1.4.10

NOTÍCIAS DE CRISTO - O JULGAMENTO


"Na manhãzinha do décimo quarto dia do mês de Primavera de Nissã, vestindo um manto branco debruado a vermelho-sangue e caminhando com o passo arrastado de um soldado de cavalaria, o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do palácio de Herodes, o Grande.
Não havia nada que o procurador mais detestasse no mundo que o cheiro do óleo de rosas, e tudo prometia que o dia seria mau, pois esse cheiro perseguia o procurador desde o amanhecer.
Parecia-lhe que os ciprestes e as palmeiras no jardim exalavam o perfume das rosas, que a maldita baforada deas rosas se misturava com os odores do cabedal e do suor da escolta.
«Deuses, deuses, porque me castigais? Sim, não há dúvida que a tenho de novo, de novo esta enfermidade terrível, invencível... esta enxaqueca que me crava as garras em metade da cabeça... sem remédio, sem fuga... Tenho de evitar mover a cabeça...».
No piso de mosaico, junto à fonte, havia uma cadeira à sua espera e o procurador sentou-se sem olhar para ninguém e estendeu a mão para o lado. O secretário, deferente, colocou-lhe um folha de pergaminho na mão. Incapaz de evitar um esgar de dor, o procônsul percorreu o texto pelo canto do olho, devolveu o pergaminho ao secretário e disse com esforço:
- O réu da Galileia? Enviram o caso ao tetrarca?
- Sim, procurador - respondeu o secretário.
- Que disse ele?
- Recusou-se a resolver o caso e ordenou que a sentença de morte do Sinédrio te fosse submetida para confirmação - explicou o secretário.
O procurador crispou o rosto e disse calmamente:
- Tragam o réu."
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

2 comments:

Valquíria Calado said...

O CAMINHO DA CRUZ
A cruz tem seu caminho,
sem fuso horário e areia de ampulheta –
na fita do asfalto,
no brejo, no pântano,
dentro das rochas mais duras,
na poeira da estrada,
no meio do povo com suas pessoas...
O caminho da cruz não tem roteiro fixo,
não oscila como pêndulo de relógio,
não começa nem termina no Calvário
nem acompanha a elipse dos astros...
Transcende a terra e o infinito
e segue além da Vida
com seus braços abertos
e uma razão de querer e de existir –
o coração batendo sem ousar morrer!


******FELIZ PÁSCOA

Jorge Pinheiro said...

Valvesta: uma excelente mensagem que bem precisa é. Uma boa Páscoa também.