Nesta altura, vejo à minha volta rostos desvairados de fome, esperando que o almoço não seja de granito!
Pronto, vou-me esquecer da Torre dos Namorados, da Cisterna, do Poço, da Porta de Santa Maria, do Postigo da Traição, do Pelourinho e, mesmo, da Igreja de Santiago.
Não posso é deixar de fazer uma breve referência à lenda da Dama dos Pés de Cabra, recuperada por Alexandre Herculano, in Lendas e Narrativas. Aliás, um excelente tema para o blogue "Pé de Moça" e até para um filme em 3D.
Ela era moura, para variar, e linda, como de costume. O nome era Maria Alva. Nunca saía de casa. Passava os dias à janela, repetindo sem cessar: “Quem quer casar com a carochinha que é rica e formosinha?”… E o João Ratão, que era sapateiro, candidatou-se.
Conluiado com a empregada doméstica da donzela, o sapateiro, por mera deformação profissional, quis tirar-lhe a medida dos pés. A criada espalhou farinha no chão da casa. No dia seguinte, porém, só apareceram pegadas de cabra. Está claro que o sapateiro já não casou com a carochinha e, desiludido, disse-lhe: “Ai Maria Alva, Maria Alva, cara linda e pés de cabra”. A rapariga, com o trauma, atira-se da janela e tristemente se finou. A povoação ficou Marialva, quando podia perfeitamente ter ficado a chamar-se Pé de Cabra!
Uma palavra final de grande apreço para José Saramago, pelas gentis e muito originais observações que teve a bondade de nos deixar sobre Marialva, in Viagem a Portugal: “… é este conjunto de edifícios em ruína, o elo misterioso que as liga à memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos”. Note-se que o conhecido artista de Lanzarote ainda usava vírgulas, razão pela qual esta obra não contou para o Nobel!
(a continuar)

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