7.4.10

NOTÍCIAS DE CRISTO - O QUE É A VERDADE?


- Que mais temos? - inquiriu Pilatos, enrugando a testa.
Após a leitura do pergaminho, o seu rosto transformou-se ainda mais. A sua pele perdeu o tom pálido, enrusbeceu, e os olhos pareceram afundar-se-lhe nas órbitas.
Pela mente de Pilatos passaram pensamentos rápidos, incoerentes e extraordinários. «Perdidos»! Depois, «Estamos perdidos!». E em seguida, uma ideia inteiramente absurda entre todas as outras, sobre a imortalidade, e, por qualquer razão, a ideia de imortalidade provocou-lhe uma angústia intolerável.
Com grande esforço, Pilatos varreu a aparição e o seu olhar regressou ao balcão. E uma vez mais os olhos do prisioneiro o fitaram.
- Ouve, Ha-Nozri - principiou o procurador, olhando Yeshua com expressão estranha; o rosto do procônsul era ameaçador, mas os olhos estavam perturbados - Disseste alguma coisa sobre César? Responde-me! Disseste ou... não disseste?
- É fácil e agradável dizer a verdade - retorquiu o preso.
- Não me interessa - falou Pilatos numa voz abafada, irritada - que aches agradável ou desagradável dizer a verdade. Tens de a dizer. Mas quando o fizeres pesa bem todas as palavras se queres fugir a uma morte não só inevitável mas também atrós.
- É, assim - prosseguiu - coneces ou não conheces um tal Yehudah de Kerioth. E conta-me exactamente o que lhe disseste sobre César.
- Eis o que aconteceu - falou o prisioneiro - Na noite de anteontem encontrei um jovem junto ao Templo que me disse ser Yehudah da cidade de Kerioth. Convidou-me para sua casa na cidade baixa e tratou-me como...
- Um bom homem? - interrogou Pilatos com uma chama diabólica nos olhos.
- Um homem muito bom - confirmou o preso - e ávido de sabedoria. Mostrou o maior interesse pelos meus pensamentos e recebeu-me calorosamente... Pediu-me a opinião sobre a autoridade do estado. Mostrava-se extremamente interessado nesta questão.
- E que lhe disseste? - perguntou Pilatos em tom deseperado.
- Disse, entre outras coisas, que toda a forma de autoridade significa coacção sobre os homens e que tempo virá em que não haverá nem Césares nem quaisquer outros soberanos. Os homens entrarão no reino da veradade e da justiça, onde não será necessário autoridade.
- E depois?
- Depois, mais nada - disse o preso - Entraram homens a correr e ataram-me e levaram-me para a prisão.
- Nunca ouve nem haverá no mundo autoridade maior do que a do Imperador Tibério! - ergueu-se e ecoou a voz sacudida de Pilatos. O procônsul olhou o secretário e a escolta com ódio.
- E não te compete a ti, louco criminoso, falares dela, A escolta que abandone o balcão! - gritou Pilatos - Deixem-me a sós com o prisioneiro. Este é um assunto de Estado!
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

8 comments:

angela said...

Cada vez mais tenso o diálogo.

susana said...

Sim que foi sem dúvida um assunTo de estado, acredito!Mas souberam-no aproveitar bem, no final, a favor deles.De criminoso, vira santo! Penso que ele nunca foi uma coisa, nem outra....
Já agora diz-me que pensas daquele programa da TVI, sobre médiums!Aquilo parece-me a maior vigarice que já vi! Só falta começarem a fazer milagres em directo!
Sabes porque não concordo com a maioria das religiões? Porque se impõeem! As pessoas vão pelo medo, deviam ir pelo coração! deviam proceder bem, não por terem medo do inferno, mas porque se sentiam bem a fazer isso.
Não sei se concordas, comigo...
beijinhos

Unknown said...
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Jorge Pinheiro said...

Angela: e vai continuar...
Susana: condordo. As religiões têm a ver com medo da morte. Nalguns casos são bons códigos de conduta e tiveram um papel civilizacional importante. Eu sou ateu, por isso não as consigo valorizar mais.
Não vejo a TVI, mas deve ser tudo tanga, obviamente.

Lília Abreu said...

Jorge,
Desde que te converteste a esta religião que tenho que ler o evangelho, rs
Chibacsh latiahn latishlma. AMEM!

Jorge Pinheiro said...

Lília: tem de ser em cirilíco.

Mylla Galvão said...

"Nunca ouve nem haverá no mundo autoridade maior do que a do Imperador Tibério!"

A maior autoridade é a Deus Pai, mas Pilatos não sabia disso pq não acreditava em Deus, somente em Roma!

Jorge Pinheiro said...

Mylla: se ler o livro vai achar interessante a forma como Bulgakov aprofunda essa noção, na lógica do poder vs divino.