
Lá fora o Inverno roubou as folhas das árvores e o frio tomou conta das nossas vidas. Espirramos a gripe que nos contagia e contamos ansiosamente os dias para a Primavera. Os hospitais abarrotam de gente que vai às urgências para tomar aspirinas. Camas espalhadas pelos corredores entupidos, num cenário de guerra viral. O frio polar entrou em Portugal. O mundo sempre foi global. O clima nunca conheceu fronteiras. Só agora percebemos que há tsunamis na Indonésia, furacões em Miami, cheias no Brasil, terramotos no Irão… Que às vezes faz frio quando devia fazer calor e outras aparece Verão no meio do Inverno. Aqui no nosso cantinho, confortavelmente olhando a televisão, vemos um mundo de desgraças que se abatem sobre os outros e suspiramos revoltados sem nada fazer, sem nada poder fazer. Bem perto de nós assaltam gasolineiras e velhinhas indefesas. Lá longe continua a desventura da Palestina, os atentados no Afeganistão, os genocídios em África, a arrogância dos USA, a impotência da Europa. Há gente a mais. Muita gente a mais. Esta não é a Era Espacial. É a Era da Superpopulação. Desde a morte de Cristo até ao séc. XVII, foram necessários 16 séculos para que a população da terra duplicasse. Ao ritmo actual, a população duplica em menos de meio século. De 4 em 4 anos a humanidade acrescenta à sua totalidade o equivalente à população dos USA! No passado as pestes medievais e as guerras permanentes ajudavam a manter o equilíbrio entre os recursos e os habitantes. Vivia-se pouco e mal, é certo. Mas o mundo mantinha-se equilibrado. Agora, a progressão geométrica de crescimento da população desequilibra a obtenção de recursos e a obtenção intensiva de recursos desequilibram o planeta. A ciência prolonga a vida até ao estado de eutanásia e os velhos acumulam-se em hangares de tristeza e vergonha. Deram-nos um estado social protector na doença e na velhice. Um estado que garante pensões, subsídios e reformas. Deram-nos uma ilusão de riqueza e a garantia de felicidade. Um modelo incomportável, falido e pernicioso. Um modelo incomportável com o crescimento exponencial da população e com a globalização económica selvagem a que se chegou. A crise que aí vem vai ser a peste dos tempos modernos. Um mundo novo em que já nem as estações do ano colaboram. Um mundo novo em que os homens fazem do corpo o sacrifício da alma!
jp
12 comments:
Jorge,
mas alguns progressos fizemos....
Gosto muito da imagem.
" deram-nos.." quem? Os deuses, os maus?,o Pai Natal? Não percebo essa ó expresso. Gente a mais, estações que não colaboram(?),a crise é o castigo, antigamente é que era bom com menos gente e mais pestes e guerras? Tás velho JP! Anima-te homem!
Ortega: Estou sem dúvida menos novo do que já fui. Estou tb. mais desconfiado. Não quis dizer que dantes é que era bom. A questão que se está a levantar com esta crise (que sendo mais uma, tem características globais e graves) é que poderá estar em causa a democracia. E um dos problemas é indiscutivelmente a superpopulação, o desemprego inevitável, a chantagem sobre esse emprego e a sua qualidade, o subsequente dirigismo de Estado e daí para a frente tudo é possível. Lá chegaremos, se tiveres paciência de ler estas crónicas de um velho que fazem contraponto com as maluquices desse mesmo velho. Mas agradeço as palavras de ânimo. Aliás, como sabes, sou difícil para desanimar!
Eduardo: o que fica dito vai em parte para o seu comentário. Os progressos só são bons quando acabam bem. A ver vamos. Espero que sim!
Maria: reflexo em cima do capot do carro.
... Um texto incompreendido!
Todos sabemos que a nossa vida é uma coisa que nunca acaba em bem, o que não quer dizer que não haja progresso. O que me chocou no teu texto é ser derrotista, não te esqueças que há nos teus leitores gente jovem (olá Alice!). Há que ser mais construtivo. Para nos deprimirmos já nos basta os media.
Percebido. Mas esta série vai oscilar entre o realismo e surrealismo. Tinha de começar com este tom. Vamos ver se consigo.
A humanidade está passando das medidas.
Pois é Jorge, salvar o mundo não esta nas minhas mãos mas o meu lema é não deixar merda pelo caminho....
É um excelente lema Claire.
Peri: é tudo muito conjuntural!
"Um mundo novo em que os homens fazem do corpo o sacrifício da alma!" Não existe melhor forma de descrever esse tal de mundo novo!
Foi sem querer, Alice, juro!
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