15.12.09
TURISTA OCIDENTAL - EM BUSCA DO SOMA PERDIDO (7)
Subitamente, a Régua. Feia como o raio!Pior, em vez de nos enfiarem logo com tintol do bom, impingiram rebuçados de mel, canela e limão…Um pesadelo!!! Turista sofre. Sofre e ainda paga…!
De repente, o comboio apita em volutas de fumo negro. São os “comboios históricos”, iniciativa dos Caminhos de Ferro Portugueses. Comboio só para totós. Entrada estritamente proibida a residentes. Bancos de suma-pau até ao Pinhão. Passam meninas com folar e vinho do Porto. Passa um mini-rancho folclórico: o inevitável acordeão, cavaquinho e violão. Turistas dançam com sorriso aparvalhado, enquanto mais meninas distribuem inquéritos de “satisfação do cliente”, tentando deliberadamente distrair-nos da paisagem. Toda a gente tira fotos alarvemente, como se fora a última hipótese de rever o séc. XIX… Continuo com azia!
(continua)
BLOGGINCANA - DEZEMBRO

Continuação de Varal de Ideias
Fazia dias que a vida de Flávio tinha mudado radicalmente. Ele era um cidadão modelo, exemplar, um professor graduado com uma vida calma e rotineira. Solteiro, permanentemente apaixonado pelos livros e pelas artes, Flávio vivia sozinho desde que a mãe morrera. Com os seus 46 anos, ele não ambicionava mais do que ser o que era. Porém, naquela tarde fatídica tudo tinha mudado. Passeava calmamente no jardim quando um sujeito baixo e forte, com sotaque estrangeiro que ele não conseguiu identificar, se chegou perto e lhe sussurrou ao ouvido, sem qualquer preâmbulo: "em breve estarás morto e a tua cabeça rebolará pela calçada, feita bola de trapos"
Continua Devaneios do Cotidiano.
14.12.09
TURISTA OCIDENTAL - EM BUSCA DO SOMA PERDIDO (6)
Olha o comboio! Surgiu de sopetão, sorrateiro à beira-rio. Aço fumegante num mundo liquefeito. O rio desliza parado, verde opaco, borbulhando pingos de chuva na plasticidade da corrente… Amarelo-salgueiro mancha a paisagem escarpada, entre rochas salpicadas de líquenes… Garças pescadoras equilibradas em pinheiros invertidos no espelho d’ água. É o Douro em todo o seu esplendor!Lá no alto, surge o Palácio de Porto de Rei. Lindo sítio para casa de alterne sofisticada! Ligeiramente arruinado. Muito investimento. Talvez haja por aí um saco azul…! Tento investigar de quem é o palácio junto da simpática guia que se esgueira por tentadora porta rumo ao camarote do comandante, onde eu podia perfeitamente juntar os tornozelos aos brincos dela…
Deixemos os devaneios árabes que isto é país de “murcões”. Voltemos ao neo-realismo alcoólico do “casting” minhoto agregado naquele aquário ambulante. Actores cada vez mais feios, à medida que a “azia” faz efeito. Calor húmido com cheiro a cebola… Até já ia mais uma barragem!
(a continuar)
PEGADA ELECTRÓNICA
Hoje em dia a nossa vida está completamente registada. Basta ter um mínimo de meios, alguma paciência e um espírito “cusco”, para se saber tudo de toda a gente. Os cartões de crédito e débito; a Via Verde na auto-estrada; os registos nas portas electrónicas; os números de telemóvel; os SMS que ficam gravados; os mails que o server deixa corromper; os blogues, facebooks, hi5, twitter, a que toda a gente acede… Por todo o lado deixamos pegadas electrónicas sem já darmos por isso. Tudo fica registado. A nossa vida é um conjunto de uns e zeros, numa sequência imparável de controle preciso. Não há mentira possível. Fomos, estivemos, gastámos, falámos, dissemos, escrevemos… Sem fuga! A nossa vida não está a ser vigiada, apenas fica integralmente registada. Tudo depende, agora, da ética pública ou privada.
TURISTA OCIDENTAL - EM BUSCA DO SOMA PERDIDO (5)
E, de repente, sempre e ainda antes do almoço, apareceu a barragem do Carrapatelo: 35m de desnível, outros tantos de claustrofobia e que em 1971 interrompeu o tráfego dos barcos Rabelos, entregando o Douro à EDP.O Vinho do Porto, inicialmente chamado Ribadouro, deixou as viagens de barco até Gaia e passou a ir de “bus”, como qualquer passageiro normal.
Estava quase a chorar com pena do rio, quando, com rara oportunidade, vieram pastelinhos de bacalhau, rissóis e xarope agridoce que é o tal Vinho do Porto. Tudo temperado a gasóleo que o barco, estranhamente, não trabalha a álcool.
Os ingleses e as senhoras, em geral, adoram Vinho do Porto. Eu não percebo porque estragam boa uva a fazer aquela mixórdia!
O vinho do Porto foi, aliás, inventado por acaso, algures no séc. XVIII, quando os produtores começaram a adicionar 20 litros de aguardente por pipa de vinho do Douro exportada para Inglaterra, para aguentar o transporte. A “misturaça” agradou tanto aos “bifes” que até vieram colonizar a região.
Voltando ao rio, a porcaria da eclusa nunca mais subia à espera da acumulação de mais barcos. O cheiro a gasóleo aumenta. A claustrofobia também. Não sou engenheiro…, não estou habituado a tanto betão!
O tinto estava-se a fazer esquisito. Só branco… só branco! Acabou por vir na confluência do rio Bestança, mais exactamente debaixo da Ponte de Mosteiró, do sempiterno engenheiro Edgar Cardoso que, diga-se de passagem era uma merda… o vinho, claro. Verdadeiro gasóleo! Quando vierem ao Douro, tragam sempre “botelhas” de supermercado, pelo sim, pelo não. Aliás, se vais ao mar avia-te em terra… Com o rio é a mesma coisa e então no Douro nem se fala!
(a continuar)
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