22.1.08

GERAÇÃO 1000 EUROS

No meu tempo era a geração "Maio/68" e a geração "hippie". A geração "Maio/68" instalou-se gloriosamente no poder, apregoando balsâmicas virtudes democráticas e conquistas insuperáveis para as mulheres, enquanto os "hippies" passavam rapidamente a "yuppies". Depois veio a "geração rasca", conformada e analfabeta, devidamente educada pelas gerações anteriores. Agora é a "geração 1000 euros", com curriculum a mais e habilitações a menos, que desespera por qualquer emprego, mesmo que dê muito trabalho.
Quando em 1977 fui trabalhar para uma então empresa pública, entrei para o quadro e com contrato para a vida. Era um mero técnico e o meu primeiro vencimento corresponderia hoje a cerca de 2000 euros. A vida era indiscutivelmente mais barata. Havia menos solicitações e o assalto dos bancos ainda não tinha começado.
Como pode a nova geração ganhar 1000 € (quando os ganha), substituindo, com vínculos precários, quadros que são mandados para casa em pré-reforma ou mesmo em suspensão de contrato, ganhando três vezes mais, apenas porque o exercício financeiro é melhorado?! Mais, os grupos que tomaram conta do poder auto protegem-se e auto regulam-se até à exaustão, fixando vencimentos, indemnizações e reformas escandalosas entre si próprios, como o demonstram os recentes casos do BCP, CGD e do BdP. E é assim, com mais ou menos descaramento, por essa Europa fora... E depois ainda pedem aos jovens para ter filhos!!!
Francamente não entendo. É perverso. Socialmente inaceitável. Democraticamente chocante. Em vez de andarem por aí a discutir tabagismo nas dicotecas ou as virtudes e defeitos do Sr. Nunes, onde estão os jovens para fazer um novo "Maio/68"???
jp
Este post foge à "linha editorial" deste blogue, mas às vezes temos de desabafar!

12 comments:

Anonymous said...

Pois é Expresso,
Fugiste à linha editorial mas fizeste bem em desabafar.
Possivelmente a tua pergunta está mal feita. Deveria ser :
" Onde estão os hippies de hoje ?".
É que os de Maio de 68 por quererem fazer uma revolução...espalharam-se ( alguns ) ou instalaram-se ( muitos ). Bem sei que a nossa geração ( eh pá...é bonito não sabendo o que isso quer dizer ) é mais Maio de 68.
É que os hippies ( muito usa e english ) só queriam curtir e mudar as atitudes. Foram mais bem conseguidos.
Onde está o pessoal que hoje queira só curtir ?
Se calhar estão naqueles que tu dizes precários.
Abraços

Anonymous said...

Sou hippy a recibo verde. If you're going to San Francisco, leva o curriculo, chama o Kerouac, convida a Beauvoir para o jantar. Colecionamos símbolos. Ainda bem. Em Maio de 68, eu tinha 17 anos. Gostava de voltar a Maio de 68. Agora os Maios são maduros. Maduros demais. Hoje, com 17 anos espera-se encontrar um emprego, um carro e uma casa. Ainda bem. A utopia é uma treta,um engano, um caso de sucesso. Sucesso e mais sucesso. Estamos na idade do bricolage, dos media. É precisar acreditar que 2008 vai ser um bom ano.Um belíssimo ano. FMI. Não há graça que não faça o FMI. O Haiti seja aqui. Já lá estive. Passei lá Maios. Não era a recibo verde. Verde era o mar do Haiti. Como gostava de voltar ao Haiti. Hippy-py. Wight is Wight...
Van Hesse McKenzie

Al Kantara said...

Geração 1000 euros ? Oh, Expresso, vives em Espanha, pá ?... Aqui a geração é 500 euros e é para quem quer. Se alguém não quiser, há muito quem queira...

Jon said...

O Al Kantara disse tudo...
A fasquia é bem mais baixa do que 1000 euros, mas muito mais baixa.
Pessoalmente (e só posso falar pela minha área), já passei pela fase de ter os pais a pagarem (felizmente podiam), para eu estar a trabalhar, depois passei para a fase do "abaixo do ordenado mínimo" e com data incerta de pagamento...
E é por estas e por outras é que eu refilo tantas vezes, é que a minha paciência passou de relativamente pouca a quase nenhuma e que no espaço de 4 anos e meio já saltei de "posto" umas 6 ou 7 vezes.

Rafeiro Perfumado said...

Eu tenho a vantagem de ser a primeira vez que cá venho, assim não sei se fugiste ou não. Mas digo-te, como membro da geração "rasca", estou quase totalmente de acordo contigo. Só discordo da parte em que dizes que os jovens de agora aceitam qualquer coisa, mesmo que dêm muito trabalho...

Abraço!

ZeduViana said...

é isso expresso... partilho dessa opinião. O alkantara também alguma razão!Eu próprio faço parte neste momento do desgraçados dos 500 euros!e já é dificil mesmo com as facilidades das circunstancias em q me encontro... Mas apesar dos meus verdes 24 anos já perdi a fé em utopias e maios. Os colectivismos, os socialismos e os espiritos comunitarios que alimentavam esses tais hippies de maio já morreram há muito tempo nesta sociedade onde tá tudo a tentar sobreviver com as suas tendencias consumistas. E o mais importante é o que dizes no fim: como é q ainda querem que um gajo tenha filhos?! Amanhã pode dar na tola do meu patrão e mandar-me pa casa com os recibos verdes no bolso de trás...
abraços e beijinhos

Jorge Pinheiro said...

- António: o problema é a chamada "classe parasita", de facto herdeira do "Maio/68", e do próprio sistema instalado que é auto-fágico e socialmente injusto. Os "hippies", de que sou semi-herdeiro, foram um epifenómeno folclórico sem qq consistência política. Deixaram alguns legados que o consumismo se encarregou de absorver. Falta algo mais...
- Caro Herr Van Hesse: de facto o Haiti não é aqui. Esse Haiti utópico, porque o real... Vamos ser não conformistas. O pior é a letra do banco!
- Rafeiro Perfumado: obrigado pela visita. Eu acho que estamos totalmente de acordo. O que eu quis dizer é que se aceita tudo, mesmo mal pago, mesmo dando muito trabalho.
- Al-Kantara, Jcachorro e Zeduviana(nome extraordinário): "geração 1000 euros" é como os próprios se intitulam. Já estou a ver que contactei com a elite!

Anonymous said...

Ai 1000 euros. Bem, para te elucidares, eu em 2005, não encontrava trabalho, e não fui colocada, e como deves saber, Coimbra não é Lisboa, a única coisa que encontrei, foi empregos a ganhar misérias, a recibo verde... escolhi dentro das fracas possibilidades, um a trabalhar numa loja de informática a part-time, onde recebia para ai uns míseros 2€ à hora, mas não passava recibo, e um das 19h às 23h, em que passava recibo verde, e ganhava 2,50€/hora e ainda tinha que fazer sobre esse valor a retenção de 20% para o IRS.
Não faço ideia quanto é que isso me dava no fim do mês, mas não era muito, felizmente foram só 3 meses. Tenho colegas de curso que nem 500€ recebem por mês.

Jorge Pinheiro said...

Maria: mais uma razão para a luta. Não é admissível esta situação de saldos permanentes no mercado de trabalho.

Jon said...

Tem toda a razão Expresso, mas o grande problema é que perante o "cenário", mesmo que alguém bata o pé e refile, há sempre quem apareça a seguir, com as mesmas ou até mais habilitações académicas/experiência que, em desespero, aceita qualquer coisa.
Mas só para ilustrar a questão dos empregos e dos salários, dou-lhe um exemplo e tomo a liberdade de transcrever para aqui um excerto de um anúncio que acabei de encontrar:
Remuneração base de 500 euros em regime full-time, após 1º mês à experiência.Preferência a candidatos que possuam computador portátil próprio.
O que merece uma empresa que coloca isto num anúncio?
Trabalhar um mês de borla e ainda por cima num computador pessoal?
Isto só pode ser brincadeira certo?
O problema é que não é...
Estas ofertas existem (e são mais do que aquelas que se imaginam) e para além disso não existe nada nem ninguém que as controle.

Jorge Pinheiro said...

Jcachorro: não tenho dúvidas que é dramático. Por isso desabafei. Tb. não sei o que fazer e até, se calhar, contra mim falo porque estou noutro "campeonato" e noutro escalão de idade. Acho é que há um conformismo e uma passividade que não são coerentes com o dramatismo da situação. É preciso abanar as estruturas do poder. Uma sociedade conformada não é uma sociedade feliz.
Abraço solidário.

Claire-Françoise Fressynet said...

Respigando é como safo,ainda assim consigo encontrar uma gota límpida na poça envenenada.