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9.3.11

ADEUS BRASIL

Gentileza da nossa "agente em Fortaleza", passámos para a classe executiva no voo de regresso. De surpresa em surpresa, acabámos a descolar no cockpit, desta vez gentileza do comandante. Sete horas com tratamento VIP. Excelente refeição e, imaginem, consegui passar pelas brasas, eu que nunca durmo em avião. Lisboa tremia de frio. Mas voltar sabe bem. É bom viajar para poder regressar. Home sweet home!

COCKPIT

FORTALEZA - ALTURAS

8.3.11

URBANISMO INVERTIDO

De volta a Fortaleza, impressiona o volume da construção na orla marítima. A grande maioria das cidades brasileiras obedecem ao mesmo padrão. A frente marítima tem um calçadão largo, uma estrada marginal e, logo atrás, uma imensidão de prédios de 20 e 30 andares (quando não é mais). Prédios que tapam o horizonte. Uma muralha compacta de betão. Uma extensão brutal de prédios com vista total de mar. Por isso as cidades são tão extensas.  Prédios de gente rica. Apenas dois ou três quarteirões (quadras) mais atrás fica a sombra. Casas sem vista. Moradias unifamiliares, em estado mais ou menos decrépito. Um pouco atrás, ainda, começam as barracas. Apenas em quatro quadras o urbanismo chique dá, inevitavelmente, lugar a favelas urbanas. Surpreende este urbanismo invertido. Uma lógica preversa de valorização máxima das mais valias da frente marítima. O mar esconde-se dos pobres. Com tanto espaço, fica por entender porque não se impôs outro urbanismo que garantisse a vista de mar e um maior equilíbrio social..

MAIS VALIAS

7.3.11

JERICOACOARA - DESCANSO FINAL

JERICOACOARA - UM ADEUS

A chuva ainda cai. Mas ela tem de cair. Se não caísse, isto seria um deserto. E não é. Uma gente fantástica. Uma segurança total. Boa comida. Sítios diferentes. Estranhas paisagens. Um respeito pela natureza, em que só o excesso de buggis destoa. Jericoacoara está inserida numa Reserva. O povoado está juridicamente delimitado e não pode crescer mais. O Parque Natural precisa de mais vigilantes (tem 3 e estão previstos 15). Mas a principal defesa deste património natural é a vontade inequívoca da população. Em  25 anos, Jeri passou de um vilarejo recôndito, escondido a 350 km de Fortaleza, para ser um valor seguro no tuismo nordestino. Tem e vencer o desafio. Passar de estância de hippies a turismo de qualidade, sem perder as características. Pergunto-me se mais alguma vez irei a Jeri. A resposta é incógnita, como o todo o dia de amanhã. Mas se não voltar, será apenas pela enorme distância e incomodidade para lá chegar. Talvez essa distância salve a autenticidade que ainda sobra.

5.3.11

A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?

O turismo em geral, e o Brasil em particular, acham que animação é muito barulho. Chamam-lhe música, mas na realidade é ruído. Está por todo o lado. Nos táxis. Nos onibus. Nas piscinas. Nas praias. Nos elevadores. Nos lobis de hotel. Acordes mal paridos. Ritmos primários. Melodias inenarráveis. Colunas penduradas na distorção dos coqueiros. A selva enche-se de "pop-iurd", pregando Jesus no contratempo do samba canção. Tim Maia ao estilo favela/presidiário, gritando na televisão. Concertos ao vivo cheios de deus e palmas. O Brasil meteu a música entre parêntesis. Está obsecado por religião e Paulo Coelho. Onde está o país de Caetano, de Chico, de Gil? Onde está a bossa-nova? O mango-beat? Mais estranho, é que turista brasileiro parece adorar. Europeu sofre. Será isto a lágrima nordestina? Onde fica a cajuína, cristalina em Teresina?

4.3.11

APENAS FLORES





MÃOS

Para cima. Para baixo. Suaves. Fortes. Entram. Saem. Estão por todo lado. Acariciam. Deslizam. Penetram. Agora fortes. Depois mansas. Mãos. Mãos que se mulplicam. Mãos que falam connosco. Uma intimidade de Verão. A pele excita-se. O corpo parece uma papa. Os músculos desmancham-se. O mar borbulha ao fundo. Pregões longínquos ecoam. Os olhos caem. Hipnose fugaz. Agora é no peito. Depois as pernas. Finalmente as costas. Uma visita detalhada. Profissional. Uma hora nas mãos da Ana. A massagem é uma instituição brasileira. Não faz bem nem faz mal. Um prazer único.

2.3.11

VIVA O POVO BRASILEIRO - VI


O caboco foi enforcado de madrugada. Mandaram-lhe um padre. Ele não objectou, ouvindo sem expressão as palavras em língua mágica. Seu último pensamento foi que talvez comesse aquele padre. Mas sabia que a carne dele não se comparava à dos holandeses. E, enquanto lhe passavam o laço no pescoço, chegou a imaginar como teria sido bom se, em vez daquela carne de segunda, tivessem vindo para cá desde o começo, e aqui ficado, holandeses superiores. Tão superiores que Sinique foi levado ao conselho de guerra que o condenou a ser decentemente fuzilado. Amarrado a um poste, onde foi manietado, disse as últimas palavras que ninguém entendeu, recebeu muitos balaços mal colocados e demorou um pouco a morrer. Quando a sua almazinha disparou em direcção ao poleiro, a do caboco Capiroba já lá estava, querendo nunca mais voltar aquele lugar tão louco onde vivera, mas inquetíssima por apenas saber que devia haver outros lugares e nunca ter aprendido onde eles ficavam.

Excertos de "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro.
Um livro que recomendo vivamente.

1.3.11

O CÃO



VIVA O POVO BRASILEIRO - V

E Vu realmente descobriu um jeito. Passou então a volta-e-meia entrar no cercado, virar o holandês de barriga para cima e sentar nele com muitos sinais de felicidade, às vezes demorando-se de olhos fechados e oscilando levemente o tronco e os quadris, às vezes quase saltando como quem monta a galope, às vezes simplesmente enfiada e instalada, cuidando de um afazer ou outro e conversando. O caboco pensou vagamente em ter muitos holandeses amestrados, servindo-lhe fielmente em seu pedaço de terra, até ao dia em que a idade ou a pouca produção aconselhassem o abate. Mas eram apenas sonhos...

Excertos de "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro

JERICOACOARA - A NOITE





28.2.11

VIVA O POVO BRASILEIRO - IV

O holandês Sinique concordou em comer um pedacinho do holandês Aquimã depois de resistir uns dias esbravejando dentro do cercadinho, sacudindo os mourões de tal maneira que o caboco Capiroba foi obrigado, bem a contragosto porque tinha fumado erva de cabeça e queria ficar quieto espiando as árvores, a quebrar um dedo de cada mão dele. Tentou convencê-lo com bons modos, não gostava de maltratar o bicho sem necessidade. Vu, a filha mais velha do caboco, ficou contente quando Sinique comeu um pedacinho de Aquimã, aliás não só um pedacinho, mas quase uma gamela cheia de caminha moqueada muito bem moqueadinha, com pirão de aipim. Ela tinha gostada do holandês e duas vezes o caboco a viu querendo fazer com ele o que o caboco fazia com as mulheres. O caboco sabia que aquilo estava errado, que era o holandês quem tinha de fazer como ele fazia, pondo a mulher de quatro, segurando a gordura do alto das coxas, passando cuspe e se despachando com ligeireza, mas teve preguiça de ensinar. Achou que Vu descobriria um jeito..."

Excertos de "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro.

QUASE BATRÁQUIO

27.2.11

VIVA O POVO BRASILEIRO - III

O padre, porém, não sustentou caboco Capiroba e as suas mulheres muito tempo. No terceiro ano, o caboco roubou mais três mulheres e viu nascer umas quantas filhas, de maneira que com muitas bocas para sustentar, passou a consumir um número maior de brancos, a ponto de, em alguns períodos, declarar-se uma certa escassez. Um dia voltou arrastando um holandês louro, louro. O flamengo tinha o gosto um pouco brando, a carne um tico mole e adocicada, mas tão tenra e suave, tão leve no estomâgo, tão estimada pelas crianças, prestando-se tão versatilmente a todo o uso culinário, que cedo todos deram de preferi-los a qualquer outro alimento. Até mesmo o caboco Capiroba, cujo paladar, antes rude, se tornou de tal forma afeito à carne flamenga que às vezes chegava a ter engulhos, só de pensar em certos portugueses e espanhóis que em outros tempos havia comido, principalmente padres e funcionários da Coroa, os quais lhe evocavam agora uma memória oleosa, quase sebenta, de grande morrinha e invencível graveolência...

Excertos de "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro.

IMPRESSÕES NAS PALMEIRAS





26.2.11

VIVA O POVO BRASILEIRO - II

No caso do caboco Capiroba houve uma piora da moléstia da cabeça, a qual foi atacada por tamanha saraivada de estalidos, zumbidos, assovios e esquentamentos que, na madrugada, ele roubou duas mulheres e desapareceu. Seis dias depois, desalentado e faminto foi espiar. Reconheceu um dos padres, certamente decidido a ir buscá-lo à força por amor, para amarrá-lo e respigar-lhe água benta até que o espírito imundo o abandonasse. O caboco Capiroba então pegou num porrete, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco de carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, meninico bem dormidinho para pegar sabor e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas lavadas no limão...

Excertos de "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro.