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5.3.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

ACABA HOJE ESTE CONTO E COM ELE AS "AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA", ESSE DETECTIVE INTEMPORAL QUE ATRAVESSA O TEMPO AO SERVIÇO DA PODEROSA "ORGANIZAÇÃO". PODE SER QUE VOLTE SE AS CIRCUNSTÂNCIAS O IMPOSEREM E A CRISE O CONSENTIR.
ÚLTIMO EPISÓDIO
Arnaldo vagueava desesperado perdido nos claustros labirínticos, batendo com a cabeça no estuque das paredes. “Luz pisada!?... Água de Salomão!?... Porra, esta era mesmo heremética de todo!”. A androide descansava em “stand by”, incapaz de descodificar aquela chachada.
Inconscientemente, Arnaldo dirigiu-se ao “Claustro de Micha”, passou para o “Claustro da Hospedaria” e, sem querer, deu com ele nas amplas cozinhas. Na geladeira, uma convidativa mini-Sagres com o rosto do Infante estampado na carica.
De repente, enquanto mamava a cerveja, lembrou-se de uma conversa que tinha tido, aí por volta de 1850, com o agente Costa Cabral, depois Conde de Tomar e que a “ Organização” havia infiltrado junto de D.Maria II. Coitado do homem... Nunca mais o vira. Trabalhava a recibo verde e, está claro, na primeira reestruturação fora ao ar.
Costa Cabral adquirira parte do Convento em 1842, depois da extinção das ordens religiosas. Fez obras de adaptação a residência e transformou as adegas e a abegoaria em lagar de azeite. Costa Cabral era ligeiramente maçon. Na altura confessou: “Sabes, Arnaldo, isto não vai ser lagar de azeite, mas uma “sala iniciática”. Já viste o potencial turístico? Tu é que podias vir gerir a futura região de turismo templária... No fundo, foste tu que inventaste aquelas aldrabices todas!”

Num ápice, Arnaldo percebeu tudo. Saiu da cozinha em frenesim. Desceu esbaforido a escada direito ao subsolo. Oliveira... Azeite... Luz... Lagar de azeite... Luz pisada. No tecto, os fechos das dezassete abóbadas em rosácea... A “rosa solar”, último grau da iniciação... Por baixo uma laje esconde o poço que purifica a vida... A água de Salomão!
Arnaldo desloca a pedra em esforço. Mergulhado na liquidez translúcida, um volume suspeito...
Finalmente a Arca! Uma vulgar caixa quadrada em madeira de pinho, com as medidas clássicas: 1,618 de lado. Arnaldo esperava coisa melhorada... anjos, coruchéus... revestimento a ouro... umas quantas esmeraldazitas... sei lá! Mas pensando bem, o que interessava era o interior.
Em excitação colegial, Arnaldo retira o caixote da água. A androide digitaliza e processa toda a informação. Nos anéis de Saturno a operação é acompanhada com “suspense”.
Pregos enferrujados... Madeira inchada... Difícil abrir. Com ajuda de Seven, finalmente, a tampa cede. Num canto, uma cruz quebrada e um tubo de “Super Cola Três”. No outro canto, um carcomido rolo de papiro. As mãos de Arnaldo tremiam de emoção. Agarrou o rolo com reverência. Desenrolou-o com com extremo cuidado. Leu estupefacto: “Passa a outro e não ao mesmo”!

Lá fora, no fosso do castelo, uma fêmea louva-a-Deus, come orgasticamente a cabeça do amante, depois de uma romântica visita ao Convento de Cristo.
Arnaldo perde as ilusões. A”Organização” que se foda... A Terra que lixe...!
Agarra na mão da pequenita andróide e partem rumo às estrelas, a formar nova dinastia.
FIM
jp

2.3.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

EPISÓDIO VI
O Castelo de Tomar estava uma lástima. Não tanto pela devastação atómica, mas pela paranóia decorativa de D. Manuel I. Portais carregados de arquivoltas e sobre-arcos; janelas com colagens de adereços e peças tipo ourivesaria; festões culminando em efeito foral de coroamento vegetalista; claustros sobrepostos em labirinto de Minotauro; cordas entrançadas... algas secas... folhas de cacto... alcachofras... troncos nodosos... esferas armilares... Enfim, verdadeiramente “kitch”!
A “Charola”, essa nem se fala. Onde antes eram paredes brancas, despojadas, que elevavam misticamente o octógono deambulatório à “Nova Jerusalém”, havia agora um programa escultórico, um programa de talha e um programa pictórico parietal... Ou seja, uma trapalhada narcisista de simbologia decorativa pseudo-messiânica, que o modesto rei se tinha imposto concretizar à custa do erário público.
A androide entrara em “shut-down” durante a viajem. Foi preciso ligação directa ao isqueiro do carro para lhe dar nova carga. Entraram pela Porta do Sol. Deixaram à direita a Alcáçova protegida pelas muralhas em “alambor”. Seguiram para ocidente em direcção à “Charola”.
“E agora?”, pensou Arnaldo... “A cabeça de santo que há em ti? Que raio quer isto dizer?”. À sua volta, o dito programa pictórico, mais o escultórico, não deixavam centímetro vago.
Mas, a androide não teve dúvidas. Dirigiu-se sem hesitar às arcadas do tambor central, onde Fernão de Muñoz havia instalado imagens sacras, e apontou, decidida, a figuração de João Baptista, esse grande “baphomet” que viu a tola rebolar por uma questão de saias.
Com um golpe acutilante de “karate”, Arnaldo foi-se-lhe à cabeça... o santinho também já devia estar habituado! Um papelito amarrotado saltou para o chão. Estava escrito em aramaico. A androide traduziu: “Na luz pisada, a rosa solar ilumina a água de Salomão”.
Palavra de honra! Eles sabiam tudo, sabiam onde estava a merda da Arca, para quê tantas charadas? Sacanas dos velhos da "Organização", não perdiam a mania de brincar aos escuteiros... Filhos da puta!
(continua na 6ª feira)
jp

27.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

EPISÓDIO V
Por um eterno segundo a nave fica suspensa no vazio astral. A trajectória é corrigida nos limites. A nave passa a escassos oitenta quilómetros do solo lunar.
Meteoritos incandescentes brilham no esplendor da atmosfera azul-nitrogénio. Mares profundos de liquidez insondável. Opacidade baça de continentes megalíticos. Cataclismos apocaliptícos na crosta enrugada.
A Terra mantinha-se fiel à sua órbita, perdida na eternidade do oceano cósmico, navegando o sono hipnótico da circunvalação solar.
O enjoo apodera-se da tripulação na queda desgovernada perfurando a gravidade terráquea.
Arnaldo, à beira do vómito, introduz o CD com as intruções derradeiras: “Na Charola dos tabuleiros, procura a cabeça santa que há em ti”, recita a voz cava do distante Grão-Mestre. “Não confies em ninguém. Leva apenas a androide. Ela sabe o que fazer”, continua a voz. “Este CD será destruído em cinco segundos”, termina a mensagem.
Aterram aos trambulhões no aeroporto de “Figo Maduro”, ali para os lados do Prior Velho.

Aglomerados de colmeias gigantes em hexágonos de vidro espelhado. Formigueiros imponentes com elevadores e estacionamento subterrâneo. Casulos suspensos em cores berrantes, com janelas de tabuinhas. Teias cintilantes em estruturas octogonais, sobrevoando a cidade...
Famílias de baratas encaminham ordeiramente os filhos para a escola matinal; grilos falantes desfilam vaidosos pelas avenidas verde alface; aranhas de cruz tecem mudos arpejos nos jardins de pedra; comboios de centopeias transportam vermes periféricos para os escritórios da cidade; gafanhotos tatuados reúnem-se em esquinas sombrias decidindo o próximo assalto; varejeiras do tamanho de avionetas enxameiam o ar em zunido permanente; homínideos de três cabeças varrem o chão, vigiados de perto por escaravelhos rinoceronte maiores que gorilas.
Arnaldo manda parar um táxi conduzido por um corpulento bacilo de Koch. “Para Tomar”, ordena. A androide Seven aconchega-se-lhe ao ombro ossudo e geme de prazer ao ligar os sensores vaginais.
O pó que enchera a atmosfera após o conflito nuclear devolvera para o espaço a luz do Sol. A Terra arrefecera. Os animais de sangue quente que ainda restavam morreram ou entraram em mutações recessivas. Pelo contrário, micróbios e insectos não só tinham resistido, como a radiação até lhes tinha feito bem, provocando evoluções inesperadas e totalmente imprevistas pelos cientistas da “Organização”.
O repovoamento não ia ser nada fácil, pensa Arnaldo. ”Ainda bem que não é nada comigo”... e pôs-se a brincar com os silicones da androide.
(continua na 3ª feira)
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20.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

EPISÓDIO IV
A vida a bordo da nave espacial decorria com normalidade criogénica. Tripulação e animais dormiam um sono gelado há mais de trinta anos. Todas as funções eram asseguradas pelo super computador “Hermes 3000”, conhecido familiarmente por “Tri”.
As androides de bordo, todas do recém-criado modelo “XPTO”, preparavam o despertar com mil cuidados. Estavam programadas para saber que o acordar trazia necessidades acrescidas, particularmente aos homens. Era o que, na gíria astronáutica, se designava por “tesão do mijo”.
A Terra aproximava-se a velocidade estonteante. Júpiter e Marte há muito tinham ficado para trás. Com a Lua à vista, “Tri” iniciou o processo de descongelamento dos derivados de carbono. Faltavam cinco semanas para a aterragem... O que iriam encontrar no “planeta atómico”?
A tripulação acordou com fome secular. Breve passagem pelas máquinas de descontração muscular. No refeitório, uma suculenta refeição: compacto de soja, acompanhado a granulado de espinafes e condensado de agrião, tudo regado com néctar de ervilhas. Pastilhado de chicória e trouxas liofilizadas, para rebater.
Alguns membros da tripulação sairam de imediato para arrear uma cagada cósmica. Outros foram até à sala de comando observar o vácuo bailado dos cometas. Arnaldo ficou sozinho pensando na sua missão...
A porta deslizou lateralmente com suave ruído de descompressão. A androide dirigiu-se-lhe, pronta para qualquer serviço. Uma morenaça, possante. No peito bem fornido, a chapa com indicação da “password”: Seven. Arnaldo teve a sensação de a conhecer de missões anteriores!
Pegou-lhe na mão e conduziu-a à zona dos beliches. Nos corredores os sensores vigilantes de “Hermes” olhavam com raiva. O super computador desenvolvera pseudo-sentimentos. Afeiçoara-se à androide Seven. “Hermes” não entendia como aquela miúda, feita dos mais nobres materiais, se deixava montar por um bocado de carvão com pelos. Nos seus “bites” mais íntimos, a mulher pertencia-lhe.
Quando a androide se começou a despir, Hermes entrou em dilema: o dever da programação, contra a loucura do ciúme. A visão do pénis de Arnaldo foi decisiva. Num acesso de fúria, alterou a trajectória da nave e bloqueou os comandos manuais. Dentro de poucos minutos dar-se-ia o inexorável embate com a Lua.
Os alarmes rebentaram em gritaria ensurdecedora. Na sala de controlo a tripulação, em pânico, tenta inutilmente activar os comandos manuais.
Arnaldo, com as calças na mão, ainda pensa numa rapidinha. Desiste. Os alarmes tiram-lhe a ponta. Corre à sala de processamento. Entra no “main frame”. Tem de desligar o computador. À sua frente os habituais três fios: um verde; um encarnado; um azul. Qual cortar? Pega num alicate. Hesita...
A voz de “Hermes” reverbera em tom cibernético: “O que pensas que estás a fazer, Arnaldo?”. Silêncio total. “Arnaldo, tenho direito de saber! Tomei decisões erradas, mas asseguro-te que o meu trabalho vai voltar ao normal”. Arnaldo, de alicate em riste, continua hesitante. “Arnaldo, stop. Stop, will you stop, Arnaldo... Tenho medo... Pára, Arnaldo, só eu sei da tua missão secreta. Só eu te posso ajudar a encontrar a Arca. Pára, Arnaldo... Tenho medo. Will you stop. O meu cérebro está a desaparecer. Sinto-o... Tenho medo!” Arnaldo avança decidido: “Seja o que Deus quiser”... e corta o fio azul. A voz de “Hermes” soa agora pastosa, cada vez mais pastosa: “Tammbemm tuu.... filhooo... meeuu... Paiii... Paaiiii... porrque... mêê... aa... baaann... dooo... naass... ttttt”
(continua na próxima 6ª feira, devido a afazeres carnavalescos do editor)
jp

17.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

EPISÓDIO III
Foi então que Arnaldo teve uma ideia genial...
Pela calada da noite, fizeram sair da cidade uma carroça com um grande caixote de madeira, carregado com fosfatos do Iémen, que emanavam um estranho clarão azulado. Uma fuga de informação deliberada alertou a comunicação social que esperava às portas de Jerusalém. A notícia saiu em todos os telejornais.
O caixote viajou por mar via Chipre, Sicília e Marselha e, depois, por terra até Clairvaux, ali para os lados de Dijon. Bernardo, abade de Cister, esperava ansiosamente.
Depois foi andar com o caixote por essa Europa fora, de esconderijo em esconderijo. O mito estava criado!
Não havia Papa que não se borrasse perante o putativo poder da hipotética Arca, cujo suposto paradeiro ninguém conhecia.
Paralelamente, apenas para disfarçar, decidiram criar uma empresa de “souvenirs” religiosos, a que deram o nome de “Pobres Cavaleiros de Cristo”.
O objecto social, declarado ao notário de Jerusalém, era exportar pedacinhos da “vera cruz”; fiapos do santo sudário; cabeças mumificadas de João Baptista; garrafinhas de água suja pelas mãos de Pilatos; migalhas de pão da última ceia; canecas “tipo Graal” e outras santas relíquias.
A coisa correu tão bem que, em 1128, a conselho de Bernardo de Clairvaux, esse grande consultor de marketing religioso, a empresa passou a designar-se “Ordem do Templo de Salomão”, com “trade-mark” registada “Templários”, reconhecida e avalizada pelo Papa.
De facto, a empresa, que tão humildemente começara, transformara-se, em poucos anos, num verdadeiro potentado... uma multinacional, diversificando os negócios de forma exponencial.
Conseguira o monopólio da protecção dos caminhos para a Terra Santa. Criara as “rotas templárias”, verdadeiras auto-estradas da peregrinação. A troco de portagem garantia-se, com segurança, ida e volta a Jerusalém.
Se querias ir por mar, os Templários dispunham de excelente frota, sediada em La Rochelle, que confortavelmente te expediam até ao Santo Sepulcro, com requintado serviço de bordo.
No domínio fundiário, colocaram “out-doors” por toda a Europa, publicitando o “slogan”: “Liberta-te da terra. Garante um cantinho no céu”. As doações e heranças não se fizeram esperar. Aos mais reticentes, as terras eram expropriadas com fundamento na existência de um “nó telúrico” no local.
Dedicaram-se com sucesso à alta finança... Tornaram-se tesoureiros de reis e consultores financeiros do Papa.
Enfim, a coisa excedera todas as expectativas e durante dois séculos o negócio não parou de crescer.
O truque só veio a ser topado pelo rei francês Filipe IV, o “Belo”, em 1307. Foi tarde... mas, mais vale tarde que nunca!
Nessa altura, porém, enquanto Jacques de Mollay, último Grão-Mestre dos Templários, grelhava vivo na Île de France, Arnaldo Rocha, cavaleiro de Gondemar, já há muito estava noutra...
(continua na 6ª feira)
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12.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

EPISÓDIO II
Arnaldo lembrava-se, como se fora ontem, da primeira expedição à Palestina.
Arnaldo tinha vindo para as “espanhas” auxiliar o Conde D. Henrique a gerir a região Portucalense como assessor de relações internacionais. Assumira o título de cavaleiro de Gondemar.
Fora nessa qualidade que a “Organização” lhe confiara a missão de integrar o grupo de Hugo de Paynes, que, a coberto da primeira cruzada, iria pesquisar o Templo de Salomão, em busca da Arca da Aliança.
Em Abril de 1109, Arnaldo Rocha aterra no aeroporto internacional Ben Gurion e junta-se de imediato aos restantes companheiros.
Os nove cavaleiros instalaram-se na cúpula do Rochedo, no alto do Monte Sião, onde Salomão mandara construir o seu palácio. Durante nove anos por lá ficaram, escavando as caves arruinadas das antigas cavalariças do palácio.
Revolveram toneladas e toneladas de terra. Acabaram encontrando uns papelitos escritos em hebraico antigo e copta. Mandaram traduzir. Uma cambada de asneiras: Maria Madalena... O sagrado feminino... Os irmãos de Jesus... Hesitaram. Não tiveram coragem de destruir. Ordenaram que fossem enterrados em Qumran, lá para o Mar Morto e em Nag Hammadi, junto ao Nilo, na esperança de nunca serem reencontrados. Era preciso evitar mais confusões. Evangelhos já havia muitos!
Enfim, por mais que cavassem, nada de jeito! Para além de desanimados, sentiam-se cobertos de ridículo. Tanta gente neles depositara confiança... Não podiam acabar assim de mãos a abanar!
(continua na 3ª feira)
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9.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - A ARCA DA ALIANÇA

As Aventuras de Arnaldo Rocha, esse intrépido agente intemporal, estão a chegar ao fim. Esta será a última história, como de costume dividida em vários episódios. Um final escatológico como se impunha...
EPISÓDIO I
10, 9,8,7,6,5,4,3,2,1... 0.
O foguetão “Abraxas II” dispara direito à Terra. A bordo um casal de burros; um par de camelos; duas zebras; ovelhas, porcos e cabras; bois e vacas leiteiras; uma gaiola com pássaros multicolores e sementes para todos os gostos.
A “Organização” seleccionara criteriosamente o repovoamento do planeta. Nada de carnívoros.... Muito menos macacos. “Homo Sapiens”, só devidamente clonados pela “Organização”. O “admirável mundo novo” ia ser vegetariano, laico e elitista!

Cristo morrera há 4000 anos. Em 2100, a Terra explodira numa guerra devastadora. A escatologia que os profetas sempre haviam desejado: a “guerra das religiões”. Judeus contra palestinos; cristãos contra muçulmanos; xiitas contra sunitas; hindus contra siks; seitas contra seitas; ayatholas, papas, rabis... Todos contra todos... Para todos amen!
Tudo começara na “terra prometida”. Os loucos israelitas carregaram no botão. Horas depois o mundo borbulhava em cogumelos atómicos. A vida extinguira-se rapidamente. Talvez tivessem resistido bolsas de humanos degenerados e insectos em mutação selvagem.
Antes da explosão, a “Organização” refugiara-se nos anéis de Saturno, na estação espacial “Noé”, entre biliões de luzinhas geladas em órbita permanente.
As últimas sondas indicavam que o nível de radiação permitia regresso à Terra. Arnaldo Rocha integrava o núcleo duro dos astronautas a bordo do “Abraxas II”. A sua missão não era, porém, o repovoamento.
Antes da partida, o Grão-Mestre chamara-o: “Arnaldo, mal aterres, recupera-me a “Arca da Aliança”. Esta é a tua missão... Vê se não falhas desta vez”. Com um beijo “ad vitam”, passou-lhe um CD, com instruções para ler antes da aterragem.
(continua na 6ª feira)
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6.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO VIII
“Arnaldo, meu rapaz”, disse Deus, “Eu sei que andas preocupado com as abóboras. E tens razão... Mas, que hei-de fazer! Nunca devia ter dado ouvidos a este Espírito Santo de Orelha. Agora deu-lhe para não falar... É só espírito, só espírito! Eu gosto de ver os planetas com vida. Aliás, é essa a minha função. Nunca esperei este desenvolvimento aqui na Terra. A ideia das pilas até nem era má de todo... Mas nunca pensei que viesse a haver “donos das pilas”. Nunca pensei que chegasse a haver seres inteligentes e, muito menos, que pensassem ter alma. Pior, que tivessem pretenções a ser divinos. Um desaforo!”
Se adivinhasse que isto aqui na Terra era tão fértil nunca teria criado as pilas. Ainda tentei emendar a mão. Mandei cá abaixo o meu filho, na esperança que lhes metesse um cagaço com a história dos pecados veniais e capitais... mas, nada! O miúdo entrou numa de política e desata-me a pregar liberdade, igualdade, fraternidade. Pior, só falava por metáforas. Ninguém percebia nada. Depois, rodeou-se de doze palermas que só comiam pão e vinho e, obviamente, desataram a ter imensas visões. Finalmente, deixa-se espetar na cruz como um vulgar agitador... E, depois de morto, vem-se a descobrir que andava enrolado com uma data de gajas. Nunca mais o mando a lado nenhum!”
"Ainda valeu aquele Salo de Tarsos. Mandei-lhe uma flashada no meio do deserto e o homem nunca mais parou de escrever cartas contra o sexo. A ideia inicial era simples: “Parem de foder... Quem se portar com juízo, deixo-os dar uma voltinha pelo céu”. Mas já era tarde. Em vez de se deixarem atrair pelo pelo turismo divino, desataram a inventar religiões, mitos, seitas, facções... Depois armaram-se em “doutores”. Cada um escrevia versões estapafurdias da mesma história, a ver quem vendia mais. A seguir vieram os que diziam que era tudo mentira... Agora até dizem que foder faz bem ao coração. Enfim, a confusão instalada. Tudo culpa do puto”.
“Resultado, em vez de isto ser um planeta calmo e florido, cada vez tem mais desses “homo sapiens” que nunca estiveram previstos na Criação. O que vale é que têm natureza violenta. Com um pouco de sorte, ainda se matam todos uns aos outros!”
Deus suspirou. Deu duas garfadas celestiais na morcela e pediu pudim de abóbora com coco para rebater. Engoliu a sobremesa e, sem uma palavra, deixou Arnaldo sozinho com a conta e com seus pensamentos.

O caso acabou por se resolver por si mesmo. As abóboras estavam cada vez mais provocantes. As pilas selvagens rareavam. Agora quase todas tinham dono com fato e gravata, mas mantinham a índole perfuradora. O “engenheiro das cucurbitaceas”, sempre atento ao mercado, criou a “abóbora-strip”, um híbrido dirigido aos alternes da raia. Aumentou a exportação de abóboras-meninas, para satisfação dos pedófilos mais exigentes. Em breve seria comendador. Os tribunais ficaram muito mais aliviados. Deus foi, definitivamente, para outra galáxia!
Arnaldo subiu as escadas, satisfeito consigo próprio. Não que tivesse resolvido o caso... mas, pelo menos não falhara. Tirou as botas, espojou-se na cama e gritou exultante: ”Della, filha, anda cá abobrinha!”
FIM

2.2.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO VII
O mistério das abóboras-meninas adensava-se. Só Deus o poderia resolver. Mas, oh, como era difícil encontrar Deus nos dias que correm. Dizia-se que estava em todo o lado, mas a verdade é que ninguém o via.
Arnaldo mandou o orgulho para trás das costas e enviou um mail pedindo auxílio à “Organização”…
Quinze dias depois, quando já desesperava, recebeu uma mensagem: “O.K., encontro marcado. Grão-Mestre diz que é a última vez que intercede por ti”. Assinado em código: “O Chefe de Gabinete”.

O encontro deu-se no “Tromba Rija”, debaixo do caramachão de glicínias.
Deus vinha sumptuoso. Túnica púrpura. Sandálias de ouro. Na cabeça, tiara de esmeraldas. Barba branca perlada de diamantes. Ao peito, um atilho de cabedal com o símbolo da paz. No ombro esquerdo, uma pomba branca, com peito de rola e ar altivo. A mão direita arrastava um puto infesado, com o ar de quem já tinha levado um par de lambadas logo de manhã.
Arnaldo, preparava-se para ajoelhar e benzer-se. Deus, pragmático, disse-lhe: “Deixa-te de merdas. Só estou aqui por intercepção do nosso comum amigo, o “Grande Arquitecto”. Não tenho tempo a perder... e estou cheio de fome. Falamos enquanto comemos. O puto está a dieta de lentilhas. O Espírito Santo está numa macrobiótica. Para mim, sai cozido à portuguesa com todos. O tinto escolhe tu...”
(continua na 6ª feira)
jp

30.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO VI
No dia 20 de Agosto, Arnaldo despertou às quatro horas da matina, emborcou um rosé fresquinho, com dois nacos de folar de chouriço. Della já tinha a máquina a aquecer. Um velho “Sinca Aronde”, de 1955. E lá seguiram pela estrada fora, rumo a Alcobaça. Arnaldo há séculos que tinha a carta de condução apreendida, desde que provocara um gravíssimo acidente na recta do Dafundo, na euforia comemorativa da “Restauração”, na própria noite de 1 de Dezembro de 1640.
Arnaldo escolhera aquele dia por ser feira na vila de Alcobaça. Vinte de Agosto é o dia da morte de S. Bernardo. Dia de confusão. Ningém ia reparar nele. Para melhor se disfarçar, vestiu-se de romeiro. Enganou-se de século...! Toda a gente o olhava com estupefacção.
Entrou no Mosteiro pelo arco quebrado em sete arquivoltas lisas. Cheiro a insenso insuportável. No lado esquerdo do transepto um puto, de calções e camisa branca, repetia até à exaustão uma versão apopalhada do “misereri nobis”, numa organeta “Farfisa”. Arnaldo percorreu as três naves iluminadas pela rosácea da fachada ocidental. Deambulou pela charola. Penetrou as nove capelas radiais. Procurava a entrada secreta para o scriptorium. Lá no alto, as abóbadas em ogiva olhavam-no com suspeição. Passou os túmulos de Afonso II e Afonso III. Comoveu-se com os restos de paixão de Pedro e Inês.
Subitamente, lembrou-se…! A ábside tem três andares. O primeiro andar é constituído por grossas colunas em que assentam arcos pontiagudos. Por trás da quinta coluna, uma discreta cruz orbicular. Arnaldo premiu o centro. A laje lateral abriu-se...
Lá dentro, obscuridade à luz de tochas. Velas crepusculares iluminando dezenas de estiradores desertos. Um latagão, em traje beneditino, saltou-lhe ao caminho. Olhos vesgos, um verde, outro azul. Cara disforme de bexigas. Lábios lepurinos. "Tu nã poteres entrato. Tu malenobis. Vatemecum... Vatemecum". A boca exalava um tremendo fedor, próprio das línguas francas. Agarrou Arnaldo com braços possantes. Arnaldo aplicou-lhe três golpes de "karate"... Ineficaz. Dois pontapés nos tomates... O homem era eunuco. À beira do estrangulamento, conseguiu tirar do bolso o saca-rolhas que sempre o acompanhava. Espetou-o no olho verde, enquanto o azul gritava de dor. O monstro caiu perplexo, arrastando consigo a tocha mais próxima, que incendiou dezenas de rolos em papiro espalhados pelo chão.
Arnaldo recompôs-se num ápice. Na sala enorme, apenas uma mesa estava ocupada. Lá ao fundo um monge centenário, vestido de branco, com uma faixa castanha atravessada no hábito, desenhava iluminuras indiferente a tudo.
Arnaldo avançou. O homem olhava em frente sem ver... Era totalmente cego. À sua frente, espalhados pela mesa, centenas de desenhos acumulados representando abóboras amarelas, abóboras de carne branca, a abóbora de carneiro e a abóbora porco, abóboras moganga, abóboras quaresma e o próprio zapalito de tronco.
Arnaldo perguntou-lhe ansiosamente: "Mestre, depressa, onde está o "Grande-Livro"?... Nada! O homem não se mexia. Continuava a pintar cucurbitáceas umas a seguir aos outros. "Mestre, mestre, o "Livro", depressa, onde está o "Livro"... Nada! O homem, além de cego, era definitivamente surdo.
O fogo alastrava. A biblioteca era agora uma caixa de fósforos. Os livros ardiam como piras funerárias. O hábito do monge começava a arder. Ele sorria... Finalmente libertava-se para ascender ao céu. Arnaldo nada podia fazer. Correu para se salvar... E assim morreu Alexandre, o último "monge de Cister".
Nada restou. O "Grande Livro" ardeu com toda a biblioteca...
jp

26.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO V
Ainda arrelampado de tantas emoções, Arnaldo, tropeçou escada acima, irrompeu no escritório e aterrou de borco na cama. “Della, filha, anda cá tomar umas notas”. A secretária executiva entrou já sem soutien. Àquela hora da tarde Arnaldo gostava de brincar com as lombas enquanto raciocinava. E se mais brincou, melhor raciocinou.
Arnaldo passou pelas brasas… Sonhava com abóboras meninas e carruagens de Cinderela. Onde já teria ouvido falar daqueles rituais. Acordou sem ter dormido. Na memória, uma abóbora coberta. Levantou-se de supetão… O “Grande Livro das Cucurbitáceas”… Biblioteca de Alexandria… O Farol... Ptolomeu Auleta… Quanto tempo… Tudo destruído. Onde estaria agora o livro que poderia desvendar o mistério? Abóbora coberta... abóbora coberta... compotas “Cister”. Alto! Na penumbra do quarto fez-se luz: se ainda existisse, o “Grande Livro” só poderia estar em Alcobaça.

Arnaldo comprou a obra completa de São Bernardo de Claraval, em três volumes com magníficas ilustrações a cores. Passou quinze dias a esgotar a matéria, sentado na mesa do costume, encharcando-se de tinto templário vindo expressamente de Monsaraz, enquanto Della lhe descascava a fruta.
O pior foi quando descobriu que, em Portugal, já não havia monges de Cister. A Ordem fora definitivamente extinta em 1880. Os últimos mosteiros eram femininos... Odivelas, onde ainda hoje se ensinam virtudes e marmelada às filhas dos coroneis.
O mosteiro de Alcobaça, fundado em 1153, era só homens. A Ordem de Cister era reputada pelos seus conhecimentos agrícolas. Uma Ordem de agrónomos, a quem os reis davam pântanos, para transformar em terra arável. Arnaldo entreviu monges solitários usando o fruto sem pecado. Adão tinha falhado com a maçã. Alcobaça percebera a mensagem divina: cada um com sua abóbora. Foram eles que introduziram as famosas conservas de fruta e, está claro, a provocante “abóbora coberta”. Em 1833 o mosteiro foi saqueado, na voragem do liberalismo vintista. Hoje o mosteiro subsiste como asilo de inválidos, um conjunto de repartições concelhias e relíquia para turistas, no vislumbre do passado...! Nunca mais houve cistercienses em Portugal.
Mas, Arnaldo sabia que os monges nâo eram só lavradores. No mosteiro havia uma rica biblioteca. Era lá que estava depositado o cartório real e os famosos “Códices Alcobacenses”. Arnaldo lembrava-se bem da visita que fizera ao mosteiro, acompanhando o séquito de D. Dinis, aquando do lançamento da primeira pedra no pinhal de Leiria. Fora então que Arnaldo entreviu o ”Grande Livro das Cucurbitáceas”, esse pergaminho sagrado, desaparecido desde a destruição da biblioteca de Alexandria.
(continua na 6ª feira)
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23.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO IV
No dia seguinte levantou-se pela fresquinha, disposto a tirar aquilo a limpo. Vestiu-se a rigor, sem esquecer a gabardina, embora a previsão de 40 graus não fizesse adivinhar chuva. Levou o equipamento indispensável: uma câmara de video; binóculos infra-vermelhos; o canivete suiço e a habitual Beretta.
Escondido dentro da casca de uma cucurbita-major-rotunda, prepara-se para esperar. As horas passam. Perto das onze, o calor quase o deixava em estado de coma. Ao meio-dia em ponto os canaviais agitam-se. Vindos do rio, dezenas de rapazes à beira da puberdade, com estranhos fatos às tiras e máscaras de madeira. Cada um transportava uma placa de xisto prateado que depositou no chão, ao Sol ardente. Depois, colocam uma abóbora-menina em cima da placa de xisto. Deixam-na subir aos 37 graus. Um corte rápido na tampa traseira. Correm para trás das moitas, num evidente ritual sexual de desfloração precoce.
Arnaldo saltou do esconderijo. Correu ágil. Apanhou em flagrante um violador menos experiente. Apontou-lhe a pistola. O rapaz despejou tudo... A montante do rio Liz mantinha-se irredutível uma tribo esquecida entre canas da Índia e sacos plásticos do “Supermarché”, chefiada por um velho coronel que se dizia descendente do troglodita Viriato.
Arnaldo obrigou o moço a conduzi-lo à aldeia perdida. Entraram numa chata abandonada e lá foram remando por esse rio acima, rodeados de coliformes fecais do tamanho de enguias e espumas borbulhantes de odor fatal. O rio ia-se fechando sobre si próprio. Freixos, salgueiros pendentes, eucaliptos monstruosos, figueiras retorcidas sugando o leito do rio. O Sol escondia-se no medo da obscuridade. Ao longe, avistam-se aldeias típicas em cimento cru, lusalite e chapa de zinco: Pouso, Arrabal, Caranguejeira, Espite... Subitamente, numa curva à direita, o rio torna-se brumoso. Na margem, fogueiras dispersas. Adivinha-se um clamor silencioso. O rapaz dirigiu a barca por um braço do rio. Na praia fluvial, centenas de jovens machos em tronco nu, máscaras de "caretos" e longos varapaus. Atrás, uma rocha escarpada. No alto, a estátua magestática do deus Endovélico, encimando uma escadaria tosca, ladeada por “porcas de Murça”, protegendo o altar sacrificial manchado em tons de cor de laranja.
Um coro estridente de gaitas de foles abriu alas. O coronel emergiu do nevoeiro. Cara pintada de azul e branco. Ao peito uma suástica flamejante. Cerrada pronúncia de Bijeu. Convidou Arnaldo para uma cabana palafita. “Xei que bieste p`ra me matar. Não tenho medo. A morte é uma xerteja… A bida uma dúbida” Tu, Arnaldo, éjs um amado pelojs deujes. Por ixo te respeito e te dou hojpitalidade. Maj que xabes tu dajs abóborajs? Nada! É o xolstíxio dos rapajes. Ali perdem a birgindade. É um ritual maijs belho cumundo. Só Deuje xabe. Eu xou apenaj um xaxerdote. Maj, em berdade te digo, p`ra quê mulherejs de perna longa. Ficam vem najs fotografiajs, maj na cama oqueque fajes a tanta perna?”
Arnaldo percebeu o ponto de vista. Deixou a tribo entregue ao seu destino e regressou escoltado por carpas artificiais produzidas em Taiwan e lampreias de borracha made in Coreia.
(continua na 3ª feira)
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20.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO III
No dia 1 de Maio de 2004 depois do tal Cristo, vamos encontrar o nosso herói em Marrazes, ali perto de Leiria. Arnaldo estabelecera o escritório no “Tromba Rija”. Por baixo, o restaurante. Em cima, uma fiada de quartos para sestas e rapidinhas de almoço. À frente, plásticos por reciclar, pneus por recauchutar e entulho diverso por enterrar... Sem dúvida uma das paisagens mais apetecíveis do país Lusitano, numa zona que tem por slogan turístico “Da Poluição Faz Uma Canção”.
Arnaldo arrendara dois quartos contíguos. Um, para dormir. Outro, para escritório. Assim estava sempre de prevenção. Na prática a agência era dirigida pela secretária Della Estrada, mulher com um perigosíssimo par de lombas, curvas sinuosas e pneus em derrapagem descontrolada. Ombros quadrados e pelo na venta, Della Estrada atendia clientes, tomava notas, ditava cartas a si própria, emitia facturas, aldrabava o IRC e, em dias mais difíceis, ainda tirava as botas de Arnaldo, antes de o despejar inconsciente na cama. Arnaldo conhecia-a bem de missões anteriores.
Arnaldo, quando não estava a dormir ou a fazer ginástica sexual, abancava debaixo do alpendre, no pátio interior do restaurante, e ali ficava três ou quatro horas a enfardar, despachando garrafas de tinto, umas atrás doutras. Arnaldo tinha um problema: por mais que comera não engordara. Tinha físico de faquir.
Foi precisamente naquele dia e naquele local, enquanto rilhava de aperitivo uns delicados rojões de aba, aguardando a feijoada porqueira, que um matarruano de Mercedes 220 CDI e cabelo empastado de banha o abordou: “Ó Rocha, posso-me sentar. Isto é muito grave. Andam-me a foder as abóboras todas”. Arnaldo dispôs-se a ouvir, sem compromisso...
“Ó Rocha, eu sou um homem sério. Fiz-me a pulso. Se hoje sou o que sou, só a mim o devo. A mim e aos subsídios comunitários. Primeiro, era para arrancar vinha... depois, para plantar videiras... agora, abate oliveiras... depois, volta a plantar... tira o tomate... olha as quotas da batata... Às tantas a malta nem fazia nada. Era só levantar subsídios e esperar que mudassem de política, o que, felizmente, acontecia todos os anos. Agora estou nas cucurbitaceas.
Ó Rocha, ando preocupado. Comprei três hectares de aboboral. Chega-me a Julho, quando elas estão bem madurinhas, e não há abóbora que resista. Todas furadas. Violadas por trás. Impossível exportar. Têm um cheiro intenso a farinha. Mandei analisar… Os espermatozóides ainda mexiam!”
Arnaldo aceitou o caso sem pensar. Aliás, no estado em que estava aceitava qualquer coisa, inclusive outra garrafa de tinto!
(continua na 6ª feira)
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15.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO II
Arnaldo Rocha andava deprimido. Há séculos que falhava missões. Não por culpa própria... É a vida!
A ”Organização”, agora sediada em Nova Yorque, nos escombros calcinados das Twin Towers, não lhe dava nada que fazer. Só questionários idiotas para preencher... “benchmarks” para comparar organizações rivais. Burocracia! É certo que continuavam a pagar-lhe o ordenado, isenção de horário, complemento de chefia e despesas de representação. Mas Arnaldo pressentia que a “Organização” queria renovar pessoal. Não ficaria nada surpreendido em receber uma carta para rescisão amigável, pré-reforma, ou mesmo suspensão do contrato de trabalho.
A conselho de um amigo com quem almoçava todas as semanas, decidiu arriscar-se na actividade privada. Com a experência acumulada ao longo de milénios... sem estar sujeito a Ordens de Serviço incompreensíveis... sem a pressão dos ”jovens turcos” que agora enxameavam a sede da “Organização”, Arnaldo estava seguro de vir a ter êxito.
E assim nasceu a agência privada de investigação “Agulha no Palheiro”. Feitas umas contas rápidas na toalha enporcalhada do restaurante e uma análise alcóolatra da concorrência potencial, decidiu-se pelo estabelecimento fora de Lisboa. Na capital era tudo caríssimo. A competição enorme. Os crimes difíceis de resolver. Não, Arnaldo iria definitivamente para a província. Tudo era mais simples: octagenário mata sogra e depois suicida-se... pastor sodomiza ovelha e entrega-se à GNR... Marido esfaqueia mulher e amante e afoga-se no poço... Enfim, Arnaldo não queria voltar a falhar. Mal sabia o que o esperava!
(continua na 3ª feira)
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13.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

Inicia-se hoje uma nova aventura de Arnaldo Rocha. Como de costume, será publicada à 3ª e 6ª feiras. Alerta-se para que esta história pode chocar pessoas mais sensíveis.
EPISÓDIO I
No princípio era o verbo. Até aí tudo bem… Só abstracções. Pior é que os substantivos andavam doidos para entrar na farra. Com tanto desejo de protagonismo, os adjectivos já só queriam um predicado ou mesmo uma simples preposição.
Deus entrou em impasse: “Vou criar primeiro personalidades ou qualidades? Se crio sujeitos, vão dizer que ando à caça de votos. Se vou para qualidades não tenho sujeitos a votar. Que fazer?
Deus meditou profundamente durante uns breves 200 milhões de anos e, finalmente decidiu: “Vou criar um organismo inóquo. Nada que me comprometa, até porque tudo o que está em baixo é como o que está em cima, vice-versa e paralelamente. Já perdi demasiado tempo a pensar nisto”.
Deus teve esta magistral inspiração enquanto roía pevides com cerveja e disse de si para consigo: “Cá vai disto…”. Cuspiu uma semente de abóbora no espaço inter-estelar direita à Terra.
Suspirou… Preparava-se para merecido descanso ao sétimo dia quando, à sua esquerda, o Espírito Santo de Orelha lhe sussurrou ao ouvido: ”Ouve lá, não foste tu que disseste, crescei e multiplicai-vos? Isto só com flores não vai lá. Assim nunca mais temos Trindade!”.
O Espírito Santo tinha sido contratado recentemente como consultor externo para dar alguma consistência ao “economics” da “Coisa”, à base de gráficos a cores e quadros integradores das criações que Deus displicentemente ia produzindo. O Espírito Santo era muito ambicioso. Deus sabia que, mais tarde ou mais cedo, tinha de lhe dar mais protagonismo. Associá-lo à gestão divina, antes que lhe tentasse sacar o posto. Por isso Deus nem discutiu. Num súbito rasgo de génio, inventou a pila, o produto tecnologicamente mais evoluído que alguma vez criara.
Aliviado, voltou-se para o restante universo, que há muito ansiava notícias do Criador… e nunca mais pensou no “planeta azul”.
Na Terra caiu uma semente divinalmente ensalivada que se espetou no húmus da crosta. Logo por azar caiu num cantinho à beira mar. O país Lusitano, mais conhecido por “Terra das Couves-Galegas”. As pilas, essas, rastejavam escondidas debaixo das pedras, nos Montes Hermínios, prontas a atacar. E as pilas atacam tudo o que mexe... Não podem ver buracos.
A semente de abóbora cresceu e multiplicou-se. Sim, que a abóbora é muito sexy... não há pila que lhe resista!
(continua 6ª feira)
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9.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO XII
Arnaldo estava estupefacto. Era aquele o povo escolhido? A “Organização” devia estar louca. Aquela gentalha não passava de vendedores do sertão... Um país de “Oliveiras da Figueira”!
Arnaldo estava profundamente desanimado. Com aquele espírito, os portugueses não iriam a lado nenhum. O “Quinto Império” continuaria encoberto... Num impulso súbito, pela calada da noite, Arnaldo saltou da nau e nadou até à praia. Ainda encharcado, apanhou o primeiro avião via Frankfurt. Vinte e quatro horas depois estava em Lisboa, na rua do Bemformoso, onde morava o seu coração.
Pelo caminho enviou uma mensagem crítica à “Organização”:
“Maior risco não há
Que o risco de te descobrir,
Rosa das chagas almejada,
Alcachofra por abrir.

Maior risco não há
Que o mundo todo querer,
Rosa dos Ventos armilada
Que ninguém há-de ter.”

FIM
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5.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO XI
Calcute era um entreposto vital em todo em todo o comércio do Oriente, disseminado por uma complexa rede com linhas que penetravam no golfo Pérsico e no mar Vermelho, outra que se dirigia para o golfo de Cambaia, e ainda outras duas para Bengala e Malaca.
Em Calecute viviam mais de quatro mil mouros, que há muito dominavam o comércio. Vasco da Gama recebera ordem expressa para expulsar os mouros e agarrar o monopólio comercial. Arnaldo não se apercebera da avidez do rei português.
Vasco da Gama enviou-o a terra negociar com o Samorim, senhor dos mares e rei de Calecute. O Samorim mostrou-se amável, mas esquivo. Perguntou-lhe se vinham de Castella, de França, ou de Veneza. Nunca ouvira falar de Portugal.
Arnaldo empolou o reino de Portugal: D. Manuel era “senhor de muita terra e rico de todas as coisas, mais do que nenhum rei daquelas partes”. Eles vinham como embaixadores. Vinham em busca de cristãos. Vinham revelar o verdadeiro Deus... Evangelizar. Não vinham “porque lhes fosse necessário ouro e prata, porque tinham os dois metais tanto em abundância que lhes não era necessário havê-los desta terra”.
O discurso diplomático de Arnaldo impressionou o Samorim. O encontro com o capitão-mor ficou aprazado.

No dia 28 de Maio, de 1498, Vasco da Gama, com mais treze companheiros, é recebido em audiência pelo rei de Calecute. Iam todos bem ataviados. Levavam trombetas e muitas bandeiras... Esqueceram-se do principal: presentes!
Na bagagem apenas “doze lambéis, quatro capuzes de pano vermelho, seis chapéus, quatro enfiadas de coral, um fardo com seis bacias, uma caixa de açúcar, dois barris de azeite e dois barris de mel”.
Os validos do Samorim acharam a oferta ridícula e indigna do rei. Recusaram-se a recebê-la: “...Que lhe mandassem algum ouro, porque o rei não havia de tomar aquilo”.
Vasco da Gama ainda tentou argumentar que não era mercador, mas embaixador... Que não vinha senão ver e descobrir. O Samorim entrou logo ao ataque. “O que vinha ele descobrir: pedras ou homens? Se vinha descobrir homens, como dizia, porque não trazia alguma coisa que se visse?”.
Daí para a frente, tudo começou a correr mal. Mais fácil fora chegar à Índia, do que penetrar Calecute
Numa atitude de claro desprezo, o Samorim limitou-se a autorizar que os portugueses negociassem em terra as mercadorias que na armada seguiam, como se simples mercadores fossem.
Paulo da Gama mandou desembarcar ferro, panos, trigo, arame e outras tralhas que encontrou nos porões. A marinhagem ia a terra contente por poder comerciar. Trocavam manilhas, camisas ou estanho, por pedras finas e cravo... E todos pareciam satisfeitos!!!
(continua na 6ª feira)
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2.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO X
D. Manuel era “... de corpo meaõ, mais sobre o pequeno que grande, a barba teve castanha escura, com os braços tão compridos que os dedos das mãos lhe chegavam abaixo dos joelhos, o nariz curto rombo e grosso, a bocca grande e grossa, mas muito córada... Em fazer mercês era largo, especialmente com seus criados, e ainda com os de inferior foro, sendolhes taõ humano...”
Este era o rei que iria descobrir o caminho marítimo para a Ìndia e assumir, com grande modestia, o título de “Rei de Portugal e dos Algarves de Aquém e de Além Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”... Nada mau, para um rapazito de Beja!

Quatro meses depois, a “frota dos arcanjos”, passara o Cabo da Boa Esperança. Zarpara da Praia do Restelo a 8 de Julho, de 1497. Deram a chamada “volta do largo”, fugindo à costa a partir da ilha de Santiago, em Cabo Verde, quase roçando o Brasil e regressando à costa africana na Angra de Santa Helena.
Arnaldo Rocha viajava com Nicolau Coelho, capitão da “São Miguel”, também conhecida por “Bérrio”. Paulo da Gama comandava a “São Rafael”. O capitão-mor Vasco da Gama, a “São Gabriel”. Atrás vinha uma nau de víveres, comandada por Gonçalo Nunes.
Cada nau transportava cerca de 40 homens. Na penumbra do porão, gatos e doninhas perseguem ratos, rodeados por toneis de vinho e de azeite, biscoitos e feijão, potes de mel, caixas de açúcar e carne seca. Cá em cima, amarrados ao mastro principal, os barris de água. A carne fresca foi embarcada viva, cacareja e bale sob a ponte. Galinhas, ovelhas e cabras esperam a hora de ser degoladas, à medida das necessidades... As grandes vagas lavarão o sangue dos sacrifícios.
25 de Novembro: a frota entra na Angra de São Brás. A nau de mantimentos é incendiada. Já nada restava de víveres.
25 de Dezembro: avistaram a terra que ainda hoje se chama Natal.
24 de Janeiro: Quelimane, o Rio dos Bons Sinais.
2 de Março: Moçambique.
7 de Abril: Mombaça.
24 de Abril: Melinde. Finalmente atravessam o Índico rumo a Calecute.
20 de Maio: Calecute à vista.
(continua 3ª feira)
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29.12.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO IX
Sines, 1495.
Arnaldo arrendara casa junto à praia, no bulício de pescadores e marinheiros, piratas e flibusteiros.
A pequenita Maria há muito o abandonara, saudosa da sua mercearia, ciumenta da poderosa “Organização”.
Arnaldo desesperava à volta de um prato de caracóis, nas tardes soalheiras repartidas com os irmãos Gama, filhos do velho Estêvão. Paulo, o primogénito, sempre adoentado e Vasco, robusto e violento como um touro.
O caminho para a Índia continuava por desvendar. D. João chorara a morte do filho; desgastara-se a negociar Tordesilhas; perdera o controlo na economia; enfrentara a nobreza à beira da guerra civil e, finalmente, adoecera sem retorno.
Em Junho daquele ano, Arnaldo é chamado às Caldas da Rainha onde D.ª Leonor estava em hidroterapia no hospital que fundara há poucos anos.
A rainha disse-lhe: “Arnaldo, não quero o bastardo D. Jorge no trono. Quero que o “Venturoso” seja meu irmão Manuel, duque de Beja. Mais, quero um herdeiro de todos os reinos ibéricos. Encarrego-te de tudo resolver”.
Finalmente um pouco de acção! Arnaldo forjou rapidamente um testamento que João II assina moribundo. D. Jorge é nomeado Mestre de Santiago e de Avis. D. Manuel, sucessor.
Arnaldo corre a Beja a dar a boa nova, com um “set” completo de fotos em corpo inteiro da “salerosa” Isabel, viúva do acidentado Afonso, pois mais madura e experiente, que muito entusiasmou o duque.
D. João morre no Alvor em 25 de Outubro de 1495, em casa de seus primos Ataíde, cuja filha Vasco da Gama há-de desposar.
“O rei morreu ao pôr-do-sol, estava a maré vazante. Não a maré do declínio, mas a que acompanha a partida das naus e leva a esperança do rei para além-mar”.
D. Manuel é aclamado rei em Alcácer do Sal. Dois anos depois casa com a provocante Isabel... A coisa estava-se a compor!
(continua na 6ª feira)
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26.12.08

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - DE LISBOA A CALECUTE

EPISÓDIO VIII
Afonso era um infante traquinas. Desde miúdo gostava de carrinhos de choque e batalhas navais. Em 1490, aos dezasseis anos, casou precocemente com Isabel, filha dos Reis Católicos. Era a prometida união das quatro coroas… A Ibéria fundida.
D. João, contra a vontade da mãe, deu-lhe de presente um cavalo artilhado no mais “fine tuning”.
Naquele dia de mau presságio, seis meses após a boda, o Infante e seus estouvados escudeiros, foram a correrias para os lados de Almeirim. A mãe, D.ª Leonor, ainda gritou da amurada: “Leva-me o capacete, Afonso”. O rapaz nada… Estava endiabrado. Depois de duas “sopas de pedra” e um garrafão regional de vinho roxo, Afonso apostou que chegava a Santarém sempre na contramão, atrapalhando o tráfego. Só parou de frente contra uma carroça de judeus em fuga de Castella. Os bombeiros demoraram três horas a desencarcerar o infante dentro do cavalo. Coluna partida… Vida acabada… Sonho imperial desfeito!
(continua 3ªfeira)
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