26.1.09

AVENTURAS DE ARNALDO ROCHA - O ESTRANHO CASO DAS ABÓBORAS MENINAS

EPISÓDIO V
Ainda arrelampado de tantas emoções, Arnaldo, tropeçou escada acima, irrompeu no escritório e aterrou de borco na cama. “Della, filha, anda cá tomar umas notas”. A secretária executiva entrou já sem soutien. Àquela hora da tarde Arnaldo gostava de brincar com as lombas enquanto raciocinava. E se mais brincou, melhor raciocinou.
Arnaldo passou pelas brasas… Sonhava com abóboras meninas e carruagens de Cinderela. Onde já teria ouvido falar daqueles rituais. Acordou sem ter dormido. Na memória, uma abóbora coberta. Levantou-se de supetão… O “Grande Livro das Cucurbitáceas”… Biblioteca de Alexandria… O Farol... Ptolomeu Auleta… Quanto tempo… Tudo destruído. Onde estaria agora o livro que poderia desvendar o mistério? Abóbora coberta... abóbora coberta... compotas “Cister”. Alto! Na penumbra do quarto fez-se luz: se ainda existisse, o “Grande Livro” só poderia estar em Alcobaça.

Arnaldo comprou a obra completa de São Bernardo de Claraval, em três volumes com magníficas ilustrações a cores. Passou quinze dias a esgotar a matéria, sentado na mesa do costume, encharcando-se de tinto templário vindo expressamente de Monsaraz, enquanto Della lhe descascava a fruta.
O pior foi quando descobriu que, em Portugal, já não havia monges de Cister. A Ordem fora definitivamente extinta em 1880. Os últimos mosteiros eram femininos... Odivelas, onde ainda hoje se ensinam virtudes e marmelada às filhas dos coroneis.
O mosteiro de Alcobaça, fundado em 1153, era só homens. A Ordem de Cister era reputada pelos seus conhecimentos agrícolas. Uma Ordem de agrónomos, a quem os reis davam pântanos, para transformar em terra arável. Arnaldo entreviu monges solitários usando o fruto sem pecado. Adão tinha falhado com a maçã. Alcobaça percebera a mensagem divina: cada um com sua abóbora. Foram eles que introduziram as famosas conservas de fruta e, está claro, a provocante “abóbora coberta”. Em 1833 o mosteiro foi saqueado, na voragem do liberalismo vintista. Hoje o mosteiro subsiste como asilo de inválidos, um conjunto de repartições concelhias e relíquia para turistas, no vislumbre do passado...! Nunca mais houve cistercienses em Portugal.
Mas, Arnaldo sabia que os monges nâo eram só lavradores. No mosteiro havia uma rica biblioteca. Era lá que estava depositado o cartório real e os famosos “Códices Alcobacenses”. Arnaldo lembrava-se bem da visita que fizera ao mosteiro, acompanhando o séquito de D. Dinis, aquando do lançamento da primeira pedra no pinhal de Leiria. Fora então que Arnaldo entreviu o ”Grande Livro das Cucurbitáceas”, esse pergaminho sagrado, desaparecido desde a destruição da biblioteca de Alexandria.
(continua na 6ª feira)
jp

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