Durante algum tempo, o silêncio no balcão foi interrompido apenas pelo cântico da água na fonte. Pilatos observava a água subindo na bacia, cobrindo-a momentos depois e escorrendo em riachos.
O preso foi quem primeiro falou.
- Vejo que veio infortúnio da minha conversa com o jovem de Kerioth. Tenho um pressentimento, Hégemon, de que ele será cumulado de dor e lamento-o muito.
- Creio - respondeu o governador com um sorriso aberto muito estranho - que há alguém no mundo que precisa mais da tua piedade do que Yehudah de Kerioth e que se encontrará em muito pior situação do que Yehudah!... Assim, Marco Mata-Ratos, um carrasco frio, o povo que te bateu, os fora-da-lei Dismas e Gestas e Yehudah, esse imundo informador... serão todos eles bons homens?
- São - respondeu o preso.
- E o reino da verdade virá?
- Virá, Hégemon - respondeu Yeshua com convicção.
- Jamais virá! - gritou Pilatos, com uma voz terrível que Yeshua deu uma salto para trás. Ergueu a voz e gritou cada vez mais alto, para que fosse ouvido no jardim: «Criminoso!Criminoso! Criminoso!». Depois, baixando a voz, perguntou:
- Yeshua Ha-Nozri, crês nos deuses?
- Há um só Deus - respondeu Yeshua - E creio n'Ele.
- Ora a ele, então! Ora muito! Contudo... - a voz de Pilatos era um murmúrio - não servirá de nada. Não tens mulher? - perguntou, angustiado, incapaz de compreender o que se passava consigo!
- Não, sou só.
- Cidade odiosa... - murmurou o governador. Estremeceu como se tivesse frio. Esfregou as mãos como se as lavasse - De facto teria sido melhor que alguém te tivesse cortado a garganta antes de teres encontrado Yehudah de Kerioth.
- Porque não me deixas ir embora - perguntou de súbito o prisioneiro numa voz ansiosa - Vejo que me querem matar.
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

2 comments:
Leio quase sem respirar...
Angela: tem mesmo de comprar o livro. Fico muito feliz de ter interessado alguém no meu livro preferido.
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