se sem regresso.Há dias assim. Dias vazios que acordam cinzentos. Dias de dúvida e incerteza. Dias sem existência. Há dias assim!
jp
2.6.08
FILHOS DO POVO DO SUL - V
Duas horas da tarde. Casa do Rodrigo. Dia frio de Outono. Abrimos. Carta da Holanda. Cortámos em quadrados o mata-borrão embebido em ácido lisérgico. Engolimos o papel à força de água. Éramos cinco. Um tinha flipado há poucos meses. Estava proibido pelo médico. Dose reforçada para os outros quatro. Partimos no azul ultramarino do meu Datsun 1200, rumo a Monserrate…De repente fiquei sozinho no labirinto vivo de uma interminável teia de bambus surgidos do nada. Tentáculos verdes expandiam-se para me envolver. Dédalos crispados abriam-se para me engolir. Perdi-me em corredores sem fim que se transfiguravam a cada passo. Entrevi lagos flamejantes de roxo ondulante. Vi fendas rasgadas que me puxavam à "terra oca". Monstros reptilóides trespassavam-me soprados pelo vento que só eu sentia. Nuvens coloridas cobriam o céu lilás entre camadas sobrepostas de moléculas hexagonais. Percorri a eternidade, senti a morte, vi a salvação e, por fim, desci ao alcatrão. A estrada abriu-se com estrondo debaixo dos meus pés. Vi-me em esqueleto lá em baixo chamando pelo meu corpo. Fugi soterrado de pânico, enquanto pedras vivas me cercavam com olhar assassino. Comecei a esbracejar por enfermeiras, batas brancas, ambulâncias, hospitais… alguém que me tirasse dali.
O resto do grupo andava perdido lá por cima, devastando a pontapé árvores putrefactas que escorriam coxas de frango cor-de-laranja vivo infestadas de vermes funerários… O Paulo na sua labita luterana com olhar interrogativo de quem procura a Verdade… O Rodrigo com ar dominador de macho alfa, também procurando a Verdade… A Isabel rindo-se nervosamente de si mesmo, esquecida da Verdade… O Marcial p'ra lá da Verdade… E eu de blusão azul claro e gola branca de pele sintética, qual "rei virgem" da Baviera, correndo alucinado de encontro às próprias trevas que, naquele momento, eram a minha única Verdade.
Em pânico total refugiei-me no carro… Pior não podia ter sido. Entrei imediatamente num filme claustrofóbico de acidente rodoviário grave. Os minúsculos grãos de pó depositados no tablier aumentaram desmesuradamente de tamanho, como se o carro tivesse acabado de sofrer um despiste violento. O volante contorcia-se com vontade própria… A "manette" das mudanças desfazia-se ao mínimo contacto… Os pedais eram degraus para o infinito. O crepúsculo outonal descia rapidamente nas sombras ominosas da Serra de Sintra trazendo todos os meus fantasmas sem sossego!
Finalmente o Rodrigo acertou com a chave na ignição e partimos estrada fora rumo ao desconhecido que éramos nós próprios. Ainda hoje acho que me salvou a vida!
Berrei o tempo todo. Os carros passavam por cima de nós em contramão, provocando dezenas de acidentes mortais sucessivos de que só escapámos graças ao poder mágico do L.S.D. Por fim alguém se lembrou de acender um charro para acalmar e, com um par de estalos, obrigaram-me a fechar os olhos com toda a força.
Naquele dia tive medo, muito medo. Morri várias vezes e ainda hoje morro. Morro todos os dias e continuo a ter medo. Naquele dia, por manifesta falta de preparação, perdi a oportunidade de enfrentar o meu primeiro inimigo: o Medo. Ainda hoje luto com ele. Ainda hoje o tento dominar!
jp
Uma irritante avaria no acesso à net impediu-me de manter contacto desde 5ªfeira.
30.5.08
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