O Francisco, do "Olhar Direito", tem vindo a publicar textos sobre a revolução do "25 de Abril". Se estiverem interessados, mandem-lhe um texto para o mail do blogue. Este é meu contributo.Há a ideia de que tudo era muito cinzento antes do “25 de Abril”. Não havia liberdade, não havia expressão, não havia divertimento, a criatividade era controlada. Era deus, pátria e família! Muita ordem e repressão. Tudo muito careta. Há a ideia que antes do “25 de Abril” a infelicidade nacional era completa e o isolamento total. Há a ideia que depois do “25 de Abril” todo mudou. Onde havia cinzento ficou encarnado. Onde havia desespero, virou paixão. A liberdade rebentou por todo o lado. Acabou a repressão e a ordem. Toda a gente se passou a exprimir como queria e como não queria. A cada um sua expressão. A alegria inundou a rua. As pessoas, de repente, ficaram muito unidas e solidárias. As colónias libertaram-se partindo para os seus exóticos destinos. Penso que são ideias exageradas.
Não sou maniqueísta. Dantes não era tudo mau. Depois não foi tudo bom. A verdade estará algures entre a liberdade, a responsabilidade e cidadania. A democracia é uma conquista. Mas não passa de um regime. Também tem desmandos e perigos. O excesso de representatividade é um deles. Sendo o melhor que conhecemos, não devemos ficar satisfeitos e inertes. O antigo regime foi essencial para controlar a total balbúrdia da I República (1910). A revolução ditatorial de 28 de Maio de 1926 foi querida e desejada pelo povo, farto dos desmandos democráticos. Ser democrata era, então, pejorativo. Só alguns empedernidos maçons se mantiveram na deles. O povo ansiava ditadura, algo que os livrasse da bancarrota e da perda de dignidade nacional. Tudo é, pois, relativo. Só não foi relativo o tempo excessivo em que o antigo regime se manteve. A verdade, porém, é que os portugueses não têm cultura política. Nunca tiveram. Nem na monarquia, nem na república. Tem caciques e gente que segue os caciques. Impera a lei do menor esforço, do emprego público, da preguiça mental, do receio de contrariar o poder, da falta de cidadania. Por isso a ditadura durou tanto. Poucos queriam deitá-la a baixo. Era cómodo como estava. Tudo certo, direitinho, controlado. As pessoas iam às suas vidinhas, papavam as hóstias e constituíam família. É evidente que com o “25 de Abril” ganhámos muito, independentemente da balbúrdia que se seguiu à revolução.
Agora pergunto. Que importa termos imensa liberdade de expressão para nos esgotarmos a dizer mal “deles” sem agirmos no local e tempo certos? Que interessa podermos fazer o que queremos se o que queremos é não fazer nada? Mais, se não fosse a adesão à União Europeia, em 1986, ainda estaríamos neste regime? Duvido!
jp
Não sou maniqueísta. Dantes não era tudo mau. Depois não foi tudo bom. A verdade estará algures entre a liberdade, a responsabilidade e cidadania. A democracia é uma conquista. Mas não passa de um regime. Também tem desmandos e perigos. O excesso de representatividade é um deles. Sendo o melhor que conhecemos, não devemos ficar satisfeitos e inertes. O antigo regime foi essencial para controlar a total balbúrdia da I República (1910). A revolução ditatorial de 28 de Maio de 1926 foi querida e desejada pelo povo, farto dos desmandos democráticos. Ser democrata era, então, pejorativo. Só alguns empedernidos maçons se mantiveram na deles. O povo ansiava ditadura, algo que os livrasse da bancarrota e da perda de dignidade nacional. Tudo é, pois, relativo. Só não foi relativo o tempo excessivo em que o antigo regime se manteve. A verdade, porém, é que os portugueses não têm cultura política. Nunca tiveram. Nem na monarquia, nem na república. Tem caciques e gente que segue os caciques. Impera a lei do menor esforço, do emprego público, da preguiça mental, do receio de contrariar o poder, da falta de cidadania. Por isso a ditadura durou tanto. Poucos queriam deitá-la a baixo. Era cómodo como estava. Tudo certo, direitinho, controlado. As pessoas iam às suas vidinhas, papavam as hóstias e constituíam família. É evidente que com o “25 de Abril” ganhámos muito, independentemente da balbúrdia que se seguiu à revolução.
Agora pergunto. Que importa termos imensa liberdade de expressão para nos esgotarmos a dizer mal “deles” sem agirmos no local e tempo certos? Que interessa podermos fazer o que queremos se o que queremos é não fazer nada? Mais, se não fosse a adesão à União Europeia, em 1986, ainda estaríamos neste regime? Duvido!
9 comments:
Lembro-me de ver uma pobreza abjecta na minha aldeia. Hoje vejo alguma pobreza, não tão abjecta. Lembro-me de ver uma multidão de analfabetos na minha aldeia. Hoje quase os não há. Isso é que é imperdoável, o antigo regime plantava analfabetismo e colhia miséria. penso que foi isso o que mudou com a revolução. Quanto à cultura política, lá está, precisamos de a plantar para um dia fazermos colheita proveitosa.
"25 DE ABRIL SEMPRE?"
(este título do post me fez lembrar...)
Por todas as vezes que fui a Portugal
e em tantas aldeias por onde andei
há sempre uma rua ou avenida
25 DE ABRIL,
SEMPRE!
(sem nenhum julgamento)
Pois é, Silvares, precisamos de plantar muito, porque no aspecto de cultura política e cívica estamos a regredir o pouco que sabíamos.
Silvares: só mais uma coisa. Se não tivermosde voltar à "economia da couve-galega" cada vez vai haver menos gente na tua aldeia. A desertificação do interior e das aldeias é galopante, força de um desenvolvimento pacóvio e não sustentado!
A democracia é uma conquista mas também uma responsabilidade. Depois de muitos anos de ditadura, acho que leva tempo para aprender a escolher seus representantes...
Maria Augusta: isso levanta de facto a questão da representação directa.
Infelizmente as pessoas querem um " Grande Pai" ,ou vários, comandando os destinos de seus países, estados" aqui ) e cidades, que cuidem delas e resolvam seus problemas. Não percebem a necessidade da efeitiva participação de todos na discussão das questões comuns. Então delegam.E delegam mal.
Viver em sociedade dá trabalho.
Muito trabalho mesmo...
O gajo do meio, na foto, veio cá umas vezes, cortar umas fitas..
A do Gil Eanes, quando ainda andava na primária; a do Sebastião, uns bons anos depois, ele já bem gágá.
A inauguração foi à moda da época:
ela, estátua, enrolada em panos e ele puxando uma corda, lá da janela do meio do 1º andar dos passos do concelho.Pumba!Destapou-a!
Fez-se silêncio na praça repleta. O homem perdeu o fio ao discurso. Os locais murmuraram muito, e muito mal... Esqueceram-se das palmas, ouviram-se gargalhadas ignorantes, "gozaram" do artista que construíu o "monstro".
Foi em 73.
Em 74, sentaram-se nela, para festejar o 1ª de Maio.
Na cidade, poucos se lembram que o Sebastião é"do antigo regime"!
;)
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