Pilatos olhou em redor, para o mundo visível, e ficou atónito com a mudança. A roseira desaparecera, tal como haviam desaparecido os ciprestes que bordejavam o terraço superior. A própria folhagem desparecera. A substituir tudo, uma onda púrpura e opaca avançava perante ele; algas estranhas se agitavam na onda, flutuando para algures e levando Pilatos com elas. Era arrastado, ardendo, sufocando com a mais terrivel das cóleras - a cólera da impotência.
- Não consigo respirar - disse Pilatos - não consigo respirar.
Arrancou o fecho da gola do manto com a mão gelada, húmida, e deixou-se cair na areia.
- Hoje sufoca-se- disse Kaiypha, sem afasrtar os olhos do rosto congestionado do procônsul - Que terrível mês de Nissã temos tido este ano!
- Não, não - disse Pilatos - Não é por o dia estar sufocante, mas sim porque me estorvaste. Toma cuidado contigo, sumo sacerdote.
- Que ouço eu procurador. Ameaças-me depois de teres confirmado a sentença? E se alguém nos ouve?
- Que dizes, sumo sacerdote? Alguém poderá ouvir-nos neste lugar? Sou algum rapazinho? O jardim está cercado de guardas. Nem um rato aqui poderia entrar. Fica sabendo, sumo sacerdote, que de hoje em diante não mais terás paz! Nem tu nem o teu povo! As minhas palavras irão directamente para Capri, para o próprio Imperador, a palavra de como salvas da morte os rebeldes conhecidos em Jerusalém. Recorda-te da minha palavra: verás mais do que uma simples coorte em Jerusalém. Lembrar-te-às, então, de Bar-Rabban que salvaste!
O rosto de Kaiypha cobriu-se de manchas, os seus olhos chamejavam:
- Acreditas nas tuas palavras, procurador? Não, não acreditas! Quiseste libertá-lo para que ele pudesse incitar a populaça, escanecer da fé e conduzir o povo para debaixo das espadas romanas! Mas enquanto eu, sumo sacerdote da Judeia, estiver vivo, não permitirei a profanação da fé, protegerei o povo. Ouves, Pilatos? Escuta procônsul!
Kaiypha calou-se e mais uma vez se ouviu o marulhar da gente, rolando de encontro às paredes do Jardim de Heródes.
- Ouves procurador?
Pilatos limpou a testa húmida e fria com as costas da mão. E disse calmamente, quase com indiferença:
- É quase meio-dia. Deixámo-nos arrastar pela conversa. Temos de continuar. E Pilatos regressou ao jardim através da colunata. Aí confirmou a sentença perante o secretário. Desceram a larga escadaria de mármore em direcção ao muro do Palácio e aos portões que conduziam à praça larga.
(Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. A continuar)

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