8.7.08
O IMPÉRIO DO ESPÍRITO SANTO
Uma coisa é certa: o Espírito veio para os Açores e veio com muita força. Provavelmente o anti-ciclone é manifestação desse "vento" irrequieto que nos faz acreditar. Na Terceira, a ilha de Jesus, o povo acredita e não precisa de explicações. O culto do Espírito Santo é intenso aqui. Celebrações da dádiva e do eterno em tempos de afirmação do individual e do efémero.
A origem imediata deste culto e dos festejos a ele associados remonta à Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis (séc. XII). Conta a lenda que, estando em Alenquer, a rainha fez coroar um pobre durante a missa e ofereceu, de seguida, um lauto jantar a todos os pobres no paço real (o famoso "bodo aos pobres"), no que foi depois imitada por todos os nobres. Esta lenda informa a influência da ideologia espiritualista na religiosidade da época e que muito marcou a Rainha Santinha. Uma ideologia que preconizava a chegada de novos tempos, nomeadamente do tempo ou império do Espírito Santo e que foi muito difundida pelos franciscanos. Estes religiosos tiveram um papel muito relevante no povoamento dos Açores, assim contribuindo por espalhar a doutrina e as festas ao Santíssimo. Estas festas herdaram também muito de pagão, estando associadas aos ritos de Primavera, de renovação da terra e de fertilidade. Há exemplos no continente, em especial nos festejos do Penedo (Sintra) e nas festas dos Tabuleiros de Tomar.
As festas duram 8 semanas, da Páscoa a Pentecostes. A superstição e o medo da constante actividade telúrica, a insularidade e o isolamento contribuiram para a expansão do culto que constituia uma libertação da dureza do quotidiano. A dimensão religiosa é dada pela promessa feita ao Divino numa hora de incerteza e angústia. A esmola em louvor do Espírito Santo são actos de gratidão à divindade por graças recebidas. Por outro lado, ritualizava-se a dádiva, a partilha e a entre-ajuda, criando uma ligação entre o material o profano.
As festas são um complexo ritual em que os açoreanos encontram uma forma de reiterar os principais círculos familiares e de relacionamento social, através da linguagem alimentar da dádiva e da contra-dádiva e, simultaneamente, funcionaram, ao longo de séculos, como parte de um sistema de segurança social informal, garantindo subsistência aos mais desfavorecidos.
jp
7.7.08
CRÓNICAS DO ANTI-CICLONE - A RECEPÇÃO
Isto aqui é "um sempre em festa". Acabam as festas em louvor do Divino Espírito Santo, começam as Sanjoaninas, tudo entremeado a Bodos dominicais, casamentos e baptizados. Regatas constantes e muito foguetório. Tudo por entre nuvens de sinusite e reumático, devidamente embrulhadas no anti-ciclone. Por pouco não há tempo para trabalhar!
Sendo a insularidade um inegável estado de espírito, a verdade é que também pode ser prejudicial à saúde. Os ilhéus conhecem pequenos truques para minorar o problema. São as festas permanentes. As grotescas touradas à corda que invadem a ilha no propósito explícito de ver quem parte mais costelas. O constante prescrutar do horizonte em busca da sombra fugídia da Graciosa, de S. Jorge ou do Pico, numa angustiante busca de terra à vista que lhes garanta não estarem perdidos no mar-oceano. A utilização constante do tabaco, revelando tiques anxiolíticos que se espalham pela calçada rendilhada das ruas património-mundial. A comida é forte, como que em busca da quintessência gastronómica. Comida potente que empina as barrigas aos homens e engrandece gloriosamente as mulheres. A religiosidade fervorosa, feita de temor em vida e certeza na morte. Os vulcões estão por todo o lado lembrando a presença de um deus ameaçador e rancoroso. Os terramotos agitam as consciências numa fúria vingativa contra a invasão de um povoamento tardio. Talvez por isso os açoreanos só acreditem no Divino Espírito Santo, essa misteriosa 3ª Pessoa da Santíssima Trindade que tantas perplexidades tem suscitado no mundo da teologia. Aqui a empatia é total. Uma empatia feita de massa sovada e vinho de cheiro. Uma empatia que não carece de explicação. Vive-se. Aqui é o Império do Espírito Santo! O patriotismo é exacerbado. Um patriotismo que deu guarida o D. António, prior do Crato, quando já todo o reino tinha percebido as vantagens de ser espanhol. Um patriotismo que se mantém nos 15% de IVA, levados à conta de insularidade. Se nada disto der resultado, então o açoreano emigra e, lá longe, fica com eternas saudades deste penhasco vulcânico, mantendo as tradições, os costumes e a incompreensível pronúncia que fará deles, orgulhosamente, estrangeiros para toda a vida.
Angra do Heroísmo é a capital. Um ancoradouro no meio do oceano. Porto seguro para as naus da Índia e do Novo Mundo que aqui encontravam refúgio, reparação e abastecimento. Os homens descansavam, deixavam prole e riqueza. Daqui se descobriram novas terras. Daqui se alcançaram novos mundos. Na II Guerra Mundial os ingleses instalaram anti-aéreas e paóis subterrâneos. Agora as Lages falam americano, jogam golfe e comem hamburguers incendiados. O Iraque fica mais perto. No ar passam esquadrilhas em formação e aviões com destino a Guantanamo. Dizem que há instalações radioactivas na ilha. Ninguém sabe!
Tudo isto é a Terceira. História. Costumes. Lendas. Comidas exóticas. Florestas empolgantes. Paisagens deslumbrantes. Gentes acolhedoras. E mar, muito mar. Mar turquesa que nos espreita por todo o lado. Absolutamente imperdível!
jp
FILHOS DO POVO DO SUL - X
Em Portugal, naquele tempo, o Luís Represas ainda não era ninguém. O Fernando Girão, "aquela máquina", ainda se chamava Very Nice e, à força, queria ser nosso vocalista. O Rui Veloso devia andar lá pelo Porto a tentar os "blues" da Cantareira. O Abrunhosa era, felizmente, uma miragem. O Tim "pontapé" ainda não desafinava em público. O "Conjunto Mistério", que actuava de mascarilhas, e os "Sheiks", do Fernando Tordo, já se tinham esgotado nas bôites de Albufeira. Os "Beatnicks" eram apenas rocalhada. O "Quarteto 1111" afoleirava tudo o que podia e o José Cid já era o egocêntrico piroso que todos conhecem. O "Objectivo", do Kevin Hoidale e do Mike Seargent, era uma instituição tipo "Xutos" de hoje: uns cotas com mais dez anos que nós. O "Quinteto Académico + 2", com o Mike Carr, no fabuloso Hammond, e o "+ 2", um preto vocalista de R.B., ambos expressamente importados das ilhas britânicas, faziam o pleno nos bailes de finalistas, com covers quase perfeitos... Os “Festivais da Canção” ouviam-se expressamente para dizer mal.Em 1970, os novos grupos tinham nomes indianos, árabes e greco-romanos: "Kama Sutra"; "Annangarranga"; "Tantra"; "Arazen"; "Petrus Castrus" e, claro, "Ephedra". Alguns mantinham-se mais tradicionais, como "Heavy Metal" ou "Renovação". Parece que também havia novos grupos lá pelo Porto. A comunicação era difícil… A A1 só ficou pronta vinte anos depois!
Também por essa altura surgiu o Jorge Lima Barreto. A primeira vez que o vi foi num espectáculo demolidor em que, sozinho, tentava destruir uma bateria a pontapé.
Depois fundou o duo "Anar Band" (mais tarde "Telectu"). O J. L. B. enfiava cartões perfurados, tipo "eprom", num computador medieval que, por sua vez accionava as teclas um de "pianómetro", enquanto ele, com ar intelectual, se despenhava de cotovelos em cima do impotente instrumento. O outro membro do duo era um tal Reininho (depois substituído pelo Vitor Rua, por razões que só os membros poderão explicar). O Reininho manipulava uma viola de dois canos no que ele chamava, sem modéstia, "estilo rock-progressivo alemão”?!
Admiro imenso o J.L.B. Homem de convicções, eterno musicólogo-anarquista que se mantém coerentemente inaudível e ilegível. É muito mais difícil tocar não-música durante trinta anos, do que fazer trinta anos de música audível, seja de que tipo for!
Naquele tempo o Vitorino já se pavoneava com a eterna boininha preta, tropeçando Chiado acima, saído da Leitaria Garrett, depois de tentar engatar todas as miúdas de Belas Artes, com esforçado sotaque alentejano. O irmão ainda pastava lá pelo Redondo.
O Sérgio Godinho ouvia-se "com brilhozinho nos olhos", em especial no álbum "Sobreviventes".
O Zeca Afonso quase podia ser mau se não fosse bom! Ouvia-se em ambientes restritos e muito específicos… Voltaremos a ele mais à frente.
Os baladeiros estavam, felizmente, ainda escondidos debaixo das pedras filosofais… Pena não terem lá ficado!
jp
Episódio nº10 de "Filhos do Povo do Sul - Memórias de uma Banda Rock dos Anos 70", livro que estou a publicar on-line. Na foto pode ver-se, da esquerda para a direita, Zé Eduardo, Paulo de Carvalho, Emílio Robalo e João Heitor.
6.7.08
AFINAL ONDE ESTIVE?
Pela foto vê-se logo que não estive no Brasil, nem na Croácia. Na Turquia? Nem pensar. Algarve? Também não. Madeira, nunca... Na verdade estive nos Açores, como foi logo adivinhado por Candimba e confirmdo pelo Eduardo. Estive perdido no meio do Atlântico, em nuvens de sinusite, a ver o anti-ciclone passar. Mas, os Açores são nove ilhas! Eu só estive numa. Qual foi?Como podem constatar, estou a ver se empato isto, até pôr as 876 fotografias em ordem. Depois vão ter uma série esmagadora: "As Crónicas do Anti-Ciclone"... Não percam!
jp
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