23.4.09

LAGOS - AMARRADA AO MAR

Voltámos comovidos de Lagos. Antecipando a crise, obras públicas e privadas inundam a cidade numa actividade frenética. Toda a cidade rejubila de betão e cimento armado. Obra total. Buracos enormes. Escavações monumentais. Esventram-se passeios, ruas, largos, jardins. Por todo o lado saltam ruínas romanas, árabes, coisas proto-históricas, fósseis de sardinha assada. Enfim, um mundo novo que se abre para arqueólogos e empreiteiros civis. O próprio Infante D. Henrique tem estado ausente do seu pedestal, procurando esperançadamente o Santo Graal que, dizem os mais velhos, para aqui foi trazido por S. Gonçalo, o padroeiro da cidade. Lagos é hoje um enorme estaleiro ao ar livre. São hotéis que finalmente farão jus à Meia-Praia, inundando o areal de gente estival à procura do escaldão. Parques subterrâneos virados ao mar, no desafio da inundação. Espelhos de água embaciando a muralha e o Palácio dos Governadores. À beira de se transformar num turismo de massas, só o vento não amaina por entre a floresta de guindastes que se apoderou da cidade do Infante.
A polémica das gentes da terra é acesa. Argumentos políticos, outros técnicos, as obras são criticadas ao detalhe. Sempre reaccionários, os locais não vêem o potencial da futura frente ribeirinha lhes poder entrar pelo quintal dentro. A vantagem de saírem de gôndola directos ao “Pingo Doce”. Os empregos criados para arqueólogos alemães e serventes importados directamente da Ucrânia. Preferem reunir-se em tertúlias maldicentes. A verdade é que isto é terra de turismo. Do turismo vivem esses locais, quer queiram, quer não. A Meia-Praia vai ficar estragada? Sem dúvida. Mas ao menos que seja com projectos hoteleiros de qualidade, como os que lá estão a ser implantados. Ou preferiam aquelas urbanizações trapalhonas, cada uma de sua cor, com uma densidade insuportável? Ao menos assim é turista vem, turista vai… e a maioria nem tem carro! E a estrada vai ficar decente, finalmente! O Largo do Infante pareceu-me vir a ter condições para ser a sala de visitas da cidade, após as obras. Sem aqueles cafés abarracados que lá existiam, com mesas amontoadas e serviço demorado. Sem as bancas aciganadas de venda de camisolas do Ronaldo e galos de Barcelos. A Igreja de Santa Maria arranjada e o Edifício da Ribeira dos Touros recuperado. O Mercado de Escravos a merecer uma utilização decente, em vez das exposições inenarráveis que por lá passam. Dois parques de estacionamento com capacidade que retirem o trânsito das ruelas medievais. Há que assumir o que se quer estrategicamente de uma terra. Tudo isso parece estar a ser feito. É claro que para já é só pó e incómodo. Lagos está a mudar. Quando se muda, algo se perde e algo se ganha. Esperemos que o saldo seja positivo!
jp

6 comments:

Mena G said...

Esperemos mesmo, meu amigo...
Porque na minha opinião o projecto é também "para Inglês ver". Ou então, ainda não sabemos de tudo o que está planeado.

Nanda Botelho said...

É, eu tenho tido medo desse tipo de melhoria, as cidades estão com grande problema de escoamento de água, por causa do assoreamento de rios e "asfaltagem" geral do chão de terra, a água não consegue se absorvida.

Então hoje em dia o discurso de alguns políticos que dizem precisarem fazer certas obras para desenvolvimento da população, me assusta, devo confessar!

Rezemos então para que eles tenham juízo!

Abraço!

Ví Leardi said...

Acho que aqui..muito se ganha se o bom senso imperar!

Maria Augusta said...

Tomara que o saldo seja positivo, muitas vezes obras são pretextos para "troca de favores" entre políticos e empreiteiros...

João Menéres said...

Habituado que estou ao seu poder analítico e crítico, só me posso congratular com tudo o que descreve acerca das modificações que Lagos está a receber.
Grato pelas boas notícias.

Um abraço.

Jorge Pinheiro said...

Tudo é possível. Pode ser que me engane (espero que não). Agora uma coisa é certa: não vai ficar como a desgraça de Portimão e Praia da Rocha. Quanto aos solos, po´derá ser um problema, mas não me parce ser o caso. O parque só vai ter dois pisos.