15.12.07

S. JOÃO DO ESTORIL - II

S. João confina, na direcção de Cascais, com a Praia da Poça onde, no séc. XVIII, se construíu um balneário rústico, propriedade da Misericórdia, com tinas de mármore para aproveitar as águas santas de uma nascente que curavam doenças de pele e reumatismo. No local, à beira da Marginal, há agora uma escola primária. A água da nascente corre hoje, infectada, directamente para a praia.
A praia de S. João liga com a do Estoril. No casario também não há quebra de continuidade. Apenas as tabuletas toponímicas e duas estações de comboio distinguem as duas localidades, na verdade uma só.
A minúscula praia da Azarujinha, a meio do povoado, servia os palacetes alcandorados, dos quais se desce por escadas talhadas na rocha. Hoje serve os condomínios fechados, quando a maré cheia permite.
A linha férrea corta a povoação. Para trás fica a parte mais modesta, aquela que já não teve direito a vista de mar e que só recentemente, graças a um novo fôlego urbanístico, recuperou vistas, conquistadas pelo aumento democrático da cércea dos prédios. Esta parte de S. João tem-se expandido brutalmente, absorvendo áreas em direcção à Alapraia e Livramento, numa continuidade muito pouco aristocrática.
Três fortes guarnecem a costa e S. João: o de Stº António da Barra, à entrada da povoação (o tal da cadeira armadilhada); o de S. João da Poça, por cima da praia; e, mais acima, já quase no Estoril, o chamado "Forte Velho", boite desde os anos 60, hoje muito popular junto da emigração de leste.
A 10 minutos de S. João, pela estrada de Caparide, encontramos a Alapraia, hoje repleta de construção e onde já no período eneolítico (à cerca de 4000 anos) habitavam trogloditas em quatro grutas descobertas a partir de 1932. Os vestígios encontrados fazem pensar na existência de uma antiga cultura, anterior aos íberos, que teria penetrado, por via marítima, pelos estuários do Tejo e do Sado. Um crescente lunar encontrado numa das grutas, semelhante ao descoberto nas grutas de Cascais, Trigache e Carenque, pode estar na origem do nome Monte da Lua dado pelos romanos à Serra de Sintra e pode ser o denominador comum desta ancestral cultura. Atlantes? Não sabemos!
O que sabemos é que S. João cresceu muito. Para trás da linha férrea, prédios "dormitório" de raiz burguesa. Para a frente, em direcção ao mar, os palacetes têm vindo a ser substituídos, paulatinamente, por condomínios de luxo. Os trogloditas de agora andam bronzeados nos BMW's que a Euribor permite. O bloqueio visual mantém-se... O mar é só para alguns!
Texto baseado no livro "Memórias da Linha de Cascais"
jp

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