Novamente em Sernancelhe, voltemos a nossa atenção para a Casa da Comenda da Ordem de Malta, com brasão de 1611. Sobre ela se debruça uma pequena monografia, do Padre Cândido Azevedo, cuja leitura é obrigatória, pois muito da história de Sernancelhe está ligada à Ordem.
A Ordem está presente em Sernancelhe desde o séc. XII, constituindo já então uma Comenda (divisão administrativa), inicialmente em conjunto com Trancoso.
Em 1297, D. Dinis doou à Ordem a igreja de Sernancelhe, que se passa a chamar Igreja de S. João Baptista de Sernancelhe. Só em 1834, com a extinção das Ordens, acaba esta dependência.
Para além de funções militares, a Ordem dava acolhimento e assistência a sãos e a doentes (os mouros pagavam taxa moderadora). Também contribuiu para o povoamento e colonização interna, baseada no princípio ecuménico de horror ao vazio. Criaram-se diversas freguesias que pouco a pouco se foram enchendo de fregueses (fillii aeclesiae).
Surgiram, assim, Arnas, Cunha, Granjal, Reboleiro, Sarzeda, Seixo, Tabosa, Granjal e Vila da Ponte. Adbarros só depois da extinção da Ordem passou a pertencer a Sernancelhe.
Em Sernancelhe havia abade. Nas freguesias havia curas. As igrejas das freguesias, embora autónomas da paróquia de Sernancelhe, eram superintendidas pela Comenda da Ordem de Malta.
A vida da Comenda não foi simples. Eram constantes os litígios com o Município, com o marquês de Marialva e com a própria Cúria Diocesana. Quem ficou a ganhar foi, como de costume, a Ordem dos Advogados!
A Comenda de Sernancelhe produziu gente importante. Destaque para Manuel de Almeida Vasconcelos de Soveral Carvalho da Maia Soares de Albergaria, não só pela dimensão do nome, mas também por ter sido o primeiro barão de Moçamedes e governador de Angola, em 1791. Hoje, o Solar do Barão de Moçamedes é um cancro arruinado, ensombrando o Largo principal de Sernancelhe, esperando que alguma Ordem (nem que seja a dos Arquitectos) lhe deite a mão.
Com a extinção das Ordens em 1834, a Casa da Comenda, sede da Ordem em Sernancelhe, passou para particulares. Actualmente é Turismo de Habitação… Mas nem sempre abre. Deve ser preciso ser da Ordem!
(a continuar)

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