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2.11.14

A INEXISTÊNCIA DA MENSAGEM

A vida resume-se a in e off line. O formato é o mais relevante. A novidade o mais importante. Recebi antes de ti. Partilhei, logo existo. You-tube muito à frente. Stream para todos. Namoro em sexting. Beijos no chat. Para quem julgava que a educação massiva iria dar mais conteúdo, acabou por verificar que cada vez há mais coisas para dizer e menos mensagem a comunicar. A mensagem esgota-se na descoberta da imensidão dos likes e dos amigos de serviço que nos dizem qualquer coisinha para alegrar. Hoje não é possível conceber outra vida. Recebemos as visitas no computador e não precisamos de oferecer cafezinho. As conversas limitam-se ao que queremos dizer e podemos sair de cena sem bater com a porta. Os tímidos ficam curados e os exibicionistas multiplicam o público. Este é o "admirável mundo novo" que criamos todos os dias ao escrever esta mensagem sem conteúdo. Espero que leikam. 

31.8.13

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


O autocarro coreano deslizava suavemente pela Avenida dos Descobrimentos abaixo. Ao fundo a Torre de Belém no seu calcário rendilhado, contrastando com o Tejo azul em cenário quinhentista. O Padrão, com os seus navegadores monolíticos, lembrando velhas glórias do Império. À volta hotéis de 6 e 7 estrelas, olhando o rio a preços asiáticos, vedados por cercas electrificadas e seguranças nipónicos em face samurai.
Dentro do autocarro, um grupo de indianos risonhos comenta que dali tinha saído o Vasco da Gama, o tal que os tinha invadido. E riam alarvemente. No piso de baixo, um grupo de chineses barulhentos tira fotografias a tudo o que mexe. Lá atrás, duas famílias de angolanos disfarçam as origens falando em bantu. Meia dúzia de brasileiros põe a hipótese de explorar comercialmente o decadente Mosteiro dos Jerónimos.
Lá fora, no calor do meio-dia, pobres turistas alemães e suecos confraternizam à volta das mesas de pic-nic, compartilhando as sandes de fiambre que sobraram da véspera. Portugueses esfarrapados, pedem pelos cantos tocando acordeão e lançando fados vadios com tradução em mandarim. Um bando de espanhóis dança flamenco a pedido. No átrio central da Praça do Império, o Presidente da Repúbica faz uma "presidência aberta" de calção de banho e sardinhas assadas, para turista ver.

A camioneta chega, finalmente, ao Rossio. A guia diz nas três línguas oficiais, mandarim, brasileiro e inglês do Ragistão: "Chegámos ao fim da nossa viagem. Toda a zona a norte e leste não é segura. É habitada por portugueses e outros marginais que aqui se estabeleceram no tempo da União Europeia. Por favor não se percam do vosso guia".

Post publicado em 2008 e cada vez mais actual.

16.3.11

TUDO É EFÉMERO

Em apenas cinco minutos, a natureza arruinou uma das economias mais pujantes do mundo O Império do Sol Nascente está à beira do colapso. Os tremores de terra mantêm-se. O ponto de ruptura de stocks, alimentação incluída, está prestes a ser atingido. Milhares de vítimas acumulam-se em instalações precárias. O frio e a neve resolveram participar no desastre. A solidez de muitas construções está em perigo. E, para cúmulo, várias centrais nucleares estão em perigo de explosão. O Japão tem dezenas de centrais nucleares. Duas já tiveram problemas sérios, mas o pior (a explosão do núcleo) ainda não aconteceu. A energia nuclear é, novamente, posta em causa. O desastre, a acontecer, pode ter impacto mundial. De repente, ficámos à beira do "juízo final". Pode ser que não seja desta, mas poderá ser da próxima. Tudo é efémero. Muito efémero.

10.11.09

EXCESSO DE VELOCIDADE

Estas são as novas armadilhas policiais para aceleras. Detectores de velocidade disfarçados nos rails de protecção das auto-estradas. Sempre gostei de guiar rápido. Com o tempo, as condições de segurança dos veículos e das estradas permitem que uma condução desportiva seja cada vez mais segura e tentadora. Sucede, porém, que hoje toda a gente tem carro, mas poucos sabem guiar. Temos 70% de "empatas" e 20% de aceleras agressivos. Temos, portanto, uma contradição: mais e melhores carros que cada vez tem de andar mais devagar, seja pelos limites de velocidade, seja pelos engarrafamentos. Como é possível que na fabulosa rede de auto-estradas de Portugal, o limite de velocidade seja 120 Km/hora?! O meu carro vai facilmente aos 200 ou 220 km/hora... É difícil manter o carro a 120. Quase tenho de travar. Pergunto: porque se vendem veículos destes? Há carros que dão 300 e mais à hora. Para quê? Não seria mais correcto proibir na fonte a venda ou mesmo o fabrico destes carros? Que hipocrisia é esta de tributar esses carros e depois ainda lhes passar multas? Porque não pôem os carros todos a dar um máximo de 120 km/hora?

23.7.09

MORTOS E SCANNADOS

Tendo adiado a minha ida para o Algarve por causa da morte do Xico Zé, resolvi aproveitar o dia de hoje para adiantar mais um pouco a digitalização dos slides do Roberto. Aproveitei e levei uns da minha família. Sentado na cadeira que pertenceu ao falecido Roberto, os slides eram um verdadeiro cemitério de imagens. O Xico aparecia por todo o lado. A Bia, que morreu de cancro há dois anos, também surgiu de repente. O Guito, falecido há três semanas num acidente na Mauritânia, resolveu aparecer inopinadamente. O Zé Maria também lá estava, como se ainda vivesse. Então os slides de família eram uma notícia necrológica de página inteira: avós, bisavós, tios, primos, pai... Slides de mortos. Cada vez mais mortos. Quase todos mortos. Digitalizo mortos que saem vivos das imagens sepultados em caixas escuras no bafio do passado. Imagens vivas de gente morta. Imagens que ficaram à espera da morte para se revelarem. Gente que reconheço vagamente. Gente vinda de muito longe. Vinda das brumas da adolescência. Jovens que não existem mais. Dou-lhes de novo vida. Revivem em Jpeg no "positive film", a 720 dip, nos 24-bit Color. São imagens que vejo com dor e saudade. Com prazer e angústia. Com alegria e raiva. O passado é o "preview" scannado. É uma vida que existe em imagem e não existe já viva. Como se fosse uma imagem morta. Sinto-me traído por todos os que me abandonaram. Todos me deixaram sozinho a tratar das imagens que eles não vão ver. Sinto uma luta contra o tempo. Acabar a digitalização antes que mais alguém morra. Sinto-me enterrado no caixilho de cada slide, numa angústia de morte no fundo de cada imagem.
jp

16.1.09

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Segundo o filósofo e psiquiatra Eric Fromm: “A nossa sociedade ocidental, a despeito do seu progresso material, intelectual e político, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesi pelo trabalho e pelo chamado prazer”. Mas estes sintomas são nossos amigos. Ajudam-nos a diagnosticar um conflito que ainda existe dentro de nós. As vítimas perdidas da doença mental estão entre os que parecem mais normais. “Muitos daqueles que são “normais”, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque as suas vozes foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como os neuróticos”!
Estes são os normais relativamente a uma sociedade profundamente anormal. Pessoas anormalmente normais que vivem sem protestar numa sociedade de valores deturpados e que não tende para a felicidade. Se fossem plena e saudavelmente humanos não deviam estar adaptados. Eles foram des-individualizados. Estão a evoluir para uma uniformidade. Mas uniformidade e liberdade não são compatíveis. Qualquer cultura que pretenda, seja porque razão for, padronizar o homem, comete um ultraje contra a natureza humana.
A Ciência pode definir-se como a redução da multiplicidade à unidade. Ignora a particularidade. Concentra-se sobre o que os vários eventos têm em comum e, finalmente, entra na abstracção, criando uma “lei”. Este impulso para impor uma ordem e uma harmonia a partir do aparente caos e da multiplicidade é uma espécie de instinto intelectual e que por vezes levam a construções filosóficas apressadas e absurdas que podem ser nocivas, indirectamente, se usadas como justificação para acções perniciosas. Mas é no âmbito da política e da economia que a “Vontade de Ordem” pode ser muito perigosa. Facilmente caímos na uniformidade sub-humana e passamos da liberdade à servidão. Daí a um sistema totalitário é um pequeno passo!
jp

8.1.09

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Lá fora o Inverno roubou as folhas das árvores e o frio tomou conta das nossas vidas. Espirramos a gripe que nos contagia e contamos ansiosamente os dias para a Primavera. Os hospitais abarrotam de gente que vai às urgências para tomar aspirinas. Camas espalhadas pelos corredores entupidos, num cenário de guerra viral. O frio polar entrou em Portugal. O mundo sempre foi global. O clima nunca conheceu fronteiras. Só agora percebemos que há tsunamis na Indonésia, furacões em Miami, cheias no Brasil, terramotos no Irão… Que às vezes faz frio quando devia fazer calor e outras aparece Verão no meio do Inverno. Aqui no nosso cantinho, confortavelmente olhando a televisão, vemos um mundo de desgraças que se abatem sobre os outros e suspiramos revoltados sem nada fazer, sem nada poder fazer. Bem perto de nós assaltam gasolineiras e velhinhas indefesas. Lá longe continua a desventura da Palestina, os atentados no Afeganistão, os genocídios em África, a arrogância dos USA, a impotência da Europa. Há gente a mais. Muita gente a mais. Esta não é a Era Espacial. É a Era da Superpopulação. Desde a morte de Cristo até ao séc. XVII, foram necessários 16 séculos para que a população da terra duplicasse. Ao ritmo actual, a população duplica em menos de meio século. De 4 em 4 anos a humanidade acrescenta à sua totalidade o equivalente à população dos USA! No passado as pestes medievais e as guerras permanentes ajudavam a manter o equilíbrio entre os recursos e os habitantes. Vivia-se pouco e mal, é certo. Mas o mundo mantinha-se equilibrado. Agora, a progressão geométrica de crescimento da população desequilibra a obtenção de recursos e a obtenção intensiva de recursos desequilibram o planeta. A ciência prolonga a vida até ao estado de eutanásia e os velhos acumulam-se em hangares de tristeza e vergonha. Deram-nos um estado social protector na doença e na velhice. Um estado que garante pensões, subsídios e reformas. Deram-nos uma ilusão de riqueza e a garantia de felicidade. Um modelo incomportável, falido e pernicioso. Um modelo incomportável com o crescimento exponencial da população e com a globalização económica selvagem a que se chegou. A crise que aí vem vai ser a peste dos tempos modernos. Um mundo novo em que já nem as estações do ano colaboram. Um mundo novo em que os homens fazem do corpo o sacrifício da alma!
jp