23.1.17

COMIGO MESMO - XLIII

Mas se hoje tenho saudades, naquele tempo de adolescência não era bem assim. A bem dizer, era uma enorme estucha ter de fazer aqueles tremendos 580 km para lá e outros tantos para cá. Tudo sem autoestradas, nem telemóveis, nem sequer GPS. Íamos pela velhinha Estrada da Beira: Mangualde, Celorico da Beira, Foz Côa, Pocinho…, cortando o país ao meio.
Recordo os quarenta graus à sombra. A frescura do feldespato. O cheiro ácido a porco vindo lá dos "fundos", ...
misturado com o cheiro perfumado de maçãs bravo de Esmolfe que enchiam a salinha do rés-do chão. As primas, Luísa e Guida, filhas do tio Amilcar (irmão da minha mãe), com quem brincava aos médicos na obscuridade ominosa da cave brigantina. Recordo moscas, muitas moscas. Moscas que apanhava à mão, em holocaustos diários. Desenvolvi uma técnica muito peculiar que ainda hoje domino e que por facilidade de expressão, denominarei de técnica da “mão-húmida”.
Na casa ao lado, o meu tio-avô Abílio (da parte do meu pai) mantinha uma mercearia com loja para estacionamento de burros em trânsito com pessoal de Gimonde, Carrazeda e Sacóias.
Às 17h tinha lição de acordeão nas freirinhas. O método era 1-2-3-4-5-6-7. Cada número sua nota, cada nota seu número. Não cheguei a perceber quem era mi, porquê si, muito menos onde era lá.

22.1.17

COMIGO MESMO - XLII



Hoje recordo Bragança pela distância e pela saudade. Lá em cima ficava o castelo, um dos mais bem preservados do país, com a sua altiva torre de menagem e a Torre da Princesa, com uma lenda que mudava consoante o interlocutor. Bragança é terra de Celtas, de uma tribo Galaica, os Zoelas. Uma terra que foi dominada pelos Romanos e invadida pelos Visigodos.
Os Mouros não conseguiram estabelecer-se por conta própria e andaram 50 anos a levar na tromba, antes de terem percebido que não valia a pena insistir. Foram os leoneses que tomaram conta disto. A independência veio com naturalidade, logo nos tempos de Afonso Henriques. Bragança sempre foi terra de atravessamento. Guerras com Espanha, invasões francesas, lutas liberais, revolução cartistas… Tudo passou por aqui. A população foi enriquecida com os judeus em fuga dos Reis Católicos e será rara a família que não tem sangue “marrano”. No Inverno neva, mas os lobos são protegidos.

21.1.17

COMIGO MESMO - XLI

Ainda dizem que o FB é uma treta...! Rosa Oliveira, mulher do meu colega e amigo Carlos Oliveira, investigou de livre e espontânea vontade e descobriu a genealogia do meu avô Francisco Pinheiro, pai do meu pai. Para além de lhe agradecer, fiquei muito sensibilizado. Faço aqui um interludio para publicar o que ela me mandou:
"Como gosto de genealogia, estive a pesquisar sobre o seu avô Francisco do Patrocínio Pinheiro e descobri o registo de bat...
ismo dele. Eis o que descobri: nasceu a 31 de Janeiro de 1902, pelas 10 horas da noite e foi batizado na Igreja Paroquial de Santa Maria no dia 19 de Março de 1902. Filho de João António Pinheiro, pintor, e de Maria Joaquina Rodrigues, agenciária (?!). Neto paterno de Nereu José Pinheiro e de Maria Engrácia Pinheiro e materno de José Rodrigues e Mariana Rita Rodrigues. Foram padrinhos: Francisco do Patrocínio Felgueiras, viúvo, professor do liceu e Etelvina da Conceição Felgueiras, solteira. Casou com Teresa de Jesus Alves, de 18 anos, filha de Claudino da Transfiguração e de Maria José Rodrigues, e natural de Castrelos. O casamento foi na Conservatória a 15 de Maio de 1921. Faleceu na Freguesia de Cedofeita, Porto, pelas onze horas do dia 22 de Julho de 1959"
NOTA: Fiquei a saber que tenho um bisavô Claudino da Transfiguração e não sei que pensar disto.
PS: na foto, o meu avô Francisco, à esquerda a minha mãe e à direita a minha tia Natália (cerca de 1953)

20.1.17

COMIGO MESMO - XL

Em 1974 dá-se o 25 de Abril. Bragança aderiu mais por dever de ofício do que por convicção. Mas, a verdade é que as estruturas formais foram drasticamente alteradas. O meu avô deixou de estar ligado ao que quer que fosse e em 75 viria para Oeiras por causa da doença da minha avó que, aliás, viria a falecer logo em 76 aqui em casa. Ele ficou por cá, sempre com grande empenho pelo quintal, mexendo e remexendo a terra, talvez saudoso da distante Bragança e do s...eu quintal de terra preta. De vez em quando desaparecia por algumas horas. Tínhamos de o ir buscar a um cafezito ali perto do bairro das Palmeiras.
Quando penso no meu avô, penso nele com grande carinho e respeito. Talvez ele fosse mais ríspido com os filhos. Connosco, os netos, era uma doçura. Lembro-me dele a fazer a barba logo de manhã. Um ritual matinal que ele seguia a preceito. Afiava a navalha, no já muito gasto assentador de couro, num movimento para cima e para baixo, alternadamente nos dois lados da lâmina. Depois ensaboava a cara com pincel e cortava diligentemente com a lâmina, mirando-se num pequeno espelho côncavo, daqueles em que os poros da cara parecem crateras de um vulcão em erupção. Talvez ele estivesse a tentar ensinar-me. Afinal, eu era o único neto macho.

18.1.17

COMIGO MESMO - XXXIX


A sua carreira militar foi interrompida várias vezes para assumir outras funções. Entre 35 e 41 esteve em comissão de serviço como Comandante Distrital da GNR. Neste período apanhou a Guerra Civil de Espanha (1936 - 1939).
De 1945 a 1950, o meu avô foi Comandante Distrital da PSP, tendo depois, já na situação de reserva, regressado ao Ministério da Guerra. Entre 57 e 62 presta serviço na Legião Portuguesa, tendo, em 61, sido nomeado Director da Carreira de Tiro de Bragança. Em 1963 presta serviço como Presidente da Comissão Liquidatária do B.C. 3 (Batalhão de Caçadores 3).
Em 15 de Janeiro de 1963 é requisitado como Comandante da 5ª Companhia da Guarda Fiscal, cargo que ocupou durante 2 anos. Passa ainda por Provedor da Casa da Misericórdia e Comandante dos Bombeiros Voluntários.
Em 17 de Junho de 1969 é nomeado Vice-Presidente da Câmara Municipal de Bragança, com o pelouro da Vida Administrativa Rural. Era então Presidente da edilidade o Dr. Abílio Machado Leonardo.

17.1.17

COMIGO MESMO - XXXVII

Domingos Ferreira conhecia a zona de Bragança como ninguém. Foi ele que ajudou a dar as coordenadas cartográficas para mapear o distrito, procedendo ao levantamento topográfico à escala 1/20.000 de Bragança e seus arredores.
Domingos António Ferreira, o “avô Capitão”, nasceu a 10 de Agosto de 1897, em Bragança, na freguesia de Santa Maria. Filho de José Maria Ferreira e de Maria Cândida Ramos (meus bisavós e que ainda conheci em criança, moravam então no Porto). Morreu em 28 de Dezembro de 1985, com 88 anos, depois de ter morado aqui em casa em Nova Oeiras a partir de 1975, altura em que ele e a avó Olinda vieram por razões de saúde desta. A avó viria a falecer pouco depois, em 21 de Novembro de 1976. Aliás, a avó morreu cá em casa na sala da frente (a sala virada a Norte que lhe servia de quarto), coisa que me fez a maior das impressões. Nessa altura já eu estava casado pela primeira vez. Morava perto, na Torre D, de Nova Oeiras. Lembro-me de ver a minha avó morta, muito fria e decidi que nunca mais queria morrer.
PS: na foto, a minha avó Olinda.

16.1.17

COMIGO MESSMO - XXXVI


A verdade é que o meu avô Domingos era uma figura marcante. Claramente a figura mais forte de toda a família. Sempre de gravata fininha, como se usava na época, e chapéu preto à maneira. Um homem que via no comunismo um perigo físico a abater. Um homem que, seguramente, ajudou o regime franquista na época da Guerra Civil de Espanha (1937), o que lhe terá garantido ser Cidadão Honorário de Zamora.
Um caçador inveterado que nos mandava encomendas em caixotes de madeira com alheiras e perdizes de três em três meses. Caixotes cheios de pregos que tinham de ser tirados a escopro e martelo. Caixotes que íamos buscar à Estação de Oeiras, muitas vezes já com cheiro ligeiramente faisander.
Um homem que gostava de patuscadas, petiscos, copos e, estou seguro, também de “espanholas”. Gostava também de jogar. Penso que era apenas jogo de cartas. Ainda me lembro de o ir buscar a pedido da avó, era eu já mais velho e ele também, ao Café Poças que tinha uma sala íntima para os devidos efeitos. Foi nessa época, que passou a ter a alcunha de “Capitão Sagres”, porventura devido a algum uso excessivo que dava às garrafas de cerveja.

PS: o meu avô a dar de beber ao cavalo em frente à Igreja de S. Vicente (Bragança)