Por volta de 1630, as esperanças de “libertação” nacional convergiram na pessoa de D. João, Duque de Bragança, e as trovas de Bandarra passaram a ter uma interpretação brigantina. Os seguintes versos pareciam talhados à medida:
O rei novo é alevantado,
já dá brado,
já assoma a sua bandeira
contra a Grifa Parideira,
lagomeira,
que tais prados tem gostado.
Saia, saia esse Infante
bem andante!
O seu nome é Dom João!
Isto acomodava-se integralmente à Restauração: D. João era o rei “alevantado” (aclamado) e “Grifa Parideira” era a Casa de Habsburgo, conhecida pelos seus casamentos proveitosos. É claro que onde D. João de Castro tinha lido “Dom Foão” (ou seja, fulano), agora os restauradores liam “Dom João”!
A interpretação sebastianista do Encoberto cedia lugar à interpretação joanista, de que o Padre António Vieira foi um dos principais defensores.
Mas profeta é mesmo assim: para cada momento sua interpretação. Por isso, não espanta que ao longo do tempo tenham sido descobertas outras trovas verdadeiramente encobertas…
De facto, em 1815 aparece nova edição, Trovas Inéditas do Bandarra e em 1822 ou 1823, sai mais uma edição com o título Verdade e Complemento das Profecias. A actualidade das trovas não podia ser maior:
Este sonho que sonheié verdade muito certa
que lá da ilha Encoberta
vos há-de chegar este Rei.
Para os liberais do séc. XIX, a ilha encoberta só podia ser o Brasil e de lá viria D. Pedro IV. Já para os “reaças” da Vila-Francada (1823), as trovas falavam do próprio D. João VI, igualmente vindo do Brasil. Como se vê, é para todos os gostos!
O Marquês de Pombal perseguiu as trovas, envolvendo-as na sua luta contra os Jesuítas e consequentemente contra as interpretações do Padre António Vieira.
Finalmente, Fernando Pessoa trouxe-o definitivamente para o “Quinto Império”, dando-lhe relevo na sua obra enigmática Mensagem:
Sonhava, anónimo e disperso,
o Império por Deus mesmo visto,
confuso como o universo,
e plebeu como Jesus Cristo.
Não foi nem santo nem herói
mas Deus sagrou com Seu signal
este, cujo coração foi
não português, mas Portugal.
Eu desconfio de profetas. Vejam bem. Bandarra não previu o Estado Novo, o 25 de Abril, a entrada na EU… Um homem do curto prazo ou, então, têm faltado “intérpretes” habilitados!
Aliás, a melhor profecia que fez, diz respeito a ele próprio:Em dois sítios me achareis,
por desgraça, ou por ventura:
os ossos na sepultura,
a alma, nestes papeis
(Na imagem a estátua de Bandarra, em Trancoso. A continuar)
1 comment:
Este post e o texto de HOJE no Ladinho, tem tudo a ver!
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