"Imediatamente dois legionários se dirigiram a um homem de cerca de vinte e sete anos e o levaram para o balcão, sob as colunas, à presença do pro-cônsul.
- Foste tu, então, quem incitou o povo a destruir o Templo de Jerusalém? - O procurador mantinha-se imóvel. Parecia uma figura de pedra porque receava mover a cabeça, que lhe doía atrozmente.
O homem de mãos amaradas, inclinou-se levemente para a frente e começou a falar:
- Bom homem! Acredita-me...
- É a mim que chamas bom homem? Estás enganado. Em Jerusalém corre o boato de que sou um monstro de maldade e isso é absolutamente verdade. Chamem o centurião Mata-Ratos.
O procurador falou em latim ao centurião:
- Este criminoso chamou-me bom homem. Leva-o e explica-lhe como deve dirigir-se-me. Mas não o mutiles.
Trazendo o prisioneiro da colunata para o jardim, Mata-Ratos tirou um azorrague das mãos de um legionário. Balançando-o ao de leve, chicoteou o prisioneiro nos ombros. Este abateu-se imediatamente sobre o chão. Sufocou, empalideceu e os olhos perderam expressão.
Marco ergueu o homem como se fosse um saco vazio e falou em voz nasalada:
- O procurador deve se tratado por Hégemon. Não digas outras palavras ou terei de te bater outra vez.
- Percebo, não me batas.
Um momento depois encontrava-se de novo na presença do procurador. A voz igual, de doente, perguntou:
- Nome?
- O meu? - disse apressadamente o prisioneiro, com desejo de não provocar mais ira.
- O meu sei eu. Não te faças mais estúpido do que és. O teu nome.
- Yeshua - respondeu prontamente o prisioneiro.
- Apelido?
- Ha-Nozri.
- Donde és?
- Da cidade da Galileia.
- Quem és por nascimento?
- Não sei bem. Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que o meu pai era sírio...
- Onde é a tua residência permanente?
- Não tenho morada permanente. Ando de cidade em cidade.
- Isso só tem uma palavra: vagabundo - retorquiu o procurador - Parentes?
- Nenhum. Estou só no mundo.
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

2 comments:
Ladinho Em Grande Estilo!
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Interrogatório mais que atual, coube como uma luva.
Não li Margarida e o Mestre; tenho ótimas referencias sobre ele. A postagem estimulou muito a vontade de o ler.
Li: para mim é apenas o melhor livro que já li. Foi ele que me fez escrever.
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