3.4.10

NOTÍCIAS DE CRISTO - O JULGAMENTO (CONTINUAÇÃO)


"Pilatos continuou o interrogatório:
- Então tecionavas destruir o Templo e incitaste o povo a fazê-lo?
O prisioneiro de novo se animou e os olhos perderam a expressão de medo. Respondeu em grego:
- Não, bem, não Hégemon, nunca na vida tencionei destruir o Templo e nunca incitei ninguèm a uma acção assim tão insensata.
O espanto cintilou no rosto do secretário, que se aninhava numa mesa baixa, escrevendo a declaração.
- Vem muita gente a esta cidade por causa dos dias santos. Entre eles há magos, astrólogos, adivinhos e assassinos - enumerou o procurador monotonamente - Também há mentirosos. Tu és um mentiroso. Está escrito com toda a clareza: «incitou o povo a destruir o Templo. O povo dá disto testemhnho»
- Essa boa gente não tem conhecimento de qualquer espécie e confundiu tudo o que eu disse. Começo a recear que essa confusão continue por muito tempo. E tudo porque ele assenta mal as coisas.
Houve um silêncio. Desta vez foram ambos os olhos sofredores que se fixaram peasadamente no prisioneiro.
- Repito, pela última vez, pára de te fingires louco, vadio - disse Pilatos mansamente e com monotonia - Não há muita coisa escrita, mas escreveu-se o suficiente para te pendurarmos.
- Não, não Hégemon - disse o prisioneiro - há um homem que me segue por toda a parte com um pregaminhao de pele de cobra e que passa o tempo todo a escrever. Mas uma vez dei uma vista de olhos por esse pergaminho e fiquei horrorizado. Nunca disse uma só do que lá estava escrito. Roguei-lhe para queimar o pergaminho, mas ele arrancou-mo das mãos e fugiu.
- Quem é esse homem? - perguntou Pilatos nauseado, levando a mão à tempora.
- Mateus Levi - explicou o prisioneiro - Era cobrador de impostos. Primeiro insultou-me, chamou-me cão, mas depois de me ouvir começou a amaciar. Finalmente, lançou o dinheiro para a estrada e disse que passaria a andar comigo...
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

2 comments:

angela said...

É angustiante essa conversa.

Jorge Pinheiro said...

A ideia do Bulgakov era essa.Leia o livro Angela, é fantástico. Isto é só uma parte. Não é sobre o Cristo. É tudo uma metáfora política e pessoal.