"Não mais voltarei a ver a minha doce Átis/Morrer seria menos cruel que tão odioso destino./De mãos dadas, na noite perfumada,/Íamos à nascente ou vagueavamos pelas charnecas./Entrançei, para o teu pescoço, inebriantes grinaldas./A verbena, a rosa e o fresco jacinto/Envolviam os teus belos seios num adorado abraço./Os preciosos aromas servem de unguento ao teu corpo formoso/E jovem. Junto a mim descansando ternamente,/Recebias das mãos das sabedoras servas/Os mil objectos que a arte e a languidez inventaram/Para ornamentar a beleza das filhas da Jónia."Safo nasceu em Mitilene, na ilha de Lesbos, no séc. VI a.C. Pertencia à alta nobreza da ilha. Esta aristocracia mitileneia vivia como os heróis da epopeia homérica. E as mulheres gozavam de um estatuto e de uma independência que só voltariam a conhecer no período clássico (séc.V a. C). Safo, porém, era baixa e trigueira, nada devendo à beleza cantada por Homero. As poesias de Safo eram dedicadas a mulheres. Eram poemas ardentes, sensuais, eróticos. Poemas "lésbicos". Nas sociedades aristocráticas da Grécia arcaica a homosexualidade era natural. A nudez no ginásio e a separação no exército, para os homens. A convivência permanente no gineceu, para as mulheres. Assim, os "militantes" actuais da causa homosexual são descendentes desta tradição aristocrática, o que, sem dúvida, muito os surpreenderia e a nós também.
Safo acabaria por se suicidar, atirando-se para o mar do alto da rocha conhecida por "Salto de Lêucade", na ilha do mesmo nome. Curiosamente ter-se-à suicidado por causa do amor não correspondido de um homem, Fáon.
jp
9 comments:
Olá! Bom dia
Como citas no post: " as mulheres gozavam de um estatuto e de uma independência que só voltariam a conhecer no período clássico (séc.V a. C). Safo, porém, era baixa e trigueira, nada devendo à beleza cantada por Homero"
Hoje a independencia das mulheres está muito aquem dessa época, seria nessa altura uma sociedade matriarcal???
Abeleza...está nos olhos de quem ama.
Beijos ps-( hoje ainda não recuperei da noite de trabalho)desculpa a falta de inspiração
"Enquanto houver homens sensatos sobre a terra, as mulheres letradas morrerão solteiras."
Jean-Jacques Rousseau
esta frase de cima é gira..
isto significa que homens sensatos e mulheres letradas é uma combinação impossível? estou confusa.lol.
- MJF: A socidade grega arcaica era profundamente patriarcal e mesmo machista. Isso não impediu, pelo menos em certa fase, a intervenção pública das mulheres que, mesmo legalmente, gozavam de um estatuto de autonomia relevante, principalmente em comparação com outros povos. Não esquecer a célebre música de Chico Buarque "As Mulheres de Atenas", com tudo o que ela comporta de heróico e de simbólico.
A independência das mulheres hoje é muito superior à daquela época. Não há comparação possível. Os direitos absolutamente iguais. A prática, nem sempre...
- Anónimo: Frase de salão frequentado por homens de bem fumando charutos e discutindo ciência ou política internacional. Frase própria do período machista- iluminista, mas sem dúvida engraçada e com algum sentido.
- Carioca: Às vezes é uma má combinação, outras não. A frase é apenas um chavão e muito datado.
"Isto leva-nos imediatamente de volta à natureza da alma: nesta, há por natureza uma parte que comanda e uma parte que é comandada, às quais atribuímos qualidades diferentes, ou seja, a qualidade do racional e a do irracional. (...) o mesmo princípio se aplica aos outros casos de comandante e comandado.
Logo, há por natureza várias classes de comandantes e comandados, pois de maneiras diferentes o homem livre comanda o escravo, o macho comanda a fêmea e o homem comanda a criança. Todos possuem as diferentes partes da alma, mas possuem-nas diferentemente, pois o escravo não possui de forma alguma a faculdade de deliberar, enquanto a mulher a possui, mas sem autoridade plena, e a criança a tem, posto que ainda em formação. (...) Devemos então dizer que todas aquelas pessoas tem suas qualidades próprias, como o poeta (Sófocles, Ájax, vv.405-408) disse das mulheres: ‘O silêncio dá graça as mulheres’, embora isto em nada se aplique ao homem” (Aristóteles, Política, I, 1260 a-b, pp. 32 e 33).
Aristóteles dá, também, alguns conselhos sobre o tipo de vida que as mulheres devem levar durante a gravidez: caminhadas frequentes e exercício físico moderado, bem como uma alimentação cuidada e pouca actividade intelectual (A Política, VII, 1335b12).
Os conselhos de Ari, o Estagirita, às mulheres gràvidas parecem-me do maior bom senso. Ainda hoje uma mulher grávida é um "bem" precioso.
Quanto à problemática da alma, Aristóteles pelo menos reconhecia que as mulheres tinham alma (o que quer que isso seja).O Concílio de Niceia (325 d.C) discutiu arduamente essa possibilidade. Na votação, a mulher ganhou alma por um voto!!!
Mas que alma defendia Ari? O esforço aristotélico vai no sentido de aplicar à alma a sua toria metafísica do acto e da potência e, concretamente, a teoria hilemórfica, isto é, a teoria que explica a constituição mais profunda dos corpos mutáveis por dois componentes do "ser": a matéria-prima (yle) e a forma substancial (morfé). Com esta teoria pretendia Aristóteles resolver o problema físico e metafísico da mudança substancial, ou devir cósmico, das coisas.
Na verdade, como todo o corpo natural possuidor de vida é uma substância (completa , mas composta),não se pode dizer que é vivo por ser corpo, mas por ser corpo animado; não se pode dizer, então,que o corpo seja a alma, mas deve antes afirmar-se que a alma é o acto do corpo. É a teoria da substância e do movimento: se vivr implica um certo tipo de movimento - nascer,crescer, reproduzir-se - este não pode ser entendido em termos de movimento local extrínseco; por outro lado,a animação é uma actualização substancial e não acidental.O corpo, pensado como potência, é substância incompleta (mateial); a alma, enquanto acto; é substância incompleta (formal). O que concretamente existe e pode ser objecto de percepção, é o sínolo, a substância completa individual, o composto de matéria e forma, as quais, no caso específico dosentes mateiais vivos, se chamam "corpo" e "alma".
Este era a base do conceito de alma para Ari. A evolução do conceito ao longo dos tempo é impressionante e, no entanto, continua por explicar...tal como as mulheres!
Para Aristóteles a raça humana foi criada apenas com seres masculinos, e os que se comportaram com menor correcção foram sujeitos a um segundo nascimento sob a forma de seres femininos. Apesar de tudo, o que mais conta para Aristóteles não são as diferenças biológicas ou físicas, mas sim as diferenças no plano do nomos (das convenções sociais) onde as desigualdades são múltiplas e diversificadas: entre homens e mulheres, gregos e bárbaros, ricos e pobres, homens livres e escravos.
Segundo o filósofo, as mulheres não ultrapassavam o plano das opiniões e mostravam menor aptidão no domínio da sabedoria; também dizia que o macho e a fêmea distinguem-se nas suas funções reprodutivas, pois o macho procria (dá a matéria) e a fêmea gera dentro de si mesma (dá a forma); e por isso a mulher deveria obedecer ao homem , sendo-lhe retirado o acesso à cidadania plena, pois não revela maturidade no plano da moralidade. À luz destas limitações descreveu os elementos do sexo feminino como «formas imperfeitas de humanidade».
Depois deste necessariamente incompleto, mas interessantíssimo diálogo filosófico, resta-me dizer que adoro "formas imperfeitas de humanidade".
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