3.12.16

COMIGO MESMO - I


A minha casa nunca teve nome. Podia ter-se chamado Vivenda Pinheiro ou Vivenda Noemy (a minha mãe chama-se Noémia). Podia até ter tido um nome mais foleiro: Sonho da Minha Vida ou A Nossa Casa. Mas não, nada disto, acabou ficando com o inócuo número de polícia 65 da Alameda Conde de Oeiras. Não sei se foi bom ou se foi mau. Uma casa com nome ganha relevo. Destaca-se. Impõe-se no contexto do bairro. Os números são coisas mais administrativas, sem brilho, sem sainete... Mas, por outro lado, passam mais despercebidos.
A minha avó Olinda (mãe da minha mãe) queria janelas para a frente na boa tradição brigantina de ver quem passa e cumprimenta quem passeia nas horas cerimoniais do Castelo até à Sé entre a Rua Direita e a Rua de Trás. Mas aqui, em Nova Oeiras, não passava ninguém que se visse, não havia castelo, nem Sé. Muito menos Rua Direita ou Rua de Trás. Ninguém para cumprimentar. Um deserto de gente e um mar de poeira. 

2.11.16

DANCE COMIGO

Mais um livro de crónicas de Eduardo Lunardelli. Recebi ontem e já vou a meio. É bom ler sem pressa ao ritmo da página que se vira e da crónica que passa.

14.10.16

BOB NOBEL

Sempre embirrei com a música do Dylan. Naquele tempo todos diziam maravilhas e eu tinha já os meus ódios de estimação. Era o ar de rato saído de um cano de esgoto; a música mal amanhada, tocada em três acordes primitivos; a palheta que parecia serrar presunto; a voz impossível completada pela estridência da insuportável gaita de beiços... E as músicas duravam, duravam... Nunca tive qualquer disco do homem, embora, convenhamos, o achasse diferente. Nunca percebi aqueles poemas surreais, a não ser que time must a change. Foi simbólico? Talvez? A escrita é boa? Talvez. Fiquei apesar de tudo contente. Ao menos conheço-o. Os outros antecessores nada sabia deles. Este é um dos meus. Símbolo da nossa rebeldia. Para quando agora o Nobel para Paul Simon, o Chico Buarque ou o Caetano Veloso?