Ainda se lembram e D. Manuel? Eu resumo os episódios anteriores. Afonso, filho de D. João II, casara em esplendorosas núpcias com Isabel, filha dos Reis Católicos de Espanha. Ele seria o herdeiro dos tronos de toda a Ibéria. Em plena lua-de-mel, um cavalo traiçoeiro derrubou-o mortalmente às portas de Santarém...D. João II sofreu. Sofreu muito. Nunca mais foi o mesmo homem. No entanto, apesar de todo o sofrimento, o "Príncipe Perfeito" manteve a lucidez que o caracterizava. Ele sabia que o filho morto nunca seria um bom rei para Portugal. Era um estroina, como o avô, e pouco dotado intelectualmente. O destino assim o quis e o rei percebeu. A ele se atribui a célebre frase: "De uma coisa só em alguma maneira estou confortado, que é parecer-me que nosso Senhor Jesus Cristo se lembra da gente destes reinos, porque meu filho não era para ser rei deles". Notável frieza!
D. João II fixou-se, então, na ideia de colocar no trono o seu bastardo, filho de Ana Mendonça. O pequenito D. Jorge, conhecido por "Senhor D. Jorge", tinha então 10 anos. A rainha D. Leonor opôs-se com determinação, considerando aquela manobra uma afronta pessoal e D. João II, cuja vontade a todos se impunha, nada pode contra a mulher. O rei acaba por morrer em Alvor, no Algarve, a caminho de Monchique, onde ia a cura de águas. Padecia de uma doença misteriosa a que os físicos de então chamaram "humores melancólicos". Se exumassem hoje o corpo talvez recolhessem vestígios de substâncias aditivas pouco recomendáveis. Era 25 de 0utubro de 1495. Com 40 anos morria um dos expoentes máximos da monarquia portuguesa.
De repente, o discreto Duque de Beja, D. Manuel, primo e cunhado do falecido rei, vê-se com a coroa na cabeça e o reino a seus pés. Aclamado em Álcacer-do-Sal (27/10/1495), casa dois anos depois com a mesma Isabel, filha dos Reis Católicos, que, embora depauperada com a morte do primeiro marido, continua mui salerosa. Acaba por ser ele o herdeiro de todos os tronos da Ibéria (coisa que não se verificou, mas isso é outra história...). Mais, herda todo o esforço na expansão ultramarina preparado pelos seus antecessores. É no seu reinado que Vasco da Gama chega à Índia; que Cabral põe o Brasil no mapa; que os Corte-Real descobrem a Terra Nova; que Afonso de Albuquerque conquista Goa, Malaca e Ormuz... Lisboa foi, então, a capital da Europa e D. Manuel viu-se na contingência de adoptar um título modesto: Rei de Portugal e dos Algarves de Aquém e de Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Nada mal para um rapazito de Beja...
jp
4 comments:
Esse D. Manuel eu não conhecia!!!
Gostei muito do que eu li, pois adoro histórias antigas de Portugal!!!
Esse D. Manuel é o mesmo falado por FErnando Pessoa em "Mensagem"?
Abraços,
Bom fim de semana!!!
O que é o destino...ele foi Venturoso mesmo, colheu os frutos dos esforços dos antecessores sem querer. Legal conhecer mais sobre sua historia.
Abraços e bom domingo.
Mylla: exactamente esse.
Maria Augusta: por isso foi o "Venturoso".
Estava preocupada sem notícias do Venturoso.
Que bom, consegui ler o final do desfecho (com um pouco de atraso...).
Venturoso,
esperto,
sortudo,
atrevido,
modesto,
um homem cheio de adjetivos!
Uma dúvida: quais seriam as "substâncias pouco recomendáveis" no sangue do rei?
Jorge, sua " mui salerosa" é impagágel!
muito obrigada
saudacoes
li
desde Madrid
sem til, cedilha...
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