4.3.10

D. HENRIQUE - O NAVEGADOR


Só entrou num barco para ir a Ceuta espetar-se contra as muralhas da cidade moura que conquistou a ferro e fogo. Nascido no Porto, faz hoje 616 anos, este filho da Ínclita Geração, é considerado o fundador dos Descobrimentos Portugueses; criador da mítica Escola de Sagres; pai do Império Marítimo Português. Tudo falso!
A sua ideia de “descobrimentos” eram meras arremetidas no norte de África, ao melhor estilo cruzadístico, para combater infiéis mouros, pacificamente instalados. Ceuta conheceu a sua paranóia. Tânger ficou-lhe com o irmão Fernando, refém para a vida que Mestre Henrique não teve artes, engenho ou vontade de libertar.
A mítica Escola de Sagres jamais existiu. Não passou de um conjunto de navegadores algarvios, experimentados na pirataria, que viajavam ao largo de Sagres e se reuniam nas tascas locais para decidir planos concertados de ataque, entre copos de medronho.
O Império Marítimo Português começou por ser um proveitoso comércio de escravos que se vendiam com bom lucro no Mercado de Lagos, o primeiro da Europa e hoje Galeria Municipal de Arte (!). A pressão dos comerciantes de escravos foi levando as naus cada vez mais para baixo, contornando o litoral da África, até ao golfo da Guiné. O “preto” compensava e a busca do Reino de Prestes João, esse mítico príncipe cristão das Índias, serviu muitas visões, quase todas pintadas de negro.
A única certeza é que Henrique sonhava. Talvez sonhasse sentado naquela afamada rocha despenhada sobre o mar-oceano. Sonhava vertigens de fé. Alucinações de esperança. Faltou-lhe sonhar a caridade. Essa só no século XIX viria com a abolição da escravatura.

2 comments:

Lizete Vicari said...

Adoro a verdade Jorge!
Belo texto!
Beijos do Brasil, que, por acaso também foi descoberto!
lili

Jorge Pinheiro said...

A verdade tem sempre duas (ou mais faces)... Esta é uma.